sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Um mundo contraditório (07/10)


A exaltação de Steve Jobs, um legítimo produto do capitalismo americano, acontece bem quando os americanos, pelo menos uma parte barulhenta deles, resolvem pôr a boca no trombone contra o seu capitalismo. E usando os instrumentos que Jobs legou

É longuíssima a fila das condolências pela morte de Steve Jobs. Pode ter algo de exagero, mas na essência é merecido. A obra empresarial dele vem produzindo impacto crescente na vida de um número também cada vez maior de pessoas. E a humanização da tecnologia sempre é revolucionária.

A primeira vez que vi um Apple foi em 1985, quando circunstâncias me colocaram diante da maquininha a tatear linhas em Basic, uma linguagem de programação. Claro que estacionei no beabá, mas admito ter sentido fascinação.

Especialmente quando apertava o [enter] e aquelas linhas escritas se transformavam numa função, recebendo insumos de uma lado e produzindo do outro os resultados que eu determinara. Uma inteligência que eu "produzira".

Depois, como a maioria, passei anos às voltas com os sucessivos Windows e PCs, consumindo tempo em downloads de atualizações, em formatações de discos rígidos e na caça aos softwares para dar vida a equipamentos acoplados.

Voltei a mexer com um Mac na passagem do século, quando a Apple lançou aquele computador de mesa colorido e de formas meio arredondadas, mas foi novamente passageiro. Mergulho mesmo no mundo da maçã mordida, só agora com os iMacs, iPods, iPhones e iPads.

São as voltas que a vida dá. Durante décadas a Apple projetou elitismo. Macintosh era coisa de uns poucos. Ilustradores, publicitários, estudantes e professores das melhores universidade americanas. Popular mesmo era o PC, uma máquina fabricada por muitos e para muitos, e portadora de um sistema operacional ubíquo.

Linux/Unix era coisa de tarados por tecnologia ou messiânicos do software livre. Mac era brinquedinho elitista. A ubiquidade prometia vir mesmo era pelas mãos de Bill Gates.

Como Steve Jobs conseguiu dar o salto? Não foi pela primazia da ideia. A tela sensível ao toque é coisa antiga, a sincronização de múltiplos equipamentos idem. E a usabilidade é uma obsessão espalhada, faz tempo.

Todo mundo quer fabricar coisas fáceis de usar e superúteis.

Onde está a diferença, o segredo? Na execução.

No moderno mundo da tecnologia o que mais há é gente capaz de prever o futuro, de apontar tendências, esboçar projeções. A vantagem está na mão de quem é capaz exatamente de fazer acontecer. E bem feito.

Mas, e a política? Afinal esta é uma coluna de política.

Por uma das ironias que só a História proporciona, a exaltação a Steve Jobs, um legítimo produto do capitalismo americano, acontece bem quando os americanos, pelo menos uma parte barulhenta deles, resolvem pôr a boca no trombone contra o capitalismo.

E usam para isso, intensiva e extensivamente, os instrumentos que Jobs legou.

Mas ele pôde criar, fabricar e vender seus brinquedinhos em larga escala também por ter contado com os necessários aportes de capital. E com o ímpeto consumista, em primeiro lugar dos compatriotas.

Indispensáveis ambos para dar viabilidade à empreitada. E ambas características vitais do sistema.

Não haveria um Steve Jobs, ou uma Apple, se não houvesse um mercado de capitais pronto a abastecer com abundância multidões de novos empreendedores. Muitos dos quais vão ficar pelo caminho, levando com eles a poupança de quem neles arriscou o dinheiro economizado.

Tampouco seria provável tamanho salto de inovação para o consumo de massas surgir onde inexistisse um imenso mercado, onde o consumismo estivesse limitado pela pobreza ou por idiossincrasias. Ou, pior, por ambas.

Registro

A propósito da coluna de ontem, com observações críticas sobre a atitude brasileira no Conselho de Segurança da ONU diante dos acontecimentos na Síria, o Itamaraty lembra que o Brasil tem condenado sim as ditaduras repressivas, mas tem feito isso no conselho de direitos humanos da entidade.

Argumenta também que a política brasileira no Conselho de Segurança está baseada na construção de consensos, método que o Itamaraty julga mais eficaz para enfrentar os impasses internacionais.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (07) no Correio Braziliense.



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6 Comentários:

OpenID tuliovillaca disse...

Alon, acho temerário afirmar que não haveria Jobs ou Apple 'se'... Certamente não haveria como há, mas duvide-o-dó que as inovações tecnológicas não ocorreriam e não se popularizariam por algum caminho, capitalista ou não. Isto é História, mais que política. O Jobs está sendo reverenciado porque os sistemas que se popularizaram no mundo, inclusive PCs e Windows, copiavam descaradamente o que ele tornara possível em nível industrial - assim como eu, que não tenho absolutamente nada da Apple nem nunca tive, ouço música no celular, e minha filha assiste desenhos da Pixar, que só existe como existe porque o Jobs a apoiou. E dizer que os americanos estão pondo "a boca no trombone contra o capitalismo" me parece um reducionismo atroz. Capitalismo é o governo salvar bancos e empresas mal administrados? É bancos extorquirem governos de países? É pregar livre comércio e praticar protecionismo? Acho, ao contrário, que alguns americanos estão se dando conta, na própria pele, que o buraco do capitalismo é mais embaixo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011 13:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Grande Alon, dos blogueiros "não liberais" o que mais caiu a ficha de todos! :D

sexta-feira, 7 de outubro de 2011 17:50:00 BRT  
Blogger blog do Déda disse...

Discordo da opinião de tuliovillaca. As inovações, não importa a área, dependem da liberdade, de poder ser empreendedor, de pensar diferente, de ser ímpar na pluralidade. O Capitalismo não é perfeito. É natural, é humano, e, como tal, "inacabado". Não somos imperfeitos, somos inacabados, estamos em evolução.

sábado, 8 de outubro de 2011 04:10:00 BRT  
Anonymous zeleandro disse...

Atribuir a genialidade de uma pessoa ao sistema capitalista é forçar a barra demais. Mas faz sentido atribuir a criação dos brinquedinhos do Jobs ao mercado exigente e aos investimentos concentrados. É por isso, provavelmente, que a medicina cubana seja uma das mais avançadas do mundo, afinal, lá não se olha pro lucro, mas pro humano.
O que me leva à pergunta: vale mais um Ipad ou uma vida?

sábado, 8 de outubro de 2011 12:56:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Muito interessante a explicação do Itamarati sobre o posicionamento na política externa. Mas, é tão enfático na busca do consenso, que nem o brasileiro entende. E infelizmente, não preocupa-se, em massa, com o que o Brasil tenta fazer em política externa. Assim, parece que o Itamarati precisa ser mais enfático e falar em Português sobre política externa. O Português correto e não o da "moita", ou da "surdina", lógico.

domingo, 9 de outubro de 2011 12:29:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Vale a vida, lógico.
E um iPad, um iPhone, também. Só a vida poderia criar tais tecnologias. E se a medicina cubana é uma das mais avançadas do mundo, o governo deveria deixá-la sair, disseminar-se pelo país e pelo mundo.

O fato, inconteste, é que em muitos lugares, o criador perde a cabeça, literalmente. Isso, nos países que têm governos que se dizem não capitalistas por pensarem no humano. Risível, se não fosse trágico.
Talvez para evitar dúvidas sobre sua fé no humano, eliminam quem possa ser tão criativo a ponto de acabar com o ridículo poder deles.

A única coisa que tais governos exercitam em criatividade é em mentir sempre e com mais poder de convencimento.

De todo modo, pode até ser que Steve Jobs e Bill Gates tenham feito menos que um ex-governante brasileiro. Exceto pelo fato deles terem o que realmente mostrar. Até nisso, a sua criatividade, deve ter despertado motivações novas no ex-governante.

domingo, 9 de outubro de 2011 12:57:00 BRT  

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