domingo, 23 de outubro de 2011

Vai mal (23/10)


É grande a distância entre o que foi prometido para a Copa e as Olimpíadas e o que a realidade vai apresentando. A crise no Ministério do Esporte talvez seja uma oportunidade para a presidente agir. No macro, e não apenas no micro

O país, ou boa parte dele, festejou quando conseguiu ser a sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Foi uma mudança de patamar. 

O Brasil projetava-se aos olhos do mundo como capaz de realizar com grande sucesso os dois maiores eventos esportivos do planeta.

As Olimpíadas ainda estão longe, e o otimismo incurável sonha que os problemas dos Jogos Pan Americanos do Rio não vão se repetir. Especialmente o estouro orçamentário, que parece ter ficado por isso mesmo. 

Um esquecimento preocupante, pois deveria ser exibido diuturnamente como exemplo do que não fazer.

Mas a vida segue, e não custa ser otimista. Mesmo porque o otimismo aqui é recomendável, faz bem à saúde. Evita certas dores de cabeça.

Na pauta de Copa e Olimpíadas, aos céticos e pessimistas costumam reservar os epítetos de inimigos da pátria, de portadores do complexo de vira-lata, de submissos à idéia de que o Brasil não é capaz de ombrear com os maiores.

Será?

Sobre a Copa, será obrigatório constatar que as coisas não caminham dentro do prometido.

As esperanças eram cristalinas. 

Os estádios seriam erguidos integralmente com dinheiro privado, os recursos públicos iriam para obras socialmente justificáveis -especialmente no transporte- e a magnitude dos eventos implicaria uma revolução na segurança pública.

E tudo seria feito com a maior transparência.

Até agora as coisas parecem caminhar exatamente no sentido contrário.

O que vai razoavelmente bem? Os estádios. Que sobem com forte insumo estatal.

Os aeroportos? Até agora nada, ou quase. O de Natal foi 100% privatizado, uma confissão de incapacidade administrativa do governo.

Os demais estão na fila, Alguns talvez fiquem parcialmente prontos a tempo, mas não há garantias.

Sobre a mobilidade urbana, quem ainda fala nisso? O que de mais prático se fez foi abrir a possibilidade legal de decretar feriado em dia de jogo. E não só em jogo do Brasil.

Sem falar no mais novo escândalo.

Nos últimos dias a presidente Dilma Rousseff está às voltas com a crise no Ministério do Esporte.

Mas o problema é maior, e está a exigir intervenção no macro, e não só no micro.

Isso se Dilma quiser mesmo fazer a coisa bem feita. Para que o tema não se transforme doravante em sinônimo de confusão.

Quase todos

E segue a batalha dos royalties no Congresso, o Senado aprovou uma proposta para evitar a votação do veto à proposta anterior.

O governador do Rio imaginou que tinha resolvido o problema lá atrás, quando fechou um acordo com o presidente da República e sonhou que o Planalto iria tratorar o Legislativo.

Foi um erro de cálculo, inclusive porque o petróleo é do Brasil, e não apenas dos estados com vista para o mar. Um critério para lá de duvidoso.

E também porque o recurso não vem sendo bem investido.

Em vez de agir estrategicamente, de reservar o dinheiro para investimentos em saúde, educação, ciência, infraestrutura, os governantes torram-no com despesas de custeio.

Ou em obras de utilidade duvidosa. Ou de execução nebulosa.

Ou todas as coisas juntas.

Nada garante que se o dinheiro do petróleo for mais bem distribuído será mais bem empregado.

Mas esse é outro problema. Que aliás deveria ser motivo de ação do Executivo.

Pois se é demais exigir de um governador ou prefeito que pense o país no longo prazo é razoável cobrar isso da presidente da República.

Inclusive porque na campanha ela disse que faria assim com o pré-sal.

Cadê as medidas para evitar que a nova riqueza seja dissipada no dia a dia? Onde anda a preocupação com a maldição do petróleo?

O que estamos fazendo de prático para ficarmos mais parecidos com -lembram-se?- a Noruega?

Nesta batalha dos royalties quase todos os interesses estão sendo bem defendidos. Menos os do Brasil.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (23) no Correio Braziliense.



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4 Comentários:

Anonymous Rodrigo N. disse...

Caro,

Eu fui um desses pessimistas, inimigos da pátria.

Sou de SP. Semana passada estive em Manaus. Percorri boa parte da periferia de Manaus.

Antes de ir, me disseram que não havia saneamento básico e que as pessoas moravam perto do esgoto.

Constatei que muitas delas não moram perto do esgoto, mas EM CIMA do esgoto, literalmente.

Algo semelhante - como sabemos - ocorre em qualquer grande metrópole desta "potência emergente".

Para mim, Copa devia acontecer na Inglaterra, na Alemanha, nos EUA.

Eles conseguem organizar uma semana que vem, se preciso for.

Putz, mas lembrei! Quem fala isso é inimigo da pátria e tem complexo de vira-lata.

Portanto, viva a Copa! Viva a seleção Canarinho! Viva o nosso ministro dos Esportes e a nossa organização exemplar e honesta! Viva o Ricardo Teixeira!

domingo, 23 de outubro de 2011 09:39:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

1) Pré-sal.
A mudança de critérios sobre os royalties do petróleo, não passa de estultice. Palavra repetida, mas, necessária. O petróleo é do Brasil. Mas, não são todos que sofrem os efeitos negativos de sua exploração. Porém, todos podem ser beneficiados e muito, em caso de sucesso da empreitada. Pode ser que surjam muitos campos de futebol nos municípios não produtores, que receberão incremento em seu quinhão. Enquanto isso, continuarão a infraestrutura ruim, educação pior e saúde horrível. Ciência e tecnologia? Só em termos politicamente corretos.

2) Copa e Olimpíadas.
É muito melhor, nestes casos, ser politicamente incorreto, esculhambar e falar que a Copa e Olimpíadas deveriam ser enviadas para a Inglaterra, a Copa, onde já está tudo pronto. E as Olimpíadas, podem voltar para a China. Isso é melhor do que fingir que se acredita em sucesso dos empreendimentos. Sucesso apenas a frenética criação de termos politicamente corretos. Não fala-se mais "em andar pela cidade", mas, sim, em "mobilidade urbana". Escadas, rampas, calçadas etc., tudo isso passou a ser "acessibilidade". E por ai vai. Um rol de termos vazios, que talvez nem caiam no Enem. Mas recheiam projetos sedentos de verbas fáceis dos bolsos dos cidadãos.

3) Gastos do Pan.
Em debate na Globonews sobre o Pan, já realizado no Rio de Janeiro, o atual ministro do Esporte, ao ser questionado sobre a cifra prevista para os gastos, ter ficado 10(dez) vezes maior que a orçada, deu uma explicação que seria uma pré-justificativa para sua demissão tempestiva. Falou que ocorreu tal disparidade, pelo fato do governo de 2003/2010 ter retomado o planejamento no Brasil. Assim, segundo ele, foi descoberto que o governo de 1994/2002, por não ter planejamento, havia errado na elaboração do plano e na destinação de valores às rubricas. Assim, não é à toa que acusa de conspiração, as pressões que sofre para se demitir ou ser demitido. Já por que ninguém coloca cobro real nisso, pode ser explicado, também, pelos mesmos motivos da manutenção do ministro do Esporte no cargo.

domingo, 23 de outubro de 2011 11:29:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Há dois tipos de granadas,táticas.As explosivas com finalidade destrutiva e, as de fumaça,que permitem encobrir avanços ou recuos estratégicos.Desde o início do governo Dilma, a oposição via mídia,investida de partido,como propugnou a presidenta da ANJ,têm empregado com algum sucesso ambas.
Cinco ministérios atingidos e um sobrevivente,com lesões que inspiram cuidados. Quanto a nuvem de fumaça,essa,encobre os feitos positivos,pois governar é como respirar,24 horas.Encobriu-se as meritórias menções que o país recebeu,através de seu ex-presidente de vários governos,o significado e o produto das viagens da presidenta ao exterior.Internamente,deu-se pouca importância à redução dos juros, do aumento recorde das exportações,apesar do câmbio,da elevação de índices importantes, de educação,saúde e sociais.Reformulação administrativa e jurídica de empresas,até agora integralmente estatais.E,finalmente, o cronograma de obras visando a Copa, sendo cumprido sem riscos,como o sensacionalismo buscava.A pergunta:o que se pretende com essa catadupa de acusações que se superpõe umas as outras,como ondas em sequência de uma tsunami com método?Pelo que se conhece , nada de edificante se forma no seu rastro ,apenas entulho,escombros e oneroso esforço de reconstrução.

domingo, 23 de outubro de 2011 12:40:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Anônimo-domingo, 23 de outubro de 2011 12h40min00s BRST.

Sem essa de rotular como crime de lesa-pátria as denúncias de corrupção.
O nome disso que está sendo descoberto através de denúncias, corrupção.
E corrupção é crime. Simples assim.

Não pretende-se nada além de exigir respeito com os recursos públicos e para com os cidadãos. Apenas isso.

E não há nada mais travestido de partido, tanto quanto o partido do governo e sua rede ou base de apoio.

Além do que, seria ocioso em situações normais, porém, lá vai uma coisa que deve ficar sempre clara: não é crime ser e fazer oposição no Brasil.

Outra coisa que deve ficar clara e muito: ninguém mais tem medo de criticar falcatruas.

E por falar em "tsunami com método", é verdade. Existe sim. O aparelhamento de órgãos públicos por chupins, sanguessugas, surrupiadores, incompetentes, malandros, cupins, carpideiras...

E não adianta ameaçar com censura de imprensa. Não há poder para tanto, apesar do ranger de dentes. Muito menos coragem de assumir tal besteira.
Nem o problema administrativo, gerencial, de trocar um ministro faz-se.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011 17:11:00 BRST  

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