domingo, 30 de janeiro de 2011

Gênios e imbecis (30/01)

Os médicos não se entendem, cada um tem uma receita, estão todos ciosos da necessidade de proteger a reputação, estapeiam-se para brilhar diante das câmeras, falam mal dos colegas de fora. Mas, infelizmente, o paciente continua com febre

O "debate" entre as autoridades brasileiras e os números do Fundo Monetário Internacional é típico. Como o FMI passou do elogio à crítica, trata-se de desqualificá-lo. A desqualificação da crítica era norma no governo anterior e a retomada do método talvez seja sintoma de dificuldades.

Tem sido assim nos últimos anos. Quando o Brasil é elogiado "lá fora", inclusive pelo Banco Mundial, FMI e outros ex-demônios, é um ativo político aqui dentro. Quando é criticado, em vez de contra-atacar no mérito prefere a desqualificação. Os gênios que nos elogiam transformam-se nos imbecis que nos criticam.

Cansado da retórica? Deseja saber onde, afinal, está a verdade? Concentre-se nos fatos. A pressão da inflação é um fato. Tanto é que o Banco Central retomou a alta do juro básico. E o BC é um órgão do governo brasileiro, não do FMI.

A acusação é que as contas públicas afrouxaram em 2010. O governo diz que foi um mecanismo anticíclico. Os críticos refutam, afirmam que a economia ano passado já estava bem e que o expansionismo fiscal teve motivação política. Para empurrar o crescimento a um patamar eleitoral, não sustentável.

Um debate instigante. Entrementes, o paciente continua febril.

Nos últimos tempos o Brasil é acusado de recorrer a maquiagens na contabilidade para fingir que está tudo bem, quando talvez não esteja. O superávit primário é suspeito de ter virado peça de ficção. 

As autoridades econômicas parecem magoar-se com as críticas. Compreensível e humano. Para além da mágoa, porém, há um detalhe. A inflação mudou de patamar na reta final do governo anterior.

A guerra retórica e a multiplicidade de versões oficiais são uma marca dos dias recentes. 

Parece haver certo consenso sobre a necessidade de um corte orçamentário na casa das muitas dezenas de bilhões. Ele pode ser feito virtualmente com facilidade, amputando-se da peça tudo que é sonho, tudo que não seria mesmo executado. 

Especialmente no capítulo das emendas parlamentares. Resolveria o problema no papel. Mas só no papel.

E os cortes reais? Aqui o governo desfila desencontros diários. Vai cortar do PAC ou não vai? A cada dia uma receita. E o custeio? Fora o desejo de não deixar o salário mínimo desgarrar, até agora ninguém disse nada de prático a respeito. Há um cheiro de enrolação no ambiente.

Os médicos não se entendem, cada um tem uma receita, estão todos ciosos da necessidade de proteger a reputação, estapeiam-se para brilhar diante das câmeras, falam mal dos colegas de fora. Mas, infelizmente, o paciente continua com febre. Esse é um fato.

Falta alguém para por ordem na casa.

A saída

Parece haver apenas um consenso na crise egípcia. Ninguém tem certeza absoluta do poder que vai emergir para restaurar a autoridade do Estado.

A Casa Branca parece apostar num processo controlado de renovação democrática no mundo árabe. Os documentos e informações vazados da diplomacia americana exibem forte ativismo nesse sentido.

O nacionalismo e a reforma árabes no século 20 eram impulsionados por vetores socialistas, terceiro-mundistas e militares. Os dois primeiros esmaeceram.

Há um certo temor (para outros é esperança) de que a revolta árabe derive para regimes islâmicos de viés opressivo e beligerante.

Pode acontecer, desde que os vetores democratizantes não se mostrem capazes de oferecer uma reorganização social baseada no bem-estar e na segurança.

Há porém outra variável. Mantido um mínimo de ordenamento democrático, o partidarismo islâmico talvez precise enquadrar-se em algum grau. Foi o que aconteceu estes dias no Líbano.

Mas é debate em boa medida vazio de conteúdo. Quando um regime político apodrece, é porque as dúvidas e os medos diante do futuro perderam importância relativa.

Ganha que tem mais força e capacidade de oferecer uma alternativa hegemônica.

No Egito, pela história e pelo momento, quem está na posição-chave são as Forças Armadas e não o Islã. 

Ainda que Hosni Mubarak venha da dinastia militar, herdeira da revolução antimonárquica e nacionalista de meados do século passado. É sucessor de Gamal Nasser e Anuar Sadat.

Os grandes movimentos reformistas no mundo árabe moderno sempre dependeram do catalisador militar. Se for diferente desta vez, será uma surpresa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (30) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um estado de espírito (28/01)

Em palácio, a avaliação é que o movimento sindical não tem nem força nem disposição para levar o confronto muito adiante. Não tem
capacidade real de colocar gente para brigar pelas reivindicações apresentadas


O governo acredita ter força para vencer a votação sobre o salário mínimo na Câmara dos Deputados. Passando ali, acredita num Senado em paz.

O governo vê nas reuniões com os sindicalistas apenas um gesto de boa vontade. O objetivo é munir os interlocutores de sinais externos de prestígio, essenciais para evitar a radicalização verbal, corriqueira no mundo do trabalho, e manter abertos os canais de entendimento.

Em palácio, a avaliação é que o movimento sindical não tem nem força nem disposição para levar o confronto muito adiante. Não tem
capacidade real de colocar gente para brigar pelas reivindicações apresentadas. Faltam-lhe garrafas para entregar.

Mas tampouco seria conveniente que recebesse desde logo do governo um certificado de alinhamento.

Daí por que a administração acena com alguns trocados a mais no mínimo, ou com um reajuste qualquer na tabela do Imposto de Renda.
Algo que possa ser apresentado pelos líderes sindicais — e talvez pela base governista — como “a vitória que foi possível conquistar”.

Mesmo assim, com cuidado. Preferível será não ceder nada. Uma ideia é que qualquer real a mais na negociação do mínimo seja visto como antecipação, e não reajuste. Se a regra acertada lá atrás está valendo, toda benesse de agora deverá ser descontada nos passos
futuros.

O que seria bom (pelo ângulo governista) no ano que vem, considerado o PIB gordo de 2010. Ele mais a inflação deverão jogar o aumento do mínimo em 2012 para algo da ordem de 14%. Pesado.

Numa empresa, o saudável seria poupar agora para encarar lá adiante o megarreajuste. Em governos as coisas não costumam funcionar assim. Governos não são vocacionados para poupança, mas para gastar. Mesmo antes de o dinheiro entrar já rola a briga para poder gastá-lo.

No cálculo do Planalto, os partidos da base entrarão os trabalhos sedentos para mostrar serviço, o passaporte mais seguro para abocanhar fatias saborosas nos escalões inferiores.

“Enquanto houver a perspectiva de espaços orçamentários, ninguém vai querer aparecer na coluna dos problemas para a presidente da
República”, confia um dos principais articuladores governistas. “Vão brigar para aparecer na coluna das soluções.”

O governo tampouco crê na real disposição de combate oposicionista. Nas conversas reservadas, o Planalto oferece aos parlamentares da
oposição um tratamento bastante isonômico, desde que não se criem no Congresso maiores obstáculos ao rolo compressor do situacionismo. Especialmente nas primeiras votações, essenciais para transmitir à sociedade a mensagem de que a presidente está no controle.

A receptividade — segundo o governo — tem sido boa. A oposição apenas pede a oportunidade de aparecer ao público como alguém que tentou. Deseja marcar suas posições em plenário. Mas o governo não está muito confortável com essa reivindicação. Teme que a temperatura na base suba em excesso.

O argumento é o tradicional. Se a oposição vai beneficiar-se da execução orçamentária, que assuma também parte do desgaste votando medidas impopulares.

O governo espera que a eleição do presidente da Câmara dos Deputados seja um balizador da situação política, uma demonstração de força que demova eventuais sonhos dissidentes.

Quem vai querer arrumar confusão para depois passar quatro anos na chuva?

Essa é a teoria. É isso que pensa o governo. É o estado de espírito atual.

Para saber se vai funcionar, melhor esperar pelos fatos. Mas tem chance de funcionar. Pelo menos no comecinho.

Vida fácil

O investimento externo está bombando. Em outros tempos, alguém denunciaria a desnacionalização maciça.

Mas quem denunciaria seria o PT, e o PT é exatamente o regente da farra.

O dólar que chega aqui para investir compra um ativo qualquer, não vem de graça. Não é presentinho. Houve um tempo em que a alienação era mais do estatal. Hoje é do privado.

Resumindo, estamos consumindo patrimônio e poupança. Foi como os Estados Unidos chegaram aos problemas atuais.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

As leituras (27/01)

O PT vangloria-se de ter turbinado a classe média, mas a classe média que vem aí está mais para o conservadorismo. Daí que enquanto o PSDB se ressente da diluição do suposto viés social democrata o PT dá um jeito de achegar-se ao eleitor centrista

Há evidências de que o PT vem fazendo mais rapidamente do que o PSDB a leitura correta das urnas. Talvez seja uma questão de força. Há no PT um polo inconteste (Dilma Rousseff, com o respaldo do antecessor), enquanto no PSDB corre solta a disputa pelo manche. Daí o PT exibir a esta altura bem mais disciplina.

Disciplinadamente, o petismo empreende talvez a etapa final da marcha rumo ao centro. Temas como a descriminação do aborto, a revisão da Lei da Anistia e o controle social/estatal sobre a comunicação foram para o arquivo. Farão companhia à reforma agrária no mausoléu em homenagem ao ideólogo desconhecido. Nem que seja até segunda ordem.

Sem falar na brevíssima passagem do secretário antidrogas, que se animou a defender em público o afrouxamento das penas dos pequenos traficantes e acabou rapidamente na editoria de exonerações do Diário Oficial.

O PT precisou confrontar-se ano passado com uma realidade complicada. Apesar dos altíssimos índices de popularidade do governo, e da quase unanimidade em torno do presidente, a sucessão arrastou-se para o segundo turno e a vitória final, se foi por margem decente, não chegou a ser confortável.

A explicação óbvia para a assimetria está no deslocamento de gordos contingentes da classe média para uma posição antipetista. Engrossam o caldo os órfãos da ética na política, mas não só.

O PT vangloria-se de ter turbinado a classe média, a nova presidente diz querer transformar o Brasil num país de classe média, mas a classe média que vem aí está mais para o conservadorismo. Daí que enquanto o PSDB se ressente da diluição do suposto viés social democrata, o PT dá um jeito de achegar-se ao eleitor centrista. Ou direitista.

Afinal, esta eleição já foi. E outras eleições vêm aí. E o que importa é manter o poder.

O movimento para o PT é fácil de fazer, pois a legenda consolidou a imagem de amiga dos pobres. A guinada ao centro poderá ser feita sem maior prejuízo político, pois faltam — até o momento — alternativas viáveis à esquerda. Estão todas a bordo.

A curiosidade é saber com que estratégia o novo governo petista vai administrar, na comunicação, maldades como o reajuste esquálido do salário mínimo e heresias como o repasse camarada dos aeroportos aos capitalistas privados.

Já o PSDB anda ameaçado de enveredar por um caminho perigoso. Todas as pesquisas mostram que o eleitor médio é conservador nos costumes e quer estado protetor na economia e nas questões sociais. Mas alguns tucanos ensaiam ficar na contramão em ambos os vetores. Liberais na economia e vanguardistas na esfera comportamental. Tipo defender a legalização do aborto e das drogas e combater o aumento do salário mínimo.

Mas o jogo não está jogado. Parece haver alguma disposição no PSDB da Câmara dos Deputados para criar problemas reais à base do governo na votação do mínimo. Ainda que haja dois vetores contraditórios agindo.

Um pretende credenciar-se por ter encontrado a solução intermediária que garantiria ao mínimo mais do que deseja o governo, mas sem subi-lo muito.

O outro acredita que o partido ganha mais se aparecer aos olhos do público defendendo os R$ 600 que o candidato tucano disse no ano passado que daria se fosse eleito.

De baixo, de cima

As grandes transformações políticas exigem disposição de confronto dos de baixo, mas também precisam de divisões sérias entre os de cima.

Porque a ausência do segundo quesito costuma resultar no sacrifício de quem, em baixo, decide colocar a cabeça de fora.

As revoluções obedecem a etapas bem definidas. Até um certo ponto há o crescimento da desordem. Operada a passagem do bastão, as energias concentram-se na reabilitação da ordem.

É o que passa na Tunísia. Já no Egito, será preciso verificar a existência ou não de clivagens importantes na cúpula. Se é mais Tunísia ou mais Irã. Ou Síria.

Vai bem

A boa surpresa desta largada de governo é a ministra dos Direitos Humanos.

Maria do Rosário vem provando que o realismo na política não é obrigatoriamente sinônimo de capitulação.

E apareceu com, até agora, a melhor ideia vinda do extenso primeiro escalão: uma força-tarefa com autonomia e autoridade para agir contra a tortura nas prisões.

Fazer mais, e arrumando menos confusão inútil. Eis um caminho

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (27) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Jogo do Poder com Nelson Callandra (26/01)



O presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Nelson Callandra, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Gato por lebre (26/01)

A boa notícia deste início de ano é que o governo Dilma Rousseff não se sente estimulado a lançar seus exércitos no pântano congressual das reformas. Mas é bom ficar de olho



A alardeada urgência de macrorreformas como a política e a tributária é uma verdade absoluta. Parece dispensar comprovação.



A tal verdade absoluta nasce de uma esperteza.

Num país repleto de passagens reprováveis na vida política, quem poderia ser contra uma reforma política, que o público poderia “comprar” como reforma benigna “da” política?



E num país de carga tributária sempre descrita como alta quem poderia se opor a uma reforma benigna do sistema de impostos? Desde que, naturalmente, o Estado continuasse a prover tudo que provê hoje. Ou mais.



Por motivos semelhantes, a maioria tenderá a inclinar-se para o “sim” se alguém propuser abstratamente uma reforma da segurança pública, ou da saúde, ou da educação. Ou do transporte público nas metrópoles. E por que não dos aeroportos? Ou das rodoviárias?



O reformismo genérico ganhou corpo entre nós depois da última Constituinte, por uma razão: segmentos da opinião pública preferiam uma Carta menos intervencionista, menos generosa no campo social. Daí o esforço ininterrupto para desidratá-la.



Na esfera trabalhista, por exemplo, o apelo permanente é por uma mudança que “facilite a contratação” de mão de obra. O próprio ex-presidente recém-saído andou no passado posando de bom moço em defesa da tese. Na passagem do primeiro para o segundo mandato falou longamente à The Economist sobre a ideia.



Mas sempre que a discussão desce para a vida prática do mundo do trabalho as medidas propostas visam a facilitar a demissão, e não a contratação. E ainda está para ser provado que demissões mais fáceis gerariam mais contratações.



No começo do governo do PT, em 2003, tentou-se implantar um tal de “Programa Primeiro Emprego”, prometido pelo candidato na campanha do ano anterior. A ideia era precisamente reduzir encargos para facilitar a absorção de mão de obra novata. O programa foi engavetado depois do fracasso completo.



Mas a geração de empregos nos últimos anos acabou sendo bastante satisfatória, e sem mexer em nenhum direito dos trabalhadores.



No debate recente sobre a prorrogação da Contribuição “Provisória” sobre Movimentação Financeira havia o argumento de que sem a CPMF os preços cairiam, por não mais carregarem as taxas cobradas ao longo de toda a cadeia produtiva. Alguém ouviu falar de algo que tenha ficado mais barato por causa do fim da CPMF?



Não aconteceu. Apenas cerca de R$ 50 bilhões anuais deixaram de ser recolhidos aos cofres da União.



A discussão aqui não é sobre a CPMF, ou sobre o falecido Primeiro Emprego. É sobre a venda indiscriminada de gatos por lebres, com o bichano vindo embalado no papel de presente daquela reforma indispensável e inadiável que -finalmente- vai colocar o dedo nas grandes chagas nacionais.



Viu a lebre? Procure pelo gato. Na reforma política o que há até o momento é uma tentativa de abolir o voto direto na eleição proporcional (deputado, vereador). Chamam de “lista fechada”.



Ela vem junto com a tentativa de impedir a oposição de se financiar na sociedade. Chamam de “financiamento exclusivamente público”. Significaria dar ao(s) partido(s) no poder uma vantagem financeira estratégica e definitiva.



Ambas as medidas aumentariam ainda mais a força de quem está no governo, em qualquer governo, especialmente depois que a Justiça instituiu a fidelidade partidária estrita.



A boa notícia deste início de ano é que Dilma Rousseff não está muito a fim de lançar seus exércitos no pântano congressual das reformas. Mas é adequado ficar de olho.



E não é difícil monitorar. A cada situação, ou proposta, basta procurar pelo detalhe que esconde a tentativa de retirar direitos e aumentar obrigações do cidadão comum.


Fraquezas



O governo brasileiro decidiu disputar o comando da agência da ONU que se ocupa das políticas relacionadas a agricultura e alimentos. Parece que o concorrente será espanhol. Terceiro Mundo contra Primeiro. Sempre simpático.



Entretanto, uma fragilidade da candidatura brasileira é representar o país que em plena inflação mundial de alimentos procura convencer o planeta da conveniência de produzir biocombustíveis.



O mesmo país, aliás, que recusa debater a formação de estoques internacionais reguladores da oferta de grãos, estoques essenciais para combater a especulação com comida.



De embaixadores planetários contra a fome, convertemo-nos em embaixadores planetários da inflação e da especulação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (26) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Soluções fáceis, escolhas difíceis (25/01)

A crise libanesa deixa claro por que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, pediu ao Brasil que solicitasse ao Irã o fim da ingerência. Pedido que, infelizmente para o projeto de uma Palestina independente, e por razões ainda obscuras, o Itamaraty não julgou do próprio interesse encaminhar

Em dezembro o Brasil deu um passo adiante e reconheceu formalmente a existência de um Estado Palestino nos territórios entre o Jordão e o Mediterrâneo que estiveram em poder da Jordânia e do Egito de 1949 a 1967.

Classifiquei aqui a decisão como essencialmente positiva e afirmei que ela ajudava na busca de uma solução pacífica para o problema regional.

Notei também que a posição brasileira sobre o formato final das fronteiras entre Israel e Palestina era pouco relevante, pois num cenário de solução negociada os limites seriam definidos por acordo.

Importava mesmo era o Brasil reafirmar que a paz e a segurança ali só serão alcançadas com o amplo reconhecimento do direito de todos os povos na região à afirmação nacional soberana. O reconhecimento de que ambos os nacionalismos (o sionista e o árabe) têm legitimidade.

Aliás, o nacionalismo árabe na Palestina e o sionismo são praticamente contemporâneos na origem, ainda que o o segundo seja um pouquinho mais antigo.

Agora vazam informações sobre o estágio de entendimentos anos atrás entre Israel e Autoridade Palestina (AP). Segundo os vazamentos, havia terreno para uma convergência nos temas essenciais, territoriais e demográficos. Há alguma polêmica sobre detalhes secundários, mas as informações têm verossimilhança.

É um equívoco imaginar que a paz e a segurança no Oriente Médio dependem de encontrar soluções complexas para problemas intrincadíssimos. Os problemas são conhecidos e as soluções, apesar de múltiplas, convergem em parâmetros simples.

Dois estados vivendo lado a lado em segurança, com o reconhecimento das realidades demográficas. E, preliminarmente, a admissão recíproca do direito do outro à autodeterminação e à segurança.

Essa é a decisão política que falta tomar. Para a AP, se de fato está disposta a ir além do ponto em que Yasser Arafat estacionou uma década atrás em Camp David, seria uma posição patriótica.

Se os palestinos tivessem aproveitado no últimos quase cem anos alguma das oportunidades que tiveram para reconhecer a realidade no terreno estariam bem mais avançados em seu projeto nacional. No tudo ou nada, têm invariavelmente restado com a segunda opção.

Qual é o obstáculo, então? O propalado radicalismo da “rua árabe” é um mito, haveria apoio político ao entendimento. As dificuldades tem um viés, digamos, libanês.

Uma liderança palestina que abdicasse formalmente do objetivo de destruir Israel colocaria o próprio pescoço na guilhotina. Viraria alvo imediatamente de um processo de deslegitimação e mesmo eliminação física pelo eixo Irã-Hamas-Hezbollah, com a eventual participação síria.

Aliás, esse eixo tem hoje força para deflagrar uma guerra civil na Palestina se não estiver satisfeito com o andamento das coisas. Mais ou menos como acontece no Líbano, onde o Hezbollah exige a impunidade de seus militantes que eventualmente forem indiciados pelo assassinato do premiê Rafik Hariri em 2005.

O grupo prefere acusar o tribunal das Nações Unidas que conduz a investigação sobre o caso de ser um instrumento dos Estados Unidos e de Israel.

Mas é razoável supor que se a investigação da ONU sobre a recente guerra em Gaza mereceu crédito o mesmo deverá acontecer com as conclusões do tribunal internacional sobre o caso Hariri.

O Hezbollah perdeu as últimas eleições mas tem força militar para exercer poder de veto na política libanesa. 

E usa a musculatura de “estado dentro do Estado”, sob a aura da "resistência" a uma ocupação que não mais existe, para chantagear a nação com a ameaça de uma nova guerra civil, se seus integrantes que vierem a ser acusados de matar Hariri forem levados ao banco dos réus.

Em escala maior, é o que passaria num cenário de possível acordo equilibrado e justo entre a Palestina e Israel. O Irã reivindicaria poder de veto. Caso estivesse de posse de armas nucleares, essa reivindicação teria outro peso.

O Líbano ajuda a compreender por que o presidente da AP, Mahmoud Abbas, pediu ao então presidente do Brasil que solicitasse a Teerã o fim da ingerência nos assuntos palestinos. Pedido que, infelizmente para o projeto de uma Palestina independente, e por razões ainda obscuras, o Itamaraty não julgou do próprio interesse encaminhar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça no Correio Braziliense.

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domingo, 23 de janeiro de 2011

Sem espírito de patota (23/01)

A revolução educacional brasileira pede foco absoluto no aluno e no aprendizado deste, que deve subordinar as demais variáveis. Inclusive as sindicais

Talvez o último grande salto adiante na educação brasileira tenha acontecido com o ministro Paulo Renato, no governo Fernando Henrique. Ali universalizou-se o ensino fundamental. Restou entretanto o desafio da qualidade. Nossas crianças estão nas escolas, mas as públicas ainda não são boas. Para ser elegante.

O governo do PT promoveu avanços importantes. Vitaminou o antigo Fundef, que melhorava a renda dos professores, mas por não querer dividir o mérito com quem tinha trabalhado antes mudou o nome para Fundeb. Coisas da pequena política. 

O PT também carrega o mérito de ter criado o Prouni, mecanismo compensatório para o jovem de origem popular não suficientemente competitivo para conseguir vaga no ensino superior público.

Seria injusto concluir que o PT se preocupa de menos com a qualidade do ensino público fundamental e médio, esse nó górdio à espera de ser decepado. Mais provável é que o petismo ainda não tenha reunido as necessárias condições políticas para o upgrade.

E por uma razão simples. A revolução educacional brasileira pede foco absoluto no aluno e no aprendizado deste, que deve subordinar as demais variáveis. Inclusive as sindicais.

Uma reportagem de Luciano Máximo no Valor Econômico deste fim de semana aponta o crescimento do número de estados brasileiros propensos a adotar políticas de remuneração variável. Ganha mais o professor ou funcionário da escola onde as crianças e jovens demonstram que aprenderam mais. Simples.

O assunto andou frequentando a última campanha presidencial, por causa da oposição cerrada do sindicalismo paulista de professores a um plano com essas características implementado pelo governador de São Paulo, José Serra, do PSDB. O PT, naturalmente, tratou de pegar uma carona.

A mesma ideia foi implantada em Pernambuco, mas como ali o governador Eduardo Campos (PSB) está aliado ao PT o sindicalismo ficou sem suporte político, ficou a ver navios. Ninguém de peso no petismo se compadeceu.

Em Pernambuco, por sinal, os pais podem hoje em dia controlar pela internet se os professores de seus filhos foram dar aula e como deram aula. Um belo "controle externo" da atividade didática.

Recorde-se que o reeleito Eduardo Campos foi o candidato a governador proporcionalmente mais votado no ano passado.

A coragem de enfrentar os lobbies corporativos quando está em jogo o interesse público costuma dar dividendos, mesmo se o resultado imediato parece ser desgaste.

A trajetória de vida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é bom exemplo de que uma origem pobre não necessariamente significa a condenação social. Cabe às políticas públicas dar uma mãozinha às estatísticas.

A proporção de recém-nascidos inteligentes e capazes não é diferente nos ricos e nos pobres. A diferença está nas oportunidades oferecidas às crianças.

Mesmo os distintos patamares de estímulo intelectual no ambiente familiar podem ser razoavelmente equalizados por uma escola excelente, ainda mais com a disseminação maciça da internet.

É útil haver sistemas de avaliação cada vez mais sofisticados, mas eles não são um fim em si. Comparando, seria como se numa epidemia de malária as autoridades estivessem concentradas em aumentar a fabricação de termômetros para medir a febre dos pacientes, em vez de colocar todas as energias na cura dos doentes.

A educação pública para nossas crianças e jovens antes da universidade ressente-se também de outro detalhe. Os herdeiros da elite estão na escola particular. A regra aplica-se aos filhos e netos de presidentes, governadores, ministros, secretários de educação, parlamentares, empresários, fazendeiros, juízes, promotores e, por que não?, jornalistas. Inclusive os especializados.

É como nas tragédias de origem natural (ou de origem na ação do homem sobre a natureza). Quando só os pobres morrem, ou perdem a casa e a família, a repercussão é uma. Quando morre também gente "da alta", ou famosa, é outra. Bem maior.

Ajudam aqui as cicatrizes que carregamos de quatro séculos de escravidão. Se não houvesse a alternativa da escola particular, se os filhos e netos da elite só tivessem a opção da escola pública, certamente as políticas educacionais não estariam atoladas no blá-blá-blá, no corporativismo e no espírito de patota dos especialistas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (23) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Fora do jogo (21/01)

Quem quer ser potência tem que correr atrás, tem que poupar, industrializar-se, depender essencialmente de si próprio. E não se meter a dar lições para a humanidade enquanto vive do dinheiro alheio

O mundo observa atentamente o encontro bilateral Estados Unidos-China. Por um motivo singelo: se as coisas em ambos andarem bem, o mundo andará bem. O oposto também é verdadeiro.

O século 20 assistiu à substituição da hegemonia britânica pela estadunidense. Junto veio a Guerra Fria. Quando acabou, houve a ilusão momentânea de um mundo perenemente unipolar.

Houve também a ilusão da multipolaridade. Os fatos da vida agora desenham a reconstrução da bipolaridade, com a China ocupando o lugar que a União Soviética manteve na maior parte da segunda metade do século passado.

Mais uma ironia da História. O grande cisma sino-soviético a partir dos anos 1950 foi também explicado pelas diferenças quanto à “competição pacífica” entre capitalismo e socialismo, proposta pelos sucessores de Josef Stalin. Estratégia que a China de Mao Tsetung desprezava como revisionista.

Hoje é a China dos herdeiros de Mao (a foto dele continua a comandar a Praça da Paz Celestial) quem desenha o caminho nacional com base exatamente na tal competição pacífica.

Por um motivo: com a população que tem, se a China fizer tudo certo bastará esperar pelo dia de assumir a pole-position.

Aos olhos do Ocidente, a China tem atenuantes em relação à antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Seu processo parece ser essencialmente nacional, não se observam maiores movimentos de Pequim para exportar o modelo. E os chineses estão na Ásia, longe da Europa. Além de falarem chinês, ou mandarim.

Um processo de transição em paz da unipolaridade para a nova bipolaridade política parece bastante possível. Na economia já é fato.

Os Estados Unidos querem o acesso de seus produtos de bom valor agregado ao mercado chinês. Agora que a China já está plenamente industrializada há terreno de negociação.

Os chineses desejam segurança para os roteiros e fontes das matérias primas e produtos agrícolas e também a garantia de respeito a sua integridade nacional (Taiwan, Tibet). Nada que não possa ser calmamente resolvido. Hong Kong não foi?

Em Washington há desconfianças no tema militar, pelos gastos crescentes dos chineses na rubrica. Mas por qualquer critério eles estão ainda anos-luz atrás do que gastam os americanos.

O fio condutor das hegemonias planetárias nos últimos duzentos anos tem sido a industrialização. Ela é a expressão moderna da capacidade de inovar. Portugal e Espanha empreenderam os descobrimentos, mas a hegemonia restou para o Reino Unido. Depois vieram os Estados Unidos, a URSS e agora a China. Os três fizeram da industrialização o motor.

Até por não haver como avançar na ciência e na tecnologia, inclusive a militar, sem apoiar-se fortemente na indústria. E sem fazer da industrialização uma cultura. E um dínamo para a educação.

E nós? Infelizmente, a ascensão da centro-esquerda e da esquerda ao poder não rompeu com as deformações de uma economia subalterna, essencialmente produtora e exportadora de matérias primas. Em vez de poupança interna e industrialização, preferimos a comodidade de viver à custa do esforço e do sacrifício alheios, inclusive para manter nosso arremedo de estado de bem-estar social.

No governo, a esquerda brasileira reciclou a ideologia da subalternidade, enquanto se entretém falando mal das elites que governaram o Brasil nos últimos cinco séculos.

E a subalternidade vem maquiada com tinturas ultramodernas, como o suposto antagonismo entre industrialização e responsabilidade ambiental. Mas sob a maquiagem é só o arcaico agrarismo.

Viver da exportação de primários -ou semi- para os Estados Unidos era colonial. Já fazer o mesmo para a China é apresentado como sinônimo de afirmação nacional soberana.

O antecessor de Dilma Rousseff não estava errado ao ambicionar um papel protagonista para o Brasil. O problema é que esse protagonismo não se alcança apenas com discursos bonitos em duvidosos fóruns multilaterais, ou com uma diplomacia de viés presidencial. Ou com tentativas de colocar a qualquer custo em pé todos os ovos.

Quem quer ser potência tem que correr atrás, tem que poupar, industrializar-se, depender essencialmente de si próprio. E não se meter a dar lições para a humanidade enquanto vive do dinheiro alheio.

Nem se satisfazer com o elogio interessado de quem vem aqui apenas para ganhar muito dinheiro rapidamente e cair fora com ele depois.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (21/01) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Nem sempre é bom (20/01)

Serra está sem mandato, será um líder da oposição extraparlamentar. E Aécio vai ser uma referência da oposição no Senado. Natural que ambos procurem ocupar espaço batendo no governo



Coisa normal num pós-derrota, a oposição gasta parte do tempo rosnando ou brigando internamente. Normal porque políticos lutam pelo poder. Se estão no governo, brigam por cargos e posições no governo. Se estão na oposição, brigam por posições e cargos na oposição.



Na teoria, e à primeira vista, é ótimo para o governo haver duas correntes em formação no PSDB, uma supostamente mais disposta ao diálogo e outra menos. Ou supostamente menos.



Mas talvez não seja tão bom assim. Na ditadura, por exemplo, a divisão do oposicionista MDB (Movimento Democrático Brasileiro) em autênticos e moderados em nada ajudou o situacionismo quando chegou a hora. As duas correntes juntaram-se para derrubar o regime. 



E ambas vitaminadas. Uma pela mobilização das ruas e pela aura de autenticidade, a outra pela capacidade de composição, de aliar-se a setores da base do governo, de representar a possibilidade de uma transição sem rupturas sérias. 



No fim das contas Ulysses Guimarães e Tancredo Neves entenderam-se, e deu no que deu.



Há pelo menos um detalhe a diferenciar o cenário da oposição com Dilma Rousseff do cenário vivido pelo antecessor. Fora um curto período no comecinho do mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, tanto Aécio Neves quanto José Serra estiveram sempre e simultaneamente em posições importantes de governo durante os oito anos, o que restringiu a mobilidade e o ímpeto oposicionista de ambos.



Governador não faz oposição a Brasília. Só faz quando o govermo federal está caindo de podre, o que não é o caso, nem leva jeito de vir a ser.



Agora a coisa muda um pouco de figura. Serra está sem mandato, será um líder da oposição extraparlamentar. E Aécio vai ser uma referência da oposição no Senado e no Congresso Nacional. Natural portanto que ambos procurem ocupar espaço batendo no governo. Cada um a seu modo, mas batendo.



Até porque a vaga aberta para a disputa em 2014 é a da oposição. Se tudo estiver pelo menos razoavelmente bem, Dima irá pleitear mais quatro anos. Se não, o PT sempre poderá recorrer a Lula. Então, quem pensa em construir um caminho alternativo terá de fazê-lo contra Dilma, e não a favor. E desta vez sem os constrangimentos causados por estar governando um estado.



Por fora corre Geraldo Alckmin, que se movimenta pesadamente neste começo de novo mandato paulista para neutralizar o efeito fadiga de material. Em 2014 os tucanos completam duas décadas de continuidade política e administrativa em São Paulo. Não é bolinho.



Afã



Era completamente desnecessário, pelo ângulo político, o Ministério do Trabalho ajeitar os números do emprego formal no ano passado para atingir a meta de 2,5 milhões de vagas líquidas.

Os números teriam sido bons de qualquer jeito, com 2,1 milhões de postos de trabalho. E tem outro problema, este técnico. Um valor das estatísticas é a possibilidade de fazer comparações. No afã de agradar sabe-se lá a quem, restou prejudicada a série histórica.



Uma sugestão: que o ministério passe a divulgar duas séries, pela metodologia tradicional e pela alterada, para não enfraquecer a utilidade dos números.



Mas no efeito de propaganda a coisa ficou bem, ainda que a manobra tenha atraído atenção para a heterodoxia na manipulação desse tipo de dado pelo ministério.



Em 2009, segundo as mesmas fontes, o Brasil criou um milhão de empregos líquidos. Nada de mais, a não ser por um detalhe: naquele ano a economia recuou, teve crescimento negativo, segundo os dados finais do IBGE.



Ano passado, pela metodologia tradicional, o Brasil criou pouco mais de dois milhões de empregos, numa economia crescendo para além de 7%.



Eis um desafio intelectual de vulto: alguém explicar por que no Brasil crescimento e criação de empregos são variáveis quase independentes. Como pode um país em recessão criar quase metade dos empregos que cria qando cresce a 7%?



Haja inelasticidade, para usar um termo dos economistas. Os números do Ministério do Trabalho talvez estejam a merecer uma lupa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (20) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Jogo do Poder com Raul Velloso (19/01)



O economista Raul Velloso é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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A herança (19/01)

A operosidade exibida pela presidente acontece em lacunas deixadas pelo endeusado presidente que se foi. Não poderia ser diferente. O grupo que a elegeu está no poder já faz oito anos. Ela mesma está no Planalto há quase seis. Falta só cair a ficha

A presidente da República está diante do desafio colocado aos grandes jogadores em bolsa, ou nos demais ramos de mercado. Depois de faturar na alta, dar um jeito de acumular também na baixa.

Em linguagem figurada, Dilma Rousseff adquiriu as ações do governo anterior baratinho, assumiu a Casa Civil no vórtice da grande crise de 2005.

Ocupou inteligentemente os espaços e chegou à cadeira mais ambicionada da política nacional. Seu principal combustível foi o apoio de um governo muito bem avaliado no momento decisivo. Especialmente de um presidente muito bem avaliado.

O antecessor tinha um estilo bastante peculiar. Eventuais problemas recebiam, na preliminar, tratamento destinado a preservar a figura do chefe e desqualificar a crítica e os críticos.

Ou eram produto da torcida contra, de quem não se conformava com o sucesso de sua excelência, ou eram factoides colocados no caminho de um país em marcha irreversível para o grande destino. Ou, no mais das vezes, ambas as coisas.

O comportamento até agora da sucessora é de um contraste brutal. Por temperamento ou convicção, ou talvez pelo desejo de implantar um modus operandi próprio, antes de acusar adversários pelos problemas ela parece tratar de buscar alguma solução. O país agradece.

Mas tudo na vida tem um custo. A operosidade exibida pela presidente acontece obrigatoriamente em lacunas deixadas pelo endeusado presidente que se foi. Não poderia ser diferente. O grupo que a elegeu está no poder já faz oito anos. Ela mesma está no Planalto há quase seis. Falta só cair a ficha.

O governo do PT não foi inventado em primeiro de janeiro de 2011.

Para o antecessor, as críticas à gestão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) eram movidas pelo desejo de que não desse certo. Mas hoje, depois de mais uma trapalhada em sua área de atribuições, foi exonerado o presidente do Inep, o órgão federal responsável.

Esta semana um grupo de ministros reuniu-se, por determinação da presidente, e começou a trabalhar para o Brasil daqui a quatro anos estar dotado de um sistema confiável de alerta para desastres climáticos.

Aqui também a aritmética é soberana. Oito é maior do que quatro. Se o PT está no poder há oito anos, se o país precisa de um sistema assim e se implantá-lo leva quatro anos, por que não foi feito entre 2003 e 2010?

Um argumento é que só agora se comprovou a prioridade. Não é bem assim. É verdade que a tragédia da serra fluminense tem uma dimensão acima de outras recentes. Mas houve outras recentes.

Esta semana o Comitê de Política Monetária reúne-se num cenário complicado. A inflação galgou o degrau, ou alguns degraus, ao longo de 2010. O remédio de praxe é subir os juros.

Mas essa subida complica a situação por outro lado, ao estimular uma valorização maior ainda da moeda brasileira. Que insiste em ignorar as medidas anunciadas com pompa e estrondo para emagrecê-la.

Está evidente a cada dia que o Banco Central cometeu um erro grave na passagem de 2008 para 2009, perdendo a oportunidade de reduzir fortemente os juros num cenário de demanda tendendo a zero. Como resultado, as taxas agora vão subir de um patamar já elevado.

Enquanto isso, o ministro do Desenvolvimento, talvez a figura mais próxima da presidente hoje em Brasília, quebra a cabeça para encontrar um jeito de proteger as exportações e a indústria brasileiras sem criar um ambiente tão protegido que desestimule a competição, a inovação e a produtividade. Não é trivial.

Nas comunicações e nos direitos humanos, os titulares tateiam caminhos para evitar que contenciosos deflagrados no período passado se tornem minas explosivas no caminho inicial de um governo que, por enquanto, parece contar com boa vontade geral.

Não que os projetos tenham sido completamente abandonados. Apenas tenta-se fugir da armadilha do confronto a qualquer custo, outra criação de período que acabou.

E tem o imbroglio dos direitos humanos no Irã. Assunto em que o ex-presidente nos meteu sem nenhuma necessidade.

Em termos práticos, por enquanto Dilma só tem conseguido tempo para lidar com problemas herdados. Há, é certo, o programa de erradicação da miséria. Mas não chega a ser novidade verdadeira.

O que Dilma estaria dizendo da herança que recebeu, se o governo que acabou no dia 31 de dezembro fosse da hoje oposição?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (19) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Viajar juntos (18/01)

Os supostos responsáveis pela segurança das famílias na região das serras pedem atenção para o que não seriam capazes de fazer, só para escapar do juízo por não terem feito o que era perfeitamente possível fazer

O grau de mobilização do governo do estado do Rio de Janeiro neste mês de chuvas podia, antes de tragédia, ser medido por um detalhe singelo. Decorrido um ano do desastre de Angra dos Reis, a época crítica encontrou o governador reeleito de férias. Tomou posse do mandato novinho em folha e foi descansar fora do país.

Os desastres causados pela natureza (ou pela ação humana na natureza) são de duas categorias: os inevitáveis e os evitáveis. O governante cioso procura evitar a ocorrência dos evitáveis. O esperto usa os inevitáveis como biombo para escapar da justa divisão de responsabilidades quando acontece algo que poderia ter sido evitado.

Depois das centenas de mortos, descobre-se que a culpa é do “populismo”. O uso político do “antipopulismo” costuma ser bastante eficaz no Rio, pois atrai a simpatia de um pedaço influente da sociedade local.

A política carioca e fluminense vinha sendo monopolizada nas últimas décadas por descendentes políticos de Leonel Brizola. Todos acabaram brigados com ele. Uns foram para a esquerda, outros para a direita. O atual governador é o primeiro desde os anos 80 a vir de outra linhagem.

Quando no Rio alguém fala mal do populismo está de quebra falando mal dos governos de Brizola e da herança política e administrativa dele.

Não há espaço aqui para um balanço minucioso, mas fato é que o velho líder trabalhista, em seus dois mandatos após a redemocratização, tomou iniciativas importantes em favor dos mais pobres.

A mais vistosa talvez tenha sido implantar um ensino de boa qualidade e em tempo integral para os filhos dos pobres. Nunca entendi direito por quê, mas isso lhe rendeu alguns e importantes inimigos. Hoje, só se fala em educação, e escola integral virou quase unanimidade.

O antipopulismo costuma ser um bom disfarce para o político antipopular.

De volta à tragédia do Rio. Ninguém na posse das faculdades exigirá, a sério, que qualquer governo ali resolva em quatro anos o problema da ocupação irregular do solo. Mas quatro anos -sinto muito- é tempo mais que suficiente para montar e colocar em operação um bem azeitado sistema de alerta e providências em caso de chuva excessiva.

A esperteza de recorrer ao “populismo” como bode expiatório é bem esta: os supostos responsáveis pela segurança das famílias na região das serras pedem atenção para o que não seriam capazes de fazer, só para escapar do juízo por não terem feito o que era perfeitamente possível fazer.

Quantos teriam morrido se houvesse no Rio um sistema de alerta e providências compatível e operacional? Impossível fazer o cálculo exato, mas certamente menos do que o tanto de gente que morreu.

Comecei esta coluna notando que a tragédia encontrou o governador reeleito de férias. É elementar. Se o chefe não está concentrado num problema, muito menos os subordinados. Qualquer um que tenha sido chefe, nem que por cinco minutos, sabe disso. E sabe a importância da presença física do chefe nos momentos críticos.

O bom oficial vai na frente da tropa, não atrás.

Em qualquer ambiente político menos tolerante o atual governador do Rio estaria em sérios apuros. Mas ele tem a graça de ser aliado do governo federal, uma vacina contra críticas do PT. E tem outra graça, na simpatia dos militantes do antipopulismo. Daí que seja quase unanimidade.

Está na hora de o governador retribuir, em agradecimento pelas graças alcançadas. Não é todo dia que um político escapa quase ileso de fatos que, tecnicamente, deveriam encerrar a trajetória dele.

Se não é possível trazer de volta os mortos desta tragédia, o calendário ainda reserva no mandato de sua excelência mais este resto de verão, além de mais três verões inteirinhos. Tempo suficiente para mexer-se.

E sairá com certeza bem mais barato do que sairia o governador levar sempre com ele nos passeios fora do país, na época das
chuvas, toda a população do Rio.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (18) no Correio Braziliense.

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domingo, 16 de janeiro de 2011

Jogo de largada (16/01)

É humano, natural, que a maioria torça para tudo dar certo. Daí as pessoas agarrarem os mínimos sinais de que a coisa tem tudo para dar certo

O que é a boa administração? Em tese, a que funciona. Lembro de uma conversa anos atrás com um banqueiro-investidor, com quem falava por motivos profissionais quando trabalhava na área de negócios do UOL. Perguntei a ele as regras que definem o bom executivo. A resposta foi curta: “Uma só. Dar o retorno combinado com o acionista”.

O festejado novo estilo imposto pela presidente Dilma Rousseff tem feito a alegria do jornalismo nestes dias em que a tarefa se concentra na busca de traços distintivos do novo tempo. Dizer o que vai continuar igual ao ex-governo não chega a ser notícia.

Tem a turma que pega uma carona no elogio ao estilo de Dilma com o único propósito de falar mal do antecessor, pelo efeito-contraste. Foram ajudados nos primeiros dias do ano pela surpreendente inabilidade do ex-presidente quanto à semiótica.

Tem também o pessoal sempre louco por um governo "forte”, que suprima as diferenças e as ambições setoriais, que governe na paz dos cemitérios, que transforme o Congresso Nacional num carimbador de medidas provisórias. Mas atendendo a determinados interesses.

Uma gente que só lembra dos férreos compromissos com a democracia quando tem vontades contrariadas.

E há a galera disposta a dar um voto de confiança à nova presidente. São o maior contingente. Não existiria mesmo motivo fora da política para ficar de má vontade com quem nem bem começou a trabalhar. E para a maioria das pessoas interessa é o governo entregar um país cada dia mais próspero, mais justo, com mais oportunidades de trabalho e educação, com serviços públicos mais concentrados em bem atender o cidadão.

São os acionistas citados no episódio que abre esta coluna.

É humano, natural, que a maioria torça para tudo dar certo. Daí as pessoas agarrarem os mínimos sinais de que a coisa tem tudo para dar certo.

A nova presidente aproveita bem para concentrar poder neste período peculiar, marcado pela abundância de boa vontade.

O jogo de largada proposto por ela permite uma leitura. Há a presidente e seus assessores. Ministros não são para fazer política, a não ser para anabolizar a chefe. Há ministros de primeira e segunda divisão, e os últimos serão subcomandados pelos primeiros. Que aliás são todos do PT.

Diferenças de posição, só para dentro. Para fora restam o pensamento único e o monolitismo na ação, facilitado pela esmagadora maioria no Congresso Nacional.

Vai funcionar? Enquanto tudo estiver dando certo, sim. Pode parecer meio circular, mas é isso mesmo. Tudo funcionará enquanto estiver funcionando.

Sem atravessar

O governo sabe que a bela aritmética da base no Congresso Nacional esconde armadilhas políticas bem perigosas.

É da vida. Se a oposição formal não deseja executar o serviço, alguém o fará. Pois a dinâmica social nem sempre se adapta às conveniências do mundo político-parlamentar.

Nas conversas com articuladores palacianos e congressuais sobressai uma certeza: este governo não vai se meter em terreno pantanoso no Legislativo só para atender aos furores reformistas da opinião pública.

Será aparentemente um governo mais voltado para a execução orçamentária e menos para o reformismo nas leis.

A não ser quando for essencial para atingir objetivos governamentais na esfera material. Mas sempre com realismo.

No teorema, um corolário é imediato. Se o governo opera para precisar pouco do Congresso ajuda a emagrecer a força dos aliados e da base. Menor será o poder de pressão de quem tem muito músculo na Câmara dos Deputados ou no Senado mas pouco na esplanada.

Ou seja, a turma do Planalto irá economizar nas travessias para o centro da Praça dos Três Poderes. Inclusive para desestimular que o pessoal das conchas queira também fazer a travessia, mas no sentido oposto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (16) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Até a próxima (14/01)

Catástrofes naturais costumam ser um corredor polonês para o político. A sorte dele depende do que faz, mas é função principalmente da abordagem, da atitude, enquanto o público ainda presta atenção na coisa

Há um meio de minorar, no tempo, o impacto negativo dos fenômenos naturais na vida das pessoas: eleger governantes tão bons de providências quanto são de entrevistas e photo-ops. Mas isso é uma utopia.

Não que não deva ser buscada. Apenas é inatingível. Como por exemplo a objetividade jornalística.

Catástrofes provocadas pela natureza (ou pelas ações do homem junto à natureza) costumam ser um corredor polonês para o político. A sorte dele depende do que faz, mas é função principalmente da abordagem, da atitude, enquanto o público ainda presta atenção na coisa.

Ontem Dilma Rousseff evitou o erro número zero de George W. Bush (ele mesmo diz isso) na tragédia de Nova Orleans. Colocou os pés no barro. A foto de um Bush na janela do Air Force One olhando a coisa de longe transmitiu distanciamento, alheamento.

Quando os democratas, com grande senso de oportunidade, associaram essa suposta frieza ao fato de a maioria dos atingidos serem negros foi fogo na gasolina.

Mas manter distância nem sempre é ruim, do ângulo do poder. O antecessor de Dilma era mestre em escapulir de situações de risco à imagem. Somada ao talento inato de colocar a culpa dos problemas em terceiros, a fórmula provou-se boa.

É sempre complicado em desastres como agora no Rio, ou nos alagamentos rotineiros em São Paulo, medir exatamente quanto da responsabilidade é dos governantes. Costuma ser subjetivo. Em geral, a porcentagem de culpa atribuída costuma oscilar inversamente ao apoio político-midiático.

Ou melhor, à disposição oposicionista e crítica.

No Rio, o governador Sérgio Cabral (PMDB) beneficia-se de suas ótimas e amplas relações para governar praticamente sem oposição ou crítica. Então não se ouvirão muitos ataques a ele, justos ou injustos.

Cabral pode até dar-se ao luxo de tirar férias no exterior numa época sabidamente complicada.

Em São Paulo há, pelo menos, oposição política do PT aos sucessivos governos do PSDB. Sempre tem alguém para colocar a boca no trombone e atacar as autoridades. O que é bom, pois ajuda a quebrar a inércia governamental, um fenômeno que independe de partido ou facção.

Na capital paulista desta vez as águas não inundaram certos trechos que antes sofriam, porque a prefeitura, criticada, tomou providências. Agora são outros a sofrer e a exigir ação das autoridades. E a caravana roda.

Já no Rio é justo reconhecer que o volume destas cheias teria causado danos gravíssimos mesmo se tudo tivesse sido feito certinho, no padrão. O maciço de serras do Sudeste está localizado em área tropical. Então uma hora a chuva vai cair para valer e os rios vão subir idem.

Assim como sobem nas áreas que recebem as águas do degelo onde há montanhas em clima frio.

Uma solução é proibir as construções perto dos leitos dos rios e córregos, ou nas encostas. Fácil de falar, difícil de fazer. Mas não impossível. Só depende de autoridade. O problema é que o exercício desse tipo de autoridade no Brasil é associado a autoritarismo.

Para todo prefeito ou governador que tente deslocar gente que mora em situação de risco sempre haverá um adversário a conclamar a população a resistir.

Se os ameaçados forem pobres, a acusação será de insensibilidade social. Se forem ricos, ou de uma classe média bem relacionada, os canais competentes encarregar-se-ão de fazer chegar ao governante a inconveniência da medida.

De tempos em tempos vai continuar morrendo gente.

Jornalistas esquadrinharão as execuções orçamentárias para saber quanto porcento da verba foi efetivamente empregada.

Autoridades reunirão séquitos de assessores e comparecerão aos locais atingidos, para mostrar sensibilidade e anunciar medidas, desta vez sem dúvida supereficazes.

E os marqueteiros correrão aflitos para auscultar as pesquisas. Para saber o efeito líquido da coisa no prestígio do chefe. Para saber se a operação comunicacional funcionou.

E a vida seguirá. Até a próxima catástrofe.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (14) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O beabá (13/01)

Antigamente as assessorias dos sindicatos estavam cheias de economistas prontos a provar que os patrões e os governos poderiam sempre pagar mais. Pelo visto, devem ter sido todos demitidos

Despertado das festas de fim de ano e diante das ameaças de rebelião na base governista (por outras razões), o movimento sindical brasileiro parece preparar alguma batalha em torno do reajuste do salário mínimo. Parece.

Foi um primeiro serviço prestado ao país pelo PMDB -tão atacado o coitadinho- nesta administração Dilma Rousseff.

As turbulências nas relações intragoverno costumam abrir espaço para a intervenção dos grupos sociais. Daí que governos odeiem quando os conflitos transbordam de dentro dos palácios. Mas é inevitável.

Líderes governistas dizem que o salário mínimo não deve ser objeto de disputa política. Essa abordagem tem o apoio de alguns, sempre prontos a questionar a racionalidade fiscal quando o dinheiro público ameaça ir para o bolso do pobre.

Assim é com o salário mínimo. Já o peso no custeio governamental dos juros desembolsados pelo Tesouro é observado com reverência temerosa, como um fato imutável da natureza. Tipo as chuvas de cada começo de ano.

As lutas políticas ganham em nobreza quando têm pelo menos alguma relação com o interesse das pessoas que não participam diretamente do governo. E quando é para ajudar os mais pobres, então, nobreza multiplicada.

Um exemplo. O país adoraria saber o que PT e PMDB propõem de diferente para assumir a Funasa. Quem sabe Dilma não devesse entregar o cargo a quem se comprometa com metas mais ambiciosas? Se não cumprir o cronograma, rua e assume o grupo rival.

De volta ao mínimo. Tinha mesmo razão o antecessor de Dilma quando dizia que uma coisa sempre complicada no Brasil é o governo tentar dar dinheiro para o pobre. A vida confirma quase diariamente.

A emergência de um debate sobre o salário mínimo mesmo no ambiente de hegemonia absoluta do situacionismo prova também outra coisa: que a dinâmica política não está necessariamente contida nos limites da aritmética institucional.

Tivesse o PSDB vencido a eleição, as centrais estariam mobilizadas para exigir até mais do que os R$ 600 garantidos na campanha pelo candidato tucano, José Serra. Como a presidente é Dilma Rousseff, do PT, o sindicalismo vem cheio de dedos, quase pedindo desculpas pelo atrevimento de apresentar a reivindicação de R$ 580.

É um movimento sindical sui generis. Podendo pedir mais, pede menos.

A proposta de R$ 600 era demagógica? Fácil verificar. Basta chamar os proponentes -todos com endereço conhecido- e pedir uma demonstração cabal sobre a racionalidade econômica do reajuste.

Antigamente as assessorias dos sindicatos estavam cheias de economistas prontos a provar que os patrões e os governos poderiam sempre pagar mais. Pelo visto, devem ter sido todos demitidos. Ou reciclaram-se.

É razoável e natural o sindicalismo preocupar-se com aspectos políticos envolvidos na luta corporativa. O problema aparece quando a saudável politização começa a interferir negativamente nas atividades fim.

Imagine um boletim sindical com o seguinte texto: "Companheiros, a oposição está propondo um salário mínimo de R$ 600, mas como não queremos enfraquecer a companheira Dilma, nem dar razão para o PSDB, nós vamos reivindicar só R$ 580. Mas podemos topar até menos."

Um argumento das centrais para desconfiar da oposição é a possibilidade de um reajuste maior este ano colocar em risco o acordo permanente, acertado com o governo anterior. Também simples de resolver. Basta introduzir na pauta que o acordo é imexível para baixo.

Aliás, o argumento de que o acordo deve ser inflexível para cima acaba de ser derrubado pelo próprio governo, ao admitir uma correção pouco maior agora, de acordo com os índices inflacionários.

Tudo isso é o beabá. Ou deveria ser.

Administrável

As boas relações com a América Latina são um trunfo interno do governo do Irã, acusado pela oposição de levar o país a um isolamento que o enfraquece diante de potenciais inimigos.

Assim, os recentes dardos brasileiros lançados rumo a Teerã no tema dos direitos humanos são um problema para o governo de Mahmoud Ahmadinejad.

Um problema administrável, desde que o Brasil prossiga apoiando o Irã no terreno nuclear.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (13) no Correio Braziliense.

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Jogo do Poder com Gleisi Hoffmann (12/01)



A senadora eleita Gleisi Hoffmann (PT-PR) é a entrevistada desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Sem czar na economia (12/01)

Será mais fácil para a presidente trocar auxiliares quando houver falta de desempenho, mas os eventuais problemas caem agora direto na conta da titular

O ex-ministro Delfim Netto costuma ironizar quem trata Economia como ciência exata. Esse tipo de ironia não costuma dar ibope, pois a cena está tomada pelos guardiães do sumo-sacerdócio da autoridade monetária, tratada como entidade acima do bem e do mal.

O instigante é tentar compreender por quê, tendo feito tudo certo, os dirigentes da economia e das finanças trouxeram o país para a atual encalacrada. Que talvez não seja ainda sensível ao cidadão comum, anestesiado pelo real forte. Mas existe.

Segundo o presidente que acaba de deixar o cargo, nossa situação não é menos que espetacular. Na vida real há porém uns probleminhas. Apesar da maior taxa de juros real do planeta, a inflação está aí.

Eis um mistério. Todos os relatos, aqui dentro e lá fora, dizem que somos uma economia em ordem, com as contas públicas institucionalmente disciplinadas, uma autoridade monetária independente e um consenso nacional solidificado em torno do manejo da macroeconomia.

Então por que raios nossos juros estão mais adequados ao último da classe, e mesmo assim funcionam mal? Eis um mistério. A resposta comum joga a culpa no endividamento público. Mas tampouco podemos ser mal classificados nessa categoria.

O Estado brasileiro deve pouco, na comparação. E o aumento da capacidade estatal de investir exigirá mais dívida. Se é legítimo uma empresa endividar-se para alavancar a produção, por que não o governo?

Existe a dívida boa e a dívida ruim. A primeira funciona como multiplicadora de riqueza. Quem não faz dívida é obrigado a vender patrimônio ou a tirar dinheiro de alguém. Não existe almoço grátis.

O problema da dívida pública brasileira não é o estoque, mas a finalidade e o fluxo. A dívida ruim é a feita para cobrir custeio. E juros altos transformam um estoque razoável num fluxo amargo.

Os juros também estão na origem da armadilha do câmbio. O Banco Central e o Ministério da Fazenda têm operado medidas paliativas, cujo estardalhaço no anúncio só é comparável à timidez dos resultados obtidos com elas.

Mas nada disso é novo, ainda que discorrer sobre o cenário seja sempre útil. A novidade agora, pelo menos no cotejo com as duas últimas décadas, é uma presidente da República que se sobrepõe completamente ao czar da economia. Aliás, não há czar da economia no governo Dilma Rousseff.

Se o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso era indemissível por Itamar Franco,  se Pedro Malan era imexível por FHC, se Antônio Palocci e Henrique Meirelles eram os avalistas do governo Luiz Inácio Lula da Silva diante do onipotente mercado, agora não há figura homóloga.

O que traz duas consequências. Será mais fácil para a presidente trocar auxiliares quando houver falta de desempenho, mas os eventuais problemas caem agora direto na conta da titular.

Muitos e nenhum

Os sinais exteriores são de desarranjo na articulação política do governo. Mas os sinais exteriores podem enganar, pois a política tem destas coisas: tudo parece desarrumado e na hora certa ajeita-se.

Entretanto, assim como na economia, também na política Dilma parece preferir a ausência de blindagem. Pois quem tem mais de um articulador político não tem nenhum.

O real articulador político do governo é sempre o presidente da República. Que costuma indicar um ministro para a área porque precisa de um culpado toda vez que é preciso (ou desejável) dizer "não".

Sobre as circunstâncias do cargo, aliás, ninguém ainda superou na descrição o um dia ministro de Relações Institucionais e hoje ministro do Tribunal de Contas da União José Múcio Monteiro: "Se a vaga de presidente da República está reservada para quem ganha a eleição, o cargo de articulador político deveria ser obrigatoriamente preenchido por quem perdeu. Como castigo."

Conto do vigário

Cresce no PMDB a sensação de ter caído num conto do vigário quando acreditou nas juras de amor eterno lançadas pelo PT antes da eleição. Ou melhor, antes da convenção.

Na prática, o peemedebismo avalia ter recebido um posto quase decorativo (a vice-presidência), perdido espaço na esplanada e reforçado, ao protestar e pressionar, a imagem de sigla de grande apetite.

Fora as ameaças palacianas de contornar os chefes peemedebistas e negociar diretamente com a soldadesca.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (12) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A tentação tucana (11/01)

A posição crítica do PSDB diante dos caminhos da aliança PT-PMDB pode permitir também outra leitura. É possível especular que o PSDB -ou parte dele- esteja a mandar certo recado para o governo e para o PT

Ficaram comuns nos últimos dias as cobranças sobre a oposição, que em público parece ter tirado férias. Esta coluna já tratou o assunto. Deve-se dar um desconto pelas circunstâncias? 

Sim. Comecinho de governo não é época para criar graves dificuldades a quem acabou de ganhar a eleição e mal agarrou o manche. Mas é realmente curioso que a oposição esteja alheia a temas tão sensíveis como o salário mínimo e a (não) correção da tabela do imposto de renda.

O Democratas anda mergulhado na luta interna pelo controle da legenda, enquanto o PSDB se limitou até agora a uma única nota oficial, para criticar o método da distribuição de cargos no governo Dilma Rousseff.

A nota tucana soa algo extravagante, pois não cabe ao PSDB supervisionar o modo como PT e PMDB se relacionam. Se os tucanos têm críticas específicas e fundamentadas a alguma nomeação, digam. Se têm acusações a fazer, façam.

A crítica genérica ao “fisiologismo” costuma ser confortável e esperta. Garante ao crítico a simpatia em certos círculos da opinião pública, sem o ônus do desgaste com ninguém em particular. E só. No ambiente político real ninguém leva a sério.

Até por não haver meio diferente de formar governo. Se você precisa de apoio político-parlamentar, deve oferecer espaço e poder a quem tem força conquistada na urna. É democrático. É o que fazem também governadores e prefeitos dos partidos de oposição a Dilma.

Aliás, funciona assim em todo canto. E funciona bem. O estranhamento aqui no Brasil deve ter a ver com nossa imaturidade democrática. Basta folhear jornais dos países com democracia mais antiga para notar que a partilha de cargos e de poder orçamentário é a regra, a rotina.

Outra coisa, bem diferente, são os malfeitos, a incompetência, o descaso com o interesse público. Mas esses são eventos que precisam ser tratados concretamente. Se não, fica estranho. Por que uma indicação do PMDB é fisiológica e condenável a priori e uma do PT, ou do PSB, não é? Às vezes a coisa soa algo preconceituosa.

Mas a posição crítica do PSDB diante dos caminhos da aliança PT-PMDB pode permitir também outra leitura. É possível especular que o PSDB -ou parte dele- esteja a mandar certo recado para o governo e para o PT. 

Que recado? Em tese, esse PSDB estaria disposto a garantir alguma governabilidade, não sendo portanto necessário que o PT ceda tanto às pressões peemedebistas -e de partidos menores- por espaço na máquina.

O PSDB é quem tem mais governadores, oito, a maioria deles em estados muito dependentes do governo federal. E tem tanbém bancadas expressivas, cuja sobrevivência eleitoral depende em grau razoável da execução orçamentária da União.

Assim, haveria um terreno potencialmente comum a tatear. Cada um faria o teatro de praxe, disparar-se-iam os discursos protocolares, mas haveria um acordo fundamental para “deixar o governo governar”. Em troca, no que interessa, os exércitos da oposição não seriam tratados como inimigos.

Seria uma tentação e tanto para o governo petista, ou para o petismo governamental, mas esbarra no medo que o gato escaldado sente da água fria. O antecessor de Dilma sonhou com algo assim no comecinho do governo, tendo colhido mais adiante instabilidade política.

Daí o esforço hercúleo em 2010 para dar a Dilma uma maioria aritmética e política confortável. Na aritmética deu certo; na política, nem tanto.

Pois a ocupação maciça de espaços pelo PT desperta nos aliados o temor diante da ameaça à reprodução dos mandatos na esfera local. O quadro petista numa posição local de poder é ameaça direta ao aliado que garante a Dilma o voto na Câmara dos Deputados.

Desafio

A The Economist traz esta semana reportagem de capa sobre a nova versão da luta de classes na Europa. 

Não mais entre capitalistas privados e operários livres, mas entre governos e seus funcionários.

Um desafio europeu é injetar produtividade em um setor público perenemente faminto de recursos.

Se é um desafio lá, mais ainda aqui.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (11) no Correio Braziliense.

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sábado, 8 de janeiro de 2011

Sem cacoete de CPI (09/01)

A Comissão da Verdade não pode virar um arremedo de Comissão Parlamentar de Inquérito, em que os fatos ficam ao sabor de arranjos políticos

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, está tecnicamente certo quando lembra que a Comissão da Verdade (CV), proposta pelo antecessor de Dilma Rousseff, deve procurar esclarecer todos os fatos ainda obscuros da guerra entre o Estado brasileiro e as organizações armadas nos anos 60 e 70 do século passado.

Fosse diferente a intenção do então presidente ao fazer a proposta, o grupo de trabalho sugerido levaria outro nome, talvez Comissão de Parte da Verdade (CPV). Ou Comissão da Parte da Verdade que Interessa Esclarecer (CPVIE).

A posição de Jobim também faz sentido política e juridicamente.

Segundo o STF, a Lei de Anistia de 1979 está em vigor. Ela abarca os crimes chamados conexos (que incluem a tortura). A imprescritibilidade e impossibilidade de anistia para crimes hediondos, como a tortura e o sequestro, bem como o próprio conceito de “crime hediondo”, são posteriores à Anistia. Retroagir seria inconstitucional.

E politicamente há uma maioria convencida de que o país ganha mais se preservar o pacto que resultou na Anistia do que se revogar. Esbarra também nessa maioria a persistente pressão de setores que julgam mais adequado para o Brasil fazer um amplo ajuste de contas jurídico com os personagens do regime militar.

A pressão é legítima. Ninguém está obrigado a concordar com uma decisão judicial, apenas a segui-la. Mesmo aqui há a possibilidade da exceção, a alternativa da desobediência civil. Mas não se aplica neste caso, em que a demanda é por uma ação do Estado brasileiro.

Será indesejável, ilegítimo e ilegal se a necessária CV for politicamente constrangida a transformar-se numa espécie de atalho para contornar a decisão do STF e criar situações de fato.

É hipótese remota, mas convém ficar de olho. Há um viés jurídico heterodoxo em segmentos do atual establishment. A ideia de que as leis valem ou não conforme a correlação momentânea de forças políticas. Um certo desprezo pelo chamado “legalismo”.

De volta à CV, ela talvez deva ser objeto de cuidado extra quando for debatida no Congresso Nacional. A comissão precisaria ser realmente plural e de preferência decidir por consenso ou amplíssima maioria, com base em fatos, documentos, registros, depoimentos convergentes.

Não faria sentido deixar a Verdade (com maiúscula) ao sabor de eventuais e escassas maiorias aritméticas. Um voto a mais ou a menos não deve ter o poder de decidir se um fato aconteceu ou deixou de acontecer. Seria bizarro.

A CV não pode virar um arremedo de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), onde os fatos ficam ao sabor dos arranjos políticos. Caminharia para a completa desmoralização. Tampouco pode adquirir feições inquisitoriais, pois isso contrariaria a decisão do STF.

“Rilex”

Desde a posse de Dilma Rousseff o Blog do Planalto opera ajustes no perfil editorial. Polêmicas sobre o trabalho da imprensa perderam espaço para a modorrenta cobertura das rotinas presidencial e governamental.

Tudo num tom bastante técnico.

O debate do novo marco regulatório na Comunicação, como informado por esta coluna, vai ganhar uma dinâmica mais lenta e cautelosa.

A proposta elaborada pelo governo anterior deverá passar por ampla peneiragem social antes de ser mandada ao Congresso.

Os fatos são autoexplicativos. O tempo vai dizer, especialmente quando emergirem as naturais pautas negativas, se é paz verdadeira ou apenas armistício.

O Planalto também se beneficia de um detalhe algo inesperado.

A surpreendente falta de sensibilidade do ex-presidente no tratamento de aspectos simbólicos do imediato pós-mandato acabou atraindo para ele os instintos críticos neste período tradicionalmente marcado pela “pax” jornalística.

Deve ser o natural e merecido relaxamento depois de oito anos. Só isso para explicar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (09) no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tara reformista (07/01)

Todo começo de governo é a mesma coisa. O sujeito ganha um mandato nas urnas e sai apregoando a premência das reformas política e tributária. Antes eram quatro, com a da previdência e a trabalhista

Há alguma polêmica sobre a autoria da famosa frase atribuída a Otto Von Bismarck, a das leis e salsichas (se as pessoas soubessem como são feitas, não confiariam nem numas nem noutras). Mas um ponto é consensual: dificilmente haverá no planeta algo parecido com a salsicharia canarinho.

Aqui os vereadores, deputados e senadores são julgados pelo número de projetos de lei que apresentaram, ou aprovaram. E governar, ao menos no plano federal, é editar medidas provisórias, o nome bonito que os constituintes inventaram para perenizar o instituto ditatorial dos decretos-leis.

O presidente da República legisla ad referendum do Congresso, e (quase) todo mundo acha normal.

Isso quando não tentam transformar a Constituição numa colcha de retalhos, num depósito de penduricalhos, mais do que já é.

E na salsicharia não tem crise ou recessão. Ultimamente, todo começo de governo é a mesma coisa. O sujeito ganha um mandato nas urnas e sai apregoando a premência das reformas política e tributária. Antes eram quatro, com a da previdência e a trabalhista.

As duas últimas saíram de moda.

A trabalhista foi desmoralizada pelas estatísticas que o governo anterior produziu sobre a criação de postos de trabalho.

Os números trazem alguns mistérios para a ciência econômica, como a suposta criação líquida de um milhão de empregos formais em 2009, ano em que a economia amargou uma recessão de 0,6%. Mas não há dúvida de que no governo anterior se produziram empregos aceleradamente.

E sem tirar um mísero direito trabalhista. Nenhunzinho.

Outra reforma que anda em baixa é a da Previdência Social. O governo anterior manteve o Congresso Nacional e a opinião pública entretidos com ela no primeiro ano, 2003, para em seguida desencanar completamente da dita cuja.

Talvez seja a única premente, dado o rápido envelhecimento da população brasileira, resultado das taxas declinantes de natalidade e mortalidade. Mas quem vai ser louco de abrir o debate sobre o fim da aposentadoria por idade? A pressão é no sentido oposto, é para acabar com o fator previdenciário.

Sobram então as reformas tributária e política. Todos (ou quase) estão de acordo, até entrar no debate do conteúdo.

A tributária enfrenta uma dificuldade. Como organizar o Estado (União, estados e municípios) de modo a 1) cobrar cada vez menos impostos, 2) prestar cada vez mais e melhores serviços e 3) reduzir consistentemente a dívida pública? Quem resolver a equação será candidato a algum Nobel.

Uma tentação é fazer a reforma manu militari, descendo a dolorosa pela goela de alguns, para alegria de outros. O debate sobre os royalties do pré-sal evidenciou a dificuldade desse caminho.

Já a “necessidade” da reforma política nasce de uma esperteza. Há problemas na política brasileira. Em vez de discuti-los objetivamente, projeta-se o desejo de uma mudança abstrata. Que poderá ser para melhor, mas também para pior. Aliás, não parece haver no planeta país satisfeito com suas atuais regras político-eleitorais.

Nem deve haver país com uma tara reformista comparável à nossa.

Longo

Ainda falta a batida final do martelo pela presidente da República, mas o debate sobre o novo marco regulatório das comunicações vai ser objeto de ampla e prolongada consulta pública antes de ser enviado ao Legislativo.

Esse “antes” é a chave da coisa. É um caminho intermediário entre 1) simplesmente ignorar o trabalho produzido no governo anterior e 2) injetar a polêmica agora diretamente no Congresso Nacional.

O governo espera que um longo debate público pré-legislativo, a ser eventualmente coordenado pelo Ministério das Comunicações, cuide de resolver as maiores polêmicas antes de o texto desembarcar nas mãos de deputados e senadores.

Ou seja, o que o Planalto menos deseja nesta altura do campeonato é uma polarização política prematura, que arraste o governo nascente para uma agenda negativa no Legislativo e na imprensa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (07) no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Íntimos e desconfortáveis (06/01)

Talvez os ex-profissionais do PMDB tenham acreditado em algum momento que seriam tratados como iguais na coalizão. Pela aritmética, até deveriam ser

Se havia dúvida sobre aptidões político-midiáticas da nova presidente, as nuvens começam a dissipar-se. É um estilo algo diferente, mais silencioso. Nem por isso menos eficaz. A ocupação maciça de espaços pelo PT de Dilma Rousseff aparece ao público como sacrossanta missão destinada a impedir que a máquina estatal seja tomada pela "fisiologia". Dos outros, naturalmente.

E não só. O assunto agora vem acoplado a um também caríssimo à elite, essa pobrezinha tão maltratada nas campanhas eleitorais: a necessidade imperiosa de evitar o aumento "irresponsável" do salário mínimo. E tem também a privatização dos aeroportos.

Quem é a vítima da vez? O PMDB, colhido na armadilha como um animal indefeso.

Talvez os ex-profissionais do PMDB tenham acreditado em algum momento que seriam tratados como iguais na coalizão. Pela aritmética, até deveriam ser. Têm mais ou menos o mesmo tanto, tudo somado, de deputados, senadores, governadores. Têm o vice.

Há porém outra variável. Diante de uma oposição em dificuldades no plano federal, sobrou para o PMDB o papel de principal ameaça potencial ao poder. Desde a campanha, passando pela transição e montagem do governo, nota-se o trabalho metódico para desossar o que seria aliado em situação de ameaça externa, mas que toma cores de rival na ausência de uma.

Há algo de replay nisso. Na largada do governo anterior o PMDB foi escanteado pelo então recém-presidente, pessoalmente.

A legenda estivera coligada com o PSDB em 2002, a cotovelada até fazia algum sentido na política, apesar da aritmética. Com o andar da carruagem e a eclosão de seguidos contrangimentos e necessidades aritméticas, o tempo acabaria recolocando a realpolitik no merecido lugar.

Mais ou menos como ocorrera nos governos do PSDB na década anterior.

A lógica da operação política de Dilma parece ser provocar a primeira batalha da guerra de movimentos agora, quando está num ápice de poder. "Nunca teremos outra chance como esta para enquadrar o PMDB", diz um articulador do governo no Congresso.

Meio atordoado, o PMDB reage algo estabanadamente, sem saber se morde ou assopra. O mais sensato seria assoprar (talvez dando uma mordidinhas no bastidor), para evitar maiores perdas materiais.

Recuar para não ser sangrado em excesso. Mas, como escrevi outro dia, o bom senso é muito útil em quase todas a situações, só não ajuda muito nas mais importantes. Vai que o PMDB peita e se dá bem? Sei lá. Mas os sinais vão no sentido contrário.

De triste, apenas a infelicidade de o salário mínimo ter sido colhido pelo fogo cruzado da luta interna na esplanada. Talvez a coisa mude de figura quando as centrais sindicais voltarem das férias e receberem a informação sobre o aumento mixuruca, casadinho com o congelamento da tabela das deduções do imposto de renda.

Vai saber...

Político-partidária

O governador reeleito de Sergipe, Marcelo Deda (PT), sugere que a reforma política mude de nome, para reforma político-partidária.

Um motivo é a necessidade de a lei prever mecanismos de democracia interna nas legendas. Elas recebem dinheiro estatal e todos são obrigados a entrar num partido se quiserem disputar eleição. Então será natural que uma eventual reforma cuide de garantir vida mais democrática dentro das siglas.

O governador defende que o debate não fuja de assuntos delicados. Um deles: exigir que para concorrer à eleição o partido esteja definitivamente organizado no nível específico, com convenção feita.

Hoje em dia o cacique nomeia uma comissão provisória e sai com a pastinha embaixo do braço negociando o tempo de televisão.

Boas ideias há. O novo líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), defende o fim das coligações nas proporcionais (deputado, vereador) e a perda do tempo de televisão (e rádio) se o partido não lançar candidato próprio.

O partido poderia coligar-se, mas não carregaria com ele os minutos (ou segundos) na telinha.

Se o governo quiser um debate para avançar, e não para piorar, tem por onde seguir.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (06) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Jogo do Poder com Marcelo Déda (05/01)

...

O governador reeleito de Sergipe, Marcelo Déda (PT), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Na marca da cal (05/01)

A herança do ex-presidente no front externo não deve ser julgada apenas pelo pênalti perdido em Teerã. Até porque Dilma pode, se quiser, pedir para voltar e bater de novo

Foi sintomático de um estado de espírito que o ex-presidente tenha se despedido do cargo com ironias sobre a situação da economia nos países ricos. A mensagem foi clara: vocês que viviam nos receitando remédios esqueceram de cuidar da própria saúde.

Não chegou a ser grande novidade, considerada a referência que mais atrás o presidente fizera aos loiros de olhos azuis como responsáveis pela crise de 2008.

Nossa economia andou relativamente bem no último período, quando comparada a ela mesma dos anos 80 para cá. É a comparação razoável a fazer. Mas seria honesto reconhecer pelo menos duas coisas.

A prosperidade brasileira assenta-se na sólida disciplina fiscal, em bom grau imposta a nós na esteira das sucessivas crises dos emergentes nos anos 90. E parte grande da nossa blindagem na recente conturbação decorre não de qualidades, mas de um defeito: o ainda baixo volume de crédito.

Numa crise de confiança no sistema creditício vai melhor quem está menos endividado, e portanto tem mais credibilidade para honrar as dívidas. O crédito no Brasil é escasso e caro. Isso está longe de ser bom. Bancos com a saúde excessivamente fulgurante nem sempre são notícia alvissareira para quem não é acionista de banco.

Mas esta coluna não é sobre a crise, é sobre um possível recalque que o Brasil possa ter carregado de certas frustrações recentes.

Quando assumiu em 2003, e por bom tempo ao longo dos dois mandatos, o presidente trabalhou para projetar o papel de ponte, de liga entre o mundo rico e o mundo pobre. A simbologia foi carimbada logo depois da posse, com visitas acopladas a Davos, o Fórum Econômico Mundial, e a Porto Alegre, o Fórum Social Mundial.

Era a senha para um conjunto de movimentos. Desde a operação para a vaga no Conselho de Segurança da ONU até o acordo de Teerã sobre o urânio enriquecido dos aiatolás. Passou pela imensa energia investida para tentar concluir a Rodada Doha e pelo esforço para fazer do G20 um ator relevante na elaboração de uma nova arquitetura planetária das finanças.

A administração anterior empregou belo capital em ações que pressupunham a possibilidade de um protagonismo multipolar. Confiou na inevitabilidade do multilateralismo, personificado nas instâncias que dão forma ao conceito. Tratou de humanizar a globalização. Os resultados foram fracos. Bem fracos.

Mas nem sempre as iniciativas inovadoras dão resultados imediatos, e é preciso dizer que o hoje ex-presidente se esforçou para colocar o Brasil num papel mais compatível com nosso tamanho em território, economia e população.

Os críticos apontam certa falta de medida. É complicado saber qual teria sido a medida “certa”. Acaba virando um debate sobre engenharia de obra feita.

Há também ressalvas na esfera dos direitos humanos e na relação com regimes ditatoriais, mas aqui seria igualmente necessário lembrar que não há país que guie suas relações com outros principalmente por esse critério. Nunca houve.

Problema mesmo foi a trapalhada de Teerã. Nada havia de errado em tentar um último diálogo antes das sanções, mas ficou a impressão de a diplomacia brasileira e o presidente terem se apaixonado por si próprios e avançado o sinal sem necessidade.

Não era apenas um possível acordo, a ser ainda submetido às grandes potências. Era o nascimento de um líder global apto a conseguir o que ninguém havia conseguido, a ter sucesso onde os demais haviam colhido apenas fracassos. Era, enfim, uma mudança radical de paradigma.

Deu errado, e o Brasil saiu da história como o país para quem não é tão problema assim o Irã seguir na busca de um artefato nuclear para fins bélicos. E a fuga para adiante só piorou as coisas, quando o presidente foi dúbio e evasivo sobre a conveniência de uma proliferação nuclear global.

Mas a herança de sua excelência na área externa não se resume a esse erro, assim como Zico não pode ser julgado só pelo pênalti perdido contra a França em 1986.

Com uma vantagem agora: Dilma Rousseff pode pedir para bater novamente o pênalti e recolocar o tema no eixo do qual jamais deveria ter saído. Basta reafirmar que para o Brasil um Irã dotado da bomba é inaceitável, sem dubiedades.

Afirmação que, por algum motivo, o antecessor não fez.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (05) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Paz em Brasília (04/01)

Mais que poder, nossa oposição parece desejar mesmo é ter razão. Como o PT, ao contrário, está sempre disposto a deixar de ter razão se for necessário para manter o poder, estamos diante de um casamento quase perfeito

A oposição não venceu as eleições, mas sua luta ficou longe de ter sido em vão. Neste nascedouro de governo Dilma Rousseff as tendências que a imprensa captura aqui e ali sobre a agenda da coalizão petista em Brasília e nos estados trazem marcas inconfundíveis.

Contenção do custeio, busca de portas de saída para o Bolsa Família, privatização dos aeroportos, ênfase nos direitos humanos nas relações com outros países, remuneração variável dos professores da rede pública conforme o desempenho de seus alunos, limites à flutuação do câmbio, proteção à indústria nacional, rejeição a controles estatais sobre o jornalismo, preocupação redobrada com o tráfico de drogas nas fronteiras e pressão sobre os vizinhos produtores de droga.

As coisas parecem seguir um script paradoxal. PT e aliados ganharam em outubro porque a maioria dos eleitores preferiram manter a missão nas mãos de alguém ligado ao presidente que saía, mas para cumprir a promessa de renovação na continuidade o partido precisará seguir promovendo rupturas consigo próprio e olhar com carinho para as pancadas que recebeu dos adversários.

Não chega a ser grande novidade, mas sempre merece registro. E há também o esgotamento, no universo discursivo, de um certo progressismo. Quando José Padilha lançou seu primeiro Tropa de Elite anos atrás houve muita polêmica. Hoje o então Capitão e atual Coronel Nascimento virou unanimidade nacional, especialmente depois do "terceiro episódio" recém-rodado no Rio de Janeiro.

Sempre que necessário o PT pode operar quase sem dor ou maiores perdas seus ritos de passagem, pois enfrenta uma oposição peculiar. Deve ser caso único no planeta, mas mais do que poder nossa oposição parece desejar mesmo é ter razão. Como o PT, ao contrário, está sempre disposto a deixar de ter razão se for necessário para manter o poder, estamos diante de um casamento quase perfeito.

Sem falar nas bolas que pingam mas não são chutadas. A oposição atravessou agora em silêncio o debate sobre o reajuste do salário mínimo e assiste também silenciosa ao congelamento da tabela do imposto de renda.

Mas há aqui um reparo possível a essa caracterização propositalmente caricatural. A timidez da oposição nas refregas brasilienses não seria tão confortável, nem tão previsível, não houvesse poderosas máquinas estaduais capazes de abrigar e alimentar os exércitos tucanos. Ao que assistimos então não é simples timidez: é acomodação a um status quo aceitável.

Diferentemente porém do que supõe o senso comum, sempre que o ambiente em Brasília é de muita paz o eleitor-cidadão-contribuinte tem motivos redobrados para acautelar-se.

Os parlamentares aprovaram um belíssimo reajuste para si próprios e um mais lindo ainda para o primeiro escalão do Executivo, incluída naturalmente a presidente. Eles apanharam também por ela, e ficou por isso mesmo. Entrementes, o arrocho do salário mínimo mereceu apenas muxoxos.

As centrais sindicais, por exemplo, não julgaram conveniente interromper as festas de fim de ano para tratar do assunto para valer.

E agora vem aí a reforma política. Com a lista fechada (nomeação dos deputados federais pelas cúpulas dos partidos) e a fidelidade partidária o Congresso Nacional deverá transferir na prática suas atividades para alguma antessala do Palácio do Planalto.

E como revogar os espaços de autonomia do Legislativo -ou impedir a oposição de se financiar na sociedade- convém também a governadores e prefeitos, é provável que a cassação do voto direto para a Câmara dos Deputados, assembleias legislativas e câmaras municipais encontre respaldo político na nossa sábia oposição.

Que continuará sonhando com o radioso dia em que ela própria poderá, quem sabe?, voltar a governar o Brasil. E com todos os instrumentos de poder concentrado que ela, oposição, ajudou a criar para o governo de seus adversários.

Merecido

O ambiente de comemoração que cerca a primeira mulher presidente da República deveria ensejar desdobramentos. Em maio, talvez o novo governo devesse promover uma homenagem à primeira mulher que governou o Brasil, a Princesa Isabel.

Seria merecido. O aniversário da libertação dos escravos é boa ocasião para lembrar daquela que implantou, ao assinar o fim da escravidão, o maior e mais importante programa social da História do Brasil.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça no Correio Braziliense.

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