domingo, 31 de julho de 2011

Farsa intelectual (31/07)


A guerra pelo spot de vítima tem base lógica, porque o multiculturalismo para todos seria, no limite, completamente disfuncional. Para a sobrevivência de alguma civilização, uns precisariam ter mais direito ao multiculturalismo que outros

Os atentados na Noruega deram um gás ao debate sobre o multiculturalismo. O conceito propõe validar as diversas culturas no mesmo nível, rejeitar a ideia de umas estarem acima de outras.

E portanto rejeitar a prerrogativa de umas imporem normas e restrições a outras.

Em geral a crítica ao multiculturalismo é "ocidentecentrada". Uma forma extrema foram os terríveis atentados de Oslo. O maluco -no grau em que ainda for diagnosticado- imbuiu-se da missão de guerrear contra a presença islâmica na Europa.

Um parêntese. Não é por o sujeito ser maluco que seus atos estão imunes à análise política. Aliás, sanidade mental nunca foi requisito para a atividade.

De volta. Agora na Noruega um sujeito decidiu pelo terror contra o multiculturalismo.

Ainda que o assassino possa recusar o rótulo. Dizer que é guerra, não terror. Nem é tão novidade assim. O terrorismo sempre encontra uma justificativa, uma maneira de apresentar-se legítimo.

De um lado e de outro, se for mesmo para dividir a coisa em dois lados antagônicos, como propôs a mente perturbada de Anders Behring Breivik.

Entrar na polêmica sobre o multiculturalismo é complexo. O debate costuma vir carregado de sentimento de culpa ocidental-cristão. Ou judaico-cristão.

Assim, as demais culturas e religiões ganham legitimidade adicional para se apresentar como formas de resistência.

No Brasil tolera-se que índios matem seus filhos portadores de deficiência. É olhado como traço cultural a respeitar. Porque são índios.

É capaz de o mesmo sujeito numa hora criticar, com razão, os governantes incapazes de providenciar acessibilidade e na outra defender o indígena cuja cultura autoriza matar crianças deficientes.

E se olhássemos os atos do maníaco de Oslo pelo ângulo do multiculturalismo? Ainda que apenas como exercício intelectual? A conclusão seria aterradora. Em vez de simplesmente condenar, estaríamos obrigados a “tentar entender”.

Condenados a “combater a origem do problema, e não suas manifestações" extremistas.

Assim como “tentamos entender”, ou tentávamos, o Exército Republicano Irlandês (IRA), o Pátria Basca e Liberdade (ETA). Ou o Hamas. Ou o Hezbollah. Ou a insurgência iraquiana. Ou o terror curdo contra a dominação turca.

Ou talvez o Unabomber.

Supostos motivos para o terrorismo sempre haverá, sempre será possível formulá-los, construí-los sobre os alicerces da vitimização.

Pode ser o Islã vitimizado diante de um Ocidente sedento de petróleo. Ou pode ser a Europa vitimizada por uma invasão bárbara.

Note-se que a posição de vítima, por essa linha, é fonte suficiente de legitimidade para praticar a violência não-estatal, para romper o monopólio estatal da violência. Daí a batalha por esse nicho, o do vitimizado.

É uma guerra central de nossa época. Se a vítima pode tudo, ser vítima confere uma vantagem insuperável.

O portador da insígnia dominará uma posição estratégica, autorizado a usar todo tipo de arma contra o inimigo. E sem a recíproca.

Essa disputa pelo spot de vítima tem base lógica, talvez na autodefesa da espécie, porque o multiculturalismo para todos seria, no limite, completamente disfuncional. Como se deduz do caso norueguês.

Para a sobrevivência de alguma civilização, uns precisariam ter mais direito ao multiculturalismo que outros. Ou, aí sim, viria a barbárie.

No multiculturalismo para todos, o assassino de Oslo deveria, na preliminar, receber a mesma carga de compreensão piedosa reservada, por exemplo, aos insurgentes iraquianos.

E em vez de condenação talvez merecesse concessões.

Idem os agentes iranianos que explodiram o centro comunitário judeu em Buenos Aires.

Eis por que o dito multiculturalismo é forte candidato a farsa intelectual.

Ou seria para todos ou para ninguém. Mas quem defendesse a primeira opção estaria obrigado, entre outras barbaridades, a sair em defesa do assassino de Oslo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (31) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Contaminação às avessas (29/07)


Seria bom se o PT contagiasse os demais partidos e estes passassem a praticar um pouco mais de democracia interna. Mas a tendência parece ser o contrário

O PT ensaia abandonar o mecanismo de prévias, quando os filiados escolhem pelo voto direto os candidatos a cargos majoritários, se há disputa interna. Caso consumada, a mutação vai nivelar um pouco mais o PT aos demais partidos.

No que têm de pior.

A democracia interna vem sendo um traço distintivo do PT, em contraste com a concorrência. O partido nasceu como aglomerado de tendências e grupos. Ao longo dos anos as correntes surgiram, desapareceram, mudaram de nome, fundiram-se.

Mas o mecanismo de disputa ficou essencialmente preservado.

A corrente majoritária, comandada por Luiz Inácio Lula da Silva, manteve o controle absoluto da sigla nestas três décadas, com exceção de um pequeno período. Nenhuma oposição interna conseguiu consolidar-se.

Mas quem quis disputar sempre pôde.

Até o momento ninguém propôs no PT acabar com outro mecanismo democrático: as eleições diretas para escolha de dirigentes partidários nos diversos níveis. Talvez seja questão de tempo.

No Brasil, os partidos funcionam assim. O dono da legenda naquele nível decide tudo. O candidato majoritário, a chapa proporcional, como investir o dinheiro. Os partidos brasileiros são ajuntamentos de caciques.

Abastecidos com dinheiro público, sem precisar prestar contas a ninguém.

Entre convergir para organizações de massas ou de quadros, as siglas nacionais descobriram uma terceira via. O Brasil é o paraíso dos partidos de personalidades.

O sujeito consegue poder sobre uma máquina estatal qualquer, usa-a para sustentar e proteger os amigos, e acabou.

Certo pedaço do PT teme a continuidade de prévias, especialmente num centro vital como São Paulo, pois a disputa poderá deixar sequelas.

Em português mais claro, Lula quer impor o ministro Fernando Haddad como candidato a prefeito ali. E enfrenta resistências.

Pois o PT em São Paulo tem líderes consolidados, além de políticos emergentes. A candidatura de Haddad, de uma penada, aposentará os primeiros e fechará a porta aos segundos.

Na vitória ou na derrota, o hoje ministro da Educação fincará uma estaca como a nova proeminência, a nova referência para o grande público. E uma página terá sido virada. O pensamento de Lula envereda pelas mesmas trilhas tateadas por Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin. Todos estão — ou dizem estar — atrás de um nome que possa representar renovação.

Renovação à brasileira. Na base do dedaço caciquista. “O povo quer um político novo”, informam as pesquisas e os marqueteiros. Desde que seja da confiança dos políticos velhos, informam suas excelências.

É a regra do jogo.

Seria ótimo se, neste ponto, os hábitos do PT contaminassem os demais. O PSDB, por exemplo, vive às voltas com a fraqueza resultante da incapacidade de produzir uma disputa interna democrática e com regras claras.

Mas parece que o processo vai ao contrário.

É bom

O mundo está em polvorosa porque a Casa Branca engrossa com o Congresso —e vice-versa— na dívida interna.

É ameaçador. Mas também reconfortante. Congresso com poder real no debate sobre o orçamento é sintoma de democracia.

Aqui a coisa já estaria resolvida numa canetada. Como aliás vem acontecendo, pois o endividamento público vai de vento em popa sem que ninguém dê pelota.

A conta sobrará para todos nós, mas o povo está à margem.

Absoluta

Uma ficção recorrente é a suposta vantagem de preencher cargos de confiança com funcionários de carreira. A cada escândalo, o espanto com as “nomeações políticas” cria o ambiente.

É um debate sem sentido. Esteja no cargo quem estiver, deverá prestar contas a quem o indicou. Isso vale para todos os indicados por razões políticas, sejam de carreira ou não.

Sempre que você vir alguém clamando por “nomeações técnicas”, procure saber a que partido, grupo ou corrente se filia o candidato “técnico” que este alguém apoia para o cargo.

Governo é um lugar em que as pessoas estão por razões políticas. Eis uma verdade absoluta


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (29) no Correio Braziliense.



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quinta-feira, 28 de julho de 2011

O sucesso de um modelo (28/07)


Humala assume num momento de crescentes incertezas econômicas. Talvez não venha a dispor da abundância de capitais externos sobre a qual o Brasil ergueu a sua atual política econômica
 
O modo como o presidente peruano Ollanta Humala chega ao governo é paradigmático de uma estratégia desenvolvida pelo PT no Brasil e agora exportada com sucesso para o vizinho nos Andes.

Moderação econômica, ênfase nos programas sociais e  busca de uma posição não hostil aos Estados Unidos.

Na resultante, a procura de um ambiente estável em prazo suficientemente longo para permitir a consolidação e a capilarização do poder. Com isso, e para isso, isolar a oposição política de suas fontes internas e externas de legitimidade.

Vem funcionando razoavelmente aqui. Funcionará com Humala?

O novo presidente peruano era na origem mais assemelhado a outro líder regional, o venezuelano Hugo Chávez. Na extração militar, nas raízes indígenas e na ideologia, que combina o nacionalismo à etnicidade.

Daí o nome do movimento que o catapultou à política nacional: o etnocacerismo. Uma fusão de nacionalismo militar, central na história moderna do país, e nativismo inca.

Mas o modelo chavista, confrontacional, mostrou-se recentemente algo desvantajoso. Na economia e na política.

Nesta, o ponto de inflexão talvez tenha sido a crise hondurenha, quando o presidente Manuel Zelaya pretendeu romper os limites institucionais e acabou vítima de um vitorioso golpe de estado.

Cujo desfecho se deu pela via pacífica, com a eleição de um sucessor e o último acordo político de reconciliação. O resultado da encrenca acabou por reforçar a posição americana e enfraquecer Chávez, o sócio de Zelaya na aventura que tirou o hondurenho da cadeira.

O Peru é exemplo regional de sucesso econômico, mas o presidente que sai, Alan Garcia, não pôde ou não quis influir decisivamente na própria sucessão. Provavelmente porque planeja voltar mais adiante e não arriscou catapultar uma liderança alternativa no seu próprio campo.

É sempre uma aposta arriscada, mas vai saber?

Humala, que perdera a última disputa para Garcia, venceu agora a filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko. O etnocacerista conseguiu atrair um pedaço do voto centrista-conservador, bem expresso no apoio recebido do escritor e Prêmio Nobel Mário Vargas Llosa, liberal convicto e militante.

Humala agitou bem a bandeira antigolpista, antifujimorista, e acabou levando por estreita margem no segundo turno.

Sua receita para obter os recursos necessários à implementação das políticas sociais é aumentar a taxação sobre setores oligopolizados, o mais destacado deles a mineração.

Humala assume num momento de crescentes incertezas econômicas. Talvez não venha a dispor da abundância de capitais externos sobre a qual o Brasil ergueu uma política econômica que, simultaneamente, tem garantido os benefícios sociais aos mais pobres, a remuneração generosa ao capital financeiro e algum controle da inflação.

É possível que o novo presidente peruano talvez precise copiar outro vetor do modelo brasileiro: a desnacionalização maciça, marcada pelo bonito nome de “investimento direto”. O mecanismo de preferência para atrair recursos que permitem o fechamento das nossas contas externas.

Como Humala vai combinar isso com o discurso nacionalista? Nem aqui precisará ser original. O que antes seria a inaceitável entrega das riquezas nacionais aos estrangeiros transformar-se-á rapidamente em sinal de confiança do resto do mundo na economia peruana.

E os opositores, eles próprios defensores dessa próspera alienação, irão dividir-se entre aplaudir e remoer-se de inveja. Estes últimos desperdiçarão tempo e energia cobrando coerência. E serão chamados de ressentidos, de não aceitarem a chegada do povo ao poder.

Assim como toda projeção, esta minha pode ser furada. Mas ela é pelo menos divertida.

Fascista

Culpar os cristãos ou os conservadores pelos atos do maluco de Oslo equivale a criminalizar os muçulmanos pelas ações da Al Qaeda.

Quando alguém aceita lançar mão do conceito de culpa coletiva, permite invariavelmente que a irracionalidade penetre um pouco mais na própria alma.

Fica um pouco mais fascista, em resumo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (28) no Correio Braziliense.



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quarta-feira, 27 de julho de 2011

O mercado e o povão (27/07)


O "PIB potencial" está aí, vivinho da silva, a lembrar que somos um país condenado pelos nossos governantes a crescer pouco. Apesar de todas as promessas e ilusões em contrário

Como o Brasil vai sair da encalacrada simultânea de uma inflação no limite máximo com um dólar no limite mínimo? O governo parece ter optado pela saída mais confortável. Juro alto e real forte, o suficiente para funcionar como âncora anti-inflacionária.

As importações seguram a onda dos preços, mesmo ao custo do crescimento, especialmente o industrial.

Na sua coluna de ontem no Valor Econômico o ex-ministro Delfim Netto afirmou que o crescimento vistoso de 2010 não passou de um artefato estatístico.

O objetivo do articulista foi contrapor aos que pedem mais aperto monetário, e aqui ele está alinhado com a presidente da República, com a Fazenda e com o Banco Central.

Segundo Delfim, o crescimento brasileiro real, depurado das excepcionalidades, vem patinando em torno de 4% ao longo destes anos todos. E é verdade.

Curioso apenas que o discurso sirva para um público, o mercado, mas não para outro, o povão.

Para o mercado afirma-se que o Brasil cresce pouco, e por isso não seria prudente apertar ainda mais a política monetária. Para o povão vende-se a ideia de que o Brasil arrancou definitivamente para adiante.

O antecessor de Dilma, por exemplo, repisou estes dias a fantasia de que o governo dele derrubou a tese do PIB potencial de 3%, tese segundo a qual a economia brasileira não poderia expandir a uma taxa superior sem produzir inflação excessiva.

Mas se sua ex-excelência olhar os números verá que o tal PIB potencial continua forte e saudável. Depois do "artefato estatístico", a crer nas palavras de Delfim, voltamos à mediocridade. Crescimento abaixo de 4%, mas agora com inflação acima de 6%.

Na prática o governo ajustou para dois pontos acima de 4,5% a meta de inflação, sem admitir oficialmente. Na real a meta agora é 6,5%

Uma mediocridade, portanto, além de tudo perigosa. Mas que serve ao governo para refutar pressões ortodoxas.

Caberia talvez aqui uma pergunta. E o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)? Por que não acelerou o crescimento? É uma dúvida razoável.

Dirá o governo que estamos crescendo bem mais do que o mundo desenvolvido. Verdade. Mas uma verdade conveniente. Pois nossa expansão é bem menor que a dos demais emergentes. Essa é outra verdade.

Trata-se de um truque habitual. Conforme o caso comparamo-nos a quem mais convém. Que tal se nos comparássemos, por exemplo, aos europeus e americanos não só no crescimento, mas também na educação, na saúde, na infraestrutura e na segurança pública?

Mas nosso desafio maior não é decifrar as polêmicas e as malandragens políticas, é crescer e criar empregos.

Há as estatísticas fantasiosas, segundo as quais vai tudo bem. Aliás o Brasil talvez seja o único país em que os índices de emprego e crescimento dançam independentemente. O país pode estar melhor ou pior, mas os números de emprego saem sempre bons do forno oficial. Curioso.

Na vida que vale escasseia o emprego de boa qualidade e o desemprego entre os jovens permanece motivo de forte preocupação.

Especialmente por causa da estagnação industrial. Essa filha indesejada do casamento incestuoso do juro alto com o dólar fraco. Mas que ajuda os governos quando a temperatura dos preços ameaça ficar alta demais. E que se lasque o futuro do país.

Ilusionismo

Alguém com tempo para desperdiçar deveria fazer a lista do número de vezes que as autoridades econômicas vieram a público para garantir que, agora sim, o governo tinha adotado medidas suficientes para conter a valorização do real.

Mas isso não chega a ser notícia. Inclusive porque repete um padrão. Na crise de 2009 era habitual as autoridades virem aos microfones para prometer um crescimento de pelo menos 4%. No fim o número veio negativo, retração.

No Brasil, infelizmente, a regra não é as autoridades econômicas dizerem o que está acontecendo. Mas o que elas gostariam que nós acreditássemos que está acontecendo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (27) no Correio Braziliense.



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terça-feira, 26 de julho de 2011

Para quem vai sobrar (26/07)


O governo dá sinais de achar que o problema no etanol é apenas de regulação. Mas o mercado trabalha com parâmetros de rentabilidade. Daí a conclusão óbvia dos empresários: se o governo deseja mais produção, que garanta o lucro

E aconteceu o impensável. O etanol é lobo mau da inflação num período, a safra da cana, em que deveria estar mais para chapeuzinho vermelho. Era para ser solução na guerra contra a alta de preços e virou problema.

A aceleração do preco do álcool de cana quando deveria estar desacelerando -ou até recuando- é sintoma de desajuste grave. Um choque de oferta que merece atenção e ação das autoridades.

O álcool de cana pintou anos atrás como a grande aposta limpa e renovável do Brasil para criar um mercado planetário de biocombustíveis. Um passeio pelo google dirá quanto tempo, energia e dinheiro se investiu na empreitada.

Como de hábito, o então presidente da República, o autonomeado caixeiro-viajante do etanol brasileiro, preferiu desqualificar os críticos, ou os que tinham dúvidas. Agora colhemos a herança maldita da autossuficiência e da arrogância.

E que safra!

Como era previsível -e foi previsto- o Brasil fracassou ao tentar persuadir o mundo a substituir em grande escala os combustíveis fósseis por biocombustíveis. Sustentou que isso não teria qualquer impacto na oferta de alimentos, mas não convenceu.

As terras agricultáveis são finitas, ainda mais num ambiente de hegemonia do pensamento ecologicamente correto. O mundo parece convencido das vantagens de congelar a expansão das fronteiras agrícolas.

Ideia que nosso governo aliás aceita com passividade admirável.

Então ou se plantam alimentos ou se planta combustível. Há a sempre repisada tese do reaproveitamento das terras degradadas, mas até agora não saiu do papel.

E com a demanda por comida aumentando de maneira consistente os preços e as políticas de segurança alimentar estimulam juntos a decisão a tomar. E que vem sendo tomada, em todo o mundo.

Outra dificuldade posta diante do desejo brasileiro é o desconforto de o mundo trocar a dependência a um punhado de produtores de petróleo pela dependência a um punhadinho de produtores de etanol.

Qual seria a lógica de substituir uma incerteza por outra maior ainda? Se os Estados Unidos quebram a cabeça para ficar menos reféns do petróleo árabe, por que motivo optariam por criar uma nova escravidão, a um mercado de ainda menos fornecedores?

O cenário é irreversível? Não completamente, dadas as pressões internas nos Estados Unidos para derrubar os subsídios ao etanol de milho. É a grande rota de fuga sonhada para o encalacrado etanol de cana brasileiro.

Mas enquanto a rota não se abre de vez -e há dúvidas sobre quanto se abrirá-, resta o imbroglio de o que fazer com os investimentos postos para vitaminar a indústria brasileira do biocombustível de cana.

O governo dá sinais de achar que o problema é apenas de regulação. A intervenção estatal no mercado seria o caminho. Mas o mercado trabalha com parâmetros de rentabilidade. 

Daí a conclusão óbvia dos empresários: se o governo deseja mais produção, que garanta o lucro.

Ou então o pessoal vai colocar o capital em outras coisas mais apetitosas. Assim funciona o capitalismo. E nem a pressão momentânea de demanda parece ser suficiente para fazê-los mudar de ideia.

Mas para garantir a lucratividade da turma o governo vai precisar colocar dinheiro. Não o dele, que ele não o tem, mas o nosso.

Como se não houvesse infinitas coisas mais importantes e urgentes merecendo investimentos governamentais.

O governo mete os pés pelas mãos, vende terreno na lua e a conta sobra para o povo. De novo.

De boca

Projeções de inflação e crescimento são como pesquisas eleitorais. Uma hora acabam convergindo para a realidade.

Toda segunda-feira o Banco Central divulga seu apanhado de previsões do mercado financeiro. Como já estamos quase em agosto, não resta muito espaço para a turma jogar.

Pelo menos com os números de 2011.

O ano leva jeito de que vai terminar na mediocridade prevista. Inflação perto do topo da meta (6,5%) e crescimento patinando em torno da metade do número de 2010.

Mas a preocupação maior é com 2012, para o qual a projeção de inflação continua subindo, e resiste bem acima do centro da meta de 4,5%.

O pessoal parece estar convencido de que o compromisso anti-inflacionário do governo Dilma Rousseff só é firme mesmo da boca para fora.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (26) no Correio Braziliense.



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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Só neste caso (25/07)


As drogas constituem problema grave, ameaça a crianças e jovens, vetor gravíssimo de dano à saúde, à família e à sociedade. Mas há um segmento convencido de que, neste caso, sua própria liberdade de escolha deve estar acima do interesse social

Os promotores da liberalização do consumo de drogas abordam o tema por dois ângulos. O central é a defesa da liberdade individual.

O segundo é a busca de abordagem mais flexível para algo que supostamente não pode ser evitado: a busca humana por substâncias-muleta para o espírito.

Mais recentemente, diante da recusa popular às ideias liberalizantes, políticos engajados nessa trip organizaram certo recuo tático. É uma nova fase, mascarada, no proselitismo.

Agora, o melhor combate à epidemia das drogas será reduzir a dureza das punições e dar prioridade ao tratamento e ao desestímulo, para o usuário deixar de sê-lo.

É a legalização benevolente e limpinha. Como se não houvesse consenso absoluto para a necessidade de ajudar as vítimas do mal. Como se houvesse antagonismo entre combater o vício e ajudar quem nele vai mergulhado.

Notei outro dia a assimetria argumentativa quanto a certos valores. Dei o exemplo do contraste entre duas formas de olhar o direito à vida.

A vida das plantas e animais merece engajamento irrestrito. Corta uma árvore para ver o que te acontece.

Já a vida do embrião ou feto humano deve estar, segundo esse viés, submetida ao livre arbítrio da mulher que carrega o novo ser.

Em nome da liberdade irrestrita de a mulher decidir o que fazer com o próprio corpo. Ainda que o embrião ou feto não faça parte do corpo materno. Ela apenas o abriga.

São discussões complexas, mobilizam convicções religiosas e filosóficas profundas, e precisam ser tratadas com os devidos respeito e seriedade.

Nenhum segmento deve ser excluído. Na última campanha eleitoral, por exemplo, causou espécie aos autonomeados modernos que igrejas se mobilizassem contra a legalização do aborto.

Para certos democratas, a defesa do direito a abortar é legítima bandeira político-eleitoral, ensejando inclusive o lançamento de organizações para a promoção da tese.

Mas quem se opõe deve ficar calado, pois representa o “atraso”.

São democratas mesmo, como se vê. Compreendem a expressão “fazer o debate” como sinônima de “suprimir a opinião contrária”.

Nas drogas é algo parecido. É evidente que elas são problema grave, ameaça a crianças e jovens, vetor gravíssimo de dano à saúde, à família, à sociedade.

Mas há um setor convencido de que, neste caso, sua própria liberdade de escolha deve estar acima do interesse social. Mas só neste caso, claro.

E volta a guerra do “avanço” contra o “atraso”.

A pior forma

A Prefeitura de São Paulo e o governo federal vão dar um estádio de presente ao Corinthians.

O governo estadual vai garantir o dinheiro para ele abrigar a abertura da Copa.

Suponhamos que isso seja mesmo prioridade, em si já duvidoso. Mas suponhamos.

Então, se os governos decidiram fazer, o patrimônio resultante deveria ficar para o povo, e não para os amigos dos governos.

Se são os impostos, atuais e futuros, que vão bancar o presentinho, que ele seja dado à população. O estádio merece carregar o “municipal”, o “estadual” ou o “federal”.

Se o dinheiro é estatal, o valor que ele permite criar deve ser de propriedade do público, e não de alguns amigos do governante de
plantão.

O placar

Quantos sírios precisarão ser mortos a mando de Bashar Assad para que a dupla Dilma Rousseff e Antonio Patriota, a dos “direitos humanos inegociáveis”, aceite apoiar no Conselho de Segurança da ONU pelo menos uma condenação formal?

Talvez o Brasil devesse estabelecer esse número. Uma meta. Pelo menos poderíamos acompanhar com alguma segurança o andamento do placar. E talvez Assad pensasse duas vezes antes de atingi-la.

Num outro placar, em compensação, estamos ganhando de goleada. No prejuízo trazido ao país pela s maluquices da dupla precedente, Luiz Inácio Lula da Silva e Celso Amorim.

Que num triste dia fizeram nossa diplomacia pender para o eixo Damasco-Teerã.

Vexame

Mas vexame mesmo nestes dias passaram os apressadinhos que correram a culpar o Islã pelos atentados na Noruega.

Provou-se, novamente, que esperar pelo esclarecimento dos fatos é sempre melhor do que dar vazão aos instintos e preconceitos.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (25) no Correio Braziliense e no Estado de Minas.



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domingo, 24 de julho de 2011

Qual é o escopo? (24/07)


Na crise dos Transportes a presidente vem riscando o chão a faca. Pintou a dúvida está demitido. É popular mas estabelece um padrão. Doravante a comparação não mais será com o “cadê as provas?”. Será com o “cortem-lhe a cabeça”

A novidade na crise dos Transportes é o Palácio do Planalto nela ter surfado para concentrar poder, como já se escreveu aqui. Não apareceu a acusação de as revelações fazerem parte de uma operação política contra o governo, para desestabilizar o governo.

E a coisa ficou facilitada pelo alvo ser um partido secundário na coligação, o PR. Nada que vá chacoalhar de fato a aliança dilmista. Haja o que houver com o PR a vida seguirá. Políticos não são lemingues, não correm solidariamente rumo à morte certa. A espécie não é solidária.

Restou porém a curiosidade legítima sobre a abrangência do método. Na terminologia da moda, falta saber o escopo da linha palaciana.

Não é crível que o Ministério dos Transportes seja uma ilha de problemas, então qual será a abordagem dos cenários trazidos por novas revelações embaraçosas?

Agirá o Planalto com a mesma rapidez e crueza quando o alvo for uma pasta comandada pelo PMDB? Ou pelo PT? Reproduzirá a estratégia de cortar fora inclusive tecidos sãos para evitar a permanência de coisa ruim no organismo?

A verdade é que Dilma Rousseff se depara com uma oportunidade de ouro. Tem apoio da opinião pública -entendida como o pessoal que julga dominar a opinião pública- para tratorar qualquer aliado incômodo sobre quem recaiam suspeitas de andar fora da linha.

Não parece haver obstáculos significativos à iniciativa da presidente de assumir o controle absoluto do próprio governo. Ela tem aval externo para isso.

Mas a associação costumeira entre crise e oportunidade é verdadeira nos dois sentidos. Se toda crise embute uma oportunidade, toda oportunidade também carrega dentro dela o embrião da crise, entendida como conflito agudo do novo com o velho.

Afinal Dilma foi eleita pelo arcabouço político-administrativo que agora cuida, aparentemente, de demolir. E o arcabouço a apoiou na eleição imaginando a continuidade.

Os motivos e as intenções importam menos. Valem os fatos. Na crise dos Transportes a presidente vem riscando o chão a faca. Na dúvida está demitido. Eis um fato.

É popular mas estabelece um padrão. Doravante a comparação não mais será com o “cadê as provas?”. Será com o “cortem-lhe a cabeça”.

Ainda que a guilhotina insista, por enquanto, em concentrar-se nos crânios pequenos, nos relativamente desimportantes.

Mas o efeito-demonstração é irreversível. O jogo foi zerado nesse nível.

Balões vazios

Coisa comum no noticiário é o partido x ou o político y terem contratado pesquisas para conhecer a demanda, para saber as propostas que o público deseja comprar. Ou o perfil.

Daí que todos -ou quase todos- os políticos se pareçam.

Estão preocupadíssimos com o meio ambiente, atentíssimos à nova cidadania propiciada pelas tecnologias, empenhadíssimos em buscar soluções para as graves desigualdades sociais e mergulhadíssimos na busca de saídas para a educação, a saúde e a segurança.

Nestes três últimos pontos todos concordam na necessidade vital de mais verbas.

São todos balões vazios à espera de serem inflados de fora.

Falando em “íssimos”, é raríssimo encontrar nos dias que correm o político disposto a defender suas ideias, a afrontar o senso comum, a disputar na contracorrente.

A apresentar uma ideia de interesse do país, para mobilizar o país em defesa do interesse nacional.

Há um espaço. Como o que, um dia, ocuparam, por exemplo, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. Ou o Mário Covas do choque de capitalismo.

É perigoso. Mas a vaga para o relançamento do projeto nacional existe, e está à espera de alguém.

Pois é visível o cansaço com o mesmismo. Com o político supostamente esperto, escondido atrás do rosto alheio.

Não

Qual é a punição adequada para alguém que abre fogo e mata dezenas de jovens adolescentes reunidos num acampamento para discutir política?

Será que tudo se explica pela política? A política tem o condão de tornar tudo explicável, desde que se usem parâmetros racionais?

É razoável responder que não.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (24) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Os holofotes e as surpresas (22/07)


No governo dizem que a balança não penderá para o lado do PT. Que é apenas um movimento para reverter o descontrole e evitar o prejuízo administrativo e político. Mas está difícil achar em Brasília quem acredite, do fundo do coração

As eleições municipais vêm aí, e com elas o retesar de músculos. E será inevitável que a somatória dos cenários locais se conecte novamente no noticiário à projeção das disputas futuras de poder.

É uma sinfonia conhecida.

Mas as eleições locais têm influência apenas relativa no quadro político. Dois motivos contribuem.

Primeiro, a dependência financeira de estados e municípios ao governo federal impede os poderes locais de fazerem oposição. No fim das contas é todo mundo governo. Precisa ser.

Segundo, o eleitor exerce bastante bem a liberdade de escolha. Não é por ter votado de um jeito para prefeito que votará do mesmo jeito para governador, ou presidente.

A política local acaba tendo, sim, mais peso quando o eleitor avalia o alinhamento municipal-estadual-federal como decisivo para receber benefícios públicos.

Esse pensamento persiste, e é mais observável conforme mais pobre e dependente é a localidade.

Governos federais costumam desempenhar bem em áreas muito pobres, desprovidas de economia que permita maior independência política.

Felizmente, a pobreza vem declinando no Brasil. Tendência que produz, também felizmente, mais graus de independência no eleitorado.

Mas o poder federal, com suas verbas, continua um instrumento não desprezível na disputa local.

Com o PT, entretanto, acontece um fenômeno curioso. Até agora, a capilarização do partido anda aquém do padrão histórico governista.

Contribui o PT ser um partido relativamente fechado, para padrões brasileiros. Beneficia-se pouco da capacidade atrativa do governo. Mesmo quando estimula o adesismo, não faz isso de portas abertas.

Também por ter sido construído de baixo para cima e continuar dividido em tendências formalmente organizadas. É um equilíbrio interno delicado, pouco permeável a intervenções externas.

O governo comandado pelo PT no Planalto sustenta-se numa ampla coalizão congressual. E um custo da coalizão é dar sobrevida a aliados na disputa do poder local.

É um foco permanente de tensão no governo.

O deputado do partido aliado vota a favor na Câmara, mas na base precisa enfrentar o quadro petista que, instalado num cargo de prestígio e capacidade orçamentária, ameaça tomar o reduto.

Operando por dentro da máquina para minar na base a força do aliado de Dilma Rousseff em Brasília.

Vem também daí a guerra por cargos de escalões inferiores.

O petista olha para o Planalto e enxerga um governo do PT. E quer apoio do governo para tomar os votos locais.

Já o governo precisa em Brasília dos votos dos adversários locais do PT, que por sua vez pedem ao Planalto conter o apetite dos partidários.

Mas o governo não pode tampouco desestabilizar o PT, a espinha dorsal.

A solução óbvia seria verticalizar as alianças, coisa possível na prancheta mas altamente improvável na vida real. Aqui e ali Brasília pode dizer façam isso, façam aquilo, mas está longe de ser viável como regra.

É um equilíbrio muito instável, e exige o máximo de perícia para não desandar.

Dilma herdou de Luiz Inácio Lula da Silva uma coalizão amplíssima e já no primeiro ano as tensões andam mais pronunciadas, na comparação. Com a operação política no Ministério dos Transportes, acrescenta um foco a mais de temor nos aliados.

Todos cabreiros com a hipótese de o PT avançar no espaço orçamentário alheio, e com os prováveis reflexos na capacidade de cada um desempenhar eleitoralmente ano que vem.

No governo dizem que não. Que a balança não penderá para o lado do PT. Que é apenas um movimento para reverter o descontrole e evitar o prejuízo administrativo e político.

Mas está difícil achar em Brasília quem acredite, do fundo do coração. Dilma anda performando bem em tempo real diante dos holofotes, mas se não garantir o espaço de quem a apoia pode ter surpresas desagradáveis no virar da esquina.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (22) no Correio Braziliense.



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quinta-feira, 21 de julho de 2011

A hora da sístole (21/07)


Dilma herdou um governo orçamentariamente distribuído, no qual os muitos pilares de apoio mantinham cada um a capacidade de alavancar recursos para a reprodução do próprio poder. Agora vem a recentralização

Olhar um governo exige técnicas de diagnóstico. Há situações em que você pode enxergar diretamente o objeto. Se aparece um documento, uma gravação, algo dotado de materialidade.

E há situações em que você precisa deduzir.

A dedução é útil quando a matéria prima são conversas. Você nunca deve acreditar em tudo que dizem. Mas ouvir sempre é bom. Tampouco deve descartar nada. Se alguém lhe mente, a mentira embute pelo menos uma verdade: o fato de alguém ter mentido para você.

Procure a razão pela qual o sujeito decidiu mentir, talvez haja aí algo útil.

Luiz Inácio Lula da Silva falava muito em público. O roteiro do governo dele podia ser alinhavado a partir da produção verbal do presidente. Sabia-se a cada momento quais eram os propósitos, quem eram os inimigos, onde estavam as barreiras a suplantar.

Foi um período repleto de comunicação. O sujeito podia gostar ou não do que Lula dizia, ou de como dizia, podia concordar ou não com ele, mas ninguém reclamava da falta de sinais orientadores. Todos conheciam o sentido do fluxo e do contrafluxo.

Já Dilma Rousseff fala economicamente, e tampouco se conhecem porta-vozes. Daí que olhar o governo dela exija outras técnicas propedêuticas. A energia maior será necessariamente dispendida em procedimentos interpretativos a partir de sinais indiretos, fragmentados, contraditórios.

A crise corrente no Ministério dos Transportes, por exemplo, pede um exercício de interpretação complexo. A etapa pública da crise foi desencadeada pelo próprio governo, na reunião de enquadramento entre os palacianos e a turma da pasta.

Reunião que depois foi objeto de apuração jornalística e veio a público.

E o governo agiu -e vem agindo- numa rapidez impecável, passando o bisturi com a perícia de quem conhece em detalhe os tecidos a remover. Há os constrangimentos da política, mas eles não têm sido definitivos. A presidente não parece disposta a deixar a onda passar.

Surfa nela com gosto.

O movimento dela é duplo. Procura naturalmente remover os focos de eventuais problemas administrativos, que sempre tenderão a tomar dimensão política, mas há também uma operação política propriamente dita a rodar.

Dilma busca reorganizar o governo com parâmetros menos dispersos, mais centralizados. Busca concentrar poder.

O que implicará menos autonomia ainda para os políticos e movimentos políticos instalados nos ministérios e demais órgãos dotados de capacidade de investimento. Manterão a capacidade, mas perderão autonomia.

Aqui, o delicado processo de centralizar e descentralizar é quase uma reprodução da sístole e da diástole cardíacas. Assim bate o coração de qualquer governo. Centraliza-se e divide-se o poder, conforme a força e a necessidade.

O mandato de Lula começou bem sistólico. Se havia alguma distribuição de poder, era entre as correntes do PT. Para os demais, postos formais e a obrigação de tomar a bêncão a cada passo. O símbolo dessa lógica foi o então presidente ter desfeito a entrada do PMDB no governo, desfazendo o acordo costurado por José Dirceu.

E a coisa funcionou no primeiro ano, com o Planalto vencendo votações decisivas no Congresso Nacional, em assuntos delicados como a previdência social e os impostos.

Mas a concentração de poder também significou concentrar potenciais dores de cabeça. Quando veio a crise, ela estourou bem no coração do governo.

Como resultado, e para sobreviver, Lula enveredou pela longa diástole que o levaria a concluir o primeiro mandato, a reeleger-se e a eleger a sucessora.

Que por sua vez herdou um governo orçamentariamente distribuído, no qual os muitos pilares de apoio mantinham cada um a capacidade de alavancar recursos para a reprodução do próprio poder.

Daí para o descontrole é um passo. Eis por que Dilma produz agora a nova sístole. Uma recentralização.

Vai funcionar? Provavelmente. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Até o dia em que o poder, de tão concentrado, fique instável o suficiente para exigir uma nova diástole.

E, de crise em crise, a vida seguirá.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (21) no Correio Braziliense.



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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Gelo enxuto (20/08)


Dilma corre o risco de só enxugar gelo. Pouco adiantará o Estado brasileiro desembarcar na fronteira norte se vier desacompanhado do vetor essencial para uma ocupação consistente: o intrépido povo brasileiro

O governo federal elabora uma nova política para aumentar a presença do Estado nas fronteiras. A iniciativa é boa. As divisas do Brasil com outros países estão entre as mais porosas do mundo.

E isso vem no foco de nossos dramas de segurança pública, conectados intimamente à epidemia da droga.

A porosidade das fronteiras brasileiras surge também de um aspecto positivo. O Brasil não tem contenciosos com vizinhos.

Em tese, certo seria apostar na integração crescente, na dissolução progressiva das barreiras para o livre trânsito de pessoas na América do Sul. 

A própria noção de uma fronteira a vigiar deveria, com o tempo, caminhar para o arquivo morto.

Mas infelizmente não é possível. Em parte porque virou fumaça nos anos recentes a ilusão de um mundo sem fronteiras, sem estados nacionais.

E em parte porque falta ainda aos vizinhos disposição ou condição política para enfrentar o crime. Na droga, no tráfico de armas, no roubo de carros, entre outras modalidades. O desejo é de integração, mas a realidade impõe combater o contágio.

Ainda que no caso específico da droga certos políticos nossos, talvez em busca de uma certificação “progressista”, namorem a ideia de expor ainda mais as crianças e jovens brasileiros a essa calamidade.

Mas por enquanto enfrentam forte e saudável resistência social, além da política.

Nossas fronteiras sofrem com o vazio populacional. Especialmente no norte do país. O último movimento estratégico para povoar esses limites aconteceu durante os governos militares.

Desde os anos 90, nossos governantes civis vêm aceitando uma lógica perigosa. Vêm se dobrando à ideia de que civilizar o norte do Brasil é atentatório ao meio ambiente, aos povos indígenas e à própria Amazônia.

Nas diversas frentes da batalha das ideias, o bom e bonito vai sendo associado à tese de deixar a Amazônia como está. O tal santuário.

Trata-se de uma utopia, cuja melhor tradução para a realidade pode ser observada no desastre econômico e social produzido com a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.

A utopia é preservacionista. Já a realidade que ela produz traz pobreza, abandono, falta de oportunidades econômicas, desesperança para os jovens.

Uma triste obra produzida a muitas mãos pelos nossos últimos presidentes.

É bom que o governo Dilma Rousseff esteja atento a ocupar nossas fronteiras, e certamente a maior atenção da chefe do governo deve estar voltada para o norte. É bom que o Estado brasileiro se faça mais presente ali.

Mas Dilma corre aqui o risco de apenas enxugar gelo. Pouco adiantará o Estado brasileiro desembarcar na fronteira norte se vier desacompanhado do vetor essencial para uma ocupação consistente: o intrépido povo brasileiro.

E não haverá ali mais povo brasileiro, ao menos na quantidade necessária, se não puder haver agricultura.

Levar o Banco do Brasil, a Receita Federal, a Polícia Federal e o SUS merece aplausos. Mas se não existir meio de o brasileiro honesto e trabalhador progredir ali, ao Estado restará o papel de tapa-buraco.

Ou de guarda de trânsito do crime e da contravenção

O desejável seria uma política de colonização das fronteiras alicerçada na expansão da agricultura, inclusive a familiar. Incentivar uma nova onda migratória, como a que fez a prosperidade explosiva do Centro-Oeste.

Infelizmente porém, o governo parece mais inclinado a acender velas para outros santos. Mostrou isso na votação do Código Florestal, quando se rendeu a uma lógica alheia.

Compreende-se. Se a utopia do santuário amazônico não resolve os problemas do Brasil nem da própria Amazônia, apenas os agrava, certamente renderá aplausos na Rio+20.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (20) no Correio Braziliense.



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terça-feira, 19 de julho de 2011

O facínora amigo (19/07)


Para azar de Dilma e do chanceler Antonio Patriota, o futuro próximo reservava uma surpresa e tanto ao Brasil e ao resto da humanidade. O futuro espreitava logo ali, na esquina

Tenho escrito frequentemente sobre o cinismo nascido do cruzamento entre a política partidária-governamental e a militância pelos direitos humanos. Esta última só consegue realizar-se, na plenitude, quando toma distância prudente daquela.

Um exemplo é a duplicidade da reação brasileira às decisões hemisféricas sobre o tema.

A posição interamericana sobre a necessidade de levar os torturadores ao banco dos réus é tratada pelo establishment petista como palavra final, irrecorrível.

Já as restrições à construção de Belo Monte são recebidas como ingerência indevida nos assuntos internos do Brasil.

O PT gostaria de rever a Lei da Anistia, mas também pretende construir a hiderelétrica no Xingu. Daí a preferência pelo cardápio à la carte. O que convém é saudado, o que não convém é repudiado.

E com igual ênfase, sempre evocando os princípios. Que os há para todos os gostos.

Embora os direitos humanos estejam no coração de cada um dos dois assuntos. Se vale num caso, deveria em tese valer no outro. Se o Brasil deve abrir mão da soberania na Anistia, por que não deveria também subordinar-se quando entra em pauta Belo Monte?

Por falar nisso, o que sobrou mesmo da “nova política externa” do governo Dilma Rousseff e do chanceler Antonio Patriota? Alguém sabe onde foi parar? Alguém viu?

A administração Dilma ganhou um gás de marketing na largada, ao votar contra o Irã na ONU. A ministra dos Direitos Humanos chegou a declarar que doravante os direitos humanos seriam inegociáveis.

Os apressados saudaram então a suposta ruptura com o período anterior.

Para azar de Dilma e do chanceler Antonio Patriota, o futuro próximo reservava uma surpresa e tanto ao Brasil e ao resto da humanidade. O futuro espreitava logo ali, na esquina.

Após décadas (ou séculos, conforme a contabilidade) de opressão, 2011 ficará como o ano em que o mundo árabe desencadeou o basta aos regimes ditatoriais e corruptos.

Não chega a ser uma completa novidade histórica, pois meio século atrás a região assistiu a uma onda parecida, de viés nacionalista, socialista e militar. Cujos líderes, com o tempo, preferiram reproduzir o formato das monarquias que um dia tinham proposto derrubar.

Naturalmente agora com eles próprios no comando.

A atual revolução árabe é plural, ainda que o fundamentalismo religioso mantenha certa preponderância. Mas esse é assunto só dos povos árabes, que responderão pelas suas escolhas. Na paz ou na guerra. Como vem acontecendo.

Quem vê a coisa de fora e se diz movido pela defesa dos direitos humanos não tem como vacilar.

Se o governo brasileiro desejasse mesmo levar à prática o anunciado lá atrás, deveria estar na linha de frente da condenação aos regimes autoritários e do apoio aos movimentos democráticos.

Mas não tem sido assim. O Brasil desde quase sempre, desde bem antes dos governos do PT, olha para as ditaduras de lá como se fossem realidades congeladas.

No fritar dos ovos, talvez o Brasil tenha sido, e ainda seja, o melhor amigo dos ditadores, dos corruptos, dos genocidas daquele pedaço do mundo.

No caso líbio o Brasil ainda ficou meio em cima do muro, mas agora na Síria a diplomacia brasileira tem se destacado pelo esforço de lançar boias para salvar o facínora de Damasco.

Enquanto a coisa estava restrita ao Egito, à Tunísia, ao Iêmen e ao Bahrein, aliados dos Estados Unidos, a festa no petismo corria solta. Agora que chacoalham adversários dos Estados Unidos, volta a campo a retórica das “soluções negociadas”.

Sonoro, mas apenas um jeito limpinho de tentar ajudar Bashar Assad a preservar o pescoço.

Sem contar que a retórica das “soluções negociadas” será convenientemente esquecida em setembro, quando o Brasil apoiará o unilateralismo palestino na Assembleia Geral da ONU.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (19) no Correio Braziliense.



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segunda-feira, 18 de julho de 2011

A equação dos profissionais (18/07)


Nem toda a modernidade, ou pós, conseguiu até agora alterar a receita clássica na disputa política. Ela é missão para profissionais. Da política. O cidadão comum vive atarefado demais no dia a dia, empenhado demais em sobreviver, em pagar as contas

A última moda são manifestações ditas espontâneas, organizadas por cidadãos indignados ou apenas inspirados pela causa genérica comum. Do Cairo a São Paulo, de Madri a Damasco, a receita parece semelhante.

Lança-se a semente nas redes sociais e o fermento da insatisfação, temperado pelo anseio, cumpre a tarefa de fazer o bolo crescer.

Será? Quanto se transformou mesmo a política após a massificação do uso da internet? O meio já cumpre o papel de substituir as organizações partidárias? O indivíduo passou a ocupar o lugar do grupo organizado?

O senso comum diz que sim, que a coisa mudou muito de uns tempos para cá, mas é melhor guardar prudência, para o caso de necessidade, para o caso de não ser bem desse jeito.

Política é política e comunicação é comunicação. Parece acaciano, mas não custa relembrar.

Quando o período dos presidentes militares entrou em declínio não existia ainda nem o fax, hoje obsoleto, e conversar por telefone a respeito de como derrubar o regime era impensável.

Corriam os anos do mimeógrafo a álcool, das gráficas clandestinas e da possibilidade, aqui e ali, de emplacar um texto na imprensa que conseguira sobreviver. E cuja circulação era restritíssima.

Mesmo assim o movimento político e social organizou-se, com os resultados conhecidos. O rio sempre encontra um caminho para o mar. A insatisfação com a economia foi o caldo de cultura para a proliferação.

Nem toda a modernidade, ou pós, conseguiu até agora alterar a receita clássica na disputa política. Ela é missão para profissionais. Da política.

O cidadão comum vive atarefado demais no dia a dia, empenhado demais em sobreviver, em pagar as contas. Pode haver exceções, mas, como o nome diz, elas não são a regra.

Uma andorinha não faz verão sozinha. De vez em quando ela pode até gorjear pela internet, mas é só.

O tempo é um bem escasso. Há uma diferença entre apoiar determinada iniciativa no Facebook e engrossar a militância real.

E essa diferença costuma expressar-se em números. Basta checar.

Os movimentos democráticos no mundo árabe, por exemplo, beneficiam-se da massa crítica reunida no segundo plano da política por organizações islâmicas. Não significa que elas tenham desencadeado ou liderado a emergência dos protestos, mas são fundamentais para a ação adquirir massa crítica.

Todas as revoluções começam mais ou menos de um modo parecido. Resultam da combinação de desarranjos graves na cúpula do poder e fortes insatisfações na base da sociedade, invariavelmente provocadas por dificuldades econômicas e aspirações materiais não atendidas.

Mas nem toda fagulha tem o poder de incendiar a pradaria. É preciso quem se ocupe do trabalho de espalhar o fogo, e de impedir que seja apagado. Nem é indispensável que os espalha-brasas sejam a maioria, eles apenas precisam estar em número suficiente.

Quanto porcento da população egípcia participou dos protestos na Praça Tahrir? Uma porcentagem pequena, bem pequena. E nem vou tão longe. Quantos brasileiros, na ponta do lápis, foram às ruas para exigir as diretas já para presidente naquele hoje algo distante 1984?

Sobre essa última contabilidade, aliás, as mistificações da época vem sendo derrubadas desde que se resolveu lançar sobre elas um olhar de mais precisão matemática.

Dia destes um jornalista espanhol esceveu artigo perguntando por que as acusações de malfeitos não provocam uma reação social e popular no Brasil. A resposta é óbvia.

Não há, no fundo, forças ponderáveis que desejem mudar o status quo, já que todos estão atendidos, de uma maneira ou de outra. No topo e na base, na situação e na oposição, em Brasília ou nos estados e nas cidades.

Ninguém social ou politicamente expressivo deu sinais até o momento de estar vivamente interessado em mudar a equação dominante.

A coisa pode mudar? Sempre pode, mas entre nós seria preciso mobilizar o único foco potencial de insatifação: a classe média que julga sustentar com seu trabalho e seus impostos o bem-estar alheio.

Mas a classe média é uma camada social produzida e cultivada na base do cada um por si. Pode no máximo ajudar a engrossar o caldo quando a onda vem de cima, ou de baixo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (18) no Correio Braziliense e no Estado de Minas.



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domingo, 17 de julho de 2011

Probabilidade nula (17/07)


Lula está procurando no canto errado do salão por algo que perdeu. Mesmo sendo o canto mais iluminado pelos holofotes, a chance de recuperar assim o que foi perdido é zero

A historinha é velha. O sujeito procura cuidadosamente algo no canto iluminado do salão escuro. O outro observa e pergunta, curioso.

- Você perdeu alguma coisa?

- Sim.

- Perdeu aí nesse canto?

- Não, naquele.

- E por que você está procurando aí? Não seria melhor procurar ali?

- Porque aqui está iluminado.

Qual é a chance de o sujeito encontrar o que procura? Zero.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi ao Congresso da UNE e discursou reclamando da imprensa. Mais uma vez. Lula está no pleno direito dele. Ninguém anda acima do bem e do mal. Muito menos o jornalismo.

Se qualquer jornalista tem a prerrogativa de escrever ou falar livremente o que pensa sobre o ex-presidente, o caminho inverso é igualmente legítimo.

A democracia oferece as duas mãos. Ou deveria oferecer.

Aliás, Lula e a imprensa têm pelo menos um ponto em comum. Ambos odeiam ser criticados. Ambos adorariam só receber elogios. Talvez a característica seja universal, mas na política e no jornalismo fica mais exacerbada.

Aqui vaidade é poder.

Não ser criticado nunca é uma impossibilidade prática, mas atravessar a vida com o desejo limitado pelo realismo seria chato demais, convenhamos.

Lula faz questão de expressar o desconforto com a imprensa sempre quando pode. E lhe é útil, pois não se frita omelete sem quebrar os ovos, não se faz política sem definir os adversários, sem piorá-los a ponto de poder neutralizá-los.

O ex-presidente acaba de lançar um site para falar bem de uns e mal de outros. Ele mesmo disse isso. Não corre o risco de perder dinheiro quem apostar nos jornalistas como um alvo preferencial da crítica.

A realidade, infelizmente porém, é mais complicada. Talvez o ex-presidente esteja a repetir o nonsense da historinha no alto da coluna. Se está mesmo em busca de alvos, talvez devesse procurar no outro canto do salão.

Por uma razão singela. Nos dias recentes o que mais o governo Dilma Rousseff tem feito é reagir positivamente a revelações trazidas pela imprensa. A cada revelação, uma demissão. Ou mais de uma.

É a dança sincronizada das manchetes e das cabeças cortadas.

Quem vem escrevendo o roteiro do expurgo na Esplanada dos Ministérios não são a Polícia Federal, a Controladoria Geral da União (CGU) ou o Ministério Público. É o trabalho dos profissionais de jornais, revistas, tevês, rádios e sites.

Eis um fato. E contra fatos os argumentos precisam ser excepcionalmente bons. Não foi o caso do discurso de Lula em Goiânia.

Em resumo, enquanto Lula fala mal da imprensa, a parceria entre o jornalismo e o governo Dilma vai servindo para a presidente ocupar espaço no governo dela.

E essa ocupação se dá - não há outra maneira- à custa da arquitetura que herdou do antecessor.

Lula está procurando no canto errado do salão por algo que perdeu. Mesmo sendo o canto mais iluminado pelos holofotes, a chance de recuperar assim o que foi perdido é zero.

Desastre a quatro mãos

O Jornal da Band mandou o repórter Fábio Pannunzio a Roraima verificar os resultados práticos da demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol.

A série de reportagens impressiona.

Ela retrata um cenário de desastre econômico e social. Como aliás estava previsto, desde que o governo Lula enveredou pela defesa fanática daquele experimento laboratorial antropológico-multiculturalista.

Que aliás foi inventado pelo colega Fernando Henrique Cardoso. Colegade Lula, bem entendido.

É um desastre costurado a quatro mãos.

Menos mal que o STF tenha mitigado a maluquice, ao permitir que pelo menos as Forças Armadas ali permanecessem. E com liberdade de movimentos.

Mas a reportagem mostra também as pressões contra a presença militar, que garante ainda a soberania dos brasileiros sobre o território.

Tem tudo para acabar mal essa mistura explosiva de estagnação econômica, presença crescente de organismos estrangeiros e pressões pela secessão étnica.

Talvez esteja na hora de rever a coisa toda, à luz de seus resultados práticos.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (17) no Correio Braziliense.



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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Meu casuísmo querido (15/07)


Sobraram outros problemas sérios na Ficha Limpa. Um grave é a retroatividade. Se o sujeito cometeu ato que na época não produzia automaticamente inelegibilidade, não pode ficar inelegível por uma lei posterior

A Câmara dos Deputados decidiu adotar a via mais rápida (ou menos lenta) para dar posse aos parlamentares beneficiados pelo adiamento da vigência da Ficha Limpa. Uma boa decisão. Espera-se que o Senado acompanhe. E rapidamente.

O corporativismo congressual não pode estar acima da lei.

Critica-se a Justiça por lentidão. Então, quando ela decide, deveria ser apenas o caso de cumprir. Isso fez o presidente Marco Maia (PT-RS). Parabéns para ele.

Ou a lei da Ficha Limpa valeu para as eleições do ano passado ou não valeu. Não valeu? Pronto. Tomem posse os beneficiados pela sentença em última instância. Os prejudicados disputem nova eleição.

Estado de direito é isso. É curioso notar quando alguns exigem do poder manter-se no estrito limite legal e, ao mesmo tempo, pedem para si próprios a prerrogativa de escolher quais decisões judiciais vão cumprir e quais não.

O tapetão do outro é condenável. Mas o meu é sempre limpinho. Tipicamente nosso. Como também outro princípio. O ônus da prova cabe sempre ao meu adversário. Para absolver ou condenar, conforme o caso.

A Ficha Limpa é uma boa lei, com problemas. Um deles já foi resolvido pelo Supremo Tribunal Federal, que cuidou em boa hora de proteger a norma pela qual mudança de regra a menos de um ano da eleição não vale. Foi prudente.

A política brasileira é terreno fértil para casuísmos, especialmente quando impulsionados pelo clamor da opinião pública. Entendida como a turma que julga dominar a opinião pública.

E os direitos e garantias devem estar protegidos inclusive contra os excessos da opinião pública.

Ainda que a dita cuja não costume concordar com isso. A não ser quando ela mesma se sente ameaçada. Aí se lembra do estado de direito.

Sobraram outros problemas sérios na Ficha Limpa. Um grave é a retroatividade. Se o sujeito cometeu ato que na época não produzia automaticamente inelegibilidade, não pode ficar inelegível por uma lei posterior.

É um princípio constitucional, uma blindagem de direito individual.

Se ninguém pode alegar desconhecimento da lei, tampouco ninguém pode adivinhar como será exatamente uma lei futura.

Os defensores da aplicação imediata da Ficha Limpa buscaram atalhos jurídicos para alegar que não é bem assim. Data vênia, como diriam os magistrados, é bem assim sim.

Todo o debate da Ficha Limpa foi conduzido na sociedade e no Congresso com viés punitivo. Ganhou apoio maciço exatamente por essa razão.

Tratava-se de encontrar um mecanismo para punir políticos pouco merecedores de representar o povo. Uma guilhotina. Como o médico que é proibido de clinicar, ou o advogado de advogar. E por aí afora.

Excelente, desde que respeitados os limites constitucionais da garantia de direitos. Um exemplo é o político que antes da Ficha Limpa renunciou para não ser cassado.

Se soubesse que ficaria inelegível certamente encararia o processo político, para ter uma chance de escapar.

Se hoje o sujeito está feliz no papel de acusador ou carrasco, amanhã pode estar sentado no banco dos réus. Real ou figurado. Sempre é bom lembrar disso.

E prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

Demônios

Continua o debate no Congresso sobre uma lei específica para crimes no mundo digital. Ainda que ninguém tenha até hoje demonstrado cabalmente a necessidade de uma legislação particular para isso.

Inclusive porque uma das consequências do escândalo de espionagem jornalística no Reino Unido é abrirem-se as portas para os fanáticos da censura.

Que encontraram, digamos assim, um gancho de legitimidade.

Para, quem sabe?, jogar a criança fora junto com a água suja.

O que os inspiradores de uma lei específica para crimes digitais deveriam esclarecer, antes de mais nada? Precisariam responder a uma pergunta preliminar.

“Qual o crime cometido no universo digital que ficou sem punição pela ausência de uma lei específica que o previsse.”

Uma pergunta simples, mas essencial.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (15) no Correio Braziliense.



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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Poucos e muitos (14/07)


Na política vale muito a percepção. E a percepção é sermos governados, nos diversos níveis, por gente disposta a gastar com facilidade no que faz a alegria de poucos, mas com dificuldade no que faz a alegria de muitos

Quem acompanha o noticiário sobre as ações de governo nos diversos níveis tem a impressão de que no Brasil o dinheiro anda sobrando. E a Copa do Mundo é só a ponta do iceberg.

Mas que ponta! Como diria o dono do Parque dos Dinossauros, a ordem aqui é não economizar. Só nos estádios serão bilhões e mais bilhões, uma incubadeira de elefantes brancos espalhados pelo território nacional.

São Paulo, por exemplo, já tem um estádio grande, o Morumbi, e um médio, o Pacaembu. E vivem às moscas.

Mas as autoridades locais, que choramingam pela renegociação de dívidas e juram não ter recursos para, por exemplo, pagar um salário decente aos policiais militares e bombeiros, acabam de realizar o sacrifício patriótico de viabilizar com dinheiro público mais uma arena.

É o nome bonito que agora dão ao estádio para, quem sabe?, gastar mais nele.

Mas, como disse, é só a ponta do iceberg. O talvez futuro ex-controlador da rede de supermercados arrependeu-se por ter combinado entregar o controle ao sócio estrangeiro e foi bater às portas da fonte de sempre de dinheiro fácil para alguns, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

A conta era na teoria boa para todos os acionistas, às custas naturalmente do assalariado, do contribuinte e do consumidor brasileiros. Mas parece ter dado chabu, pois pelo menos por enquanto o sócio francês tem outros planos.

Parece que prefere abrir mão de ganhos táticos em troca de dominar posições estratégicas.

A França não é o Brasil. Pelo menos na cultura empresarial.

Parece também que os aprendizes de feiticeiro esqueceram de combinar com alguém antes de botar o bloco na rua, dadas algumas reações palacianas.

E por aí vai. Sem falar no trem-bala, motivo da coluna de ontem.

Entrementes, o governo alerta para a imprudência de votar na Câmara dos Deputados a regulamentação da emenda constitucional 29, que prevê uma proporção fixa do PIB em recursos para o sistema de saúde.

O Palácio do Planalto teme que na volta ao Senado suas excelências finalizem o processo restabelecendo uma proposta do então senador e hoje governador Tião Viana (PT-AC), mais generosa com a saúde do que o governo acha razoável.

Outra emenda constitucional que deixa o governo de cabelo em pé é a número 300, cujo objetivo é garantir aos policiais militares e bombeiros de todo o país vencimentos no belo patamar dos colegas do Distrito Federal.

É justo mas é bizarro. Policiais têm que ganhar bem, mas a Constituição não deveria ser transformada numa árvore de Natal ainda mais enfeitada do que já é. A Carta Magna não deveria servir de abrigo para todo tipo de corporativismo.

Em tese. Pois também é razoável que o PM e o bombeiro parem, pensem e concluam que se refugiar na Constituição é a única proteção contra governantes tão perdulários quanto cínicos na hora de alegar que os recursos não existem.

Tipo assim o governador do Rio de Janeiro, que merece toda a solidariedade no plano pessoal diante da tragédia, mas que politicamente anda com a asa na tipoia desde que o acontecido fez emergir o perfil das relações público-privadas do governo de sua excelência.

Com o devido tempero das dispensas de licitação.

Na planilha ou -como se dizia antes da ubiquidade informática- na ponta do lápis talvez sejam investimentos e gastos de valores bastante diferentes, de distintas ordens de grandeza.

“Não dá para comparar”, dirão.

Mas na política valem muito as percepções. E a percepção corrente é sermos governados, nos diversos níveis, por gente disposta a gastar com facilidade no que faz a alegria de poucos, mas com dificuldade no que faz a alegria de muitos.

Torcida

É forte a torcida no Palácio do Planalto para que o ministro da Educação seja premiado pelo PT com a candidatura a prefeito de São Paulo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (14) no Correio Braziliense.



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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Vá reclamar com o bispo (13/07)


O estilo do governo é burocrático-silencioso-autocrático. No caso do trem-bala, por exemplo, espanta o déficit de debate público, considerado o montante de dinheiro público demandado

O Brasil precisa de um trem-bala no eixo Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro? Claro que precisa. Aliás, seria exercício interessante fazer a lista de todas as coisas das quais o país anda necessitado.

Faltaria papel, caso alguém quisesse imprimir.

Ao contrário das nações já completamente desenvolvidas, ainda há aqui muitíssimo a fazer. Eis também por que nós e os demais emergentes vamos em vantagem no contexto planetário de crise.

Aqui não é preciso criar necessidades para preenchê-las. Elas nos gritam ao ouvido 24 horas por dia.

O problema não está porém na necessidade genérica de um trem de alta velocidade para cortar nossa principal conurbação. Está na prioridade de fazê-lo.

Talvez os especialistas possam, por exemplo, dizer quantos quilômetros e composições de trens velozes, mas nem tanto, daria para integrar à malha ferroviária brasileira com o mesmo dinheiro.

Seria bom poder trocar a congestionada Ponte Aérea por um trem superveloz? Seria ótimo. Seria bom se nossas commodities e mesmo os industrializados pudessem chegar aos portos a um custo menor, para ganhar competitividade? Seria excelente.

Especialmente com um real cronicamente forte.

Como então resolver o que fazer e o que não? Ou o que fazer antes e depois?

Este governo acabou construindo um método. O governante decide o que é bom para o Brasil e as dúvidas são imediatamente debitadas da conta dos inimigos do país, da turma que pensa pequeno, do grupinho que tem complexo de vira-lata.

De vez em quando dá confusão, quando o próprio governo resolve engatar a ré, deixando ao relento a legião dos incondicionais. Mas não tem sido a rotina.

Nos tempos de Luiz Inácio Lula da Silva havia pelo menos a “luta política”. O então presidente avermelhava o rosto, inchava a veia do pescoço e sua voz rouca saía a atacar quem dele discordasse.

Era rudimentar, mas não deixava de representar alguma satisfação. Quem se dispusesse, que confrontasse publicamente o chefe do governo. Não havia muita disposição para enfrentar, mas ninguém podia reclamar da falta de oportunidade.

Agora não. O estilo é burocrático-silencioso-autocrático. No caso do trem-bala, por exemplo, espanta o déficit de debate público, considerado o montante de dinheiro público demandado.

Do jeito que vai, a coisa acaba chegando perto -se não passar- dos três dígitos de bilhões. É dinheiro em qualquer lugar do mundo.

É dinheiro público porque o pagador de impostos e o assalariado ficam com a conta e com a dívida resultantes do descasamento dos juros na captação e no empréstimo pelo BNDES.

Numa situação normal, o governo estaria obrigado a explicar por que vai fazer uma coisa e não outra. Os ministros envolvidos deveriam ir muitas vezes ao Congresso prestar contas, enfrentar questionamentos.

Agora sim seria hora de multiplicar os power points.

Mas não vivemos uma situação normal. O poder transformou-se numa confraria com quase todo mundo dentro. E o Congresso anda capenga faz tempo, pelo menos desde o governo Fernando Henrique Cardoso.

O “quase” do parágrafo anterior é por causa do cidadão comum. Que fica completamente por fora. Menos na hora de pagar a conta.

Sua única opção, como se diz, é ir reclamar com o bispo.

Basta querer

Os colégios militares são bem menos de 1% dos estabelecimentos públicos, mas seus alunos ganharam 40% das medalhas na última Olimpíada de Matemática das escolas públicas.

O número parece autoexplicativo.

Num país em que a louvação às brilhantes autoridades educacionais só encontra paralelo na mediocridade do ensino oferecido pelos órgãos que os gênios comandam, talvez fosse o caso de tentar entender o que acontece nos colégios militares.

Esta minha sugestão será naturalmente ignorada, e talvez deva ser mesmo.

Afinal, já se sabe há muito tempo o foco das deficiências educacionais no Brasil. O dever de o professor ensinar e de o aluno aprender estão na lanterna das preocupações da turminha que domina o sistema.

É simples assim.

A formação dada nos colégios militares mostra porém que não estamos condenados à danação eterna.

Basta querer mudar. E ter disposição para enfrentar.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (13) no Correio Braziliense.



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terça-feira, 12 de julho de 2011

Pastel de vento (12/07)


Dilma Rousseff está colocada diante do risco real de preencher pelo menos três quartos do governo dela com crescimento econômico abaixo da inflação. Crescimento medíocre com elevação pouco saudável de preços

E aconteceu. Pela primeira vez em semanas o mercado financeiro subiu as previsões de inflação, para este ano e o próximo. As projeções vinham recuando havia dois meses. Mas agora a subida foi expressiva. A aposta para 2011 cresceu de 6,15% para 6,31%. A de 2012 algo menos, de 5,10% para 5,20%.

Ou seja, o governo volta à desvantagem na guerra das chamadas expectativas, que numa economia ainda muito indexada -como a nossa- têm maior capacidade de autorrealização. Vem aí uma época de negociações salariais pesadas e a tendência sindical será trabalhar com índices mais altos.

Índices assentados tanto nos resultados do passado quanto na tentativa de adivinhar o futuro. Se os bancos podem apostar, igualmente os trabalhadores.

E não vai ser diferente na guerra entre os fornecedores e a indústria. E entre ela e o comércio.

O governo começou o ano vendendo uma estratégia que parecia fazer sentido. Perseguir a meta de inflação apenas no médio prazo, para não comprometer o crescimento econômico. Os preços tocariam ou mesmo furariam o teto da meta, 6,5%, em algum momento de 2011, mas convergiriam para o centro, 4,5%, em 2012.

A viabilidade desse nado sincronizado começou a colher dúvidas ainda na largada e o Banco Central concluiu que precisava estender no tempo e na quantidade a terapia de mais juros. Estamos exatamente no meio dessa etapa do tratamento.

Por isso é alarmante que as expectativas tenham sofrido alguma deterioração bem agora. E o número mais problemático nem é o de 2011. É o do ano que vem. De duas uma: ou o BC adia para 2013 a pretendida convergência para o centro da meta ou vai ter que apertar o juro ainda mais.

E sem certeza de sucesso, pois o crédito continua bombando.

Dilma Rousseff está colocada diante do risco real de preencher pelo menos três quartos do governo dela com crescimento econômico abaixo da inflação. Crescimento medíocre com elevação não saudável de preços. Pelo menos no Brasil, tem sido receita de dificuldades.

A presidente enfrenta certa turbulência na política, mas até agora o governo dela não perdeu substância. Espantoso seria se tivesse perdido, pois são apenas seis meses e pouco na cadeira, menos de 13% do percurso total.

As tendências centrípetas neste período são fortíssimas. Quase sempre dão conta do recado até a administração entrar em voo de cruzeiro e as insatisfações darem as caras.

Dilma precisa cuidar para não ser colhida pela tempestade perfeita. Desconforto em alta no Congresso, desarranjos crescentes na relação com os aliados, incertezas na economia. A presidente está ainda distante do tornado, e ele pode até ser evitado, mas o governo precisará agir.

Nas diversas frentes. O otimismo retórico é bom. Mas divorciado da ação corre o risco de virar pastel de vento.

Na prática

Impressionante o relato do jornalista acreano (ou acriano) Altino Machado sobre a desesperança econômica na Xapuri de Chico Mendes, no seu Acre.

Apenas confirma que o movimento verde ainda tem uma longa caminhada até conseguir materializar, na vida prática, as boas ideias sobre economias tão prósperas quanto sustentáveis.

A reportagem está no blog altino.blogspot.com, aliás uma fonte especial de notícias independentes sobre a Amazônia.

Quem ganhou

O ambiente no Senado tende a produzir um Código Florestal de consenso. Será na essência a proposta aprovada na Câmara dos Deputados, com ajustes.

Mas se o governo decidir pelo confronto, como na Câmara, a tendência é nova derrota.

A condução do tema resultou numa situação curiosa. Ninguém discorda tanto assim de ninguém, mas todo mundo exige aparecer como tendo derrotado alguém.

Num assunto de alta complexidade, como é o Código, trata-se de risco sempre presente. Uma coisa é o que vai acontecer. Outra coisa é o que vão dizer que aconteceu.

Como a esmagadora maioria, no Congresso e fora dele, não tem a menor ideia dos detalhes, acreditará que ele é bom ou mau conforme os portadores da verdade sentenciarem ao final.

A esta altura, é disso que se trata.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (12) no Correio Braziliense.

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