quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Estado cansado? (31/08)


O Estado dirige bem a Petrobras mas não consegue fazer aeroportos funcionarem bem. Mistério. Nos bons tempos alguém falaria em sucateamento proposital para fins de privatização. A fala sobre a superioridade do Estado dá sinais de cansaço

Causou pouco ruído dias atrás o leilão de privatização do aeroporto de Natal (RN), 100% repassado a particulares. Teve até a foto tradicional do martelo batido a muitas mãos, mas não despertou maiores emoções.

O governo não fez firula. Não é Parceria Público-Privada (PPP), não resta participação da Infraero, nada. O ativo foi integralmente repassado a quem pagou mais. O governo caiu fora e ponto final.

Natal é um filé. Se na Segunda Guerra Mundial ficou conhecida como “trampolim da vitória”, pela localização estratégica para o controle da circulação em mar e ar no Atlântico Sul, agora é ponto de altíssimo potencial turístico.

Fica pertinho da Europa mas está fincada na América do Sul. E num lugar paradisíaco. Com as vantagens decorrentes da tripla situação.

Daí o belíssimo ágio obtido na venda. Os compradores pagaram mais de três vezes o preço do edital. Fossem outros os tempos, as autoridades seriam suspeitas de ter tentado vender o patrimônio público a preço de banana.

A privatização dos aeroportos foi uma isca política descoberta para atenuar as críticas ao governo nos sucessivos episódios do assim chamado “caos aéreo”. Mas não é só isso. É antes de tudo um excelente negócio.

Aeroporto é atividade monopolista. Se o sujeito não está satisfeito com o serviço, não dá para simplesmente procurar a concorrência. Tem que usar o dito cujo e ponto final. A receita do empreendimento é garantida.

Daí o sucesso na privatização de Natal, e deve repetir-se quando forem a leilão os aeroportos maiores.

Mas fica a dúvida. Por quê, afinal, privatizar? Da maneira como o governo põe a questão, acaba parecendo confissão de incompetência. As autoridades confessam ser incapazes de tocar o negócio como se deve.

É uma admissão e tanto para quem atravessou os últimos anos montado no discurso sobre a superioridade do Estado. Se este não consegue nem conduzir um monopólio de receita garantida, vai tocar o quê?

O Estado dirige bem a Petrobras mas não consegue fazer aeroportos funcionarem bem. Mistério. Nos bons tempos alguém falaria em sucateamento proposital para fins de privatização.

A fala sobre a superioridade do Estado dá sinais de cansaço. O anúncio do superávit primário excedente foi emblemático.

O governo sempre soube que iria sobrar receita em 2011, mas em vez de acelerar o investimento no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) -ou repassar aos mais pobres e dependentes de políticas públicas de redistribuição de renda- prefere redirecionar aos investidores.

Em vez de suprir necessidades prementes, prefere abater dívida.

A teoria é redonda. Ao diminuir a demanda por recursos para rolar a própria dívida o governo reduz a pressão sobre os juros. Juros menores significam mais consumo e mais investimento. E portanto mais crescimento e empregos.

Mas a teoria embute uma renúncia. Diga o que disser, o governo admite confiar mais na capacidade de os capitalistas fazerem acontecer no que na aptidão dele próprio.

Os sinais de cansaço estão por toda parte. As autoridades da Saúde puseram na agenda as tais fundações estatais de direito privado. Estatais na garantia dos recursos e privadas na liberdade para contratar (e demitir) pessoal e comprar bens e serviços.

Quando Paulo Maluf e Celso Pitta implantaram algo parecido em São Paulo nos anos 90 foi um escândalo, mas eram outros tempos. Agora, a privatização na Saúde só não vai adiante devido à resistência sindical-corporativa.

Fronteiras

Aproxima-se o debate na ONU sobre a formalização do Estado Palestino. Os palestinos pretendem proclamar sua soberania no território entre o Jordão e o Mediterrâneo que antes de 1967 estava sob controle da Jordânia (Cisjordânia) e do Egito (Gaza).

Quando um país define suas fronteiras, define também a dos vizinhos. Automaticamente renuncia a reivindicações territoriais. A não ser que ambicione anexações.

O Brasil poderia propor que todos os países participantes na Assembleia Geral da ONU reconhecessem esse status quo definitivo: o Estado Palestino em suas fronteiras declaradas e o Estado de Israel nas terras remanescentes.

Poderia até haver depois alguma troca territorial por critérios demográficos, como propôs Barack Obama. Mas seria detalhe.

Pois o princípio estaria estabelecido. E cada um cuidaria da vida na sua casa. Soberanamente.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (31) no Correio Braziliense.



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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sinal dos tempos (30/08)


Pelo menos num detalhe o governo parece admitir suas limitações. Nos bons tempos, esses 10 bilhões teriam ido para o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Agora vão para os juros

Não faz uma semana o governo batia bumbo sobre o superávit primário de julho, recorde. E sobre o acumulado nos primeiros sete meses do ano. Por ter poupado quatro em cada cinco reais que se dispusera a reservar em 2011 para o pagamento de juros. 

Tudo estava bem.

Agora as autoridades econômicas anunciam uma meta adicional de 10 bilhões no esforço fiscal. Não somos governados pelo Tea Party, mas a ideia é similar: em vez de o governo gastar mais, vai conter a própria despesa e, assim, a demanda por recursos privados para alimentar a máquina pública.

O keynesianismo já era.

Com a medida, o governo revela ter concluído que cada real mandado de volta aos investidores gera mais crescimento e emprego do que se for investido ou gasto pelo próprio governo. 

Houvesse no Brasil uma oposição de esquerda, ressurgiriam as críticas ao neoliberalismo.

Alguém recordaria os argumentos do Palácio do Planalto quando impôs dar ao salário mínimo e às aposentadorias no começo do ano só a inflação, e olha lá. Dizia que faltava dinheiro para mais. Que aumentos reais iriam quebrar o Brasil. 

E foi ecoado pela turma sempre disposta a gritar que o país vai à breca se mais dinheiro for dado para os pobres.

Na época levantei duas hipóteses. 

1) O governo enlouquecera ao contratar para o começo de 2012 um senhor aumento real do mínimo e das aposentadorias. Ou 2) o governo tinha como dar mais agora mas preferiu beneficiar os credores em vez de melhorar imediatamente a vida dos mais necessitados.

Deu a alternativa b, por causa do belo desempenho na arrecadação. Fenômeno que o governo já previa, e por isso aceitou o compromisso de um gordo aumento real em 2012. 

Foi uma cruel conta de chegada, pois quem vive do mínimo ou de aposentadoria ficou condenado a atravessar sem proteção o ano inflaocinário de 2011. Matematicamente, a área embaixo da curva recebeu uma lipoaspiração e tanto.

Mas o governo não enfrentará dificuldades políticas por causa disso. 

Espertamente antecipou-se e correu a oferecer o excesso de arrecadação aos banqueiros e a quem tem dinheiro em banco. Nem deu tempo de a turma pendurada no orçamento, no custeio ou nos investimentos, pensar em dar uma mordida no pedaço do filé que sobrou para fora do sanduíche.

E a opinião pública aplaudirá, pois austeridade nos olhos dos outros é um colírio.

Vamos ver o que faz agora o Banco Central. Este mesmo BC perdeu em 2008 a espetacular oportunidade de trazer os juros brasileiros a patamar civilizado, quando a demanda caiu a zero na eclosão da crise.

Foi o corolário perverso da ficção da marolinha. Já que a onda chegaria aqui como marola, o BC teve legitimidade para num ambiente econômico sem demanda manter nossos juros reais na liderança do ranking mundial.

Será bom se o movimento fiscal anunciado ontem resultar em atitude diferente agora no Comitê de Política Monetária. Ainda que o cenário da demanda seja bem distinto. Há um desaquecimento, mas nada que se compare ao mergulho de 2008 na piscina vazia.

Do episódio, por enquanto, fica a lição de que bons números trazidos pelo governo devem merecer saudável desconfiança. O superávit primário da semana passada tinha diversos problemas.

Havia um baita pagamento de imposto da Vale, pontual. O resultado brilhante fora conseguido à custa do aumento de imposto, e não de conter gasto. E o custeio permanecia intocado, enquanto o investimento tinha ido para o beleléu.

Veremos se haverá competência e -como se dizia- vontade política agora para mexer no vespeiro.

Pelo menos num detalhe o Palácio do Planalto parece admitir suas limitações. Nos bons tempos esses 10 bilhões teriam ido para o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Agora vão para os juros.

Não deixa de ser mesmo um sinal dos tempos.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (30) no Correio Braziliense.



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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O elo mais fraco (29/08)


E chegamos ao pulo do gato. Os espertos vão explicar ao povão, condoídos, que para implantar a pureza do financiamento público exclusivo precisarão, infelizmente, acabar com o direito de o distinto público escolher quem vai mandar ao Legislativo
 
A votação da reforma política ensaia entrar nos finalmentes, com os maiores partidos acertados entre si para 1) reduzir os poderes do eleitor e 2) impedir a sociedade, pessoas físicas e empresas, de apoiar financeiramente vetores alternativos.
 
Após anos de proselitismo sobre a suposta malignidade intrínseca do sistema político-eleitoral no Brasil, os donos da bola julgam arado o terreno para a semeadura decisiva: usar os propagandeados defeitos do modelo para aumentar ainda mais os poderes dos atuais beneficiários.
 
Há algum tempo os oligarcas concluíram ser impopular a lista fechada para eleição de deputados e vereadores. Pois será natural que as pessoas reajam à cassação do direito de escolher os membros do Parlamento.
 
Daí a tática ter derivado para a busca do elo mais fraco: o financiamento. Diante da sequência de notícias sobre malfeitos, os alquimistas explicam que a política brasileira é apenas vítima de um mau desenho.
 
Que o dinheiro irregular é para as campanhas eleitorais. E se houver o financiamento público exclusivo isso será resolvido.
 
Ou seja, os políticos que agem mal não o fazem para enriquecer, mas para pagar despesas nas eleições.
 
O financiamento público exclusivo criaria um problema insolúvel no âmbito partidário, mantidas as regras atuais de candidatura. Como distribuir o dinheiro entre os diversos corredores num mesmo nível?
 
Não é o caso das eleições para presidente, governador, senador ou prefeito. Onde há só um nome do partido ou coligação.
 
Mas se cada postulante a deputado ou vereador precisar correr atrás do voto por conta própria, que critério adotar na divisão do bolo financeiro?
 
O mesmo dinheiro para cada um? Impossível, pois toda legenda tem os campeões de voto e os apenas figurantes. Arbitrário, com cada caciquia decidindo quem vai receber mais e quem precisará se conformar com menos? Impossível. Não teria operacionalidade nem amparo legal.
 
E vem o pulo do gato. Nessa hora, os doutores vão explicar ao povão, condoídos, que para implantar a pureza do financiamento público exclusivo precisarão, infelizmente, acabar com o direito de o distinto público escolher quem vai mandar ao Legislativo.
 
Um mal que virá para o suposto bem. Para limar as impurezas, recorrer-se-á ao fascínio da ditadura virtuosa, coisa que o moralismo pátrio, nas diversas vertentes, propagandeia desde sempre.
 
E aí a obra estará completa. Os donos de partido estarão entronizados, com o monopólio da política nacional.
 
Já avançaram bastante. Na fidelidade partidária, nos prazos de filiação e domicílio, no poder absoluto para nomear e demitir dirigentes zonais, municipais e estaduais, na liberdade imperial para gastar como bem entendem o dinheiro público já disponível.
 
Os caciques, os mesmos que frequentam o noticiário por razões pouco abonadoras, irão decidir quem vai se eleger e quem não. Eles próprios, naturalmente, reservarão a si cadeiras legislativas sem precisar nem sair de casa para buscar voto.
 
O partido majoritário, por ter vencido a última eleição, terá garantida uma vantagem financeira irreversível, pois se não é razoável que a verba seja igualmente distribuída pelas legendas, o único critério alternativo é o apoio obtido na última eleição.
 
Isso vai acontecer mesmo em situações nas quais o governante estiver pessimamente avaliado, em que tiver perdido o apoio da maioria. Mesmo assim irá para a campanha em vantagem pecuniária insuperável, pois a oposição não terá como se financiar para equilibrar o jogo.
 
Novos atores políticos passarão a enfrentar ainda mais barreiras para entrar no palco. A “renovação” da política irá depender mais ainda dos “dedaços”, em que os caciques decidem os “novos” personagens encarregados de “renovar” para que tudo permaneça como está.
 
E restará aos insatisfeitos criar ongs, promover abaixo-assinados pela internet ou acampar em praças públicas. Enquanto os potentados institucionalizarão o direito divino de fazer do Estado brasileiro uma coisa nossa (deles).


Coluna publicada nesta segunda (29) no Estado de Minas.



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domingo, 28 de agosto de 2011

No bom caminho (28/08)


Dilma fará certo se incluir na política nacional para as drogas a internação compulsória. A droga nesse nível de consumo e degradação é doença grave, e precisa de tratamento. Manter na rua alguém afetado em tal grau é foco de disseminação do problema, e precisa ser removido
 
Há um debate no governo sobre a atitude diante dos usuários de drogas crônicos que moram nas ruas, ou ali permanecem a maior parte do tempo. A discussão é deixá-los onde estão ou interná-los, mesmo contra a vontade.
 
Não é polêmica nova. Ela já existe nos níveis municipal e estadual. Pois a  encrenca costuma estourar mesmo é na mão de prefeitos e governadores.
 
Mas cai bem que a coisa venha para o plano federal. A droga está longe de ser problema localizado.
 
Fará certo a presidente Dilma Rousseff se resolver incluir a internação compulsória na política nacional para o tema. A droga nesse nível de consumo e degradação é doença grave e precisa de tratamento.
 
Manter na rua alguém afetado em tal grau é foco de disseminação do problema, e precisa portanto ser atacado.
 
E seria um passo vital para desglamurizar o consumo.
 
O debate sobre a droga entre nós recebe atenção e espaços crescentes. O problema avança e anda de mão dadas com a violência e a criminalidade. Já foi ao arquivo a ideia ingênua de que o crime é função principalmente da pobreza.
 
Qualquer mapa da pobreza mostra não ser assim. As áreas mais pobres não são as de maior número proporcional de crimes, ao contrário.
 
Os rankings são liderados pelas regiões de mais crescimento econômico, e portanto com dinâmicas superiores na oferta de oportunidades e renda.
 
No governo Luiz Inácio Lula da Silva as regiões urbanas do Nordeste lideraram em dois quesitos: crescimento “chinês” da economia e explosão dos índices de criminalidade.
 
Se o crime decorre principalmente da pobreza e da falta de oportunidades, como explicar que onde mais cresce a economia é também onde mais acelera o banditismo?
 
Não vale dizer que a causa está no aprofundamento da desigualdade, pois este governo reivindica ter feito o contrário, ter promovido crescimento com desconcentração de riqueza.
 
O crime é, estatisticamente, fruto do cruzamento entre a oportunidade de delinquir e uma menor probabilidade de punição. Encontra ambiente favorável onde sobe a disponibilidade de dinheiro e onde decresce o risco de ser punido pela infração.
 
E quando as duas coisas andam juntas, então...
 
O consumo cria o mercado para o tráfico de drogas, que produz em paralelo o mercado para o tráfico de armas. E não haverá como combater um elo da cadeia sem enfrentar os demais.
 
A leniência diante do consumo das drogas frequenta o noticiário e os debates intelectuais. Tem sido em tempos recentes passaporte seguro para políticos desejosos de uma recauchutagem “progressista”.
 
É tática confortável, pois não precisam nesse tema enfrentar banqueiros, latifundiários ou potências neocoloniais para desfilar como portadores de teorias supostamente avançadas.
 
Já para o país, importa mais é proteger nossos jovens da contaminação, combater a criminalidade, cuidar das fronteiras por onde passam as drogas e as armas. Coisas assim.
 
E não haverá como fazê-lo sem atacar o consumo.
 
Sobre o México, por exemplo, uma ideia errada culpa a repressão por explodir a violência na guerra contra o narcotráfico. Mas até este governo americano, o mais liberal (na acepção deles) da História, já admitiu: o gigantesco mercado ao norte do Rio Grande é quem abastece a guerra civil ao sul.
 
Registrado
 
Escrevi na coluna de sexta que um sinal palaciano para o então ministro dos Transportes deixar a cadeira foi o sub dele ser chamado ao palácio para reunião de rotina, contornando a autoridade do chefe, que não tinha conhecimento da atividade.
 
Quem disse isso foi o agora ex-ministro e senador, da tribuna do Senado. Sem ser contestado.
 
Na própria sexta, recebi uma observação da assessoria da Secretaria Geral da Presidência da República. De que o Palácio do Planalto tentou sim convidar o então ministro para a dita reunião mas não conseguiu contato com ele.

Fica registrado.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (28) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Dança com dois pares (26/08)


Dilma substituirá quando for para substituir, segurará a onda quando as águas no Congresso parecerem agitadas demais, deixará ao relento os personagens de que não gosta ou que pretende enfraquecer

A presidente da República usa retórica para dar o ritmo da reconcentração de poder. Num momento, flerta com a ideia de estar em curso a tal faxina. Noutro, cita Roma, Joana D’Arc e o que mais for para acalmar os preocupados e sugerir que não haverá caça às bruxas.

Na resultante, apenas a constatação de a suposta faxina continuar o que sempre foi. Um mecanismo legitimador da retomada do controle sobre a máquina, pulverizada por razões defensivas ao longo dos anos de Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto.

Esta é uma operação na qual vale a regra orwelliana da Revolução dos bichos. Todos são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros. E o que torna uns mais iguais? A densidade do candidato a faxinável e a conveniência da dona da caneta. Variáveis interdependentes.

No episódio do Ministério dos Transportes, o ministro do PR recebeu sinal claríssimo de que deveria pedir o boné. O sub foi chamado ao palácio para reunião de rotina, contornando a autoridade do chefe, que nem sequer tinha conhecimento da atividade.

O episódio dos Transportes fundou a ilusão sobre a faxina ampla, geral, irrestrita e sem freios.

Nos movimentos a partir dali a coisa não segue sempre o mesmo script. Mas o resultado final é um só. Sai o alvejado e entra alguém mais próximo da presidente. Aconteceu na Agricultura, onde o ministro do PMDB já havia se transformado num ônus político para o padrinho, o número 2 da República.

Como também na única troca até agora que nada teve a ver com acusações de malfeitos, no Ministério da Defesa.

No PP, o verbalmente ousado ministro das Cidades sentiu o bafo quente do tigre e resolveu mostrar os dentes. Encomendou para si uma passagem de volta à Câmara dos Deputados.

Aos alvos da vez, resta torcer para estar do lado certo, conforme a conveniência momentânea da presidente. Que pode dançar com a opinião pública ou com a base parlamentar.

Mas ela está é bailando com os dois dançarinos, cada um a segurar uma mão presidencial. Certa hora Dilma olha para um, depois para outro. Conforme a necessidade.

E cada um deles se acha, no seu momento, o tal.

Não há maior risco à estabilidade do governo, pois nem a opinião pública, nem a oposição somariam fileiras com vítimas da faxina para colocar em questão a liderança presidencial.

Pode haver uma turbulência aqui, uma rebeliãozinha ali. Ocuparão algum espaço no noticiário, mas Dilma prosseguirá fazendo só o que bem entende.

Substituirá quando for para substituir, segurará a onda quando as águas no Congresso parecerem agitadas demais, deixará ao relento os personagens de que não gosta ou que pretende enfraquecer. Especialmente se o alvo veio como herança.

Fingirá não ser com ela quando o vespeiro parecer arriscado demais. Mas quem se interpuser no caminho estará marcado.

O pós

A revolução líbia segue o rumo, com a dúvida razoável sobre o pós-Kadafi. Instituições não se criam de uma hora para outra, e a ansiedade é saber que novo líder substituirá o deposto. Para ver como a banda vai tocar.

É razoável supor um cenário de conflito, com grupos apeados do poder recorrendo inclusive ao terror para tentar inviabilizar a estabilização da nova ordem.

Assim vai o Iraque, onde com Saddam Hussein mandava a minoria sunita, removida do mando pela invasão americana e substituída por uma aliança majoritária curdo-xiita.

Com o tempo, a insurgência terrorista deixou de ser principalmente antiamericana, tornou-se antixiita. E lateralmente anticurda.

Sistemas políticos autocráticos suficientemente longevos produzem redes abrangentes e cristalizadas, de dependência e lealdade, na estrutura estatal e nas redondezas. Com a repentina mudança política, a turma fica sem o chão. Ou sem o sustento.

Nas forças vitoriosas, a expectativa é ocupar precisamente esse espaço.

Nas derrotadas, resistir. Até faltar completamente o oxigênio.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (26) no Correio Braziliense.



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terça-feira, 23 de agosto de 2011

De pipoca e refrigerante (23/08)


E o Brasil? Para o país que ofereceu mediação no impasse árabe/israelense e tentou costurar o acordo entre Teerã e as potências em torno do programa nuclear iraniano, o atual silêncio é ensurdecedor. A explicação mais provável: o Itamaraty e o Palácio do Planalto não têm a mínima ideia do que fazer

A resistência a apoiar os levantes democráticos no mundo árabe e islâmico têm dupla origem. Uns torcem o nariz pois preferem a continuidade dos déspotas amigos. Outros não, mas temem a emergência de forças político-religiosas fundamentalistas e autoritárias.

O exemplo é sempre o Irã. Onde a Revolução Islâmica libertou ventos democratizantes, para suprimi-los em seguida e lançar o país numa poliarquia teocrática. A esquerda iraniana, aliás, participou ativamente do movimento de 1979, antes de ser suprimida pelos aiatolás.

É o temor mais frequente no desdobramento da situação egípcia. Mas quem busca enfraquecer a influência ocidental na região não teme o cenário. Desse ângulo, o ideal seria ver emergir uma república islâmica sunita no Cairo.

Que em seguida poderia unir-se aos xiitas de Teerã e criar uma situação de forças na qual Washington só teria a retirada como alternativa.

Infelizmente para quem pensa assim, a conflagração iraquiana serve de termômetro da (im)possibilidade de coesão estratégica entre xiitas e sunitas. A união de todas as facções contra o elemento externo pode frequentar o discurso, mas daí à prática vai uma distância daquelas. O pan-arabismo foi e é apenas palavrório vazio.

Na Líbia, por exemplo, a república ditatorial, algo laica e bastante nepótico-cleptocrática do Coronel Muamar Gadafi vai sendo empurrada para a lata de lixo da História, na expressão clássica de Leon Trotsky sobre os socialistas-revolucionários que recusaram apoiar a Revolução Bolchevique de outubro/novembro de 17.

E quem empurra é uma composição heterodoxa.

A faxina de Trípoli é feita a quatro mãos pela aliança militar do Ocidente, a Otan, e rebeldes que também bebem da fonte fundamentalista. Inclusive com ligações marginais à Al Qaeda. Parece-lhe bizarro? Pois é a política. A arte de estar sempre pronto a romper com o aliado e a aliar-se ao adversário/inimigo.

O universo árabe e islâmico é um emaranhado de facções religiosas, políticas e militares. De nações desenhadas artificialmente pelo colonialismo. Não há linhas demarcatórias definitivas.

Isso complica ainda mais a vida de quem precisa tomar posição sobre o assunto. A esquerda brasileira é um exemplo. Comemorou a queda dos ditadores tunisiano e egípcio, aliados dos Estados Unidos, mas cerra fileiras em torno de Gadafi e do açougueiro de Damasco, Bashar Al Assad.

Em meio à confusão, a melhor abordagem, por enquanto, é a de Barack Obama. Que descartou sem muita hesitação aliados importantes, para estar em posição de lutar pela influência na nova ordem.

Pois árabes e muçulmanos têm o mesmo direito à democracia que os demais.

E o Brasil? Para o país que ofereceu recentemente mediação no impasse árabe/israelense e tentou costurar o acordo entre Teerã e as potências em torno do programa nuclear iraniano, o silêncio é ensurdecedor.

Podem querer que pareça sabedoria, mas a explicação provável é outra: o Itamaraty e o Palácio do Planalto não têm a mínima ideia do que fazer.

Pois só haveria duas opções: 1) apoiar decididamente a onda democrática ou 2) agir caso a caso conforme o interesse, conforme quem está no poder ou na oposição.

O governo brasileiro não anda convicto do primeiro caminho, nem está disposto a pagar o preço político embutido no segundo.

E aí fica de saquinho de pipoca e refrigerante na mão vendo passar o filme da História. Quando não sobra com o mico, como vai acontecendo na Líbia. E tem boa chance de acontecer na Síria.

Nem aí

Todas as pesquisas mostram que o eleitor não aceita abrir mão de eleger diretamente os deputados e vereadores. O último levantamento a mostrar isso foi feito com os usuários do serviço 0800 da Câmara dos Deputados.

73% disseram acompanhar a discussão da reforma política no Congresso, 57% discordam do financiamento público de campanhas eleitorais, 67% discordam da lista fechada (voto indireto) para o Legislativo e 75% concordam com o fim das coligações nas eleições para deputado e vereador.

Deveria ser suficiente para os alquimistas da reforma. Mas eles não estão interessados no que o povo acha ou deixa de achar.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (23) no Correio Braziliense.



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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Dificuldades na oposição (22/08)


Seria um belo caldo de cultura para o relançamento da oposição. Não estivesse ela enredada na tradicional dificuldade de explicar -e portanto saber- o que faria de diferente caso fosse encarregada de lidar com os problemas, na política e na economia

O único modo razoável de fazer oposição é pedir o impossível. Haverá acusações de irrealismo, impatriotismo, irresponsabilidade, mas se evitará o pior: o governo fazer finalmente o que a oposição pede e ela, em consequência, precisar aplaudir.

Ao longo de anos, a oposição brasileira vem concentrando o foco em trabalhar as acusações de irregularidades no governo do PT. Fazer isso era mesmo obrigação. Mas fazer principalmente -ou só- isso trazia um risco.

E no dia em que o próprio governo do PT enveredasse pela correção de rumos? Por vontade ou necessidade, tanto faz.

Só restaria aplaudir.

Na política, como no jornalismo, as coisas acontecem com maior acaso do que supõe o senso comum. A realidade costuma manter distância prudente das teorias conspiratórias.

Dilma Rousseff não planejou a tal faxina, mas quando o problema se colocou a presidente se saiu (vem se saindo) bem. Fincou a bandeira no lado certo e deixou aos críticos duas situações óbvias e complicadas: alinharem no lado errado ou baterem palmas para ela.

Não deixa de ser um jogo arriscado para a presidente, pois a tal faxina é operação fácil de desencadear e difícil de concluir. Um caminho que produz turbulências políticas em série.

Mas sempre haverá a opção de administrar com equilíbrio, apenas variando o tônus.

E os últimos dias consolidam um método de saída, a cada episódio.

A denúncia aparece. Os acusados ou têm uma ótima explicação ou caem. Os políticos da órbita do problema manifestam desconforto. A presidente substitui, com graus variáveis de diálogo. Os políticos recompõem-se com a dona da caneta.

E agora, o que fazer? Um pedaço da oposição já se deixou arrastar pelos fatos. Propõe simplesmente apoiar a presidente. Mas para quem deseja o lugar dela isso não é solução. Daí que outro pedaço procure uma maneira de manter a crítica.

Pois maneiras há. Uma é dizer que a tal faxina vai aquém do necessário e possível. E haverá alguma realidade nisso, porque remover completa e definitivamente todos os focos de irregularidades é mesmo impossível.

E portanto é o certo a exigir.

Pois a produção deles nunca cessa.

Aí o ganho político de quem critica dependerá de a opinião pública e o eleitorado acreditarem que os críticos fariam melhor caso estivessem sentados na cadeira. Que conseguiriam implantar um, digamos, “Corrupção Zero”.

Outro discurso possível seria o antipolítico. Defender mais concentração de poder. Propor terminar, por exemplo, com as emendas parlamentares. Deixar unicamente a critério do Executivo a decisão do que gastar, e quando.

Teria a simpatia dos eternos autoritários. Dos saudosos da ditadura, quando o Congresso Nacional estava totalmente privado do direito fundamental de discutir e decidir o destino do dinheiro dos impostos.

A linha autoritária é fácil de verbalizar, mas difícil de operar, especialmente para quem nutre a esperança de recolher nas próximas eleições parte do apoio político deixado pelo caminho na tal faxina.

No jogo proposto por Dilma, uma eventual exacerbação udenista dos adversários jogaria a favor dela, inclusive por a oposição ficar algo impedida de atrair os descontentes ejetados da base governista.

Se bem que na política tudo é possível. Inclusive o sujeito exigir mais rigor da presidente e, ao mesmo tempo, flertar com o atração futura de quem hoje está na mira da tal faxina.

E, como nossa oposição também é governo, é imediato o próprio PT lembrar a atualidade do velho “casa de ferreiro, espeto de pau”. Ou do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

A aprovação de Dilma vem bem abaixo do patamar em que recebeu o cetro de Luiz Inácio Lula da Silva. A desaceleração econômica está aí e a queda da inflação ainda é um vir a ser.

E as acusações de irregularidades no governo acumulam-se.

Seria um belo caldo de cultura para o relançamento da oposição.

Não estivesse ela enredada na tradicional dificuldade de explicar -e portanto saber- o que faria de diferente caso fosse encarregada de lidar com os problemas, na política e na economia.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (22) no Estado de Minas.



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domingo, 21 de agosto de 2011

A equilibrista (21/08)


Para governar, Dilma precisa prosseguir na remoção dos focos de autonomia político-administrativa, e as revelações sobre irregularidades oferecem a oportunidade. Mas não pode descuidar da base política, que perde poder quando o governo novo nasce das entranhas do velho

A presidente da República deu-se ao trabalho de fazer reservas a uma reportagem da revista The Economist sobre a tal faxina. Quem conversa em Brasília conhece a importância que este governo dá ao publicado lá fora a respeito do Brasil.

E não é pelo número (pouco relevante) de brasileiros que costumam votar no exterior.

Aqui o juízo planetário é fator importante na disputa política interna. O governismo sabe o terreno que pisa, sabe a opinião pública que tem. O oposicionismo também sabe.

Somos um país vidrado no que os outros dizem da gente. Tem algo de complexo de inferioridade. Que não deve ser ingorado. E os políticos não são ingênuos de ignorar.

Um correspondente americano outro dia manifestou, numa conversa particular, curiosidade sobre nosso hábito de produzir jornalismo a partir do jornalismo alienígena.

Publicar textos reproduzindo elementos de reportagens a nosso respeito saídas no exterior, com o devido crédito.

“Se as informações estão aí, por que vocês mesmos não apuram, escrevem e veiculam? Por que precisam do aval de uma publicação estrangeira para entrar no assunto?”

Uma excelente pergunta, com algumas respostas possíveis. A mais óbvia é a legitimidade conferida pela informação publicada no exterior, ainda mais se por veículo de algum prestígio.

Reduz a chance de o autor da reportagem negativa ser acusado de atuar no antigovernismo. Ou no governismo, quando a matéria é positiva.

Dilma parece ter ficado incomodada com o publicado na Economist. Mas o que saiu ali é igual ao relatado por onze em cada dez textos nacionais a respeito da faxina.

A presidente enfrenta instabilidades na base política por intervir nos focos de irregularidades.

Esteja onde estiver publicado, Dilma Rousseff pratica um certo equilibrismo. Um sintoma foi a frase de efeito sobre a relação entre faxinar e combater a miséria.

Dilma procura reposicionar o foco, rumo ao que pode unir mais a base. Se as seguidas cirurgias na administração são oportunidade de discórdia potencial, combater a miséria é unanimidade.

Quem, no domínio da sanidade mental, será contra combater a miséria? E governos adoram unanimidades.

O jogo de equilibrista de Dilma está bem visível.

Para governar, ela precisa prosseguir na remoção dos focos de autonomia político-administrativa, e as revelações sobre irregularidades oferecem a oportunidade.

Mas não pode descuidar da base política, que perde poder quando o governo novo nasce das entranhas do velho.

É um equilibrismo com boa chance de funcionar. Pois a presidente tem a caneta. É ela quem nomeia e demite, é ela quem manda segurar as verbas orçamentárias e soltar.

Então, no fim das contas, os agentes políticos precisam entender-se é com ela.

A suavização da crise com o Partido da República e a iminente adesão do PV desossado, ou “desmarinizado”, demonstram bem.

Inclusive porque o pedaço mais vistoso da oposição oficial, liderado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, clama pelo apoio a Dilma contra as pressões da base dela.

Isso reduz bastante o risco de união entre os oposicionistas e os segmentos oficialistas que eventualmente estejam dispostos a flertar com a rebelião.

É, por exemplo, uma situação bem diferente de quando em 2005 FHC articulou para o PSDB apoiar a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) para a Presidência da Câmara dos Deputados.

O que não faz um elogio.

Avalista

Dilma e FHC dançam a valsa. Ela afaga o ego dele e ele a ajuda a enfrentar as turbulências decorrentes da reconcentração de poder.

No curto prazo é conveniente para ambos. Dilma evita a união de todos contra ela e FHC neutraliza o discurso da herança maldita que ele teria deixado para o sucessor.

Resta saber se é bom negócio para Dilma ter FHC como avalista do governo dela.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (21) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O perdedor (19/08)


Na política leva vantagem quem acha respostas simples para perguntas complicadas. “Quem deixou acumular tanta sujeira, a ponto de obrigar Dilma a fazer uma verdadeira faxina?” A resposta simples para essa pergunta simplíssima é “Lula”

O estado das relações entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem tudo para virar pauta permanente.

Porque Lula, como ex-presidente, será sempre notícia. Porque Lula elegeu Dilma e sugeriu a nomeação de boa parte do ministério. Porque a tensão entre ambos, mesmo suposta, é um vetor da disputa política.

Mas principalmente porque Dilma acumula capital político à custa do antecessor.

Por exemplo a tal faxina. O governo notou que dá ibope remover da administração os núcleos problemáticos. A base parlamentar também já percebeu que bater de frente com o Palácio do Planalto é pouco inteligente.

Se a presidente vai bem, o governo também vai. E no fim das contas será bom para todos os passageiros do barco.

Menos para os indivíduos ejetados. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos. E a regra no jogo na política é clara: ninguém tem o direito de ceder à tentação de socializar o próprio infortúnio.

Há porém um problema. Se alguém está acumulando capital político, outro vem perdendo.

A oposição? Pouco provável. As pesquisas mostram até um ligeiro declínio da avaliação presidencial. Não parece haver movimentação tangível no eleitorado, até pelo eleitor não estar prestando maior atenção à política.

Apesar de surgir aqui um problema potencial para a oposição, cujo discurso não mais poderá se apoiar apenas no udenismo fácil. Essa bandeira Dilma já neutralizou.

A operação que apresenta Dilma Rousseff como a comandante da faxina que vai limpar a Esplanada e permitir maior eficiência ao governo, inclusive para combater a miséria, tem por enquanto um só perdedor: Lula.

Na política leva vantagem quem acha respostas simples para perguntas complicadas. Mas se o sujeito precisa dar respostas complicadas para enfrentar perguntas simples então tem um problema.

“Quem deixou acumular tanta sujeira, a ponto de obrigar Dilma a fazer uma verdadeira faxina?”

A resposta simples para essa pergunta simplíssima é “Lula”. A saída que poupa o ex-presidente pede mais elaboração.

Em defesa do ex, pode-se argumentar que Dilma reúne mais condições políticas de sanear o próprio governo. Inclusive por ter mais apoio parlamentar.

Ou que Lula indicou Dilma por saber que ela faria o que ele próprio não pudera fazer.

A primeira linha é frágil. Se Dilma tem uns deputados e senadores a mais na base, comparado ao período anterior, nem de longe alcança a liderança política e popular do padrinho.

Que, se quisesse, poderia ter reunido ele próprio as condições para livrar-se da sujeira agora alvo de faxina. Um pensamento óbvio.

Da segunda fica a pulga atrás da orelha. Por que exatamente Lula não pôde fazer?

A verdade é que, no popular, dá impressão de Dilma ter arcado com o ônus de corrigir desvios instalados no período anterior, instalados sob o olhar complacente de quem mandava.

Mas a própria Dilma não é parte desse “período anterior”? Sim e não. Ela estava lá, mas a palavra final não era dela, poderão argumentar.

E vai mais uma fatura para o colo de Lula...

Novidade

A chave em qualquer eleição está em identificar a divergência fundamental.

Na disputa paulistana de 2012 pinta que o desejo mais íntimo do PSDB é derrotar o prefeito Gilberto Kassab (PSD), e vice-versa.

Daí que a eleição esteja completamente indefinida. Coisas antes impensáveis correm o risco de acontecer.

Por exemplo o PSDB apoiar o PT num eventual segundo turno contra o candidato de Kassab. Se Gabriel Chalita (PMDB) tiver ficado fora da final.

Ou o próprio Kassab estender a mão ao PT, caso o ungido pelo prefeito não vá ao segundo turno.

É duvidoso o efeito que essas heterodoxias poderiam vir a ter sobre um eleitor habituado à polarização PT-PSDB.

Mas não deixa de ser uma novidade.

Falar e fazer

Reportagem de Paulo de Tarso Lyra no último fim de semana trouxe o debate interno na oposição sobre como fazer oposição.

É como em outras atividades, inclusive nas mais importantes para a vida a dois.

Quanto mais se discute, menos tempo sobra para fazer.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (19) no Correio Braziliense.



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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Dúvida no celeiro (18/08)


Se a proteção ao trabalho e à indústria nacional amortece os custos sociais da transição, o desestímulo aos mais eficientes é um veneno que costuma ser fatal, ainda que a morte possa vir de maneira lenta

A versão de ser “o último a entrar e o primeiro a sair” da crise econômica planetária continua alimentando o debate político no Brasil, agora que um segundo vale ensaia engolir a humanidade num período razoável de estagnação, ou crescimento medíocre.

Só não fazer nada, continuar a consumir, que lá na frente tudo se resolverá.

Verdade que o discurso vindo do Planalto anda mais centrado, talvez por um traço do temperamento da chefe.

Transmite-se certa preocupação, fala-se na necessidade de conter o gasto público dentro de limites, bem como sobre os cuidados no endividamento das pessoas e das famílias.

Mas e os problemas estruturais? Continuam a ser tocados apenas de passagem.

A indústria, por exemplo, até hoje não retomou o ritmo. Primeiro foi a contração da demanda em 2008/09. Quando ela voltou, veio a supervalorização do real.

E agora a indústria enfrenta no front externo quase uma tempestade perfeita. Mercado fraco para produtos de valor agregado e a moeda nacional batendo todos os recordes de valorização.

Nunca dependemos tanto das commodities, da nossa “vocação para celeiro do mundo”.

A presidente da República vem de anunciar um pacote de medidas votadas à defesa da indústria e do mercado interno.

Espera-se que o efeito supere, pelo menos, os alcançados pelas autoridades econômicas quando garantem que vão dar um jeito de segurar a subida do real.

Mas os movimentos em defesa da indústria nacional, especialmente dos segmentos intensivos em trabalho, introduzem outra variável na equação.

Como proteger sem dar aos menos competitivos uma vantagem estratégica que lá na frente acabe prejudicando o relançamento da economia brasileira num patamar superior de produtividade?

Tome-se o debate sobre desonerar a folha de pagamento e compensar com a taxação progressiva do faturamento.

Vale aqui a antiga e conhecida observação de que para todo problema complexo existe uma solução simples, e errada.

Tenta-se afrouxar a corda que rodeia o pescoço dos segmentos de menor produtividade, o que é bom, mas à custa dos de maior produtividade, o que é ruim.

Qual será a ordem das nações na fila de saída da crise? É hora de profecias. E há para todos os gostos. Mas um detalhe é inquestionável.

A produtividade vai dar as cartas.

Corremos o risco de sacrificar o estratégico ao tático, o médio e o longo prazos ao curto. Como de hábito.

Não que o abacaxi seja fácil de descascar. Se a proteção ao trabalho e à indústria nacional amortece os custos sociais da transição, o desestímulo aos mais eficientes é um veneno que costuma ser fatal, ainda que a morte possa vir de maneira lenta.

Melancias

A turbulência no governo confirma que nos solavancos da estrada as melancias se ajeitam na carroceria do caminhão.

A costurar

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), não está propriamente feliz com a inclinação do Palácio do Planalto a favor da candidatura do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para o Tribunal de Contas da União.

A também deputada Ana Arraes (PSB-PE), mãe do governador, é candidata. Mas a preferência do governo está com Aldo.

Explicação

A melhor dos últimos tempos é o pessoal do PV dizer que vai voltar à base do governo, pois deseja ajudar o Brasil a enfrentar a crise econômica internacional.

Como o governo brasileiro enfrentaria o desafio econômico global sem a ajuda do PV?

Nem um pio

Ouvem-se por aqui ferozes críticas ao governo e ao sistema judicial britânicos pelas duras punições aos responsáveis por incitar o vandalismo.

Talvez haja mesmo exagero nas penas.

Mas Londres não lançou os tanques à rua para atirar contra cidadãos desarmados. É o que acontece na Síria.

Sem que os tais críticos deem um pio.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (18) no Correio Braziliense.



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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

De vagão trocado (17/08)


Daqui a pouco as coisas se ajeitam. Pois é melhor sair da primeira para a segunda classe do que ser expelido para fora do trem. A não ser que Dilma se mostre ruim de serviço para além da conta. Muito além

A presidente da República não tem por que ceder agora na trilha que ela escolheu para se relacionar com a base governista. Se decidir recuar correrá o risco de precisar doravante pedir licença aos aliados até para escolher o cardápio do Alvorada.

Mas Dilma Rousseff não pode prescindir da base, pois tem pelo menos mais três anos e meio de governo. Sem contar a possível campanha pela reeleição. Já que a presidente se movimenta como candidata a tal.

Inclusive pelo contraste que imprime com o período do antecessor e padrinho. Para quem a conta do rearranjo governamental anda pesada.

Administrar a tensão com os aliados vai exigir sintonia fina e sangue frio. O segundo quesito não parece faltar, ainda que a presidente não esteja imune a escorregadas.

Como quando diz que não se move em função do publicado na imprensa.

Fora a operação da Polícia Federal no Ministério do Turismo, nasceram do trabalho jornalístico as encrencas que vêm permitindo à presidente agarrar o manche do governo dela.

A fala talvez tenha sido uma gentileza, um gesto em direção a aliados preocupados. O ritual útil de falar mal de um adversário histórico, para adicionar alguma coesão às próprias fileiras. Vai saber...

Dilma está no jogo em vantagem. Se abrir mão da base não é opção para ela, renunciar aos espaços governamentais tampouco é alternativa para a base. E no fim das contas quem nomeia e demite é ela.

Então a base precisará, certa hora, compor com o Planalto. Com Dilma Rousseff, a única possuidora da caneta que desembaraça verbas e cargos.

Por isso deve-se olhar com alguma cautela a agitação nestes dias cheios de novidades.

Uma novidade foi o apoio da ala que, na falta de expressão melhor, poderia ser chamada de setor independente dentro dos partidos da base do governo no Senado.

A coisa tem lá sua dose de “não é o que parece”, pois o grupo de senadores está mais para oposição do que para governo. Já é quase uma dissidência. E ninguém consegue governar apenas ou principalmente apoiado por dissidências.

Trocar o establishment senatorial por esse grupo tampouco é possibilidade realista.

No cabo de guerra, Dilma tem outro trunfo: não se ter proposto uma pauta agressiva de reformas legislativas. Precisa pouco do Congresso.

Só não pode deixar a situação sair do controle, como aconteceu no Código Florestal na Câmara dos deputados. Quando o Palácio do Planalto construiu cuidadosamente a derrota, por desconsiderar a correlação de forças.

Dilma precisa aprovar a renovação da DRU (a desvinculação parcial de receitas, que permite mais flexibilidade orçamentária) e talvez goste de fazer avançar algum arremedo de reforma tributária.

Só. No mais, é governar. No caso de Dilma, cumprir as metas no avanço na infraestrutura nacional. Será (ou não) a marca do governo dela, um bolo cuja cereja são as obras da Copa do Mundo de 2014.

Daí que a presidente avance com apetite no controle da máquina. Num caso trocou o ministro (Transportes), noutros vem deixando os titulares, por enquanto. Mas privados de poder real.

Dependentes da clemência presidencial.

E o Congresso? Há alguns cenários. No mais desfavorável, a rebelião da base permitirá ao Parlamento enfileirar uma sequência de gastos amalucados, para inviabilizar o governo.

No mais favorável, daqui a pouco as coisas se ajeitam. Pois é melhor sair da primeira para a segunda classe do que ser expelido para fora do trem.

Pelas razões expostas ao longo desta coluna, e mesmo que a verdade esteja -como sempre- num ponto intermediário, tende a prevalecer a segunda opção.

A não ser que Dilma se mostre ruim de serviço para além da conta. Muito além.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (17) no Correio Braziliense.



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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Deu o óbvio (16/08)


Kirchner fez apenas o que qualquer empresário faz quando pega uma firma com um monte de maus negócios em andamento. Entre morrer agarrado aos contratos e exigir a renegociação deles, vai sempre pela segunda opção. Os resultados políticos estão aí

A presidente Cristina Kirchner venceu com facilidade o ensaio geral da eleição argentina marcada para outubro. Lá tem disso. Dois meses antes de ir à urna para decidir de fato, o eleitor precisa comparecer para um faz-de-conta.

A viúva de Néstor deu de lavada, confirmou os prognósticos. Os adversários ficaram na poeira. Apesar das recentes derrotas dos candidatos dela em eleições locais, em regiões importantes.

Lá como cá o eleitor não vota em bloco. Não mistura as coisas. Pode perfeitamente caminhar de um jeito para prefeito, ou governador, e de outro para presidente da República. A maioria do eleitorado não olha para partidos, mas para pessoas, linhas.

Os Kirchner conseguem recolher a confiança popular por uma razão singela. Porque a Argentina deixou para trás a bagunça econômica legada por etapas desastrosas sucessivas. Um trabalho de desconstrução nacional sistemático.

Da desindustrialização dos militares à fantasia cambial de Carlos Menem, passando pela hiperinflação de Raúl Alfonsín. Uma bagunça que culminou no colapso do governo de Fernando de La Rúa.

Que pagou o pato pelas maluquices acumuladas, não mostrou energia para montar o touro bravo e precisou sair pela porta dos fundos. Ou pelo teto. De helicóptero.

Aí veio Néstor Kirchner, eleito na onda antimenemista, e teve a coragem de dizer que a dívida argentina era mais que impagável, até por já ter sido paga.

E impôs aos credores um deságio forçado dos títulos. A banca e os representantes dela chiaram, como esperado, mas a situação do país legitimava a ousadia.

O sucesso político de hoje dos Kirchner apoia-se naquela ruptura. Naquela recusa a tratar o “respeito aos contratos” como religião.

Kirchner fez apenas o que qualquer empresário faz quando pega uma firma com um monte de maus negócios em andamento. Entre morrer agarrado aos contratos e exigir a renegociação deles, vai sempre pela segunda opção.

Ainda que na hora de tratar com o governo o mesmo empresário prefira rezar pela cartilha do respeito aos contratos a qualquer custo.

A partir daquele passo a Argentina pôde entrar na trilha do crescimento econômico robusto e com estabilidade.

É pouco? Para os argentinos parece ser muito, daí as seguidas vitórias eleitorais do kirchnerismo.

Falta ainda à Argentina um arcabouço institucional para perenizar esse progresso com estabilidade. O governo investe sistematicamente contra a imprensa. A cultura política do confronto produz turbulências periódicas.

E a inflação é desagradavelmente alta. Sem que ninguém saiba direito qual é o número de verdade.

Mas na comparação com o antes a dupla Kirchner vai longe na frente. Os números comprovam. E as urnas também.

Inexplicável

Dilma Rousseff adverte para o necessário cuidado com a nossa jabuticabeira, a árvore que fornece a maior taxa básica de juros e o maior spread do planeta.

Desculpe, leitor, se às vezes aqui a coisa fica meio repetitiva. Mas se os problemas são os mesmos não há muito como fugir.

No discurso das nossas autoridades o Brasil é um portento planetário. Aqui as crises não chegam, ou chegam só como marolinha.

As nossas contas públicas são exemplares, produto da disciplina fiscal que o governo cultiva com mão de ferro.

No entanto, o governo brasileiro é o que tem mais dificuldade para rolar suas dívidas. Para pegar emprestado precisa pagar juros maiores do que qualquer outro país.

Jornais e revistas já organizaram séries com intervenções de sábios. Seminários discutem aprofundadamente o tema. Papers acadêmicos mostram o produto da imensa energia intelectual investida no assunto.

E os especialistas têm lá suas explicações, sempre proferidas com jeitão de verdade absoluta.

Mas o problema continua no mesmo lugar. Sem uma explicação simples e direta.

De duas uma. Ou 1) somos tudo o que acreditamos ser e então os juros aqui são um escândalo ou 2) nossos juros são necessários e o surto pátrio de autoestima hiperbólica é apenas o retrato de uma farsa.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (16) no Correio Braziliense.



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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quais são as regras? (15/08)


A encrenca alimenta-se de as pessoas não saberem qual é a norma que vale. De acharem que as regras para uns e outros são muito diferentes. Pois alguns são mais iguais que os outros

A presidente da República vem numa escalada de reconcentração de poder. É um movimento sistólico, lógico, diante da herança recebida. Herdada de um governo pulverizado. É também fonte de tensão com os aliados. E com o próprio PT.

Mas os políticos não são amadores. Diz a velha máxima brasiliense que os ingênuos ficaram nas suplências. A razão de uma certa instabilidade não é Dilma tomar o manche do governo dela. Ninguém se espanta com isso.

A encrenca alimenta-se de as pessoas não saberem qual é a norma que vale. De acharem que as regras para uns e outros são muito diferentes. Pois alguns são mais iguais que os outros.

Uma “revolução dos bichos”. Um governo orwelliano.

Das coisas que minam a autoridade do líder, toma destaque a falta de regras razoavelmente claras no sistema de punições e recompensas.

Por exemplo na reação governamental a acusações trazidas pela imprensa. 

Num dia a fúria do poder abate-se sobre os acusados, como aconteceu ao Partido da República. Noutro, o desagrado dirige-se ao jornalismo que revela confusões do Partido do Movimento Democrático Brasileiro.

Não há aqui juízo de valor. Apenas se constata que o tratamento em um caso foi um e no outro é outro.

Num dia a PF é  instrumento insubstituível para conter as irregularidades no governo. Doa a quem doer. Noutro, vaza-se desconforto por a instituição atacar pontos políticos sensíveis.

Um parêntese. Foi inaceitável o episódio das fotos vazadas dos investigados no Turismo. As autoridades dizem que tomarão providências.

O episódio é um sintoma de descontrole tático.

Já a bagunça estratégica poderá nascer da dúvida sobre a regra do jogo. Sobre o que está valendo e o que não. E para quem. E em que caso.

Como se manifestará essa bagunça? Talvez com o governo deixando pedaços pelo caminho. Como foi no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, por motivos diversos.

Quando se instalou a lógica do cada um por si e Deus por ninguém.

É um risco para Dilma, ainda mais numa época de incerteza econômica. Mesmo que no começo o risco pareça negligenciável.

Na aritmética da base parlamentar a presidente tem muita reserva para queimar. Excesso.

Só que quando o processo de desagregação se instala e adquire certa velocidade, ganha dinâmica própria.

Mas Dilma possui margem. Um trunfo dela vem sendo a capacidade, até agora, de estar no lado simpático das polarizações. De empurrar a cada round o oponente para as cordas das teses indefensáveis.

Filme novo

A exploração de situações constrangedoras relacionadas à corrupção dá um gás para quem tem a missão de se opor ao governo.

É assim ao longo destes anos, em que a vida reservou ao PSDB o posto de oposição.

Mas agora a conjuntura ficou mais complexa.

Pois não vai dar para fazer contra Dilma uma campanha eleitoral acusando a eventual candidata à reeleição de ter governado de mãos dadas com os malfeitos. 

Ou com os malfeitores.

É uma mudança e tanto.

O que desafia a oposição a buscar um discurso articulado na esfera das grandes políticas de governo.

Exatamente o que não se vê até agora.

Vespeiro

O relacionamento entre as organizações não governamentais e os orçamentos públicos foi e é fonte segura de confusão.

O governo quer mexer nisso, o que promete gerar mais confusão ainda.

Pois o Brasil, e desde bem antes do PT, contruiu um sistema no qual “não governamentais” é tudo que essas organizações não são.

A cada administração, a nova turma traz com ela o acessório “privado” para drenar os cofres.

É um modus operandi consolidado na terceirização do Estado brasileiro.

Um vespeiro no qual não se sabe quem terá coragem de mexer para valer.


Coluna publicada nesta segunda (15) no Estado de Minas.



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domingo, 14 de agosto de 2011

Profissionalizar (14/08)


A presidente vai bem no tratamento das acusações contra membros da equipe dela, mas agora está desafiada pelo baguncismo. Que não rima com profissionalismo

A lógica acaciana informa: tudo vai bem até ir mal. A presidente Dilma Rousseff ia bem nos episódios de acusações contra membros do governo. Tomava providências e projetava imagem de rigor.

De dureza contra a corrupção. O que se espera de quem vai sentado na cadeira presidencial.

Dilma vinha atendendo a demanda. E com o destemor de quem não reza pela cartilha alheia.

O episódio no Ministério do Turismo introduziu elementos perturbadores na relação da presidente com o ambiente político-policial.

Houve o desconforto pelas implicações políticas. Paciência. A PF não precisa de autorização do Palácio do Planalto para fazer o trabalho dela.

Foi um primeiro mau jeito. O Planalto não tem prerrogativa legal de exigir saber antes como a PF vai tocar um caso.

Desde que a força policial aja dentro da lei. E das normas hierarquicamente determinadas.

Agora, vem esta inacreditável exposição dos investigados, ou pelo menos de alguns deles, politicamente mais apetitosos.

Fotografados sem camisa, em situação humilhante na cadeia.

Dirá o senso comum ser bom políticos suspeitos de crimes receberem o mesmo tratamento desrespeitoso dado aos do povo.

Para que os de cima vejam como é bom para a tosse, sintam na pele.

Será?

Melhor seria percorrer a estrada oposta. Garantir a todos os direitos previstos na lei e aplicados apenas para alguns, mais bem posicionados e munidos.

O arbítrio e a violência, inclusive moral, contra alguém “da alta” não ajuda a estimular o respeito aos direitos humanos dos demais.

Ao contrário.

Ao institucionalizar-se a ausência de limites, legitima-se alguma perseguição a graúdos, mas junto complica-se para valer a vida dos nem tanto.

Pois os primeiros costumam ter dinheiro, prestígio e relações para mobilizar na hora do aperto.

Já o povão só tem mesmo a esperança de ver a lei cumprida. Especialmente os pedaços dela dedicados aos direitos e garantias individuais.

O arbítrio é sempre para todos. Especialmente para os menos providos de defesas materiais.

Por isso, é ilógico exultar diante da violência contra quem achamos que “merece”. Isso não promove justiça social.

Pois amanhã a violência socialmente legitimada pode se voltar contra qualquer um.

O episódio do Ministério do Turismo apresenta elementos de regressão no profissionalismo que a PF havia alcançado nos últimos anos.

Quando conteve o espetáculo e se concentrou na produção de resultados capazes de facilitar a condenação.

A PF é essencial, mas não substitui o Ministério Público nem a Justiça.

Ainda que, num ambiente percebido como de impunidade, o povão adore a justiça sumária.

Desde que para os outros, claro.

O caso vem infelizmente revelando uma dose de baguncismo, que pode dar ainda muita dor de cabeça à presidente da República.

Que, em vez de se deixar tentar por controlar politicamente o trabalho da PF, talvez devesse lançar o foco sobre o exigido profissionalismo.

Inclusive para não enfraquecer a própria Polícia Federal.

Fora de lugar

As ideias são decisivamente influenciadas pela realidade material.

Mas é verdade também que isso acontece com atraso. As ideias velhas resistem pela força do hábito, da inércia.

O governo anterior do PT aceitou uma polarização com a imprensa, ou pelo menos com o pedaço supostamente mais influente dela.

Luiz Inácio Lula da Silva costurou uma base política para enfrentar a opinião pública.

Já Dilma, até agora, percorre o caminho oposto. Apoia-se na opinião pública para enfrentar a própria base.

Pois precisa tomar o comando do governo que ela deseja comandar. Um governo que sua excelência recebeu descentralizado além da conta.

Nessa inversão, o discurso de viés governista contra “a mídia” soa como ideia fora de lugar e de hora.

Os tempos são (bem) outros.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (14) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Feijões e feijões (12/08)


Como de hábito, pressões desencadeiam-se. Para tentar encurralar o governo e conseguir que a presidente da República vete o feijão transgênico da Embrapa, 100% verde-amarelo. Argumentos? Os de sempre

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu um feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado, praga transmitida por inseto cujo nome popular é “mosca branca”.

O feijão geneticamente modificado é totalmente nacional.

Não há multinacionais envolvidas no desenvolvimento. É 100% nosso.

A coisa passa pelos processos da CTNBio, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, órgão do governo encarregado de atestar a qualidade do produto. Bem como a segurança do consumo dele.

Assim como seu impacto ambiental.

A comercialização depende de aval do conselho de ministros competente, segundo a legislação.

Mas, como de hábito nesses casos, pressões desencadeiam-se. Para tentar encurralar o governo e conseguir que a presidente da República bloqueie o andamento, vete a comercialização.

Argumentos? Os de sempre. A interpretação estrita do princípio da precaução, por um viés capaz de bloquear todo e qualquer avanço científico.

Aliás, se adotássemos o tal princípio nos moldes apregoados pelo fundamentalismo qualquer alimento estaria proibido para o consumo.

Pois tudo que comemos hoje é produto de algum tipo de engenharia genética.

Alguma feita pelo homem. A imensa maior parte, pela própria natureza.

A polêmica sobre os transgênicos no Brasil vem de longe, mas não consta que os núcleos de resistência ao desenvolvimento científico tenham apreendido algo útil da discussão, ou pelo menos aceitem confrontar suas teses com a realidade.

Basta recordar o radicalismo que marcou a disputa sobre a soja transgênica. Foi uma guerra civil ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

Muito calor e pouca luz. Nenhuma das ameaças potenciais apontadas pelo precaucionismo radical se comprovou. Nenhumazinha. Índice zero de acerto.

A soja transgênica e seus derivados são hoje consumidos em larguíssima escala. Não há um relato, uma suspeita, um mísero caso de alguém cuja saúde tenha sofrido por causa do consumo.

E o anunciado desastre para os ecossistemas? Ninguém sabe, ninguem viu.

Estatisticamente, a esta altura talvez seja um dos experimentos mais confiáveis da história. Nem que só pelo tamanho do universo observado.

Mas isso é irrelevante para o fanatismo, imbuído da missão de bloquear a todo custo o desenvolvimento na área.

Por falar em feijão, tempos atrás soube-se que um broto do dito cujo foi substrato para o aparecimento de nova e mortal modalidade da bactéria Escherichia coli no centro-norte da Europa.

Teve gente que morreu.

E não é que o tal broto de feijão era cultivado em ambiente classificado de orgânico? Natural da Silva. Como Deus criou.

Imagine por um instante, caro leitor ou leitora, a tempestade que seria desencadeada caso o micróbio mortífero viesse ao mundo num meio de vegetais geneticamente modificados.

Mas não se viu nenhum movimento, nenhuma iniciativa, nenhum pio em defesa da suspeição das culturas orgânicas.

Não se invocou o princípio da precaução. A polícia política não foi chamada e intervir.

Não se convocaram audiências públicas no nosso Congresso Nacional para exigir a introdução de novas normas destinadas a prover segurança ao consumidor de orgânicos, coitado, desprotegido.

Não se anunciou o fim do mundo. Não houve alertas para informar do apocalipse.

Ninguém deu a mínima.

É um detalhe que fala por si.

O que quer?

Um bom princípio da administração de qualquer coisa é resolver problemas na mesma velocidade que são criados.

Ou uma hora a coisa fica inadministrável.

A fila de pautas incômodas para o governo no Congresso Nacional faz inveja àquelas comuns em shows de artistas populares.

Tem assunto para todos os gostos. É gastar, gastar e gastar. Numa época em que o Planalto prefere economizar, economizar, economizar.

Isso e mais o desarranjo na base produzem, quase inercialmente, a atual paralisia.

Na política, este governo precisa definir com urgência o que quer, até para saber com quem deseja contar.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (12) no Correio Braziliense.



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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um freio de arrumação (11/08)


Ameaças à economia são bom argumento para frear pressões por gastos, mas sucessivas revelações de irregularidades administrativas acabam tirando autoridade de quem pede austeridade

A presidente da República enfrenta o primeiro funil, o primeiro corredor polonês, com a base política algo instabilizada, a economia exibindo nuvens escuras e taxas de aprovação em ligeiro declínio.

É possível que os índices estejam influenciados pelas acusações de malfeitos. Possível é, mas convém tomar cuidado.

A presidente tem fixado nesses episódios uma imagem altiva, alinhada com as aspirações da maioria por um governo honesto. E não há acusações contra ela.

Flutuações expressivas de opinião no eleitorado costumam vir relacionadas a mudanças de avaliação da própria situação e das perspectivas futuras.

E aí o que era menos importante passa a ser mais. O aceitável deixa de ser.

Está em andamento certa deterioração nas expectativas econômicas, o que acaba produzindo impacto no juízo sobre as políticas públicas.

E no olhar sobre o governo. E sobre quem o comanda.

Pela maioria das previsões realistas o Brasil fecha este 2011 com um crescimento que será metade do de 2010. Terá perdido portanto 50% do ritmo.

Tirada a inércia, 2011 terá sido um ano perdido.

E a desaceleração econômica convive com a alta dos preços, que o governo promete irão pousar suavemente, sem comprometer o que resta de crescimento.

Mas isso é promessa. Enquanto não se realiza, a realidade para o cidadão é expansão econômica medíocre acompanhada de inflação incômoda.

Combinação que costuma produzir efeito negativo na confiança do consumidor. E em seguida na maneira como ele vê o governo. E a presidente.

Diante do contraste com a euforia de 2010, o impacto negativo do breque econômico estava precificado. Não vinha precificada, entretanto, a combinação de enfraquecimento econômico e turbulências políticas.

Uma soma de vetores que torna mais difícil a travessia, pois o governante fica vulnerável a pressões, especialmente quando precisa implementar medidas austeras.

Como é o caso agora. Ameaças à economia são bom argumento para frear a demanda por gastos, mas sucessivas revelações de irregularidades administrativas acabam tirando autoridade de quem pede austeridade.

Nada que Dilma Rousseff não possa enfrentar, pois tem a caneta e dispõe de maioria ainda confortável. Mesmo no caso de instalada a Comissão Parlamentar de Inquérito em ensaio no Senado, o governo teria maioria nela e condições de controlá-la.

Na largada.

Pois o risco é uma eventual CPI transformar-se em palco de ajuste de contas intragoverno, um caldo de cultura bem sensível na Esplanada de hoje.

Onde paira a desconfiança de que a tal “faxina ética” seria mais adequadamente rotulada com a etiqueta de “limpeza étnica” orwelliana.

Com alguns bem mais iguais que os outros.

Daí por que o governo talvez esteja a precisar de um freio de arrumação. Pode até ser meio na moita.

Pois dá a impressão de vir algo desarrumado. Apesar de formalmente no começo.

Xadrez

A instabilidade econômica internacional já produziu pelo menos um efeito favorável ao Brasil: a valorização do dólar.

Pois a corrida não é contra os títulos americanos, é a favor. E eles são negociados em dólar.

Dólar mais caro é mais receita para nossos exportadores, já beneficiados pelo recente pacote de defesa econômica.

Mas não existe almoço grátis, e se o dólar mais caro ajuda a manter empregos aqui dentro também enfraquece a âncora cambial.

Com os importados encarecidos, vem mais pressão inflacionária. Que talvez seja neutralizada pela retração da demanda.

Retração que entretando ainda não é sentida por aqui. Diferente do fim de 2008, quando tudo parou.

A situação vai exigir pilotos treinados para voar na tempestade, e sem instrumentos.

Bom

O Brasil faz parte de uma missão de países não hegemônicos que busca em Damasco a solução negociada para a crise síria.

Tomara que dê certo. A contabilidade dos mortos ali não para.

É uma boa iniciativa do Brasil. Até para depois, caso não dê certo, a nossa diplomacia poder fazer o que deve ser feito.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (11) no Correio Braziliense.



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