Os insatisfeitos se revezam (30/08)
O STF é infalível? Longe disso. Só que o Brasil está muito mais bem servido com o atual Supremo do que estaria com um tribunal de última instância composto pelos críticos habituais do STF
Talvez algum bacharel em direito ou cientista social devesse, em trabalho acadêmico, enveredar pela análise do viés ideológico deste Supremo Tribunal Federal (STF). Ele foi majoritariamente (7 em 11) indicado por Luiz Inácio Lula da Silva, um presidente de esquerda. Entretanto, por mais que esprema a cabeça, não consigo chegar a uma conclusão definitiva e irrespondível. Mesmo olhando para algumas decisões da Corte que tiveram grande repercussão política e social.
Vamos pegar oito delas: mensalão, Palocci, células-tronco, Raposa Serra do Sol, Lei de Imprensa, diploma de jornalista, importação de pneus usados, Daniel Dantas. Em quantas o STF foi “de esquerda” e em quais foi “de direita”? Quando o Supremo “dobrou-se aos poderosos” e onde “cedeu ao populismo”? Se você tem tempo, uma bolsa de pós-graduação e acha o tema relevante, boa sorte.
Mas se a dificuldade para classificar ideologicamente este Supremo é um obstáculo na esfera puramente intelectual, em outro aspecto é um ótimo sinal. Mostra que a Corte talvez constitua um espaço real de construção democrática. Uma instância para dirimir pacificamente divergências tão agudas quanto econômica, política e socialmente motivadas. O que não deixa de ser um alívio. Pelo menos para quem prefere a democracia à ditadura.
O STF é infalível? De jeito nenhum. Só que o Brasil está muito mais bem servido com este Supremo do que estaria com um tribunal de última instância composto pelos críticos habituais do STF. Que Deus nos proteja desta segunda opção.
O tribunal deve pairar acima das críticas? Óbvio que não, mas convenhamos: do que a turba gostaria mesmo seria um STF que decidisse automaticamente a partir da pressão da imprensa, dos decibéis da rua ou da vontade e conveniência do poder. O tribunal tem agido assim? Não, e o melhor sintoma é precisamente o revezamento dos insatisfeitos. Uma hora uns, outra hora outros.
Interessado em identificar potenciais ditadores? Procure pelos donos da verdade. Aliás, o número deles vem crescendo conforme a radicalização e a luta sem limites se consolidam no modus operandi da política pátria. Aqui, um problema: se a verdade tem cada vez mais donos, também é fácil verificar que eles, infelizmente, nunca estão todos de acordo entre si.
E então, como resolver? No braço? No grito? Na desqualificação?
Escorregando
Ontem, nesta coluna, Daniel Pereira lembrou a velha história em que Magalhães Pinto comparava a política às nuvens do céu, que num momento se dispõem de um jeito e no instante seguinte, de outro. Aplica-se perfeitamente a como vai a sucessão de Lula.
Responda rápido: dos pré-candidatos até agora colocados, quais você garante 100% que estarão na cédula ano que vem? Bem 100% talvez nenhum. Mas a mais garantida até agora é Marina Silva, pelo PV. Que até outro dia nem estava na disputa. A postulação de Dilma Rousseff está excelentemente encaminhada, mas no governo e no PT há algum desconforto com as dificuldades que a ministra exibe quando precisa escapar das cascas de banana.
Sapo
Os governadores que pedem mais tempo e mais participação no debate sobre as normas do pré-sal enfrentam realidade espinhosa. Seu pedido até poderia ser atendido, caso não representasse um transtorno para os entendimentos entre o governo e um pedaço do PMDB para 2010. O governador do Rio, Sérgio Cabral, amigo de infância de Lula desde o fim de 2006, deu azar de estar no lugar errado na hora errada.
Aqui, Lula aplica uma lei básica da política. Não se una a um amigo a ponto de não poder se afastar dele quando convier. Porque você nunca sabe quando vai precisar se aliar a quem hoje você combate. Sobrou para Cabral. Que ou engole o sapo ou vai operar uma flexão arriscada.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.
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Talvez algum bacharel em direito ou cientista social devesse, em trabalho acadêmico, enveredar pela análise do viés ideológico deste Supremo Tribunal Federal (STF). Ele foi majoritariamente (7 em 11) indicado por Luiz Inácio Lula da Silva, um presidente de esquerda. Entretanto, por mais que esprema a cabeça, não consigo chegar a uma conclusão definitiva e irrespondível. Mesmo olhando para algumas decisões da Corte que tiveram grande repercussão política e social.
Vamos pegar oito delas: mensalão, Palocci, células-tronco, Raposa Serra do Sol, Lei de Imprensa, diploma de jornalista, importação de pneus usados, Daniel Dantas. Em quantas o STF foi “de esquerda” e em quais foi “de direita”? Quando o Supremo “dobrou-se aos poderosos” e onde “cedeu ao populismo”? Se você tem tempo, uma bolsa de pós-graduação e acha o tema relevante, boa sorte.
Mas se a dificuldade para classificar ideologicamente este Supremo é um obstáculo na esfera puramente intelectual, em outro aspecto é um ótimo sinal. Mostra que a Corte talvez constitua um espaço real de construção democrática. Uma instância para dirimir pacificamente divergências tão agudas quanto econômica, política e socialmente motivadas. O que não deixa de ser um alívio. Pelo menos para quem prefere a democracia à ditadura.
O STF é infalível? De jeito nenhum. Só que o Brasil está muito mais bem servido com este Supremo do que estaria com um tribunal de última instância composto pelos críticos habituais do STF. Que Deus nos proteja desta segunda opção.
O tribunal deve pairar acima das críticas? Óbvio que não, mas convenhamos: do que a turba gostaria mesmo seria um STF que decidisse automaticamente a partir da pressão da imprensa, dos decibéis da rua ou da vontade e conveniência do poder. O tribunal tem agido assim? Não, e o melhor sintoma é precisamente o revezamento dos insatisfeitos. Uma hora uns, outra hora outros.
Interessado em identificar potenciais ditadores? Procure pelos donos da verdade. Aliás, o número deles vem crescendo conforme a radicalização e a luta sem limites se consolidam no modus operandi da política pátria. Aqui, um problema: se a verdade tem cada vez mais donos, também é fácil verificar que eles, infelizmente, nunca estão todos de acordo entre si.
E então, como resolver? No braço? No grito? Na desqualificação?
Escorregando
Ontem, nesta coluna, Daniel Pereira lembrou a velha história em que Magalhães Pinto comparava a política às nuvens do céu, que num momento se dispõem de um jeito e no instante seguinte, de outro. Aplica-se perfeitamente a como vai a sucessão de Lula.
Responda rápido: dos pré-candidatos até agora colocados, quais você garante 100% que estarão na cédula ano que vem? Bem 100% talvez nenhum. Mas a mais garantida até agora é Marina Silva, pelo PV. Que até outro dia nem estava na disputa. A postulação de Dilma Rousseff está excelentemente encaminhada, mas no governo e no PT há algum desconforto com as dificuldades que a ministra exibe quando precisa escapar das cascas de banana.
Os governadores que pedem mais tempo e mais participação no debate sobre as normas do pré-sal enfrentam realidade espinhosa. Seu pedido até poderia ser atendido, caso não representasse um transtorno para os entendimentos entre o governo e um pedaço do PMDB para 2010. O governador do Rio, Sérgio Cabral, amigo de infância de Lula desde o fim de 2006, deu azar de estar no lugar errado na hora errada.
Aqui, Lula aplica uma lei básica da política. Não se una a um amigo a ponto de não poder se afastar dele quando convier. Porque você nunca sabe quando vai precisar se aliar a quem hoje você combate. Sobrou para Cabral. Que ou engole o sapo ou vai operar uma flexão arriscada.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.
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