domingo, 2 de outubro de 2011

Uma dose de razão (02/10)


Complicado haver um Ministério da Mulher que se reserva a atribuição de dizer o que pode e o que não pode ser dito. Amanhã poderá haver um governo que considere, por exemplo, o trabalho feminino fora de casa como fator de desintegração familiar

Certo dia Lamartine Babo escreveu isto:

O teu cabelo não nega mulata.
Porque és mulata na cor.
Mas como a cor não pega mulata.
Mulata eu quero o teu amor


Lamartine morreu em 1963, aos 59 anos. Não sem antes compor os hinos populares dos clubes do Rio de Janeiro.

É uma figuraça da nossa música popular.

Mas, e esses versinhos de um dos grandes sucessos dele, um hit dos carnavais de sempre? Pelo ângulo politicamente correto seriam motivo de escândalo.

Por duas razões, ou três. Por levar no bom humor a constatação de que a mulata alisa o cabelo para, talvez, parecer menos mulata. Por fazer o elo entre o desejo que a mulher desperta e a garantia de que a cor da pele dela não passa por contato.

E por, no fim das contas, tratar a mulata como tal, e não como negra.

Talvez haja um quarto. Por carregar, escondida, uma história da nossa escravidão: a submissão sexual das escravas negras aos senhores brancos.

Discutir assuntos assim é sempre complicado, especialmente se a opinião vem “de fora”. Eu sou branco, então me é relativamente tranquilo palpitar sobre as críticas que Lamartine Babo certamente sofreria se vivesse hoje.

O que não tira meu direito de palpitar. Pois a relação de um determinado grupo social com o restante da sociedade não é monopólio desse grupo.

Negros não têm o monopólio do debate sobre a discriminação racial contra os negros. Ou sobre as cotas. Assim como as mulheres não são as únicas donas do juízo sobre a desigualdade de gênero.

É legítimo que algumas mulheres não gostem do comercial de lingerie no qual Gisele Bundchen vende a sensualidade como arma da mulher na relação com o homem, quando ela busca determinado objetivo.

Cada um sabe onde o calo aperta, então não vou fazer juízo de valor. Mas um detalhe é insuportável: a intromissão indevida do governo, com a pressão aberta sobre a fabricante da lingerie.

Não haveria nada de errado em as mulheres insatisfeitas com o conteúdo das peças publicitárias proporem, sei lá, boicotar a marca.

Eu acharia uma bobagem, mas elas estariam no pleno exercício da cidadania.

Diferente é ter um Ministério da Mulher que se reserva o poder de dizer o que pode e o que não pode ser dito sobre o “assunto mulher”.

Pois amanhã poderá haver um governo que considere, por exemplo, o trabalho feminino fora de casa como fator de desintegração familiar. E de estímulo portanto à criminalidade.

Governo no qual o Ministério da Mulher se dedicará a combater o feminismo. E a patrulhar quem estiver no caminho da missão. Usando inclusive o poder político e econômico do governo para impor sua vontade imperial.

É bizarro? Talvez. Mas extrapolar na argumentação é uma forma de reduzir ao absurdo.

A técnica lógica pela qual determinada premissa leva inevitavelmente a conclusões erradas.

No dia em que um governo conservador nomear uma ministra da Mulher que se dedique a combater o feminismo, jogando o poder do Estado na empreitada, a turma que hoje bate palmas para a pressão do governo contra o comercial da Gisele dirá que é um ato autoritário.

E não deixará de ter alguma razão.

O detalhe

A economia brasileira já roda num patamar de crescimento de 2 a 2,5%. Vai chegar a um acumulado de 3,5% no fim do ano -se chegar- graças ao passado.

A economia está parando.

Eis uma maneira de acabar com a inflação: parar o país. O determinante de uma matriz nula é sempre zero.

Matar o paciente para acabar com a doença não chega a ser uma solução genial.

Se o governo Dilma pisar no acelerador dos juros é o que vai acontecer. Talvez por isso tenha escolhido outro caminho.

No que fez bem.

A crítica é sempre positiva, mas neste caso tem faltado aos críticos do Banco Central esclarecerem um detalhe.

Se estivessem no governo, fariam o quê?

Cortariam os investimentos sociais em plena época de dificuldades econômicas para acionar uma âncora fiscal?

Ou cobrariam mais impostos (ou renunciariam menos a eles) de uma economia ameaçada pela paralisia?


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (02) no Correio Braziliense.



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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Um ato autoritário (de certo modo é um ato de autoridade) pode ser democrático se tiver o apoio da maioria via manifestação direta via manifestação dos representantes da sociedade e pode ser includente ou excludente de minorias.
Percorrido esse caminho, você terá apenas a sua ideologia para julgar o ato.
Se includente de classe mais favorecida mais numericamente pequena, ato próprio de governos conservadores ou reacionários e elitistas, se a sua ideologia for de esquerda, você deverá se opor ao ato. Se o ato for excludente de maiorias não favorecidas, sua ideologia de esquerda também deverá se opor ao ato.
Em todo o caso, o ato poderá ser democrático ou ditatorial, mas a acusação de ato autoritário só nisso - ser ato autoritário - qualifica ou desqualifica o ato.
À esquerda cabe bater palmas para os atos que vão de acordo com a ideologia dela e criticar ou vaiar os que vão contra. E é importante que ela não se furte a esse papel.
Quanto ao crescimento parece que você agora reconheceu o que eu tenho dito há mais tempo. Depois de muito repetir os dados estão consolidados no comentário que eu enviei quarta-feira, 21/09/2011 às 20h23min00s BRT aqui para o seu post “Com que humor?” de quarta-feira, 21/09/2011. Transcrevo aqui a tabela com os dados.
“2º trimestre 2009 - 1,5% (Anual - 6,14%);
3º trimestre 2009 - 2,5% (Anual - 10,38%);
4º trimestre 2009 - 2,5% (Anual - 10,38%);
1º trimestre 2010 - 2,2% (Anual - 9,09%);
2º trimestre 2010 - 1,6% (Anual - 6,56%;
3º trimestre 2010 - 0,4% (Anual - 1,61%);
4º trimestre 2010 - 0,7% (Anual - 2,83%);.
1º trimestre 2011 - 1,2% (Anual - 4,89%) e
2º trimestre 2011 - 0,8% (Anual - 3,24%).

Embora eu, concorde com o seu comentário do tópico “Detalhe”, penso que sendo um pouco mais detalhista cabe uns retoques na primeira frase do tópico e a seguir transcrita:
“A economia brasileira já roda num patamar de crescimento de 2 a 2,5%. Vai chegar a um acumulado de 3,5% no fim do ano -se chegar- graças ao passado.”
Primeiro, se se trabalhasse com o crescimento trimestral anualizado, que é prática comum nos países mais avançados, e se se considera os quatro últimos trimestres, a taxa de crescimento médio para 2011 seria de 3,13% e, portanto, é de se dizer que a economia roda num patamar de crescimento acima de 3% e não entre 2 e 2,5%.
Segundo, se o Brasil apresentar em 2011 um crescimento em torno de 3,5%, ele é em parte decorrente ao crescimento no passado, mas ele é mais decorrente do crescimento do presente. Para entender isso é preciso fazer algumas simulações. Se em 2010 o crescimento fosse invertido com o crescimento alto ocorrendo no terceiro e quarto trimestre de 2010 e o baixo no primeiro e no segundo trimestre de 2010, a vitória de Dilma Rousseff seria mais difícil e o crescimento de 2010 seria menor e haveria mais repasse do crescimento de 2010 em 2011. Do jeito que ocorreu, o repasse do crescimento de 2010 em 2011, será mínimo (Se houver). E supondo que o crescimento real do terceiro e quarto trimestre de 2010, que é um crescimento no passado, se repetisse no primeiro e segundo trimestre de 2011 , ter-se-ia nesses quatro semestres um crescimento do PIB da ordem de 2,2%. Já se ritmo de crescimento do primeiro e segundo trimestre de 2011 tivesse ocorrido no terceiro e quarto trimestre de 2010, então poder-se-ia dizer que o ritmo de crescimento dos quatro últimos trimestres teria sido da ordem de 4%.
Há muitos números que podem ter tornado confuso o comentário, mas a idéia é que a situação não é tão ruim como você a retrata no primeiro parágrafo no tópico “Detalhe”. Como eu tenho insistido, parece que os nossos intelectuais trabalham com dados um a dois semestres atrasados em relação à realidade.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/10/2011

domingo, 2 de outubro de 2011 13:23:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

No caso do reclame de lingerie, o nome disso é pura censura. E censura já diz o que é censura e para que serve censura. Outra forma de ver a coisa toda é tutela arrogante. Situação, onde alguém, ou um grupo cheio de alguém, arroga-se de poder apontar o dedo a um bando de idiotas o que este deve ver e no caso, vestir. A marchinha de Lamartine Babo tocou à exaustão. Até hoje, quando alguém toma umas e outras, sai cantarolando a marchinha. E deve continuar a fazê-lo, mandando o politicamente correto com o nome dado às cobranças realizadas pela coroa, dos e pros quintos. Nesse clima todo, a economia genial emergente e orgulho dos novos tempos, conseguiu ter moeda desvalorizada pelo câmbio e pela inflação. E a inflação prevista correndo acima da evolução do PIB.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011 10:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Apressei-me em enviar o comentário sem uma correção da parte inicial e ele ficou com muitos erros. Não ficou impossível de ser compreendido, mas penso que eu posso corrigir alguns equívocos e mal entendidos que me for possível perceber. Corrigindo então a primeira parte ela fica assim:
"Um ato autoritário (de certo modo é um ato de autoridade) pode ser democrático se tiver o apoio da maioria via manifestação direta ou via manifestação dos representantes da sociedade e pode ser includente ou excludente de minorias.
Percorrido esse caminho, você terá apenas a sua ideologia para julgar o ato.
Se includente de classe mais favorecida, mas numericamente pequena, privilegiando-a, trata-se de ato próprio de governos conservadores ou reacionários e elitistas e se a sua ideologia for de esquerda, você dever-se-á opor ao ato. Se o ato for excludente de maiorias não favorecidas, prejudicando-as, sua ideologia de esquerda também dever-se-á opor ao ato.
Em todo o caso, o ato poderá ser democrático ou ditatorial, mas a acusação de ato autoritário qualifica ou desqualifica o ato só nisto: ser ato autoritário. Qualifica ou desqualifica porque há os que defendem os atos autoritários por ver neles maior probabilidade de serem executados ou serem exercidos ou realizados e há os que criticam por ver neles menor possibilidade de aceitação.
À esquerda cabe bater palmas para os atos que vão de acordo com a ideologia dela e criticar ou vaiar os que vão contra. E é importante que ela não se furte a esse papel."

Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/10/2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011 21:41:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/10/2011.

O esclarecimento foi OK.
Mas, havia entendido que o comentário queria deixar claro uma palavra ruim: censura. O ato foi censura. E a intenção do ato foi censurar um reclame de lingerie.
Só não deixou mais claro ser um ato ridículo, como qualquer censor.
Mas, destacou, porém, acertadamente, o autoritarismo, ridículo e aprovado e desejado por acólitos e desavisados idem.

terça-feira, 4 de outubro de 2011 10:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (terça-feira, 04/10/2011 às 10h28min00s BRT),
Não é a minha área, mas nas Ciências Políticas o termo Autoritário tem um significado mais restrito e preciso.
Do Dicionário de Política, Bobbio et al, 5ª ed. 2000, transcrevo os seguintes trechos:
"O adjetivo "autoritário" e o substantivo Autoritarismo, que dele deriva, empregam-se especificamente em três contextos: a estrutura dos sistemas políticos, as disposições psicológicas a respeito do poder e as ideologias políticas. . . . Em que grau e com que freqüência os três níveis de Autoritarismo se acham juntos ou separados nas diversas situações sociais é um quesito cuja resposta não pode ser prejudicada, na partida, pelas definições, mas deve ser pacientemente determinada através da investigação empírica."(Pág. 94 e 95)
Não me pareceu que Alon Feuerwerker utilizasse o termo dentro do rigor da Ciência Política só que ao mesmo tempo ele estava eivando o ato da pecha da Ciência Política, pelo menos assim me pareceu.
Se a intenção era dar ao ato do Ministério da Mulher o tom de ridículo como a marchinha de Lamartine Babo pareceu indicar que finalizasse a análise com alguma referência a discussão que surgiu um pouco atrás sobre os livros de Monteiro Lobato e não chamar o ato de autoritário semelhantemente ao ato de um governo conservador que se dedique a combater o feminismo, sem especificar se o ato fez-se dentro da normalidade democrática e é fruto de um governo democraticamente eleito.
Como o ato da ministra da Mulher tem mais um caráter de ato administrativo e deveria ser analisado sob o aspecto da eficiência e não existe um consenso sobre de que natureza deve ser o ato para ser mais eficiente, se de forma liberal ou libertária ou democrático (aqui no sentido de igualitário, sem hierarquia), ou de forma autoritária, eu considerei que Alon Feuerwerker não foi feliz na comparação com o ato do governo conservador.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 06/10/2011.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 22:38:00 BRT  
Blogger Francisco Lima disse...

Recorrer ao CONAR é autoritário? Menos por favor...

domingo, 9 de outubro de 2011 16:25:00 BRT  

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