segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Vai esquentar (21/11)


A Comissão da Verdade começa relativamente consensual, mas tem tudo para transformar-se em palco de intensa luta político-ideológica

Vem aí a Comissão da Verdade, produto do compromisso com alguma solução política que 1) confirme a intenção governamental de dar satisfação sobre os fatos da ditadura (1964-1985) e 2) evite dissensos em grau que possa atrapalhar o governo.

Aparentemente a coisa anda sob controle, delimitada pelas decisões do Supremo Tribunal Federal sobre a Anistia e pela amplitude da costura feita para o projeto passar no Congresso.

Aliás o relator no Senado foi do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira (SP). Ele próprio um ex-guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional. E que depois migrou para o Partido Comunista Brasileiro, para a linha de luta de massas e frente ampla contra a ditadura.

Tudo parece estar controlado, mas a vida é mais complexa que os esquemas previamente definidos. E os fatos políticos uma vez nascidos ganham pernas. Passam a caminhar com certa autonomia.

É o que acontecerá com a Comissão da Verdade.

Seus membros serão escolhidos com um olho na isenção, dizem. Impossível na prática.

Os mundinhos da política e da opinião pública costumam cultivar a ilusão do apartidarismo, das personalidades técnicas, das expressões suprapartidárias.

Dos entes moral e intelectualmente acima das diferenças que engolem os mortais comuns. Engana-me que eu gosto.

Quando a roda começa a girar a conversa muda. Cada um assume seu lado e o bicho pega.

A Comissão da Verdade, concebida como foi e montada como será, vai carregar um imenso potencial publicitário.

Será uma fonte caudalosa de pautas, de matéria-prima para o trabalho jornalístico fora do ramerrame da politiquinha.

E já lembrava o personagem vivido por Al Pacino no belo Advogado do Diabo: o pecado capital preferido do tinhoso é a vaidade. E a política sem vaidade ainda está por ser inventada.

Quem vai resistir à tentação de sobressair como justiceiro? É quase irresistível. Quem vai resistir a assumir o papel de certificador histórico? Será quase desumano pedir ao sujeito que recuse.

Esse segundo aspecto é menos discutido. Há no governo interesse em que a Comissão da Verdade produza uma nova história oficial do regime militar. Algo que venha como a palavra definitiva sobre aquele período.

Ainda que no longo prazo seja inútil, pois o destino das histórias oficiais é a desmoralização. Que vem quando o vento muda de lado e a força antagonista assume o poder para produzir sua própria versão oficial dos acontecimentos passados.

Mas taticamente a coisa pode ter alguma utilidade, pois nas escolas militares e na caserna persiste a linha de que a intervenção das Forças Armadas em 1964 teve por objetivo defender a democracia contra um golpe comunista.

As Forças Armadas venceram a guerra contra as organizações guerrilheiras no plano militar, mas na guerra durante a paz, ou pós-guerra, não repetem o desempenho.

Os adversários derrotados no campo de batalha foram empurrados para a luta política institucional, onde tiveram sucesso. Os três últimos governos vieram comandados por personagens da resistência ao regime militar.

Mas falta completar a obra no terreno ideológico-doutrinário. Obrigar os militares a aceitarem a versão histórica dos adversários.

Eis por que a Comissão da Verdade começa relativamente consensual mas tem tudo para transformar-se em palco de intensa luta político-ideológica.

Porém o cenário para o governo não é todo cor de rosa. O texto permite escarafunchar também as violações aos direitos humanos cometidos pela resistência.

E aí a caserna leva alguma vantagem. Pois desde a transição de 1984-85 as Forças Armadas cuidam de coletar e sistematizar todas as informações sobre a atuação dos adversários naquela época.

Guerras só são bonitas nos maus livros de História. Ou na propaganda. Na vida real, quando há guerra todos perdem. Ganha quem perde menos. Mas todos os lados contabilizam vítimas.


Coluna publicada nesta segunda (21) no Estado de Minas.



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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Você está certo. Não me considero um esquerdista, mas se fosse, deixaria quieto esse assunto. Quando o grande público tomar contato com o frio assassinato do capitão Charles Chandler na frente da família, o atentado à base de Guararapes, o sumiço da caixinha do Adhemar, os dramas de Orlando Lovecchio e do soldado Mário Kozel filho e as reais intenções dos comunistas para o Brasil, a aura de santidade dos guerrilheiros, já conspurcada pelos casos de corrupção no governo Lula, estará irremediavelmente comprometida. Se eu fosse esquerdista, acharia mal negócio essa tal comissão e presumo que o governo Dilma já percebeu a armadilha que está preparando para si mesmo. Mas se é para contar a real história do período militar, que venha a Comissão da Verdade. Veremos que não existiram heróis nem à esquerda nem à direita.
Fernando José - SP

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 10:02:00 BRST  
Anonymous Samuel Vidal disse...

Os deputados e senadores deveriam se preocupar com os problemas do presente. O que passou, passou. Já faz 26 anos que o regime militar acabou, metade da população do Brasil tem menos de 30 anos, nem viveu aquela época. Essa comissão só vai alimentar o revanchismo de ambos os lados. O próprio nome dela exala autoritarismo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 10:19:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Tivemos no século XX no Brasil duas ditaduras. Quantos brasileiros têm uma efetiva consciência desse fato?

Se a história serve a alguns propósitos, o mais importante é o de mostrar quais os caminhos que no passado nos levaram a lugar nenhum. Assim, o passado que a Comissão deve investigar, a produção de conhecimento dele, não pertence a indivíduos ou grupos protagonistas neste passado, mas aos brasileiros, sobretudos aos mais jovens.

O conhecimento efetivo dos fatos unidos à ditadura deve servir à educação do povo brasileiro, principalmente para que estes fatos não se repitam em nossa terra como novas tragédias.

Estou entre aqueles que pensam que os arquivos referidos ao período devem ser franqueados a qualquer interessado em conhecer esse passado e que as consultas não podem ser mediadas por agentes governamentais. Ao Estado somente cabe a guarda e preservação desses documentos.

Se a Comissão se ativer ao exame objetivo dos fatos ela poderá produzir conhecimento histórico útil à sociedade. Mas se, ao contrário, a Comissão enveredar pelo nebuloso resgate de uma “história dos vencidos”, então ela prestará um serviço à ideologia e em prejuízo da formação da nossa consciência histórica.

O que se espera da Comissão da Verdade é que ela não aplique sobre a história do período o que Eric Auerbach chamou de técnica do holofote. Esta consiste em iluminar apenas uma das cenas de um complexo desenrolar de acontecimentos para convencer que o foco que ilumina é toda a realidade.

Nas palavras de Auerbach, a técnica do holofote “consiste em iluminar excessivamente uma pequena parte de um grande e complexo contexto, deixando na escuridão todo o restante que puder explicar ou ordenar aquela parte, e que talvez serviria como contrapeso daquilo que é salientado; de tal forma que aparentemente se diz a verdade, pois o que é dito não pode ser negado; e não obstante, tudo é falsificado, pois a verdade exige toda a verdade, assim como a correta ligação das suas partes.” [Mimesis, a representação da realidade na literatura ocidental, São Paulo, Perspectiva, p. 361.]

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 14:00:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Na realidade, nunca haveriam isentos nessas horas e para tratar de certos assuntos.

De todo modo, haveria o efeito positivo de as famílias poderem, talvez, saber sobre os seus. Isto, seria o ponto mais importante.

Já a luta político-ideológica, embora também como parte, em tais momentos, não levaria a nada. Este, seria o ponto mais desimportante.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 18:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pelo menos sabe-se como morreram E com testemunho da família,no caso do capitão americano.Soldados não são enfeites.Sobrevivência é sempre um bônus.Não fosse,por que haveriam de condecorá-los.A farsa das razões do golpe de 1964,estão sobejamente documentadas,pelo próprio departamento de estado,que as divulgou.Os militares ,aqueles que preservam numa redoma seus ressentimentos por não viverem numa república castrense,ficarão amuados com as verdades reveladas.
Mas, nem de longe experimentarão os sentimentos brutais da injustiça cometida a inúmeras famílias ao longo desses 47 anos.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 18:33:00 BRST  
Anonymous Eduardo disse...

Esse "vamos deixar isso prá lá", "não vale a pena tocar no assunto", só prova que esse assunto ainda não está superado.

Eu nasci com a constituição de 88, não vivi nada dessa época, mas posso perceber a ambiguidade dessas frases.

A versão dos militares sobre 64 é bastante irrealista, visto que não obdeceram a própria constituição vigente à época. Deformaram a democracia para protegê-la? Nunca consegui achar fatos reais de que havia uma intenção de golpe comunista por parte de Jango (o Brizola era be mais radical que ele, mas mesmo assim era masi ultra nacionalista do que comunista).

Por outro lado a Dilma simboliza o equívoco das guerrilhas. Alguém acha que o objetivo dela na presidência é implantar o comunismo? Ela se convenceu de que lutara por causas erradas ao assumir o 'jogo' democrático?

Precisamos saber conversar sobre esses assuntos de forma civilizada, por que o medo? Tantos generais da época nem estão mais vivos.. Não faz sentido essa atitude defensiva, as forças armadas só ganhariam com um debate franco com a sociedade civil. Elas (FAB) são importantes para o país e devem reasssumir seu prestígio de forma integral.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 19:21:00 BRST  
Blogger EPx disse...

O fato é que ninguém quer esclarecer, quer é revanche.

Aquele torturador, o Marcelo Paixão de Araújo, que foi homem o suficiente para falar sobre o que fez na VEJA em 1998, e em troca foi indiciado em processos por ter "admitido" algo que na verdade já era público e notório. Não teve apoio de lado nenhum. É o tipo de cara cuja "punição" devia ser dar palestra em escola.

A lenda do heróico combatente de esquerda se alimenta da mítica monstruosidade do torturador, e a lenda do abnegado e puro agente de segurança que salvou o Brasil do comunismo depende de carimbar qualquer contestador como terrorista. O alucinógeno de um é cultivado no quintal do outro.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 23:34:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Por isso mesmo que a parte político-ideológica é mais desinteressante.
E a mais desimportante.

Está claro que nunca haverá isentos a tratar desse assunto. Até ai, tudo bem.

O que deve ter é gente adulta.

terça-feira, 22 de novembro de 2011 15:29:00 BRST  

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