quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Estabilidade instável (24/11)


O governo Dilma opera bem, mas na comparação com o vazio. As alternativas não estão postas. Pois na política a avaliação é sempre relativa, depende do referencial, especialmente na hora do voto

Será interessante observar até que ponto a manutenção do ministro do Trabalho irá comprometer a imagem projetada por Dilma Rousseff, de governante inflexível no terreno da ética.

Até agora a queda em cascata de ministros enrolados vem acrescentando capital intangível à presidente, olhada por segmentos da opinião pública e da população como antípoda -neste aspecto- do antecessor.

O valor agregado aparece em pesquisas nos segmentos sociais e geográficos eleitoralmente mais sensíveis à centralidade da demanda de um governo ético, signifique o que significar. Pois a ideia é difusa e de limites pouco definidos.

Há quem aceite o chamado fisiologismo, mas sem corrupção. E há quem repudie todo sistema de troca de influência orçamentária por apoio político. Ainda que não se conheça político que pense -ou aja- assim no governo.

Ou democracia que prescinda da repartição de poder.

Como em tudo na vida, a dificuldade mora nos detalhes. Há situações limítrofes e outras óbvias. O caso do ministro do Trabalho deveria enquadrar-se na última categoria, pelas idas e vindas nas explicações. E pelo deboche.

Essa razão leva a que ele seja visto como lutador de boxe já nocauteado mas ainda em pé. A sobrevida depende de o round (ou a luta) acabar rapidamente ou, por milagre, de ele acertar um golpe decisivo no adversário.

A primeira opção está enquadrada nos prazos da tal reforma, ou minirreforma, ministerial. Que virá provocada pelo calendário eleitoral mas motivada pelo fenômeno da coabitação entre um ministério velho e uma presidente nova.

A segunda é na prática impossível, pois o alvo do fogo precisaria ter um estoque suficientemente grande de golpes para desferir contra todos os atiradores, que são muitos. Dentro e fora do governo e do partido.

Na vida real, o ministro está por um jab.

Mas esta coluna não é sobre o destino do ministro do Trabalho, um assunto menor da cena política. É sobre uma pauta mais importante: o estado do marketing da faxina e o nível da demanda social por um governo honesto.

Há por aí um raciocínio enviesado, de que só a classe média e os ricos se preocupam muito com isso, de que os pobres aceitam bem o modelo do “rouba mas faz”. Não é assim.

Aqui comparece sempre um modelo de trade-off. O balanço entre o que se ganha e o que se perde.

Quem precisa menos dos serviços do Estado tem menos variáveis a considerar no perde-ganha, e a chamada ética adquire mais peso relativo. Já o outro grupo costuma considerar variáveis em maior número.

Isso não significa que uns tenham mais flexibilidade moral diante da corrupção, apenas são mais vulneráveis a políticas públicas capazes de neutralizar eleitoralmente os problemas no terreno da probidade.

O governo Dilma Rousseff e a presidente apresentam resultados medianos mas vem operando bem nos dois públicos. Para uns, é a continuidade da linha de preocupação social do antecessor. Para outros, é uma certa ruptura com modelos excessivamente tolerantes de governança.

Qual é o problema, então? É que o governo Dilma opera bem, mas na comparação com o vazio. As alternativas não estão postas. Pois em política a avaliação é sempre relativa. Depende do referencial, especialmente na hora do voto.

O eleitor decide comparando as opções, apenas uma minoria tem compromisso ideológico-partidário.

Por isso o quadro é de estabilidade instável. O equilíbrio dependerá de o condomínio governamental controlar sempre todas as variáveis, o que exigirá imensa perícia e capacidade de aglutinação.

Mais ainda no Brasil, onde a multiplicidade de partidos, e portanto de portas de entrada na disputa eleitoral, favorece a entropia. E vai ficando cada vez mais complicado à medida que o governo envelhece.

Estreito

O Brasil evoluiu para a condenação do regime sírio, na última votação na ONU. Mas absteve-se no caso do Irã por considerar que o texto contra Teerã era pouco equilibrado, nas palavras do Itamaraty.

Sobre a Síria, pesou também a posição da Liga Árabe. Essas são as explicações.

O fato? Estreita-se progressivamente o espaço para nossa dubiedade.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (24) no Correio Braziliense.



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8 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

A manutenção do ministro, só pode ser por causa de indicadores de popularidade. Mais nada. Em termos de gerência, o fato é desastre puro.

Em termos políticos, não. Isso porque o partido é pequeno, não deixará o governo, não será excluído do governo. E não prejudicará ou ajudará o governo, caso fique ou saia.
Ou seja, o fato é a cara do governo. E talvez de um método.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011 11:58:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

"Até agora a queda em cascata de ministros enrolados vem acrescentando capital intangível à presidente, olhada por segmentos da opinião pública e da população como antípoda -neste aspecto- do antecessor."

O jornalista poderia informar aos seus leitores, em que se baseia esta afirmação.
Eu, por exemplo, não acho que Lula foi leniente com a corrupção. E não me lembro de nenhuma pesquisa que corroborasse a afirmação do jornalista.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011 12:01:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Marcos (quinta-feira, 24/11/2011 às 12h01min00s BRST),
O Alon Feuerwerker se referia ao aos segmentos da opinião pública e da população que olham para a Dilma Rousseff como antípoda de Lula no aspecto de governante inflexível no terreno da ética.
Esse segmento existe. Por que esse segmento existe é que se poderia questionar, pois salvo em questão de estilo em que Dilma Rousseff difere integralmente de Lula, o governo de Dilma Rousseff continua administrando o país com o mesmo modelo que Lula adotou. Até nos ministérios em que houve troca de ministros, o padrão do governo Lula continua imperando.
Agora penso que a explicação para Dilma Roussseff ter se constituído em um antípoda de Lula para os segmentos da opinião pública e da população que viam em Lula um governante flexível no terreno da ética se deve ao marketing, uma vez que ela não tem carisma para conseguir sem uma ajuda externa esse bônus. Como já explicou Alon Feuerwerker no post “Poucos e muitos” de quinta-feira, 14/07/2011:
"na política vale muito a percepção".
Se no estilo não há como Dilma Rousseff seguir o modelo de Lula, não se deve esperar alteração maior ou mesmo pequena na Administração Pública do país uma vez que ideologicamente Lula e Dilma Rousseff não apresentam distinção em grau semelhante à que há no estilo. Aliás, ideologicamente, Dilma Rousseff e Lula ficaram ainda mais semelhantes depois que Lula se afastou da corrente petista crítica do getulismo.
Sobre a desimportância do estilo do governante na condução gerencial de um país, você pode ver no post "O custo de um estilo" de terça-feira, 08/02/2011 aqui no blog de Alon Feuerwerker alguns comentários meus reforçando essa idéia. E sobre o fato de que Dilma Rousseff e Lula têm estilos diferentes e, portanto, mostram-se de forma distinta para a sociedade indico o comentário que enviei domingo, 17/07/2011 às 09h30min00s BRT para o post "Probabilidade nula" de domingo, 17/07/2011 também no blog de Alon Feuerwerker.
E deixo também o link para o post “O estilo Dilma” de quinta-feira, 24/11/2011 às 17:39 no blog de Luis Nassif em que, nas palavras dele, ele traz “algumas informações sobre o estilo de Dilma Rousseff de governar, após um ano de trabalho”. O endereço do post “O estilo Dilma” é:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-estilo-dilma-0
O zero no endereço logo após o título do post é sinal de que virão outros. Nos próximos provavelmente haverá análise. Nesse houve só informações. Bem, o post pode ser obtido indiretamente via google. Deixei o endereço direto no comentário porque mesmo sabendo que não há o link direto (Não sei fazer o link direto) ele pode ser acessado quase diretamente copiando o endereço e deixando o cursor sobre o endereço e em seguida teclando “CTRL” e “L” e ai aparecerá a janela com espaço para colar o endereço e em seguida teclar “OK”.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/11/2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011 13:28:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não que fosse das melhores, mas achei interessante a sua bem construída digressão sobre o ministro Carlos Lupi. Transcrevo-a:
“Essa razão leva a que ele seja visto como lutador de boxe já nocauteado mas ainda em pé. A sobrevida depende de o round (ou a luta) acabar rapidamente ou, por milagre, de ele acertar um golpe decisivo no adversário.
A primeira opção está enquadrada nos prazos da tal reforma, ou minirreforma, ministerial. Que virá provocada pelo calendário eleitoral mas motivada pelo fenômeno da coabitação entre um ministério velho e uma presidente nova.
A segunda é na prática impossível, pois o alvo do fogo precisaria ter um estoque suficientemente grande de golpes para desferir contra todos os atiradores, que são muitos. Dentro e fora do governo e do partido.”

Interessante principalmente porque me pareceu que você esqueceu de apresentar a alternativa de os lutadores contrários a Carlos Lupi terem dado tudo de si e no fim se revelarem muito maus boxeadores.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/11/2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011 23:47:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Muita discussão poderia ser encerrada se houvesse previamente uma concordância sobre o termo sobre o qual se discute. "Guerra Fiscal", por exemplo, é termo que necessita ser definido, pois uns usam o termo para acusar um governante de corrupto enquanto outros usam o termo para dizer que o governante concede incentivos fiscais, prática comum desde os tempos bíblicos.
Outro termo que precisaria de mais rigor na sua utilização seria fisiologismo. Para mim é a representação dos interesses do representado acima de qualquer outro interesse na arena política onde em processo democrático se compõem os interesses conflitantes. Outros usam também como sinônimo de corrupção. O pior é que dizem que o fisiologismo é uma praga, mas que é imprescindível ao processo democrático. E não satisfeito em dizer uma afirmação um tanto inconseqüente, restringem a inconseqüência ao processo democrático brasileiro. Ora ou o fisiologismo é sinônimo de corrupção e, portanto, uma praga e que, ainda que inerente a qualquer sistema democrático do mundo, deva ser combatido e, portanto, não pode ser considerado como imprescindível ao sistema democrático, ou então o fisiologismo não é praga coisa nenhuma, mas sim da essência do processo democrático.
Essa foi uma discussão recente que eu tive junto ao post “FHC combate o fisiologismo que praticou” de quarta-feira, 16/11/2011 às 10:59, no blog de Luis Nassif e que pode ser visto no seguinte endereço:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/fhc-combate-o-fisiologismo-que-praticou
Faço a menção aqui do post “FHC combate o fisiologismo que praticou” porque lá eu coloquei o link de vários posts aqui no seu blog onde esta discussão sobre o fisiologismo é desenvolvida.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/11/2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011 23:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Uma construção também interessante, mas agora por outras razões, foi sua expressão:
“o estado do marketing da faxina”
E que veio complementado pela frase:
“e o nível da demanda social por um governo honesto.”
Transcrevi a frase final apenas para lembrar que no mundo “o nível da demanda social por um governo honesto” é total, pois até ladrões e corruptos querem serem governados por governo honesto. Pode ser que diante de uma situação particular, cidadão que se diz honesto ou, por honestidade, não se diz como tal tenha algum desejo de que o governo não seja honesto.
Não é isso, entretanto, que me chamou atenção para transcrever a primeira parte da frase. Nela eu destacaria a oposição entre “o estado do marketing” e “faxina”. pois enquanto “o estado do marketing” traz a idéia de modernidade, ou, ainda que se reconheça que não se trata de algo tão novo assim, parece com o que se comumente chamam de modernas técnicas de gestão enquanto o termo “faxina” no melhor dos esforços parece termo saído de alguma campanha eleitoral de Jânio Quadros de mais de meio século atrás.
Talvez você tenha simplificado uma idéia que mais completa ficaria algo como:
“o estado do marketing do governo que parece usar o que a mídia chama de campanha da faxina para crescer os índices de popularidade de uma presidenta que evidentemente não tem carisma”.
O termo é muito feio, mas se a mídia toda o utiliza que se faça a concessão de empregar o termo vinculando-o a ação da mídia.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/11/2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011 23:59:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não sei se o parágrafo a seguir transcrito e que eu retirei deste post “Estabilidade instável” tenha condições de passar como hipótese em qualquer teste:
“Quem precisa menos dos serviços do Estado tem menos variáveis a considerar no perde-ganha, e a chamada ética adquire mais peso relativo. Já o outro grupo costuma considerar variáveis em maior número.”
Afinal com a dimensão que tem o Estado, é muito difícil separar na sociedade aqueles que precisam do Estado e aqueles que não precisam. E o pior é que na hipótese transcrita há um precisar em escala, pois é precisar mais ou precisar menos, mas uma escala desconhecida.
Talvez nesse grupo de não precisar (não digo em precisar menos, pois não saberia mesmo o que significaria) posso incluir aquele posseiro em um recanto a esmo sem direito trabalhista, sem água ou energia elétrica, vivendo isolado cuidando do sustento próprio com a família.
E certamente, qualquer que seja a escala que seja dada a menos, entre esse grupo que precisa menos dos serviços do Estado não se encontram os que exercem atividades nas grandes empresas nacionais de construção civil ou de prestação de serviços de energia elétrica ou de telecomunicações e principalmente não se encontram os que exercem atividades no sistema financeiro e que estão ávidos e ansiosos pela próxima decisão do COPOM.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/11/2011

sábado, 26 de novembro de 2011 00:07:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

No caso de leniência com o desempenho de ministros, a presidente está no governo desde 2003.
Todos os demais governos, para os casos recentes de inapetência, estão já esmaecidos pela poeira do tempo.

sábado, 26 de novembro de 2011 11:12:00 BRST  

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