segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um erro (28/11)


Os ministros herdados pela nova presidente, ou alguns deles, vem cometendo um erro de avaliação. O cenário da guerra com Luiz Inácio Lula da Silva era um. Com Dilma Rousseff é outro

Há certa rotina quando aparecem acusações de corrupção contra políticos. Os adversários apressam-se para condenar, enquanto os aliados correm a acusar o que chamam de denuncismo.

Aliás, uma definição algo humorística para a dualidade é considerar que denuncismo são as denúncias lançadas contra nossos aliados enquanto denúncia é o denuncismo praticado contra nossos adversários.

Uma piada que merece ser levada completamente a sério.

É o teatro da política, com seus atores. Quando é contra adversários, uma revelação, uma palavra de ministério público, um relatóriUo de tribunal de contas, um depoimento, tudo serve como prova definitiva.

Quando é contra aliados, exige-se o trânsito em julgado, a sentença da última instância, a presunção pétrea de inocência, o in dubio pro reo.

Quando é contra adversários, exalta-se a independência do Legislativo como esfera de fiscalização do Executivo. Quando é contra aliados, exerce-se a maioria parlamentar para trancar a porta às investigações.

Em nome da governabilidade. Para evitar a indesejável politização de algo que deveria correr apenas na esfera jurídica.

São scripts manjados, estão aí desde que o mundo é mundo.

Como equilibrar-se na gangorra? Não há solução simples. Os princípios jurídicos estritos não se aplicam à política.

Não dá para defender, como regra, manter no cargo o político acusado até que a instância judicial definitiva se pronuncie. E não dá para estabelecer que aqualquer acusação implique remover o acusado.

A verdade, como de hábito, costuma estar em algum ponto intermediário. Mas como localizar o ponto de equilíbrio na política? Infelizmente (ou felizmente, vai saber...) ele é definido pela relação de forças, pela disposição dos exércitos.

Disposição em ambas as acepções. Distribuição e vontade de combater. E, como em toda guerra, a vontade de lutar aumenta conforme a chance de vitória. E o contrário também vale.

Os ministros herdados pela nova presidente, ou alguns deles, vem cometendo um erro de avaliação. O cenário da guerra com Luiz Inácio Lula da Silva era um. Com Dilma Rousseff é outro.

Lula começou o governo centralizando poder, mas a crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson obrigou-o a acelerar a descentralização. E esta transformou-se em fonte de poder presidencial, pela blindagem propiciada.

Já Dilma precisaria buscar poder desfazendo o que Lula fizera. Para governar, retomar o controle do próprio governo, desfazendo feudos e dissolvendo bolsões de autonomia orçamentária.

Eis por que a relação de forças é desfavorável aos ministros que entram na linha de tiro.

Enquanto a periferia do governismo busca desvendar as conspirações e acusa quem aponta o dedo para os problemas chamados éticos, o governo porpriamente dito, especialmente a presidente, surfa na onda.

De vez em quando precisa moderar o ritmo, para dar alguma satisfação ao público interno, mas nada além disso.

A aliança de Lula era com os partidos e contra um certo pedaço da opinião pública. Já Dilma cultiva as relações com os antigos adversários de Lula, para limitar o poder do entorno. Mas sem romper com o entorno.

O dilmismo deseja o melhor dos mundos. Manter o arco de alianças construído por Lula e neutralizar os focos de crítica. Daí que pareça governar sem oposição.

Aposta

O governo aposta no mercado interno para superar a pasmaceira decorrente das dificuldades econômicas europeias, que terão impacto global. Já vêm tendo.

A aposta é a de costume. Ampliar crédito, proteger setores econômicos, apoiar-se numa certa autarquização.

Faz sentido, desde que a linha inclua mecanismos para aumentar radicalmente a competitividade da economia brasileira, nossa capacidade de buscar mercados.

Pois um dia a crise vai passar e é preciso saber como vamos estar então. Se estaremos prontos a disputar com vantagem os espaços numa economia mundial relançada.

Pelo menos na indústria, o cenário está longe de ser animador.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (28) no Correio Braziliense e no Estado de Minas.



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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Junto ao post “O custo de um estilo” de terça-feira, 08/02/2011, aqui no seu blog, salientei que, dado o gigantismo do Estado, com moto próprio, não se deve esperar resultados diferentes decorrentes de estilos distintos de governança.
E junto ao post “Probabilidade nula” de domingo, 17/07/2011 referi-me à natural distinção entre os estilos de Lula e de Dilma Rousseff e que, portanto, não se deveria esperar que Dilma Rousseff comportasse como Lula, assim como Lula não agia como presidente do mesmo modo que Dilma Rousseff age.
Não sei dizer, mas imagino que você ai em Brasília tenha conhecimento bem próximo do que aconteceu em relação à provável mudança no modelo gerencial que Lula teve que adotar durante o governo dela. E é bem provável que se o governo está um tanto descentralizado, a presidenta Dilma Rousseff com o estilo próprio queira reverter o modelo retomando, como você diz, "o controle do próprio governo, desfazendo feudos e dissolvendo bolsões de autonomia orçamentária".
Enfim, essa primeira parte do seu post está de bom tamanho para o meu gosto e penso que embora a frase não diga muito, você só podia dizer que a presidenta Dilma Rousseff parece "governar sem oposição", pois para dizer que ela governa sem oposição era necessário que não houvesse oposição, ainda que “assim é se assim lhe pareça”.
Agora quanto a política econômica e ainda que seja posição de leigo, não comparo a situação de 2008 com a de 2011. A crise de 2008 foi uma crise de superprodução alavancada por superfinanciamento que afetou o mundo todo no quarto trimestre de 2008 e levando o comércio internacional a um patamar bem inferior ao do período imediatamente anterior.
O Brasil tinha duas reações para a crise: ancorar-se em um real desvalorizado que pudesse recompor a economia pelo mercado externo ou volta-se para o mercado interno. A opção pelo mercado externo foi até imaginada, com o real chegando a atingir 2,3 para um dólar. A avaliação no seio do governo deve ter sido de que, como houve uma depressão no comércio mundial, a retomada da economia brasileira puxada pelo mercado externo seria segura, mas muito lenta, com pouca possibilidade de eleger a candidata em 2010. Assim, para a campanha da candidata Dilma Rousseff, a melhor opção seria incentivar o mercado interno em que o governo tem um papel mais preponderante e aparece mais para a população.
Para o Brasil melhor seria optar pelo mercado interno. Como já houvera ocorrido o Plano Real, em que o governo fora aos céus para ganhar a eleição, não haveria como colocar óbices a escolha do governo. O país perderia, mas muito menos do que perdeu com o Plano Real.
Como a próxima eleição é eleição para prefeito em que o governo federal vai fazer pouca diferença e que salvo para montar a base de algumas estratégias para 2014 não haverá necessidade de se esforçar muito, o governo federal poderá fazer a opção pelo mercado externo agora, e atuar pontualmente para acertar o mercado interno deixando por conta do mercado a recuperação econômica do país. Em uma situação assim, o país poderá crescer em ritmo melhor na eleição de 2014.
E que se diga, o crescimento pelo mercado externo não é contra o mercado interno. Ele de imediato precisa de poupança interna, pois sem ela não há como ter saldo na Balança Comercial. Nada a preocupar, pois a poupança é quase como uma regra decorrente da desvalorização (A desvalorização aumenta a inflação que reduz a demanda, ou seja, aumenta a poupança). E a moeda desvalorizada vai inflar o setor exportador que aumenta os lucros e na seqüência os investimentos. O crescimento do setor exportador alcança os outros setores da economia que assim se incorporam ao crescimento econômico. O mercado interno passa a crescer, mas com defasagem suficiente para manter o saldo na Balança Comercial.
Não é a frase certa para se dizer, mas é o que eu penso: dessa vez é diferente.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/11/2011

quarta-feira, 30 de novembro de 2011 21:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Faço uma ressalva ao seu post “Um erro”. Não creio que os ministros herdados pela nova presidenta, ou alguns deles, venham cometendo um erro de avaliação em não perceber que o cenário da guerra com Lula é distinto do cenário de guerra com Dilma Rousseff.
Se eu que estou fora percebo a diferença, é muito mais provável que quem esteja lá dentro saiba. Então eles sabem disso. Aliás, a maioria das acusações refere-se ao período anterior ao do governo da presidenta Dilma Rousseff. A própria presença da Dilma Rousseff coordenando reuniões de ministros com o presidente já permitia que os ministros observassem a diferença.
Esse assunto da queda dos ministros torna-se mais interessante com a queda, que inevitavelmente ocorrerá, do ministro Carlos Lupi. E a forma de demissão de Carlos Lupi acaba sendo um grande achado do governo da presidenta Dilma Rousseff. Escrevia isso na noite de 30/11/2011 em que veio a notícia de que a Comissão de Ética da presidência recomendou por unanimidade a demissão do ministro Carlos Lupi. O Carlos Lupi acabou perdendo uma velha briga que ele tinha com a Comissão. Durante um certo tempo ela recomendou o afastamento de Carlos Lupi, ou do governo ou da presidência do PDT. Ele acumulou os dois cargos enquanto quis e depois afastou da presidência do PDT. Salvo engano, o ex-ministro Marcílio Marques Moreira saiu da Comissão em razão de Carlos Lupi ter postergado a desincompatibilização da presidência do PDT.
O Carlos Lupi deve estar imaginando que fez coisa pior do que Antonio Palocci, afinal, a Comissão tinha tomado conhecimento da situação de Antonio Palocci e não viu na situação impeditivo para que ele assumisse o cargo de ministro da Casa Civil. E no caso de Carlos Lupi, a Comissão vê os requisitos para a demissão.
A Comissão de Ética da Presidência da República é coisa do velho PT. No máximo, o que ela vai impor vão ser regras de etiquetas. Carlos Lupi não tinha a educação das melhores famílias mineiras nem dos quatrocentões paulistas. Nesse caso, o Carlos Lupi era manjar fácil para a Comissão. Aliás, como também teria sido o Lula, se ele não fosse o presidente.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/12/2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011 12:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Se não fosse a recomendação de demissão da Comissão de Ética da Presidência da República, o assunto sobre os ministros e o outro que eu queria tratar poderia vir em um só comentário.
Quero só destacar que no Valor Econômico de terça-feira, 29/11/2011 e no de quarta-feira, 30/11/2011, há algumas matérias que, embora não corroborem a minha idéia de que desta vez é diferente e embora eu seja um pouco crítico às opiniões que nelas são expressas, valem à pena uma leitura, até porque nelas há opinião de autoridade enquanto a minha é de leigo.
No Valor Econômico de terça-feira, 29/11/2011 eu destaco três matérias. A primeira é o artigo de José Luis Oreiro e Flávio A. C. Basílio intitulado “Por uma redução permanente da Selic” e que se acha na página 14 do caderno A. Artigo quase exaustivo sobre as causas dos juros elevados, peca por preconizar a não melhora do salário mínimo para que o juro possa ser reduzido. O problema do juro alto, ou seja, de inflação baixa é que ele transfere recursos para o setor mais rico da economia. Um dos mecanismos que o autor do artigo propõe para reduzir a transferência é reduzir a transferência de recursos para os que ganham o salário mínimo.
Outro artigo do Valor Econômico de terça-feira, 29/11/2011, que recomendo é de Juan Jensen, intitulado “Há desindustrialização no Brasil?” e que se encontra na página 15 do caderno A. Historia muito bem a realidade econômica brasileira, mas propõe soluções com as quais eu não concordo.
A terceira matéria no Valor Econômico de terça-feira, 29/11/2011, é a reportagem com José Serra sobre a participação dele no VII Congresso Paulista de Jovens Empreendedores e em que declaração dele serviu de título para a reportagem: “Serra vê ‘erro mais espetacular’ em 2008”. O problema de José Serra é que o erro que ele viu foi o fator que permitiu que o governo o derrotasse.
José Serra não percebeu que em um melhor dos mundos, uma redução forte da taxa de juro em final de 2008 poderia nos levar para a armadilha de liquidez e o governo não tivesse mecanismos e tempo de induzir o consumo para recuperar o PIB antes da eleição. No pior dos mundos, haveria uma súbita e forte desvalorização do real que obrigaria o governo a retomar as taxas de juros do final do governo de FHC e início do governo de Lula.
A reportagem: “Serra vê ‘erro mais espetacular’ em 2008” está na página 8 do caderno A.
E no Valor Econômico de quarta-feira, 30/11/2011, há dois bons artigos para analisar melhor a situação brasileira diante da crise europeia e comparativamente com a crise de 2008. Na página 12 do caderno A, vale à pena ler o artigo “Indicadores de endividamento soberano: para onde olhar?”. O artigo faz um detalhamento da relação dívida pública/PIB muito pertinente para o entendimento da realidade brasileira. E há também o artigo de Cristiano Romero e que se encontra na página 2 do caderno A do Valor Econômico e intitula-se “Cenários de contágio da crise no Brasil”. No artigo, Cristiano Romero apresenta a visão de Tony Volpon da Nomura Securities. A visão de Tony Volpon é, a meu ver, um tanto catastrofista, mas trata-se de análise exaustiva que bem vale a leitura.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/12/2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011 13:10:00 BRST  

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