segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sensação de perda (31/10)


Antes as pessoas tinham mais pudor, vergonha do que lhes ia na alma. Cuidavam de manter a boçalidade algo recolhida, para não passar vexame. Não era bonito exibir publicamente a própria estupidez

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está com câncer, e é compreensível que as reações projetem os cenários políticos, a depender dos desdobramentos clínicos. Compreensível e questionável.

Afinal, Lula está bem vivo e em tratamento.

Outro detalhe espantoso é o ambiente de Fla-Flu nas chamadas redes sociais sobre a doença do ex-presidente. Ambiente que apenas reflete fenômenos mais amplos e mais profundos na sociedade.

Pensando bem, não é tão espantoso assim.

A política brasileira vem perdendo certo traço característico dos tempos em que se lutava contra a ditadura. Foi quando comecei a prestar atenção nas coisas. Procuro seguir nessa linha. Não sei como era antes.

Confesso que sinto alguma saudade daquele tempo. Talvez seja passadismo, é humano guardar só as coisas boas e limar as ruins, mas não importa.

As pessoas tinham mais pudor, vergonha do que lhes ia na alma. Cuidavam de manter a boçalidade algo recolhida, para não passar vexame. Não era bonito exibir publicamente a própria estupidez.

Mesmo na guerra, é preciso respeitar a dignidade do inimigo. Se a ancestralidade antopofágica brasileira serve para algo, deveria ser para recolher a sabedoria daqueles índios: alimente-se do inimigo morto, para incorporar a coragem dele.

Onde estão as raízes dessa perda de limites?

Um vetor é a internet, ao dar voz a quem não tem vida pública. Políticos e jornalistas são seres sujeitos ao policiamento ostensivo do público, agora em tempo real. Então precisam andar na linha, ou pelo menos tentar. Diferente do sujeito que só desopila o fígado.

Uma pseudomilitância primitiva e selvagem. Com todas as características de uma multidão de anônimos. Inimputáveis, livres para odiar até a última gota.

Mas é a democracia, e não adianta reclamar, pois ela veio para ficar. E é bom mesmo que fique. Inclusive para termos como medir a temperatura do que vai pela cabeça das pessoas. Achou feio, repugnante? Paciência.

Mas essa é a superfície. Há outro vetor em ação.

Dirão que a cordialidade é um traço elitista da política brasileira, um comportamento possível apenas quando os atores eram socialmente da mesma turma. E que a incoporação de novos personagens fará, obrigatoriamente, desandar a maionese. Será?

Prefiro acreditar que o problema está mais na esfera subjetiva do que na objetiva. A degenerescência não é inevitável.

O segundo vetor é conceitual. A política entendida como arte de eliminar o adversário, e não apenas de sobrepujá-lo garantindo-lhe a legitimidade necessária à sobrevivência.

E aí, quando aparece a oportunidade de uma eliminação real, física, o vulcão entra em erupção. Os menos burros simulam, os menos espertos escancaram.

Agora é com Lula. Como aconteceria com sinal trocado se fosse FHC, ou outro tucano de alta plumagem.

Uma pena que tenhamos chegado a isso. Pode parecer meio bobo, meio incompatível com a frieza e a objetividade que deveriam orientar um colunista político. Mas minha sensação é esta, de perda.

Sinto que perdemos alguma coisa em algum ponto da caminhada.

Ignorância

Entre as irracionalidades que desfilam na rede sobre a doença do ex-presidente, uma desafia-o a tratar-se no SUS.

Em qualquer lugar do mundo os chefes políticos tratam a saúde nos melhores centros médicos. Quando precisam se internar, vão para os melhores hospitais.

O Brasil tem excelentes hospitais privados, e também excelentes hospitais públicos. Um deles é o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, inaugurado recentemente. É uma boa herança dos governos do PSDB.

Lula preferiu ir ao Sírio-Libanês, onde já está habituado a tratar-se, e ao qual também recorreram o então vice-presidente José Alencar e a então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, quando diagnosticados com a doença.

Até porque Lula não sabia que estava com câncer.

Se preferir tratar-se no Icesp receberá atendimento de primeiríssima. Quem o utiliza sabe.

Falar mal do SUS, genericamente, para atacar governos ou governantes pode parecer esperto. Mas é apenas exibição de ignorância.


Coluna publicada nesta segunda (31) no Estado de Minas.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

domingo, 30 de outubro de 2011

Um combo fatal (30/10)


Antes a liberdade nas universidades era uma ideia vinculada à urgência de conquistar espaços no autoritarismo. Era uma ideia certa. Agora aparece como ameaça de instalar no Brasil regiões em que o crime organizado pode agir sem temer a presença da autoridade policial. É uma ideia 100% errada

Grupos de estudantes, professores e funcionários da USP rebelaram-se porque a Polícia Militar deteve alunos que consumiam droga no campus. Passaram a exigir a saída da PM, entraram em confronto com policiais que participaram da ação e ocuparam um edifício para pressionar.

Pedir a saída da PM do campus universitário é posição revestida de alguma aura, pois evoca os tempos da ditadura. Aliás é um fenômeno corriqueiro entre nós: gente que não chegou -por falta de vontade, coragem ou oportunidade- a combater o regime militar quando ele existia, enfrenta-o com radicalismo quando ele não existe mais.

É conveniente, pois permite ao protagonista ser ao mesmo tempo extremado nos propósitos, portador de uma condição moral supostamente acima, e permanecer em posição segura. Pois lutar contra uma ditadura que hoje só existe nos livros de História traz bem menos risco, inclusive físico.

Mas esse seria um debate secundaríssimo, não houvesse aqui algo grave além da conta. Impedir a entrada da polícia nos campi de todo o país (não há por que a USP ser exceção) significaria, na prática, acelerar a transformação deles em territórios desimpedidos para o tráfico de drogas e demais crimes conectados à atividade.

E isso será um problema não apenas para a universidade. Os campi transformar-se-ão em centros irradiadores de atividade criminosa. Pois não haverá uma barreira física a separá-los da vizinhança, não haverá revistas em quem entra ou sai. Não estarão cercados pela força armada estatal.

Antes a liberdade nas universidades era uma ideia vinculada à urgência de conquistar espaços no autoritarismo. Era uma ideia certa. Agora aparece como ameaça de instalar regiões em que o crime organizado pode agir sem temer a presença da autoridade policial. É uma ideia 100% errada.

Impedir que a ditadura interfira na universidade é uma coisa. Impedir que o Estado democrático aplique a lei na universidade é outra coisa. Completamente diferente. Antagônica.

Pois se é razoável que certas leis, como a que proíbe as drogas, não valham nas universidades, por que não outras leis? Por que não liberar também, por exemplo, o furto? Ou o latrocínio, desde que "socialmente justificado"?

Se o Estado democrático, com sua autoridade repressiva legítima, não pode entrar em determinado lugar, a consequência será o domínio de facções capazes de impor seu arbítrio pela força. E nesse ecossistema o crime organizado vai levar vantagem. Decisiva.

Não vou aqui analisar em profundidade a experiência das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs do Rio. A coluna de hoje não é para isso. Mas o conceito é bom. Impor a presença, inclusive repressiva, do Estado em áreas antes controladas por estruturas criminosas dotadas de capacidade e vontade de dominar.

E se a ideia é boa nas comunidades pobres do Rio é melhor ainda nas universidades. Pois nestas há bem mais dinheiro em circulação. E o tráfico de drogas segue a rota do dinheiro, não da pobreza. Eis uma razão por que o crime acelerou mais em anos recentes nas regiões que prosperaram acima da média, ao contrário do que suporia o senso comum.

O ensino superior brasileiro vive um desafio gigantesco. Elevar-se a padrões de excelência internacional. É vetor decisivo para o projeto nacional. O Brasil estabilizou a economia, preserva um bom ambiente para o desenvolvimento econômico e implantou mecanismos de redistribuição de renda. Mas não dará o salto adiante se nossas universidades permanecerem na rabeira diagnosticada por todos os estudos e rankings.

Essa deveria ser a preocupação, inclusive na comunidade universitária. E isso nada tem a ver com a frouxidão diante do consumo de drogas, do seu tráfico, ou do tráfico de armas. Sim, pois é um combo. Não há como comprar um sem levar o outro.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (29) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Virou rotina (28/10)


Se os organizadores do Enem garantirem que o sol vai nascer amanhã, a exemplo de todos os dias, haverá quem, com razão, reserve-se o direito de desconfiar, preferindo esperar para ver se o astro-rei vai dar mesmo as caras como de costume

A crise no Ministério do Esporte, afinal concluída com a nomeação do novo ministro, serviu também para o governo passar em relativa segurança por mais um caso de trapalhada no Exame Nacional do Ensino Médio. Desta vez foi o vazamento de questões idênticas às da prova, para os alunos de um colégio do Ceará.

Ficou em segundo plano no noticiário. Um pouco pelo cansaço. Qualquer curso de jornalismo, em faculdade ou na vida prática, ensina logo nas primeiras lições: o que se repete sempre e vira rotina acaba deixando de ser notícia. Ou pelo menos passa a ser notícia sem tanta importância assim.

É o caso do Enem. Já houve tempo em que a balbúrdia no exame provocava comoção. Hoje em dia, produz apenas bocejos e reações burocráticas. Mesmo que o dano atinja milhões de estudantes, suas famílias e escolas.

O Ministério da Educação tomou providências localizadas, tópicas, mas o razoável seria a completa anulação da prova. Pois haverá agora uma assimetria inevitável, entre quem precisa fazer um novo exame e quem não. As mesmas vagas no ensino superior serão disputadas por meio de diferentes provas.

O MEC poderá argumentar que o nível de dificuldade da “substitutiva” será igual, mas não tem como garantir que vai ser mesmo exatamente igual. E se a disputa pela vaga decidir-se no detalhe, como costuma acontecer nos cursos mais procurados, haverá os beneficiados e os prejudicados pela lambança e pela tentativa de remediá-la sem maiores prejuízos políticos.

Sem contar que o MEC não tem como assegurar que outras pessoas, além dos alunos daquele colégio específico, não tiveram acesso às questões. Pois é natural que estudantes tenham curiosidade de conhecer o conteúdo estudado pelos colegas.

Na teoria, não era possível sair do pré-teste com o caderno de questões. Mas, convenhamos, nesta altura do campeonato os organizadores do Enem estão sem nenhuma moral para assegurar qualquer coisa no âmbito da responsabilidade deles.

Pois se garantirem que o sol vai nascer amanhã, a exemplo de todos os dias, haverá quem, com razão, se julgue no direito de desconfiar, preferindo esperar para ver se o astro-rei vai dar mesmo as caras como de costume.

Ministros têm caído por acusações de corrupção, e pelo menos mais um perdeu a cadeira quando a língua trabalhou numa frequência maior que o cérebro. Mas o que não se vê neste governo, infelizmente, é uma autoridade ser cobrada por incompetência.

Ao contrário, inclusive, do muito propalado sobre o estilo gerencial da presidente da República. Que supostamente seria adepta das cobranças implacáveis. Duríssimas. Não parece estar acontecendo no caso do MEC.

Talvez porque a própria presidente esteja na contagem regressiva. E seria compreensível. Como o titular está nos planos do PT para a disputa da principal prefeitura do país, será necessário esperar pacientemente pelo prazo de desincompatibilização. Ou talvez menos, se o partido ou o ministro considerarem conveniente sair antes.

Um caso típico de blindagem partidária sem nenhuma consideração ao interesse público.

Felizmente

A Grécia, a União Europeia e os credores parecem ter chegado a um acordo para a redução da dívida grega a um patamar em que ela possa ser servida. O que na linguagem especializada significa que o credor poderá pagá-lá, juros e principal, sem quebrar.

Ou seja, os bancos vão ter de engolir o prejuízo, algo bem razoável. Pois, afinal, emprestaram para os gregos porque quiseram.

Que lancem a perda como perda. É do jogo. Ou deveria ser, no capitalismo. Felizmente a Grécia não é o Brasil. Onde a conta já estaria espetada no bolso do contribuinte.

Em nome, claro, da necessidade imperiosa de cumprir contratos a qualquer custo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta ... (..) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Em pleno voo (27/10)


O produto imediato do envelhecimento é o foco permanente numa agenda negativa, inclusive pela abundância de matéria-prima. E realmente não tem faltado notícia ruim. Mas há outras razões, inclusive a tendência presidencial a anular os ministros

O ministro do Esporte perdeu sustentação e o desfecho ficou óbvio. Mas o problema é estrutural. Ou Dilma Rousseff promove alguma reengenharia nos ministérios ou irá de crise em crise. Sempre esperando pela próxima explosão.

A administração dela é uma construção herdada. Um governo velho, de presidente nova. Isso já foi tratado aqui, como risco, e os fatos se encarregam de materializar a previsão.

"O que poderia ter sido" não é instrumento de análise política, mas talvez Dilma tenha cedido demais ao continuísmo. Na hora pode ter soado confortável, mas as consequências aparecem agora.

As forças políticas empenhadas na vitória dela tinham essa expectativa. Quem é governo e trabalha para eleger o candidato do governo espera continuar. É humano.

Há maneiras e maneiras de promover essa continuidade. A opção de Dilma foi preservar verticalmente as máquinas. Não mexeu nelas, ou mexeu pouco.

Poderia ter promovido algum rodízio, fazer uma rotação de cabeças para abrir espaço. Manter todo mundo mas rodar as cadeiras. Para permitir a abertura das porteiras. A oxigenação nos escalões inferiores. Não fez. Porque não quis ou não pôde, tanto faz.

E desde que o mundo é mundo o poder envelhecido apresenta certas características.

Agora Dilma anda às voltas com o desafio de consertar o avião em pleno voo, quando antes poderia ter reparado a aeronave em terra. E o problema não está apenas na remoção dos focos de irregularidades.

Está na dificuldade de exibir marcas novas, de abrir novos horizontes, de mostrar disposição para atacar frentes até agora intocadas.

Pois se as pesquisas mostram alguma folga na imagem presidencial trazem também desconforto com o desempenho de áreas sensíveis.

Um produto imediato do envelhecimento é o foco numa agenda negativa, que bebe de diversas fontes, inclusive pela abundância de matéria-prima.

Mas há outras razões, inclusive a tendência presidencial a anular os ministros. Eles hoje em dia parecem ter mais medo de errar do que vontade de acertar.

A máquina de produzir notícias positivas, que funcionava tão bem com Luiz Inácio Lula da Silva, parece algo emperrada.

Há alguma lógica nisso, pois Dilma opera a reconcentração de poder numa Esplanada que recebeu pulverizada. E Dilma não é Lula. Não tem a perícia do antecessor na comunicação.

Cada um com suas características, mas de qualquer modo tem faltado à presidente certa habilidade essencial ao governante: montar uma máquina que seja dela e ao mesmo tempo agregue força e brilho à chefe.

Falta certa capacidade de usar em proveito próprio o ativo alheio.

Como andam?

Escrevi dias atrás que a crise do Esporte é também uma oportunidade, como diz o chavão.

Que talvez esteja na hora de olhar para o andamento geral das coisas relativas à Copa do Mundo e às Olimpíadas.

Tem sido um problema nas trocas ministeriais. Ministros vão, ministros vêm, mas nunca se olha com atenção específica para o trabalho deles, para além até da busca de possíveis encrencas.

Troca-se o ministro e o trabalho da pasta some do noticiário. Como se o único interesse da sociedade estivesse na regularidade da aplicação do dinheiro.

O programa Segundo Tempo, por exemplo. Talvez seja boa ocasião para avaliar não apenas se está sendo operado com correção, mas também os resultados.

Ele já tem quase uma década. O que efetivamente produziu? Aliás, o que pretendia produzir? Ninguém sabe, ninguém viu.

Os últimos governos, tucanos e petistas, mais estes que aqueles, foram pródigos em alavancar políticas públicas voltadas à chamada inclusão social.

Uma característica desses programas é distribuir dinheiro público. Pois uma função do Estado é cobrar de quem tem para ajudar quem não tem.

Mas não se vê maior esforço para avaliar resultados e medir o retorno do que foi investido. Uma pena.

A realocação de recursos de programas que não funcionam seria uma bela maneira de achar dinheiro para coisas que eventualmente poderiam funcionar.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (27) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Tudo dentro do previsto (26/10)


E o cenário medíocre para o governo Dilma Rousseff vai ficando mais nítido. No primeiro ano ela contratou crescimento fraco e abaixo da inflação. Para o segundo ano algo parecido está encaminhado

A economia caminha como esperado, perdendo fôlego, e as previsões do Banco Central sobre a desaceleração provaram-se corretas. Para sorte do Brasil, o governo e o BC preferiram não dar ouvidos a quem pedia cautela na redução de juros.

Nos últimos dias as projeções para a inflação declinaram, bem como o dólar. A moeda americana vai a meio caminho entre 1,70 e 1,80 reais. Tudo dentro da normalidade.

A prova de que o Brasil com Selic algo menor continua um ótimo negócio no mundo de juros reais zero ou negativos. O atual BC pegou a taxa real a 6%. Se entregar em 2012 na metade disso ainda estará oferecendo belo lucro ao emprestador.

Coloquem o juro real a 3% e o dinheiro continuará vindo para cá, com gosto. O recorde nos investimentos diretos até setembro apenas confirma.

Mas, como assim, investimentos diretos? Por que misturar na análise o dinheiro que entra para capitalizar empresas, supostamente recurso de “melhor qualidade”, e o que cai na ciranda financeira?

Porque as empresas giram o caixa no mercado financeiro e distribuem os lucros não operacionais aos acionistas. Uma desnacionalização silenciosa e rentável. Medida nas remessas também recordes. E no déficit nas transações correntes.

O investimento direto este ano já passou dos 50 bilhões de dólares. Mais que o dobro do ano passado. Se esse dinheiro viesse mesmo para o investimento na produção as projeções econômicas seriam brilhantes. Pois no ano passado o PIB cresceu 7,5%.

Mas em 2011 vamos crescer a metade, se tanto. Ora, se o país recebe o dobro de investimentos para crescer só a metade para onde vai o dinheiro? Para novas plantas e novos empregos é que não será.

E o cenário medíocre para o governo Dilma Rousseff vai ficando mais nítido. No primeiro ano ela contratou crescimento fraco e abaixo da inflação. Para o segundo ano algo parecido está encaminhado.

Felizmente o BC evitou o pior, a parada completa da economia. Mas as nuvens no horizonte andam carregadas.

Persiste a ameaça de nova recessão global, desencadeada pela falta de solução para a balbúrdia fiscal na Europa. E mesmo a economia chinesa já ensaia perda de dinâmica. 

Também pela dependência a um mercado mundial sem força e pelo desequilíbrio interno entre investimento e consumo.

É um cenário econômico desafiador, e perigoso politicamente para o governo. 

Nada muito grave pelo lado da política partidária oficial, pois a maioria parlamentar está bem pendurada na máquina a oposição parece incapaz de fazer uma crítica que entusiasme o povo com alternativas palpáveis.

O último vestígio de ação oposicionista nesse campo foi quando reagiram à queda de juros acusando o BC de se submeter ao Palácio do Planalto. Houve as exceções de praxe, mas o comando da oposição preferiu acenar ao financismo, com a defesa doutrinária da independência do BC.

Dilma não chegou a agradecer publicamente, mas aposto que ficou satisfeita. Apareceu na foto como quem mandou o BC cortar os juros, enquanto a oposição gritava contra. Quem não gostaria de ter uma oposição assim?

Mas o quadro social, fora das salas acarpetadas, não é bacana para o governo.

As greves sucedem-se, os sindicatos andam inquietos e há um cansaço diante dos seguidos casos de corrupção. Ela é mais bem suportada em intervalos de prosperidade, mas se é hora de apertar os cintos a paciência do povo diminui muito.

Relativo

O Brasil diz que não vai mais discutir Belo Monte no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), onde as entidades que resistem à usina lutam para defender os direitos delas.

Ambas as posições são legítimas. O Brasil cuida de sua soberania e quem se opõe a Belo Monte busca internacionalizar o tema.

Estranho apenas que o Brasil abra mão de defender seus pontos de vista num respeitado fórum multilateral. O Itamaraty diz que todos os esclarecimentos já foram dados por escrito e não há motivo para ir lá.

É um argumento razoável, porém permite interpretar que o amor do nosso governo e da nossa diplomacia pelo multilateralismo é seletivo.

Nada espantoso, mas vale o registro.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (26) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Memória viva (25/10)


Governos espertos olham, em primeiro lugar, para o emprego e a renda. E procuram reger as demais variáveis em função das duas. Mas, e a inflação? A verdade é que a América Latina já esqueceu dela. A memória mais recente é a da estagnação

Cristina Kirchner venceu com folga o desafio reeleitoral, por uma razão simples, bem conhecida e já muito tratada, inclusive aqui. Na comparação com os antecessores, os governos Kirchner têm sido paradigma de eficência, desenvolvimento e preocupação social.

Lá, como cá, o desejo de não retornar ao passado ajudou Cristina. A ponto de ela obter votação recorde.

A Argentina tem seus problemas, com destaque para a fragilidade institucional. Ninguém sabe direito a quantas anda a inflação, aliás falar disso costuma dar dor de cabeça para os jornalistas dali. Pois os preços ali correm rápido.

E as convicções democráticas do casal Kirchner nunca foram uma brastemp.

Mas a economia cresce, gera empregos, há sinais de reindustrialização e a percepção social é que o kirchnerismo defende o país e os mais pobres. Ainda que as nuvens adiante estejam carregadas.

O momento fundador dessa percepção foi a denúncia da dívida externa, lá no começo do governo de Néstor.

Nascida do caos social e político provocado pelo colapso econômico, a necessidade da moratória se impôs, por cima de todas as advertências, ameaças e exibições de dentes.

A Argentina simplesmente não teria como sair do buraco sem ignorar uma parte dos compromissos financeiros. Ou até teria, a um custo social proibitivo.

Mais ou menos como a Grécia agora. A desvantagem dos gregos é fazerem parte de uma união monetária.

E o mais interessante foi a Argentina ter dado o passo no auge da deificação das “ideias certas”. Por exemplo a que prega a santidade e a imutabilidade dos contratos.

Uma ideia muito querida dos ideolólogos do empresariado, ainda que o empresário mesmo, o de raiz, nunca hesite quando denunciar um contrato é bom para o negócio dele.

Eu pelo menos nunca conheci nenhum que aceitasse levar a empresa à falência para honrar um mau contrato.

Os argentinos impuseram aos credores um forte desconto na dívida e não aconteceu nada. O dinheiro continuou chegando, engordando e indo embora, como sempre fizera antes. E como continuará fazendo desde que lhe garantam as necessárias condições de reprodução.

Argumentarão que a Argentina precisou pagar caro para compensar o maior risco.

E quem somos nós para dizer isso?

Aqui se produz todo ano um belo superávit primário. Um pouco mais, um pouco menos, mas sempre belo. Aqui vigora uma Lei de Responsabilidade Fiscal bastante rígida. E aqui a transparência das contas públicas é exemplo para outros países.

Tudo muito bonito.

E mesmo assim pagamos o maior prêmio do mundo a quem traz dinheiro para cá. Nossa taxa real de juros não tem concorrente. Pelo ângulo da engenharia reversa da precificação do risco, talvez sejamos, no fim das contas, um lugar bastante arriscado para investir.

Por incrível que pareça.

Se pagamos juros tão elevados é porque a coisa não vai tão bem assim. Do contrário não precisaríamos remunerar tão maravilhosamente quem traz o dinheiro.

Como curiosidade, os Estados Unidos, que estão na draga, pagam juro tendente a zero e mesmo assim qualquer marolinha planetária provoca um tsunami a favor dos títulos do Tesouro americano. E não contra.

Ainda que esse detalhe possa enfraquecer o argumento central da coluna, pois um trunfo dos Estados Unidos é a garantia pétrea de que honrarão seus compromissos.

A realidade é mesmo contraditória.

Vindo para a economia doméstica, a reeleição de Cristina Kirchner explica bem por que a colega do lado de cá da fronteira sustenta a política de redução de juros agora praticada pelo nosso Banco Central. Uma política agressiva, nas circunstâncias.

Governos espertos olham, em primeiro lugar, para o emprego e a renda. E procuram reger as demais variáveis em função das duas.

Mas, e a inflação? A verdade é que a América Latina já esqueceu dela. A memória mais recente é a da estagnação.

Com as devidas consequências políticas.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (25) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Deu errado (24/10)


A ideia de terceirizar serviços públicos para Organizações Não Governamentais pode ter sido movida a boas intenções, mas deu errado. Transformou-se em ralo para drenar dinheiro público e reforçar maus hábitos na política

As ONGs (Organizações Não Governamentais) estão em xeque. A cada novo episódio de rolo com dinheiro público revela-se a deformação de um mecanismo nascido benigno, para transferir recursos oficiais a entidades qUe executam ações complementares às do Estado.

Os fatos reforçam a atualidade do velho ditado, de que as boas intenções lotam o inferno. A intenção na origem era boa. Comparadas à máquina estatal, as ONGs ganham em agilidade e foco, permitem a mobilização rápida e flexível de conhecimentos específicos indispensáveis.

Essa é a teoria. Na prática, o universo das ONGs é fonte recorrente de notícias sobre irregularidades e desvios. 

Pululam as maneiras espertas de contornar normas e regulamentos, os expedientes para prevalecer o interesse privado e espúrio sobre o público. É sempre complicado generalizar, mas o número de casos nebulosos e escândalos permite o diagnóstico de um problema sistêmico.

Pode-se argumentar que o modelo é bom, que os problemas devem ser tratados como tal, que generalizar é perigoso e injusto, que os erros não devem servir de pretexto para condenar o sistema no todo. 

É uma argumentação razoável, desde que venha acompanhada da proposta de solução. Qual é então o remédio para extirpar os focos problemáticos?

Uma estrutura de vigilância capaz de controlar a destinação do dinheiro público que vai para as ONGs? Aí seria o absurdo ao quadrado. 

Pode-se imaginar qual deveria ser o tamanho dessa estrutura para funcionar a contento. Para monitorar milhares de ONGs sem deixar espaço ao malfeito. Ou pelo menos para minimizar o risco.

Provavelmente seria uma máquina gigantesca, uma megaburocracia para corrigir uma estrutura cujo objetivo inicial era fugir da burocracia. Aí não dá.

E por que não submeter então as ONGs às mesmas regras rígidas aplicáveis à despesa pública propriamente dita? Nas compras e contratações, para evitar que a maior flexibilidade abra portas e janelas ao erro. 

Bem, nesse caso a pergunta é imediata. Para que então as ONGs? Por que não fazer a coisa por meio do Estado e ponto final?

É um beco sem saída. Na verdade, o impasse é produto de uma deformação estrutural. De um antagonismo conceitual.

As Organizações Não Governamentais surgiram como novidade para dar expressão à sociedade civil, às novas formas de protagonismo, às correntes sociais à margem dos partidos políticos, do Estado e das instituições tradicionais. 

Eram novos atores, organizados para inocular vida na fossilizada política institucional, um oxigênio muito bem vindo. 

Finalmente, a política deixaria de ser monopólio dos profissionais e as demandas coletivas teriam novos canais de expressão.

Mas para que fosse efetivamente assim um detalhe seria imprescindível. As ONGs deveriam buscar os meios de subsistência na sociedade, e não no Estado. Mas simplesmente não aconteceu. 

Na prática, os governos, partidos e políticos acabaram tecendo cada um sua rede-satélite de ONGs, financiada com os recursos da atividade político-estatal e orientada a facilitar a reprodução do poder de quem a sustenta.

Bem ao contrário do que deveria ser. E quando uma boa ideia resulta no contrário da intenção original está na hora de avaliá-la com rigor e tomar providências.

Sem comércio

A eleição argentina de ontem teve um detalhe que merece ser olhado com carinho por aqui. O tempo igual de televisão para os candidatos.

Não se trata de simplesmente copiar, mas de pelo menos refletir sobre. O tempo de tevê nas eleições brasileiras acabou virando só um comércio.

Um foco de parasitismo, chantagem e rolos financeiros.

Soluções há. Uma é impedir que o partido transfira o tempo a outro. Não quis lançar candidato próprio? Seu tempo será repartido entre os demais.

O que não dá, assim como no caso das ONGs, é continuar como está.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (24) no Correio Braziliense e também no Estado de Minas.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

domingo, 23 de outubro de 2011

Vai mal (23/10)


É grande a distância entre o que foi prometido para a Copa e as Olimpíadas e o que a realidade vai apresentando. A crise no Ministério do Esporte talvez seja uma oportunidade para a presidente agir. No macro, e não apenas no micro

O país, ou boa parte dele, festejou quando conseguiu ser a sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Foi uma mudança de patamar. 

O Brasil projetava-se aos olhos do mundo como capaz de realizar com grande sucesso os dois maiores eventos esportivos do planeta.

As Olimpíadas ainda estão longe, e o otimismo incurável sonha que os problemas dos Jogos Pan Americanos do Rio não vão se repetir. Especialmente o estouro orçamentário, que parece ter ficado por isso mesmo. 

Um esquecimento preocupante, pois deveria ser exibido diuturnamente como exemplo do que não fazer.

Mas a vida segue, e não custa ser otimista. Mesmo porque o otimismo aqui é recomendável, faz bem à saúde. Evita certas dores de cabeça.

Na pauta de Copa e Olimpíadas, aos céticos e pessimistas costumam reservar os epítetos de inimigos da pátria, de portadores do complexo de vira-lata, de submissos à idéia de que o Brasil não é capaz de ombrear com os maiores.

Será?

Sobre a Copa, será obrigatório constatar que as coisas não caminham dentro do prometido.

As esperanças eram cristalinas. 

Os estádios seriam erguidos integralmente com dinheiro privado, os recursos públicos iriam para obras socialmente justificáveis -especialmente no transporte- e a magnitude dos eventos implicaria uma revolução na segurança pública.

E tudo seria feito com a maior transparência.

Até agora as coisas parecem caminhar exatamente no sentido contrário.

O que vai razoavelmente bem? Os estádios. Que sobem com forte insumo estatal.

Os aeroportos? Até agora nada, ou quase. O de Natal foi 100% privatizado, uma confissão de incapacidade administrativa do governo.

Os demais estão na fila, Alguns talvez fiquem parcialmente prontos a tempo, mas não há garantias.

Sobre a mobilidade urbana, quem ainda fala nisso? O que de mais prático se fez foi abrir a possibilidade legal de decretar feriado em dia de jogo. E não só em jogo do Brasil.

Sem falar no mais novo escândalo.

Nos últimos dias a presidente Dilma Rousseff está às voltas com a crise no Ministério do Esporte.

Mas o problema é maior, e está a exigir intervenção no macro, e não só no micro.

Isso se Dilma quiser mesmo fazer a coisa bem feita. Para que o tema não se transforme doravante em sinônimo de confusão.

Quase todos

E segue a batalha dos royalties no Congresso, o Senado aprovou uma proposta para evitar a votação do veto à proposta anterior.

O governador do Rio imaginou que tinha resolvido o problema lá atrás, quando fechou um acordo com o presidente da República e sonhou que o Planalto iria tratorar o Legislativo.

Foi um erro de cálculo, inclusive porque o petróleo é do Brasil, e não apenas dos estados com vista para o mar. Um critério para lá de duvidoso.

E também porque o recurso não vem sendo bem investido.

Em vez de agir estrategicamente, de reservar o dinheiro para investimentos em saúde, educação, ciência, infraestrutura, os governantes torram-no com despesas de custeio.

Ou em obras de utilidade duvidosa. Ou de execução nebulosa.

Ou todas as coisas juntas.

Nada garante que se o dinheiro do petróleo for mais bem distribuído será mais bem empregado.

Mas esse é outro problema. Que aliás deveria ser motivo de ação do Executivo.

Pois se é demais exigir de um governador ou prefeito que pense o país no longo prazo é razoável cobrar isso da presidente da República.

Inclusive porque na campanha ela disse que faria assim com o pré-sal.

Cadê as medidas para evitar que a nova riqueza seja dissipada no dia a dia? Onde anda a preocupação com a maldição do petróleo?

O que estamos fazendo de prático para ficarmos mais parecidos com -lembram-se?- a Noruega?

Nesta batalha dos royalties quase todos os interesses estão sendo bem defendidos. Menos os do Brasil.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (23) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Os cavalos correm (21/10)


Quase um ano depois da eclosão tunisiana, comprova-se: o melhor que as potências tinham a fazer era tentar pegar a onda. E parecem ter apostado nos cavalos certos. Pelo menos os cavalos delas continuam correndo

Sadam Hussein foi arrancado da toca por soldados dos Estados Unidos para acabar morto na forca após um julgamento organizado pelos iraquianos. Muamar Gadafi sequer conseguiu receber o ritual do colega mesopotâmico: acabou sumariamente eliminado na captura.

Talvez por ter sido capturado pelos compatriotas, e não for forças estrangeiras.

Nem lhe deram o direito a um simulacro de julgamento, daqueles rápidos, tipo o oferecido a Nicolae Ceaucescu. O destino foi buscar Gadafi ali mesmo. Sem misericórdia. 

Dirão, com certa dose de razão, que o líbio recebeu o tratamento que provavelmente dispensaria a um inimigo em situação similar.

E a página foi virada.

Ter o fim de Muamar Gadafi é o risco dos líderes empenhados em fundir sua pessoa e as instituições. Reduzem muito a chance de sobrevivência física fora do poder. 

A mudança política acaba exigindo a eliminação de quem personifica o Estado. Para marcar a passagem a uma nova era.

E para evitar a perpetuação de um conflito entre polos irreconciliáveis. A coisa mudou pouco desde os primórdios da humanidade. Para subjugar uma tribo é necessário neutralizar seu chefe. De uma maneira ou de outra. 

Há situações nas quais é possível fazer a transição com o líder vivo, e um bom exemplo foi a "humanização" do imperador japonês no desfecho da Segunda Guerra Mundial. 

Mas em geral não dá. Mostrar a cabeça cortada do comandante adversário continua sendo uma maneira bem eficaz de convencer os seguidores dele à rendição.

É provável que Gadafi soubesse do risco de acabar sumariamente eliminado, e talvez por isso tenha prometido lá atrás caçar os adversários de casa em casa. Para ele foi sempre um jogo de tudo ou nada. 

Ou eles, ou ele. 

O poder absoluto tem disso. Ainda mais quando se transforma em cleptocracia hereditária. Não espanta que desencadeie, na contracorrente, uma violência igual, de sinal trocado.

Violência aliás já descrita um dia como a parteira da História. Constatação cuja atualidade as revoluções árabes mostram todos os dias.

A próxima parada do trem é na estação de Damasco, se a composição não acabar desviada para o Iêmen. Mas a ordem das estações é o de menos. 

A partir do momento em que optou por -ou foi forçado pelos apoiadores a- reprimir sanguinariamente os compatriotas, Bashar al Assad contratou para si um destino pouco glorioso.

A dúvida é se terminará caçado em algum buraco ou se vai correr antes para um braço amigo. Como fez o líder da Tunísia. Nessa escolha, o problema de Assad -ou um dos problemas- talvez seja a escassez de amigos. 

Firmes mesmo com ele, nesta altura, só o Irã e o Hezbollah.

Quem vai bem, nas circunstâncias, é o chamado Ocidente. Cujo inevitável fracasso na abordagem das revoltas árabes foi previsto, como diria Mark Twain, talvez um pouco cedo demais. 

Quase um ano depois da eclosão tunisiana, comprova-se: o melhor que as potências tinham a fazer era tentar pegar a onda. E parecem ter apostado nos cavalos certos. Pelo menos os cavalos delas estão correndo.

Enquanto outros já foram sacrificados.

O mundo árabe vive seu terceiro ciclo de rupturas em menos de um século. Começou com a queda do Império Otomano ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-18) e a formação de monarquias absolutistas patrocinadas pelo colonialismo.

Um modelo que entrou em colapso após a Segunda Guerra Mundial (1939-45) com a descolonização. Em boa parte dos países árabes os monarcas foram substituídos por oficiais nacionalistas, com tintas de socialismo. 

Agora a História faz a nova varrição. E quem vem por aí? A única força alternativa ali organizada e dotada de visão de mundo com começo, meio e fim: o Islã.

O mundo precisará conformar-se com a ascensão do Islã naquele pedaço. Na hipótese otimista, será um Islã democrático. Na pessimista, degenerará em novas tiranias, que conduzirão aqueles povos a novos fracassos.

Mas é um debate até certo ponto vazio de significado prático. O que tiver que ser, será. Isso foi bem compreendido pelos profissionais em Washington, Londres, Paris, Roma. 

Gente que por dever de ofício precisa prestar mais atenção à defesa dos seus interesses materiais do que às próprias idiossincrasias.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (21) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Um papel para o Brasil (11/10)


No conflito Israel-Palestina poderia caber ao Brasil um papel de mais destaque. Nosso país tem autoridade política e moral para vocalizar uma linha equilibrada. De um modo mais afirmativo do que Dilma Rousseff vem fazendo

O Brasil anda surpreendentemente distante da confusão no Oriente Médio. Do desejo de protagonismo, parece ter restado a retórica. Dilma Rousseff tocou no assunto quando abriu a Assembleia Geral da ONU. Só.

Nosso país apresentou-se como candidato a ocupar o palco quando Luiz Inácio Lula da Silva decidiu que era hora de mover a peça. Foi a Jerusalém e a Ramallah, um gesto forte.

Verdade que Lula recusou visitar o túmulo do fundador do moderno nacionalismo judeu, enquanto prestava as também legítimas homenagens no túmulo do líder histórico do nacionalismo árabe-palestino.

Um viés talvez desnecessário. Mas explicado por certo alinhamento de décadas da nossa diplomacia. E também pelas posições do PT.

Mas isso é detalhe, incapaz de remover o aspecto central: se o Brasil não tem peso específico para bancar um eventual acordo, pode projetar-se a partir de uma posição de equilíbrio.

Ontem Israel e o Hamas completaram a troca que libertou 1027 condenados palestinos e também o militar israelense Gilad Shalit, capturado há mais de cinco anos pelo Hamas em território do Estado judeu.

Uma demonstração de que mesmo inimigos aparentemente inconciliáveis acabam aceitando dialogar se vislumbram soluções interessantes para ambos. Aqui havia, e chegou-se a um acordo.

A saída definitiva para o conflito entre Israel e Palestina está bem delineada, na teoria. Quem a resumiu com mais competênca foi Barack Obama. Num discurso corajoso.

Dois países, cada um deles para realizar o projeto nacional do respectivo povo.

Com fronteiras baseadas nas linhas de armistício que vigoraram entre 1949 e 1967, mas com trocas territoriais para refletir as mudanças demográficas das últimas quatro décadas e meia.

E com a garantia de os dois lados aceitarem pôr fim definitivamente ao conflito, assumindo compromissos estratégicos com a segurança do vizinho.

Uma solução desse tipo deveria obrigatoriamente incluir reparações aos descendentes de populações deslocadas à força.

Palestinos removidos de onde hoje é Israel e comunidades judaicas forçadas a abandonar os países árabes que habitavam há séculos.

Outra premissa é garantir condições de prosperidade para o futuro Estado Palestino. Com fortes investimentos e acordos de integração econômica.

O conflito naquele pedaço do mundo persiste não pela falta de soluções razoáveis no papel, mas pela ausência de liderança política que as faça acontecer.

Aparentemente, Israel está mais perto de abandonar a ilusão de tentar realizar seu projeto nacional negando aos palestinos o mesmo direito.

Mas o discurso de Abu Mazen na ONU mostrou que o lado palestino ainda enfrenta dificuldades para admitir que os judeus têm ligação com aquele território e direito de concretizar ali sua autodeterminação.

Pois se a Autoridade Palestina considera razoável exigir que todo palestino tenha direito de habitar Israel, também será aceitável, por isonomia, que todo judeu tenha o direito de ajudar a povoar o futuro Estado da Palestina.

Um ponto de partida para chegar a lugar nenhum.

A supressão do direito alheio -como em qualquer conflito- supõe o recurso à violência, no caso a guerra. Se se fala em paz, uma premissa é reconhecer a legitimidade do projeto do outro.

Esse é o passo decisivo. E aqui poderia caber ao Brasil um papel de destaque. Nosso país tem autoridade política e moral para vocalizar essa linha. De um modo mais afirmativo do que Dilma Rousseff vem fazendo.

Inclusive porque é só meia verdade dizer que o problema não nos afeta diretamente.

Se o quadro ali evoluir para uma confrontação militar regional, as incertezas produzirão um novo e potente vetor de desequilíbrio da economia mundial. Na pior hora possível.

É só olhar o mapa e notar que quase metade do petróleo mundial transportado de navio passa pelo estreito de Ormuz.

Isso para começo de conversa.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (19) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O vestibularzão do MEC (18/10)


Será um completo equívoco se em nome de “acabar com o vestibular” o Enem for transformado no “vestibularzão do MEC”. Uma situação hipotética em que o Ministério da Educação teria o poder absoluto de decidir que tipo de aluno vai conseguir vaga na universidade

O Ministério da Educação (que até hoje chamam de MEC, mesmo depois de criado o da Cultura) defende o fim do vestibular.

É uma tese não tão nova. Terminar com com isto de a porta da universidade abrir e fechar para o sujeito num único exame.

Acabar com o vestibular deveria significar, entre outras coisas, levar em conta o desempenho do aluno ao longo de toda a formação. Seria bom, por estimular a cobrança sobre o ensinado no fundamental e no médio.

Mas seria também ruim porque um menino ou menina com currículo não tão vistoso estaria na prática impedido de se recuperar mais adiante.

O modelo do vestibular apresenta desvantagens conhecidas, mas oferece pelo menos uma grande vantagem. O rapaz ou garota podem até não ter sido tão bons antes, mas se estiverem dispostos a estudar no ano da prova têm nova chance de conseguir superar.

Num país de ensino precário, é uma válvula de escape. Não é razoável jogar integralmente nas costas do estudante o ônus da escola ruim.

O ideal seria combinar os vetores, como já acontece em alguns lugares. Levar em conta o histórico e também o desempenho nos exames.

Há pelo menos dois detalhes importantes a olhar. A regionalização do acesso e a autonomia das universidades e faculdades.

A autonomia é importante pois cada instituição deve ter liberdade para decidir que tipo de aluno deseja receber, de acordo com o profissional que pretende produzir.

Se determinada escola de engenharia acha que saber matemática e física não é o mais importante, está no direito dela. E vai escolhê-la quem concordar com ela.

Já a regionalização é decisiva para evitar que alunos dos centros mais ricos avancem sobre as vagas em outras localidades, por terem mais condições de competir do que os "nativos".

Gente que vem de fora e depois de formada simplesmente cai fora, volta para de onde veio.

Levando consigo o resultado do esforço financeiro da sociedade. Isso vale para as faculdades e universidades públicas e também para quem tem as mensalidades na escola particular pagas pelo governo.

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi e é um avanço, por permitir a avaliação periódica dos estudantes, uma maneira de medir indiretamente como andam as escolas.

Há também uma tendência crescente de usar o resultado da prova como elemento de avaliação para o acesso ao ensino superior.

Mas será um completo equívoco se em nome de “acabar com o vestibular” o Enem acabar transformado no “vestibularzão do MEC”.

Pois o Ministério da Educação teria o inaceitável poder absoluto de decidir que tipo de aluno vai conseguir vaga no ensino superior.

Pois pode haver -e é saudável que haja- instituições públicas e privadas que divirjam dos critérios oficiais.

Tampouco é racional que a oportunidade de ser avaliado em exame se concentre numa única prova, ou num único conjunto de provas. Pois a pessoa pode estar num mau dia. Ou não se enquadrar nos critérios de quem manda no MEC.

Além do que o “vestibularzão do MEC” reforçaria o risco de avanço dos candidatos mais bem preparados sobre todas as vagas, diluindo o necessário critério regional.

É uma discussão que exige muito cuidado. É preciso levar em conta os fatos, e não apenas as intenções.

Já que delas o inferno está lotado.

OSNGs

Os escândalos sucedem-se e cresce a necessidade de encarar um problema grave na administração pública: a tendência a privatizar a ação governamental por meio das Organizações Não Governamentais.

Que no Brasil deveriam mudar de nome, talvez para Organizações Supostamente Não Governamentais, as OSNGs.

Ou para OGs (Organizações Governamentais). Seria talvez mais apropriado.

A regra precisaria ser clara. Dinheiro público só deveria ser gasto seguindo as regras específicas do setor público.

Vai dificultar a execução de certas políticas? Paciência. Que a União, os estados e municípios se virem.

A moda, em todos os níveis, é contornar exigências redirecionando recursos para quem pode gastar com mais liberdade. Muito mais.

Já passou da hora de acabar com isso.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (18) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Viciado em elogio (17/10)


Otimismo é bom quando ajuda a recolher energia e disposição para enfrentar os problemas. Mas vira um problema a mais quando é sinônimo de tolerância aos defeitos, de conformismo diante do que deveria despertar inconformismo

Os estrangeiros descobriram o modo infalível de seduzir os brasileiros. É só falar bem do Brasil. Uma inversão completa. Antes a moda, inclusive dos nativos, era falar mal. O país mudou, é certo, mas o estado de espírito parece ter mudado para além da realidade.

Não há marketing que resista a um mau produto, então é preciso olhar para os fatos e entender no que eles influenciam as boas percepções. Mas um bom marketing pode, sim, melhorar o produto, ou fazê-lo necessário além do que seria “natural”.

Em certos aspectos o Brasil é mesmo exceção. No mundo todo pipocam manifestações contra o mercado financeiro, apresentado como satanás. Aqui, onde se cultivam as maiores aberrações financeiras, nada. Curioso.

Por falar no “occupy wall street”, o movimento têm algo de regressista, mas recolhe glamour por mobilizar o senso comum.

Qual o país economicamente mais bem sucedido nos últimos tempos? A China. Pois os chineses construíram sua prosperidade a partir de certas decisões políticas heterodoxas adotadas lá atrás pelo Partido Comunista, diretrizes cujo melhor resumo é “enriquecer é glorioso”, frase histórica de Deng Xiao Ping.

O Brasil é outro lugar em que enriquecer não mais parece pecado. Um exemplo da inversão de estado de espírito? Quando antes alguns magnatas nacionais apareciam nas tais listas mundiais de mais ricos a reação era negativa. Hoje isso virou do avesso.

Dizia que a moda sobre o Brasil é falar bem. Há algumas coisas que  melhoraram bastante. O salário mínimo nem se compara ao do passado. E os programas sociais dos governos oferecem uma proteção razoável aos mais pobres.

Mas nossa educação continua muito ruim, bem como a infraestrutura. O sistema tributário é super-regressivo, quem ganha menos paga proporcionalmente muito mais. A violência e o crime são epidêmicos, sem comparação possível com os índices nos países mais civilizados.

E aqui “civilizados” cabe bastante.

Após quase três décadas de governos democraticamente eleitos, nenhum dos grandes gargalos nacionais foi enfrentado para valer. E trinta anos é muito tempo. Só olhar para ver o que, de novo eles, os chineses fizeram nesse mesmo período.

A inversão da autoestima tem a ver com elementos subjetivos, mas não só. Sua raiz vem fincada na persistência de um período razoavelmente longo de conforto econômico. Uma época de consumo em alta, cujo melhor sintoma são os preços nacionais comparados aos de fora.

O motor do consumo é a expansão do crédito, que entretanto vai encontrando seu limite. Não é que o brasileiro deva muito. Ele deve até pouco na comparação com os cidadãos dos países mais enrolados na crise.

O problema está em outro aspecto. Se o brasileiro não deve tanto assim, compromete com pagamento de dívidas uma parcela bem maior do que os cidadãos dos países centrais. Exatamente por causa das distorções financeiras.

É uma mistura complicada.

A economia em desaceleração projeta para os próximos anos um crescimento medíocre dos novos empregos e tampouco permite otimismo na elevação da renda.

E a onda vai topar com uma população que, quando se endividou, imaginava uma taxa de bonança perene.

Sem falar nas contas externas. O único setor superavitário da produção nacional é o agronegócio. Que aliás sustenta o resto da economia nas trocas com o exterior. Mas vem sob pressão do ambientalismo, pois não há como plantar mais ou criar mais gado sem desmatar.

Nossa indústria está de língua de fora, sem que as medidas espasmódicas e localizadas consigam embicar a atividade para cima. O setor precisaria de um período longo de estímulo à competitividade, para valer. Mas não está no horizonte.

Pois não há governo capaz de interromper a doce anestesia provocada pelo real forte.

Otimismo é bom quando ajuda a recolher energia e disposição para enfrentar os problemas. Mas passa a ser um problema a mais quando vira sinônimo de tolerância aos defeitos, de conformismo diante do que deveria despertar inconformismo.

Como parece acontecer agora.


Coluna publicada nesta segunda (16) no Estado de Minas.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

domingo, 16 de outubro de 2011

Sacerdotes da estagnação (16/10)


Tucanos e petistas disputam a paternidade de ter estabilizado a economia, mas ninguém diz como fazer para ela crescer consistentemente, sem a inflação voltar a representar um problema

Um foco de disputa entre tucanos e petistas é decidir quem debelou definitivamente a inflação. O PSDB reivindica o Plano Real, implementado no governo Itamar Franco pelo ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso.

Já o PT lembra ter recebido o governo em 2003 com os preços saindo de controle, e diz que Luiz Inácio Lula da Silva deu jeito na coisa, ao aplicar um arrocho fiscal e monetário naquela largada.

O PSDB retruca lembrando que o instrumental usado pelo PT foi uma herança do governo tucano, especialmente a Lei de Responsabilidade Fiscal. O petismo observa que a construção institucional das ferramentas vem de mais longe.

O ministro da Fazenda Antonio Palocci era expert em introduzir esse último elemento na narrativa. Distribuindo os méritos da coisa.

E segue o debate, bastante autocentrado. Cada polo é tão cioso na própria defesa que esquece de olhar ao redor.

As quase duas décadas de poder tucano e petista realmente afastaram a superinflação, mas não entregaram a mercadoria prometida.

Deixaram o serviço pela metade. Não explicaram como fazer para crescer forte e consistentemente num ambiente de preços controlados.

Ou bem o país cresce e os preços sofrem além do desejado, ou o controle dos preços acaba matando a expansão da economia.

Lula pretendia ter superado essa barreira, com o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, tocado pela braço direito Dilma Rousseff. Conseguiu um certo plus (apesar da crise mundial), que logo se revelou insustentável.

Era a época das autoridades econômicas alardeando o rompimento da barreira do PIB potencial (o máximo que a economia pode crescer sem estourar a meta de inflação) medíocre. Depois de muito tempo, 3 ou 3,5% não eram mais nosso limite.

E 2010 foi vendido como prova, com seu vistoso PIB de 7,5%. Era ilusão. O número resultou da comparação com o retraimento absoluto de 2009. Passada a flacidez fiscal da eleição, a fantasia deixou de servir.

O governo FHC sacrificou o crescimento em favor do combate à inflação, e os governos do PT não conseguem decolar sem acordar a dita cuja. Um nó estrutural aparentemente indesfazível.

Agora Dilma está ameaçada pelo pior dos mundos. Crescimento medíocre com inflação incômoda. Para sorte do Brasil, a presidente parece resistir à solução tradicional.

Pois se é verdade que a inflação é um imposto antissocial, atinge mais quem menos consegue proteger o próprio dinheiro, o desemprego é outra chaga. O chamado Primeiro Mundo é prova.

Dilma escolheu o caminho certo ao evitar que o Banco Central decidisse novamente congelar a economia. Foi o BC quem tomou a decisão de baixar os juros, mas foi a presidente quem indicou o comando do BC. E o apoia. Está tudo bem entendido.

Será porém preciso avançar. E os sinais são insuficientes. O governo aposta no mercado interno para enfrentar a crise planetária, mas é pouco. A indústria patina há três anos, desmascarando postumamente a farsa da "marolinha".

Não basta o governo dizer que não sacrificará o crescimento em nome do combate à inflação, se deixa o país escorregar para a estagflação.

É preciso que diga como, efetivamente, vai manter a máquina funcionando em velocidade desejada sem estourar os preços.

O PT venceu três eleições presidenciais porque, entre outras razões, a maioria do país recusou a volta a um modelo de conformismo com o baixo crescimento, um fardo que os candidatos tucanos precisaram carregar como triste legado do período FHC.

Uma herança maldita.

Mas que vai se diluindo no tempo. O problema agora é outro. O PT já está no poder faz tempo suficiente, deve dizer a que veio.

Dilma largou bem mas a corrida é longa. A presidente foi bem na primeira curva, quando o BC ignorou os sacerdotes da estagnação e baixou os juros.

Mas se Dilma bobear ninguém lá na frente lembrará que a presidente começou a corrida na pole-position.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (16) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Argumentos do chanceler (14/10)


Antonio Patriota defende que foram adequadas as abstenções nos casos líbio e sírio. No primeiro, para não endossar uma intervenção militar ilimitada. No segundo, também para evitar o alinhamento com um bloco de membros permanentes do Conselho de Segurança contra outro

Como conciliar o pragmatismo, um traço orgânico das relações internacionais, com o principismo? O desafio fica ainda mais complexo em situações radicalmente novas, como agora na chamada Primavera Árabe.

É um assunto tratado criticamente com alguma frequência nesta coluna, e sobre o qual conversei ontem no Itamaraty com o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Passo a listar alguns argumentos do chanceler.

“A posição do Brasil tem sido intervir para conseguir melhorar as situações. Se não for possível, pelo menos para não piorar”, diz Patriota.

Para ele, não faria sentido intervir em cenários de risco aos direitos humanos para criar situações que embutem ameaças tão graves quanto, ou mais, a esses direitos.

Na Líbia, o Brasil vinha integrado ao movimento geral no Conselho de Segurança, mas decidiu abster-se por enxergar na redação do texto final brechas para intervencionismo excessivo.

Segundo o chanceler, uma preocupação confirmada pelos fatos.

Mas, e a ameaça iminente de um massacre da então oposição líbia em Benghazi, propósito aliás anunciado explicitamente por Muamar Gadafi?

O Brasil avalia que a zona de exclusão aérea teria sido suficiente para estabelecer um certo equilíbrio em segurança, que poderia favorecer uma saída negociada.

E na Síria? O apego brasileiro à cautela e ao diálogo não corre o risco de cair no vazio, diante da insistência do regime de Bashar al Assad em reprimir brutalmente a oposição?

Não, pois o Brasil não deseja contribuir para a situação na Síria degenerar numa guerra civil. Inclusive porque a desestabilização ali teria implicações regionais. Um possível efeito dominó.

Mas o Brasil reconhece que o regime de Damasco está longe do que lhe pedem inclusive os países que não podem ser acusados de trabalhar por uma intervenção externa. E que o tempo para uma saída negociada está correndo.

Os ajustes recentes na posição russa, instando mais firmemente Assad a passar das palavras aos atos, a tomar medidas práticas para pacificar o país e desencadear uma transição, mostram que a posição do líder sírio anda mais frágil.

Isto quem diz sou eu, não o chanceler.

Para Patriota, interessa ao Brasil no palco sírio continuar como interlocutor. Inclusive em atenção às demandas da comunidade brasileira de descendentes de imigrantes daquele país.

Ainda que tudo renha um limite, reconhece.

Mas a insistência do Brasil em se abster no Conselho de Segurança não acabará consolidando a imagem de que o país lava as mãos em situações de polarização?

O chanceler diz que não há uma linha sistemática de abstenção. Segundo ele foram dois momentos específicos. No caso da Líbia adotou-se a cautela para não subscrever o intervencionismo sem limites.

Algo razoável à luz da experiência iraquiana, defende.

No caso da Síria o Brasil julgou melhor não se alinhar com uns membros permanentes do Conselho de Segurança contra outros. Um não-alinhamento que, segundo o chanceler, fortaleceu a posição brasileira em vez de enfraquecer.

O Brasil tem trabalhado por soluções consensuais no Conselho, informa o Itamaraty. A chancelaria considera que é o melhor caminho para levar as decisões à prática com mais efetividade.

E a anunciada prioridade aos direitos humanos nas relações internacionais do Brasil? Patriota argumenta que essa política está em plena aplicação nos organismos específicos das Nações Unidas.

Algo que pode ser notado em casos como do Irã e da própria Síria.

E por que não no Conselho de Segurança? Porque, diz ele, o Brasil não endossa a estratégia de uso sistemático da força -inclusive militar- como o melhor instrumento para a promoção e a defesa dos direitos humanos.

Esses são alguns argumentos do chanceler.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (14) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Etiqueta de validade (13/10)


É visível um certo cansaço com certa política, mas qual será a tradução da fadiga na vida real? Como será nas eleições? É razoável supor que ou essa energia será canalizada partidariamente ou vai dissipar-se

É humano certo deslumbramento com os movimentos ditos espontâneos. Eles adicionam glamour à política, pelo contraste com a crueza da realidade dela olhada sem filtros, em estado bruto. Das manifestações contra a corrupção Brasil afora até a “ocupação” de Wall Street.

O problema é que se movimentos de massa são bons para criar estados de espírito, e mesmo para bloquear parcialmente a capacidade de intervenção do Estado, como agora no Chile, não estão porém aptos a governar. A utopia do democratismo direto costuma virar do avesso quando tenta passar da fantasia à realidade.

Governar é trabalho para minorias, profissionais organizados em facções, partidos políticos. Que irão realizar a cada momento os projetos supostamente apoiados pela maioria, mas não será o governo da maioria. Será o governo segundo o suposto desejo da maioria, mas operado por uma máquina política dedicada.

Espertas são as máquinas políticas que se abrem aos movimentos sociais para alimentar-se da energia deles, mas é uma operação necessariamente datada, com vencimento.

Pois uma vez no poder a tendência se inverte e o Estado passa a usar os instrumentos tradicionais — da repressão à cooptação — para reduzir o caos, diminuir a desorganização da sinfonia.

Pode não ser muito animador, mas assim é a vida. Desde quase os primórdios. Por razões práticas. Quem ocupa as horas do dia na luta pela sobrevivência não tem como se dedicar às atividades de governo. Daí nasce a necessidade de mecanismos especializados e dedicados.

Podem ser sacerdotes ou nobres. Ou militares. Nas sociedades modernas nasceram os parlamentos, as eleições periódicas. A essência é sempre a mesma. Organizar a rotina para que a sociedade sobreviva, produzindo e reproduzindo-se em ciclos periódicos.

Daí que movimentos precisem, em algum momento, buscar sua tradução na política organizada. Nos anos 70 do século passado o sindicalismo ascendente buscava expressão partidária e o então MDB (antecessor do PMDB) ofereceu guarida. Mas Luiz Inácio Lula da Silva preferiu, após algumas experiências, trilhar o próprio caminho.

Os resultados são conhecidos.

Ontem um punhado de cidades foi novamente palco de protestos contra a corrupção, um processo que vem se desenvolvendo à margem dos partidos. Pois todos eles são de alguma forma governo. Não têm como se apresentar ao distinto público vestidos de branco imaculado.

E é natural que os manifestantes procurem apartar-se de alinhamentos partidários. Uma boa estratégia. Já ensinava Muhammad Ali: flutuar como uma borboleta e picar como uma abelha. Se se abrirem à participação organizada de partidos, transformar-se-ão em alvo fixo.

Do jeito que está, o máximo que os contramanifestantes conseguem é tentar azucrinar pelas redes sociais. Tentar ridicularizar. Uma certa confissão de impotência. E também de alguma perda de sensibilidade. E, episodicamente, de boçalidade.

Mas e os resultados? O movimento pede mudanças legislativas e reforço das atribuições de órgãos de controle. Tudo bem, mas será suficiente? As instituições não existem no éter. Quem as opera é o Estado, comandado por um governo.

É visível certo cansaço com certa política, mas qual será a tradução da fadiga na vida real? Como será nas eleições?

É razoável supor que ou a energia será canalizada partidariamente ou vai dissipar-se diante da resistência, ou da inércia, das máquinas políticas estabelecidas, aliás muito bem estabelecidas. Especialmente as governistas.

Será?

A descoberta de um complô iraniano para matar o embaixador saudita em Washington tem tudo para introduzir de vez o assunto na eleição americana do ano que vem.

Ou bem a acusação é falsa, e aí será a desmoralização dos serviços policiais e de inteligência dos Estados Unidos, ou as pressões para que a Casa Branca contenha definitivamente o Irã nuclear vão subir exponencialmente.

Barack Obama tem a cabeça de Osama bin Laden na parede como troféu. Mas será suficiente?


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (13) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Na alegria e na tristeza (12/10)


Quando o DEM cuida de pôr antes na fila de prioridades o enfraquecimento do PSD, acima do fortalecimento dele próprio, permite especular se os dirigentes do partido acreditam mesmo em si como projeto estratégico

A política conduz a situações estranhas. Parece ser o caso do Democratas (DEM), que caminha para vetar coligações nas quais o novo Partido Social Democrático (PSD) seja cabeça de chapa.

O DEM aceita alianças com o PSD na eleição municipal, desde que o desafeto/parceiro fique em posição subalterna.

Uso o verbo “parecer” pois essa política pode ser racionalmente explicada. É uma questão de prioridade. Deseja-se enfraquecer (ou pelo menos não fortalecer) a legenda criada a partir do DEM.

Lembro quando o então PDT, Leonel Brizola à frente, fez algumas alianças, inclusive informais, com o governista PDS na eleição de 1982, ainda sob o governo militar mas já a caminho da abertura plena. A rivalidade principal era com o PMDB.

E teve também a trajetória antialiancista do PT, que só mudou de posição depois de tomar o poder. Aí passou a dar prioridade ao isolamento regional do potencial adversário federal. Para tentar matar o risco pela raiz.

A lógica é simples. Tanto quanto bater o inimigo, é preciso cuidar para que no processo não cresça um aliado capaz de tomar a hegemonia.

Daí, por exemplo, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva corteje dia sim outro também o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB).

Em países com menos partidos, essa guerra secundária costuma acontecer nas internas. Os candidatos a líder travam a batalha intestina para só depois voltar a atenção ao inimigo externo.

Aqui também há ensaios de lutas internas, mas elas morrem no nascedouro, pois nossos partidos não têm mecanismos minimamente democráticos para o acerto de contas dentro de casa.

E vem a cissiparidade, as siglas vão brotando umas das outras para dar vazão a projetos políticos sem espaço interno.

Como aconteceu no cisma DEM/PSD.

Ou seja, o DEM parece concentrado em evitar o surgimento de uma alternativa no seu próprio campo, e isso tem alguma lógica. Talvez o ilógico esteja no preço a pagar. Para enfraquecer o PSD, o DEM está disposto a ele próprio enfraquecer-se ainda mais.

O DEM tem um trunfo na eleição de 2014, o tempo de televisão. Pois parece razoável que a Justiça negue ao deputado e senador que troca de partido o direito de carregar com ele o tempo.

Mas o DEM também enfrenta um problema. Seus parlamentares, como os demais, dependem das bases municipais.

Ainda está por medir quanto o DEM foi efetivamente sangrado nos municípios, mas a conta não deve ser agradável para os dirigentes do partido. E o PSD foi montado com base numa certa “política de governadores”, em acomodação com os poderes locais.

É duvidoso que apenas o tempo de tevê seja suficiente para o DEM enfrentar as circunstâncias em 2012.

O Democratas poderá argumentar que o PT construiu-se no isolamento, e terá certa razão. Mas há uma diferença.

O PT carregou uma militância social que lhe deu musculatura e gordura para fazer a travessia do deserto.

Há uma base social para realavancar o DEM? Sim, mas a concorrência é forte. Além do próprio PSD, de origens liberais, há o PSDB, que busca reposicionamento no mercado do voto.

Ainda que os tucanos não deem a impressão de saber bem para onde querem ir.

E ambos, PSDB e PSD, numa situação de vantagem comparativa sobre o DEM, em máquina e imagem.

Quando o DEM cuida de pôr antes na fila de prioridades o enfraquecimento do PSD, acima do fortalecimento dele próprio, permite especular se os dirigentes do partido acreditam mesmo em si como projeto estratégico.

Inclusive porque não se vislumbra um candidato do DEM à Presidência da República. Coisa que o PT sempre cuidou de ter, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Sem isso, ou os demistas acham um porto seguro ou as tendências centrífugas vão acelerar.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (12) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Desequilíbrio crônico (11/10)


O funcionário público está bem protegido dos abusos dos maus políticos. Mas o povo está desprotegido dos abusos dos maus funcionários públicos. E ninguém tem coragem de fazer nada

O poder absoluto é uma ilusão. Não existe. Mesmo o déspota incontrastado corre o risco de topar com o destino escondido atrás da curva. Vai que de repente uma turba alucinada invade o palácio e põe fim à trajetória do dito cujo? E não é teoria. A História está cheia de exemplos.

Todo poder absoluto produz a resistência a ele, para que se atinja um ponto de equilíbrio. Essa tendência é menos perceptível quando tudo parece ir bem, mas ela está lá, latente, mesmo nos períodos de silêncio.

O cenário no universo sindical é contraditório, no mundo todo. O sindicalismo declina na economia privada e ganha força na estatal. A ponto de o movimento corporativo dos funcionários públicos ter se transformado em ator muito influente.

Mas é no Brasil que certas características atingem o ápice. Aqui as greves -um instrumento legítimo de luta- acabaram virando férias remuneradas. E a estabilidade, na prática absoluta, ergue uma barreira decisiva à necessária cobrança de resultados.

O Brasil construiu um belo arcabouço para proteger o funcionário público contra as perseguições políticas e contra as tentativas de desmonte do Estado. Parabéns. Mas não construiu nenhum contramecanismo, para proteger a sociedade dos eventuais abusos cometidos pelos empregados do Estado. Pêsames.

Esse desequilíbrio agudiza e fica mais visível nas greves, quando a paralisação de serviços essenciais vai para as manchetes. Mas o problema é crônico. Vai tentar contratar um médico para atender na periferia distante. Ou vai tentar impedir um mau professor de comprometer o futuro dos alunos dele.

Até a vida procurar outros caminhos. Instrumentos para tocar serviços vitais de forma mais dinâmica, sem as amarras que a lei impõe ao gestor público. E aí surgem novas deformações.

Como por exemplo a proposta das tais fundações estatais de direito privado, na qual os recursos viriam do orçamento mas haveria também liberdade para contratar, demitir e fazer compras. Uma aberração.

Infelizmente, o governo do PT não mostra apetite para enfrentar o problema. De vez em quando a autoridade produz uma notícia a respeito, talvez para faturar junto aos chamados formadores de opinião, mas fica por isso mesmo. O PT é muito cioso da base política.

Até hoje não regulamentou a reforma da previdência do setor público aprovada pelo Congresso Nacional em 2003. Moveu mundos e fundos para passar a PEC e depois estacionou. Se tivesse agido a tempo, todo o contingente contratado nos últimos oito anos já estaria submetido à nova regra.

Uma regra boa, pois estabelece teto e fundo complementar. Só que está tudo parado. Dilma Rousseff vai enfrentar o tigre? Façam suas apostas. Eu ficaria surpreso.

Mas os problemas prementes mesmo são as greves e a resistência a qualquer método de premiação por produtividade. Resistência que mostra a face mais cruel na educação. O Estado fica praticamente impedido de premiar as escolas (e não os professores) que vão bem e de exigir mais das que vão mal.

Eu gostaria, aliás, de saber quantos porcento dos filhos das autoridades educacionais estudam em escola pública nos ensinos fundamental e médio. Alguém já fez esse levantamento?

Pimenta nos olhos dos filhos dos outros é refresco.

Daí que a educação brasileira vá aprofundando o fosso entre quem pode pagar e quem não pode, como está demonstrado na infinidade de avaliações. É nosso apartheid particular, fantasiado de progressismo.

Por falar nisso, por que tem tanta avaliação de aluno mas não tem de professor?

Está na hora de um governo, qualquer governo, enfrentar isso. Precisará de estômago para resistir às pressões. Mas existe massa crítica, apoio para fazer. Converse com governadores, prefeitos, secretários ou ministros filiados a partidos de esquerda.

Todos dizem que é preciso mudar alguma coisa. Mas todos -ou quase- temem travar o debate publicamente, para não correrem o risco de serem carimbados como “inimigos dos trabalhadores” ou “neoliberais”.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (11) no Correio Braziliense.



Para compartilhar somente este post, abra numa página própria, clicando no título ou no horário de postagem

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo