domingo, 16 de outubro de 2011

Sacerdotes da estagnação (16/10)


Tucanos e petistas disputam a paternidade de ter estabilizado a economia, mas ninguém diz como fazer para ela crescer consistentemente, sem a inflação voltar a representar um problema

Um foco de disputa entre tucanos e petistas é decidir quem debelou definitivamente a inflação. O PSDB reivindica o Plano Real, implementado no governo Itamar Franco pelo ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso.

Já o PT lembra ter recebido o governo em 2003 com os preços saindo de controle, e diz que Luiz Inácio Lula da Silva deu jeito na coisa, ao aplicar um arrocho fiscal e monetário naquela largada.

O PSDB retruca lembrando que o instrumental usado pelo PT foi uma herança do governo tucano, especialmente a Lei de Responsabilidade Fiscal. O petismo observa que a construção institucional das ferramentas vem de mais longe.

O ministro da Fazenda Antonio Palocci era expert em introduzir esse último elemento na narrativa. Distribuindo os méritos da coisa.

E segue o debate, bastante autocentrado. Cada polo é tão cioso na própria defesa que esquece de olhar ao redor.

As quase duas décadas de poder tucano e petista realmente afastaram a superinflação, mas não entregaram a mercadoria prometida.

Deixaram o serviço pela metade. Não explicaram como fazer para crescer forte e consistentemente num ambiente de preços controlados.

Ou bem o país cresce e os preços sofrem além do desejado, ou o controle dos preços acaba matando a expansão da economia.

Lula pretendia ter superado essa barreira, com o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, tocado pela braço direito Dilma Rousseff. Conseguiu um certo plus (apesar da crise mundial), que logo se revelou insustentável.

Era a época das autoridades econômicas alardeando o rompimento da barreira do PIB potencial (o máximo que a economia pode crescer sem estourar a meta de inflação) medíocre. Depois de muito tempo, 3 ou 3,5% não eram mais nosso limite.

E 2010 foi vendido como prova, com seu vistoso PIB de 7,5%. Era ilusão. O número resultou da comparação com o retraimento absoluto de 2009. Passada a flacidez fiscal da eleição, a fantasia deixou de servir.

O governo FHC sacrificou o crescimento em favor do combate à inflação, e os governos do PT não conseguem decolar sem acordar a dita cuja. Um nó estrutural aparentemente indesfazível.

Agora Dilma está ameaçada pelo pior dos mundos. Crescimento medíocre com inflação incômoda. Para sorte do Brasil, a presidente parece resistir à solução tradicional.

Pois se é verdade que a inflação é um imposto antissocial, atinge mais quem menos consegue proteger o próprio dinheiro, o desemprego é outra chaga. O chamado Primeiro Mundo é prova.

Dilma escolheu o caminho certo ao evitar que o Banco Central decidisse novamente congelar a economia. Foi o BC quem tomou a decisão de baixar os juros, mas foi a presidente quem indicou o comando do BC. E o apoia. Está tudo bem entendido.

Será porém preciso avançar. E os sinais são insuficientes. O governo aposta no mercado interno para enfrentar a crise planetária, mas é pouco. A indústria patina há três anos, desmascarando postumamente a farsa da "marolinha".

Não basta o governo dizer que não sacrificará o crescimento em nome do combate à inflação, se deixa o país escorregar para a estagflação.

É preciso que diga como, efetivamente, vai manter a máquina funcionando em velocidade desejada sem estourar os preços.

O PT venceu três eleições presidenciais porque, entre outras razões, a maioria do país recusou a volta a um modelo de conformismo com o baixo crescimento, um fardo que os candidatos tucanos precisaram carregar como triste legado do período FHC.

Uma herança maldita.

Mas que vai se diluindo no tempo. O problema agora é outro. O PT já está no poder faz tempo suficiente, deve dizer a que veio.

Dilma largou bem mas a corrida é longa. A presidente foi bem na primeira curva, quando o BC ignorou os sacerdotes da estagnação e baixou os juros.

Mas se Dilma bobear ninguém lá na frente lembrará que a presidente começou a corrida na pole-position.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (16) no Correio Braziliense.



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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você diz:
"Pois se é verdade que a inflação é um imposto antissocial, atinge mais quem menos consegue proteger o próprio dinheiro, o desemprego é outra chaga. O chamado Primeiro Mundo é prova."
Você pelo menos tentou contrabalancear colocando de um lado a inflação e de outro o desemprego, mas há na sua frase a velha cantilena contra a inflação que não é coerente com outras cantilenas. Dizem economistas ou não economistas que inflação se acaba com redução de despesas (Não sei como isso pode ser bom para os pobres), com aumento de juros (Se eles dizem que o aumento de juros é só para beneficiar a banca também não vejo como acabar com a inflação pelo aumento do juro pode ser bom para os pobres) ou aumento de impostos (Bem, aqui eu acho que os pobres saem ganhando, mas os ricos normalmente não deixam que se aumentem os impostos). Por isso desconfio do grito contra a inflação.
Agora o que eu acho interessante no trecho que eu transcrevi de seu post é a seguinte parte:
"a inflação é um imposto antissocial, atinge mais quem menos consegue proteger o próprio dinheiro."
Ora, a inflação precisa que o juro seja menor que o aumento de preços das mercadorias para que ela permaneça. Isso significa que, quando a inflação é alta, quem compra mercadoria no início do mês tem um retorno maior do que quem aplica o recurso que possui em investimentos com retorno com base na taxa de juro, isto é, quem consegue proteger o dinheiro que possui.
Sou leigo em economia, mas penso que os analistas de inflação com base no argumento econômico que se disseminou na década de 90 de que a inflação é o mais injusto dos impostos, não construíram um argumento bem fundamentado.
Creio que o verdadeiro argumento contra a inflação é político. Fica mal com o povo quem deixa a inflação subir. E azar do país. Ainda mais com a reeleição.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 15/10/2011

domingo, 16 de outubro de 2011 01:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A minha receita é infalível. Inflação alta para sustentar PIB só funciona no curtíssimo prazo. Lá na curva ela cobra o preço com juros e sofrimento humano. Alguém deveria ter calibrado o mix macroeconômico compatível com a meta de inflação e não o fez. Crescimento sustentável só com poupança e investimento. A parte do governo é controlar os gastos correntes, diminuir o custo da dívida e robustecer o investimento para tornar a indústria nacional competitiva. Isso é um projeto para 4 anos ou mais. Talvez um próximo governo alternativo corrija o rumo porque o atual vive para o momento. Haja demandagogos.

domingo, 16 de outubro de 2011 01:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Mundo produzindo menos,consumindo menos e ...com menos emprego. Essa ,também é conhecida: a "estagflação"!Neologismo,é com os economistas.Na falta de soluções práticas para o mundo real,ministram-se originalidades humorísticas. Agora ,mesmo,uma nuvem de palpitantes palpiteiros ditam cátedra sobre soluções,meios ,modos e modelos.Todos salvacionistas. Contudo,nenhum sábio acadêmico ou de ocasião,
lembra de um autor ou tomo,que mencione ao quadro presente.Talvez, a
Bíblia,no Apocalipse ou Nostradamus , das Centúrias,aludissem aos prolegômenos dos tempos que se avizinham.Marx, ficaria orgulhoso,mas certamente confuso,ao tomar conhecimento do viés autodestrutivo do capitalismo e de seus métodos empregados.Alguém ,algures num veículo qualquer, mencionou 1968, De Gaulle e etc.Nada mais falso.Ali a juventude protestava contra a hipocrisia da "democracia burguesa",que insistia em manter relações coloniais com países periféricos.Hoje, dezenas de capitais,mobilizando indivíduos de todas as idades,credos e opções de vida,opõem-se ao flagelo da insensível voracidade capitalista.
PS.: Lamento a ausência de talentos como Norman Mailer que através de sua pena sem concessões retrariam para o mundo e a sociedade americana a realidade intestina do país arduamente governado por Obama.

domingo, 16 de outubro de 2011 14:54:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O Plano Real foi deflacionário e não um plano de demarragem. A demarragem não ocorreu no momento após a consolidação do Real e nem vai ocorrer agora. No momento, a queda dos juros causa mais dúvidas e aflições do que alívio. Isso porque, primeiro, pode ser que a autonomia operacional do BC tenha sido colocada em dúvida. Ou seja, se a Fazenda expande, quem poderá ter a segurança da contrafação monetária em caso de problemas? E segundo, a decantada em prosa e verso "herança maldita" de FHC, significa um conjunto de normas de estabilização, abandonadas pelo governo posterior. Após essas normas, os cálculos econômicos puderam voltar a ser realizados. O governo ganhou a capacidade de realizar política fiscal e monetária, coisa praticamente impensável no período de 1975 a 1994. Se isso foi "herança maldita", dá para imaginar o que estará reservado ao País no período 2011/2014. Ou seja, a estabilidade atrapalhava e então, surge a genialidade econômico-gerencial, que mete o pé na jaca. Tudo edulcorado com conselhos aos países ricos de como se faz para combater a crise. Em termos populares, pode-se dizer: está todo mundo frito. A alavancagem do consumidor dos EUA foi demonizada por aqui em 2007/2008. Agora, o consumidor brasileiro é quem está se alavancando e isso é dado como positivo. Esquizo. Assim, primeiro, o Brasil não vai demarrar, pelo contrário, está em contração. Segundo, não por causa de FHC, mas, por ideologização do câmbio, da inflação e dos juros, pilar da teoria egocêntrico-totemista, implementada a partir de 2003. Terceiro, por absoluta incapacidade de fazer a demarragem, exceto em filmetes de propaganda, por idolatria pura e simples e por acusações...a FHC. Tudo, depois de quase nove anos, ainda se resolve bastando cutucar e chamar a "herança maldita" de FHC. Muito interessante a nova era que espera as classes emergentes brasileiras.

domingo, 16 de outubro de 2011 18:27:00 BRST  

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