segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Vendedores de milagres (03/10)


O vetor político não deve imaginar que vai surgir do nada, do vácuo, aparecendo domingo pela manhã na porta de casa para tocar a campainha e oferecer um elixir milagroso. E que o comprador vai cair nessa

A política brasileira habituou-se a um método invertido. Em vez de os políticos terem a coragem de aparecer com a própria cara ao eleitor, procuram antes saber do que o eleitor gostaria, para aí assomarem como legítimos intérpretes do desejo popular.

Liberais transformam-se repentinamente em estatistas, e velhos intervencionistas sobem ao palco para cantar as glórias do liberalismo. Claro que não assim escancarado. Sempre “traduzido”, para que “o povo entenda”.

Eis um problema dos partidos brasileiros.

Em vez de se oferecerem à sociedade como canais de acumulação e transmissão de visões a respeito das diferentes formas de organização política e social, reduzem-se a ajuntamentos de gente disposta a vestir qualquer máscara para tomar o poder.

Ou para manter o poder.

Uma vantagem competitiva do PT sobre os adversários ao longo dos anos de crescimento do partido foi ter desafiado essa lógica. Se bem que a recente força incontrastável do líder maior e as circunstâncias vão esmaecendo isso.

Partidos ficam fortes quando expressam organicamente o que uma parte (daí o nome) da sociedade acha que deve ser feito no país, ou no mundo.

E chegam ao poder quando essa parte vira maioria. Isso na democracia.

Mas é preciso haver alguma legitimidade. E o partido coloca o ovo em pé quando consegue se apresentar naturalmente como protagonista de uma onda histórica.

No Egito, a Fraternidade Muçulmana hibernou durante décadas até surgir a oportunidade. Após o esgotamento do modelo nacionalista-militar, o mundo árabe vê a ascensão do Islã como promessa de transformação social.

Se para o bem ou para o mal, a História dirá.

Mas o fato é que a FM está lá na hora certa, organizada em torno de suas ideias, propósitos e ações. Assim como, por exemplo, os comunistas e socialistas portugueses quando eclodiu a Revolução dos Cravos, em 1974.

Um fato já algo distante, mas que vale a pena relembrar.

Vindo para mais perto, no começo da década de 1970 o então MDB (Movimento Democrático Brasileiro) chegou a pensar em autodissolução. Logo depois ganhou a eleição de 1974 e abriu o período de declínio do regime militar.

O MDB estava lá quando o povo decidiu que era hora de abrir, de buscar mais democracia, para atacar problemas como a inflação e a péssima distribuição de renda.

Assim como o PSDB pôde pegar a onda da luta contra a hiperinflação e garantir oito anos em Brasília.

Assim como o PT pôde apresentar-se como o mais indicado para promover justiça social e fazer o Brasil voltar a crescer.

O vetor político não deve imaginar que vai surgir do nada, do vácuo, aparecendo domingo pela manhã na porta de casa para tocar a campainha e oferecer um elixir milagroso.

Está cada vez mais difícil fazer o comprador cair nessa.

Quem administra

O Rio de Janeiro vai em pé de guerra porque o Congresso Nacional ameaça melhorar a distribuição dos royalties do pré-sal.

É um debate no qual a razão está algo distribuída. O petróleo é do Brasil, não dos estados chamados de produtores.

Mas é verdade também que o dinheiro do petróleo tem servido a esses estados para manter de pé suas contas.

É uma solução e também um problema.

Pois o dinheiro do petróleo deveria ser utilizado nos projetos nacionais estratégicos, e não para fechar o balanço de municipalidades e estados perdulários e pouco responsáveis.

Talvez fosse o caso de estabelecer uma transição.

Uma coisa é os estados produtores serem repentinamente colocados diante de um fato consumado.

Outra coisa coisa é manter o país indefinidamente refém das conveniências políticas de uns poucos.

E tem mais. Quem usa mal o dinheiro perde legitimidade aos olhos dos outros.

Pois quem administra os recursos não é a população. São os políticos.


Coluna publicada nesta segunda (03) no Estado de Minas..



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2 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Essa polêmica sobre os royalties do petróleo, parece uma grande trapalhada. O petróleo é do Brasil. Porém, quem sofre as consequências do inchaço populacional, aumento exponencial de pressões sobre infraestrutura, assistência médica, escolas, moradias, segurança etc. é o Município, de dado Estado, onde há petróleo sendo extraído, em terra ou em suas costas marítimas. O problema é que o agora pré-sal, ainda não produz e já está sendo gasto por conta. Não faz muito tempo e times e estádios de futebol foram custeados por royalties de petróleo. Futebol, tudo bem, principalmente se o Santos for o melhor do mundo. Mas, o futebol não colocou o País em patamar organizativo melhor do que antes, em termos políticos, de administração pública, de combate à corrupção etc. Embora haja quem diga isso. Na realidade, além do malfeito continuar sendo crime, temos sempre uma pior organização do futebol e uma pior administração pública. Empiricamente, alguém pode testar alguma correlação. Algum modelo para teste de aderência. Mesmo com Neymar. E antes com Robinho. E antes, ainda, com Newton Batata, Juari e João Paulo. Não há necessidade sequer de citar Pelé e cia. E não haverá pré-sal que consiga resolver isso. Contudo que não esculhambem com o futebol, que deve ser coisa de investidor privado. Até de lingerie, que não parecem(e) estar com muita moral no governo hoje. Governos e futebol não combinam e o Brasil é pródigo em "cases" do tipo. Outro "case" e dos bons, é censura a reclame de mulher bonita de lingerie, explicando o inexplicável. Tem quem não goste disso. Se fosse não ocioso dizer, que os afoitos mantenham a compensação aos Municípios e Estados explotadores, como sugerido. Ou produtores ou extratores de óleo. Aliás, a produção e todo o enguiço ocorre no Município. Nem no Estado e nem na União. Estes/Estas, são apenas abstrações burocráticas. Ninguém mora nelas. E muitas vezes têm um nome fantasmagórico a defini-las: Leviatã. Ou nomes mais populares, que são ditos em rodas de bares. Mas convém não desfiar tal rosário aqui. Os não produtores, serão beneficiados com o desenvolvimento do País. E todos que façam a lição de casa. Senão, outras bacias de petróleo profundo, derrubarão os preços e não tará nada a ninguém. Mesmo com chor de governador.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011 11:22:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Alon, os milagreiros não são novidade. Nem novidade é o principal partido do Brasil: o Partido Governista. Conforme já foi comentado aqui, milagreiros e governismo andam de mão dadas. O único milagre que não se enxerga, é a consubstanciação de aparições simples, como o bom cuidado com a res publica. O que aparece, mesmo, são fantasmas bonachões. Gozadores ectoplasmáticos e seus projetos de reforma político-eleitoral. Dependendo do local, hoje, os cravos colocados no cano de fuzis, em 1974, teriam desaparecido. Os cravos e/ou os fuzis.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011 11:43:00 BRT  

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