sábado, 19 de novembro de 2011

Dois mundos (20/11)


Polícia na favela para expulsar o tráfico é bom. Mas polícia na universidade para impedir que o tráfico dê as cartas é ruim. Na Rocinha, impor a presença do Estado, hastear a bandeira e cantar o Hino Nacional. Na universidade, preferir a coexistência pacífica com o crime

O tráfico de drogas é reconhecido de modo unânime como principal vetor de violência e insegurança na nossa sociedade. Ficaram para trás as teorias alternativas. Entre elas a que atribuía o problema à pobreza.

A realidade encarregou-se de provar que não é assim, pois nos anos recentes a criminalidade cresceu mais onde mais a economia expandiu, e onde mais se distribuiu renda: nas regiões metropolitanas do Nordeste.

Nem seria necessária essa constatação “laboratorial”. Bastaria olhar os mapas. As manchas geográficas de pobreza não coincidem com as da violência e do crime. São fenômenos em boa medida desvinculados.

O crime comparece com mais vigor onde há dinheiro, desigualdade e, principalmente, impunidade. No Brasil a relação entre o custo e o benefício de delinquir é razoavelmente boa para quem sai da linha.

Reduzir a desigualdade é tarefa permanente dos governantes. Ou deveria ser. Entre nós parece haver consenso de sermos governados por gente preocupada em estreitar as distâncias sociais.

Pode haver, e há, diferenças políticas, naturais, mas não existe no Brasil quem diga a sério que somos um país desatento às necessárias ações governamentais para ajudar quem mais precisa.

Sempre se pode melhorar, e há campos -como a educação- onde estamos mal e vamos muito devagar, mas a tendência é de avanço. O estado ajudar os mais necessitados virou traço cultural, deixou de ser elemento central da disputa ideológica.

Onde está então o problema? Na frouxidão do combate ao crime. Mas isso pouco a pouco também vai sendo alterado.

No Rio, ficaram na poeira a glamurização do tráfico e a condescendência pseudosociológica com fenômenos como, por exemplo, as milícias. É uma revolução cultural. A ocupação das “comunidades” pela polícia tem amplo apoio político e popular.

Pois a sociedade concluiu que deseja distância -inclusive geográfica- do comando do tráfico. Ainda que, infelizmente, não tenha conduzido o raciocínio à estação seguinte: o que alimenta o tráfico é o consumo.

Mas tudo é um processo, como gostava de dizer o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Que aliás compareceu estes dias à imprensa para engrossar a corrente de quem pede para a USP uma política oposta à da Rocinha.

Polícia na favela para expulsar o tráfico é bom. Mas polícia na universidade para impedir que o tráfico dê as cartas é ruim.

Na Rocinha, impor a presença do Estado, hastear a bandeira e cantar o Hino Nacional. Na universidade, preferir a coexistência negociada com o crime.

Digo “na universidade”, genericamente, porque se é bom para a USP deve ser aplicado também às demais. Públicas e particulares.

Esse é o resumo da ópera, ainda que o debate percorra tentativas de panos quentes.

Um pano quente defende que as instituições de ensino superior tenham polícia própria. Aí aparecem duas dúvidas. Quem vai mandar nessa polícia e a que leis essa polícia vai obedecer?

O primeiro ponto é menos complicado, pois seria natural que uma polícia universitária obedecesse às autoridades universitárias. Mas, e o segundo? A polícia particular das universidades seguiria as leis criminais do país ou haveria leis próprias?

As universidades teriam um código penal próprio? Parece bizarro. Mas, se as polícias universitárias seguiriam e aplicariam as mesmas leis “de fora”, ora bolas, para que uma polícia separada?

No fim das contas é só isso. Um segmento da sociedade que se considera acima das leis, que se julga no direito de decidir quais leis vai seguir e quais não, e pede para si um tratamento à parte. Um elitismo e tanto.

Claro que não faz sentido. Ainda que debates sem sentido não sejam vedados na esfera intelectual. Mas além da polêmica político-ideológica há o problema prático.

Simplesmente, é inaceitável que as universidades brasileiras se transformem em território livre para o tráfico de drogas, transformem-se em áreas onde o tráfico poderá abrigar-se para operar com mais segurança, inclusive do lado de fora.

É inaceitável transformar as universidades em regiões capturadas pelo crime, onde a polícia (a regular) precisará pedir licença ao “poder local” para agir.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (20) no Correio Braziliense.



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12 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Criar uma polícia universitária, não passa de uma bobagem sem tamanho.
A Universidade tem autonomia, mas não está fora do País. As leis que valem ao País, têm de valer nos campus. Essa discussão não tem o menor sentido.
Aliás, não há mais o Estado autoritário a perseguir ideias, como querem fazer crer grupos ideológicos.

domingo, 20 de novembro de 2011 00:54:00 BRST  
Anonymous fernando disse...

Alon, vc é o único colunista político que leio diariamente pois creio q seja o mais refinado e bem informado de todos. Mas hoje você não entendeu nada.

Você hoje comprou a argumentação enviesada e restrita que a maior parte dos analistas tem adotado quando trata desse assunto. Tomou a parte - o caso concreto da usp e a abordagem policial a estudantes que portavam maconha no campus - como o todo, a síntese da questão da presença da polícia em um campus universitário.

Para aqueles que têm tratado o tema de forma séria e respeitando o estado de direito, o reconhecimento da necessidade de que a polícia atue no combate ao crime organizado dentro das universidades é imperativo e está perfeitamente assimilado.

O que ocorre, contudo, é que a polícia nos campi das universidades paulistas não tem atuado apenas no combate ao crime organizado, ao tráfico ou aos estupros que sistematicamente ocorrem nos campi de São Paulo. Ela tem sido ostensivamente usada também para controlar e reprimir manifestações de grupos organizados, estudantis, partidários e de funcionários, o que vai muito além da propalada garantia de segurança oferecida pela polícia.

A cinematográfica operação armada para retirar os invasores da reitoria da usp no último mês é apenas um dos exemplos disso. Você dirá que a polícia foi mobilizada para garantir o cumprimento de um mandato judicial. Eu concordarei mas lhe lembrarei de agosto de 2010, quando utilizando bombas de gás lacrimogênio a polícia dispersou estudantes que faziam uma manifestação pacífica dentro da usp e que, em protesto, bloquearam a entrada da universidade.

Em algum momento do passado, a resitência democrática brasileira se colocou diante dos tanques da ditadura para impedir sua entrada na universidade. Coisa que já não é mais permitida.

Isso posto, saliento que a discordância aqui e a posição da comunidade acadêmica séria e democrática consiste na lembrança de que o campus universitário, em especial das universidades públicas é um espaço duplamente sensível: por um lado, acolhe um conjunto de grupos e idéias, organizados e desorganizados, que podem ganhar expressões as mais variadas e que tem na liberdade oferecida pelo ambiente universitário um de seus principais espaços de expressão; por outro, as universidades públicas brasileiras são sensíveis pela longa trajetória de repressão e violência policial e estatal perpetrada contra elas durante a ditadura, crimes os quais, sabemos muito bem, não foram até hoje julgados.

Sendo assim, reduzir o debate sobre a presença da polícia no campus universitário à discussão sobre o combate ao tráfico de drogas é falsear a realidade e desrespeitar a legitimidade dos movimentos democráticos e a própria história da universidade pública brasileira.

Estamos aqui diante de uma situação diferenciada em que o que está em jogo não é o consumo de drogas, que segue a pleno vapor em praticamente todos os cantos do país, mas a presença de uma força repressiva que, como temos visto, não tem se limitado a combater o crime.

E como se isso não fosse suficiente, não há dúvidas que a polícia militar paulista ou qualquer outra polícia brasileira não dão exemplos para as demais forças públicas mundiais de como combater crimes e garantir a segurança ao mesmo tempo em que respeitam os direitos civis e as liberdades democráticas. Nossa polícia é sabidamente abusiva e desrespeitosa com as garantias constitucionais de direitos civis no seu dia-a-dia e não há porque pensar que seria diferente no campus universitário.

Não desejam os estudantes nenhuma polícia e crime liberado para a nata da sociedade como seu raciocínio nos leva a crer. Desejam sim segurança, liberdade e respeito aos direitos democráticos. É isso que está em jogo.

domingo, 20 de novembro de 2011 09:04:00 BRST  
Anonymous José carlos salvagni disse...

A Alba Zaluar, em artigo no final da década de 90 já havia alertado para a dificuldade dos pensadores e pesquisadores à esquerda lidarem com o assunto Segurança Pública em função das trágicas lembranças da ditadura. Assim a palavra "repressão", etapa inevitável da Segurança Pública, dá calafrios. E "prevenção", poesias de pouca praticidade. E nada de pensar e propor a sério uma Política Pública de Boa e Competente Gestão em Segurança Pública. Fiquei estupefato no caso da USP com a pretensão daquele grupo pequeno de alunos e de seus apoiadores à condição dos alunos de SUPRACIDADANIA. Ou seja, não fariam parte da população em geral. Fariam jus a um tratamento singular, à parte, especial. BELA ELITE VEM POR AÍ...!

domingo, 20 de novembro de 2011 12:12:00 BRST  
Blogger Jose disse...

Caro colunista, talvez um dos grandes equivocos quando tratamos da questao de segurança seja a vinculacao somente ao trafico. Este se armou e passou a constituir uma forte ameaça à estabilidade depois que a droga comecou a ser regida pelas leis do mercado, a cocaina é cara! . Isto tem sido apontado pela alba zaluar ha tempos. O fator de criminalidade mais grave, alem daqueles outros todos apontados, como pobreza, desigualdade, é a cultura de corrupçao gravada na alma de nosso povo, a comecar pelos governantes, com seus sucessivos maus exemplos. É o levar vantagem, as pequenas fraudes, os blefes, a mentira, a grosseria, a falta de educacao.
Quanto a policia nos campi, tem mais é que estar mesmo, e pra fazer cumprir as leis que estao ai. Quem fuma maconha tem é que correr da policia. É ilegal, nao é? Ate porque se nao for assim, perde a graça.

domingo, 20 de novembro de 2011 13:57:00 BRST  
Blogger Jose disse...

Caro colunista, talvez um dos grandes equivocos quando tratamos da questao de segurança seja a vinculacao somente ao trafico. Este se armou e passou a constituir uma forte ameaça à estabilidade depois que a droga comecou a ser regida pelas leis do mercado, a cocaina é cara! . Isto tem sido apontado pela alba zaluar ha tempos. O fator de criminalidade mais grave, alem daqueles outros todos apontados, como pobreza, desigualdade, é a cultura de corrupçao gravada na alma de nosso povo, a comecar pelos governantes, com seus sucessivos maus exemplos. É o levar vantagem, as pequenas fraudes, os blefes, a mentira, a grosseria, a falta de educacao.
Quanto a policia nos campi, tem mais é que estar mesmo, e pra fazer cumprir as leis que estao ai. Quem fuma maconha tem é que correr da policia. É ilegal, nao é? Ate porque se nao for assim, perde a graça.

domingo, 20 de novembro de 2011 13:57:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Fernando,

Aparato policial para desocupar um próprio público, cumprindo uma ordem judicial, é errado? Por quê?

E por que a invasão é correta? Quem disse que tal invasão é correta? E por que não seria correto, também, invadir a casa de qualquer um dos ocupantes da Reitoria?

A USP é pública. E ser pública não significa ser "da mãe joana", terra de ninguém.

E quando a polícia prendeu os assassinos do aluno da FEA? Estava errada também? Afinal o crime aconteceu dentro do campus.

Não seria o caso de explicar aos familiares do aluno estúpida e friamente assassinado, por que o meliante preso chamou a vítima de "vacilão", por esta ter tentado reagir ao assalto?

Ou os alunos e funcionários detém a capacidade de investigar, localizar, prender, julgar e apenar meliantes? E de propiciar segurança no campus? É claro que não.
E todos sabem disso.

E por que "a polícia de São Paulo"? Que fique claro que não vigora o Estado policialesco dos anos 60 e 70. Não vigora o crime de opinião.

As imagens foram claras da desocupação. Os detidos fumando, pintando cartazes, recebendo comida levada por parentes, conversando e chorando no ombro do pai etc.

Oras, que repressão é essa assistida pelos pais, em cima do fato?

Contudo, parece que se a opinião for contra a ideologização da ocupação sem motivo da Reitoria da USP, o crime de opinião vigora, correto?

A polícia fez bem em entrar e deve permanecer no campus, sim.
Que o Governo do Estado e a Reitoria não recuem.

domingo, 20 de novembro de 2011 20:12:00 BRST  
Anonymous trovinho disse...

Reduzir o debate em tela ao privilégio de estar acima da lei é revoltante, pois é sintoma de entorpecimento acreditar que a pauta dos porraloucas seja aquela que nos martelou a mídia: o privilégio de chapar-se. Não sejam cúmplices (in)voluntários. A pauta de reinvindicações certamente era outra que o golpismo midiático e sua arrogância censuraram...

domingo, 20 de novembro de 2011 23:16:00 BRST  
Blogger edsonmoreira disse...

Caro Alon,
Seu argumento é uma construção sólida, fundamentos sólidos, das estacas, vigas e pilares à cobertura. Qualquer argumento que queira um sistema judiciário/policial diferente para as universidades é uma atrocidade contra a Nação. Alguns querem dizer que drogas existem em toda parte, então por que combatê-las na USP? Ora, a pergunta é: onde o combate às drogas é proibido à polícia? De minha parte eu não conheço tal estatuto. Outros dizem que a polícia não quer só combater drogas, mas fazer ações políticas como no "despejo" dos invasores da Reitoria. Ora, cumprir uma determinação da Justiça, por esses argumentadores, se tornou "ação política". Até onde se vai com esse raciocínio torto?! Reitero a consistência de seu argumento. Mas gostaria de lembrar um pequeno detalhe: por que só na USP há movimentação de grupos estudantis? Pergunta retórica! Seus artigos, meu caro, me fazem (confesso a contra-gosto)perceber que há esquerdistas inteligentes. Um abraço do edson moreira

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 00:54:00 BRST  
Anonymous Briguilino disse...

Neste caso pensamos bem parecido. A diferença mesmo é que você escreve com diplomacia. Eu sou mais direto contudente. Confiram:

http://blogdobriguilino.blogspot.com/2011/11/jn-omite-o-que-lhe-convem-sempre.html

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 07:46:00 BRST  
Anonymous fernando disse...

Swamoro Songhay,

eu não disse q era errado a polícia ser chamada para desocupar prédio público. se vc ler novamente, verá q minha frase foi:

"Você dirá que a polícia foi mobilizada para garantir o cumprimento de um mandato judicial. Eu concordarei"

e segui falando que esse é um dos exemplos de mobilização policial no interior do campus, mas que há outros, como o de agosto de 2010 no qual a polícia reprimiu uma manifestação pacífica, encurralou os manifestantes e jogou bombas de gás dentro do saguão da fflch para dispersá-los.

nesse sentido, meu argumento era o de que a polícia não estão sendo mobilizada na usp apenas para garantir a segurança ou cumprir ordens judiciais, mas também para reprimir manifestação inerentes ao contexto democrático e à pluralidade do contexto universitário.
saudaçoes

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 08:15:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Fernando,

OK. Portanto, se há uma luta pela liberdade de pensar, essa é daqueles que não acreditam estar a polícia realizando perseguição política na USP.

E tanto é verdade que há uma luta pela liberdade de pensar, que "vira e mexe", como dizem no interior, a qualquer discordância de pretensas e arrogantes atitudes "libertárias", o discordante é chamado de manipulado pelo "golpismo midiático" ou de "pig". Interessante isso em pelo Século XXI.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011 18:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não concordo muito com a sua análise sobre a questão das drogas. Para este post “Dois mundos” a divergência perdura principalmente pela mistura de duas situações distintas. Distintas para serem tratadas em um mesmo post ainda que o título faça referência a dois mundos. E ainda que individualmente possamos concordar com alguma coisa.
Sou favorável às UPPs e não concordo com o posicionamento dos alunos que invadiram a reitoria da USP. É bem verdade que pouco sei sobre o movimento dos alunos da USP que culminou com a invasão da reitoria.
Sou favorável às UPPs, mas o que se vê em relação à prisão de chefias ou lideranças de tráfico é que elas apenas possuem caráter propagandístico, pois no mês seguinte surge nova liderança a ser presa.
Aliás a existência de uma organização criminosa como a Máfia não é aceita nos estudos mais técnicos, mas de menor repercussão na mídia. O que se constata é a existência de células criminosas - mesmo a Máfia nunca foi uma organização, mas famílias criminosas.
De certo modo, o máximo que uma operação como a da Rocinha com a instalação das UPPs poderá conseguir será afastar afastam os criminosos para pontos um pouco mais para a periferia se questões de logísticas não os trazerem um pouco mais para o centro.
Não é disso que eu quero falar, entretanto. O que me levou a esse comentário foi achar que para este post “Dois mundos” é bem pertinente mencionar que entre os links constantes da coluna á direita no seu blog intitulada “Posts velhos que talvez valha a pena ler de novo” há o link para o post “Guerra é guerra” de quarta-feira, 10/10/2007. Não faço a chamada para a sua análise em si, da qual discordo, mas para o excepcional, em meu entendimento, comentário de Mateus Toledo Gonçalves que lá se encontra e fora enviado quinta-feira, 11/10/2007às 21h10min00s BRT. Aliás, comentário tão bom que me faz pensar que foi em razão dele que você deu o destaque para o post.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/11/2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011 13:52:00 BRST  

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