quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Querida plateia (06/10)


Por que o Brasil não votou contra a Líbia e a Síria? Porque prefere caminhar sobre o fio da navalha a arriscar o carimbo de amigo da Europa e dos Estados Unidos. Mas tampouco tem coragem para bater de frente. Como faz por exemplo Hugo Chávez

O Brasil absteve-se no Conselho de Segurança da ONU que votou moção de censura ao regime da Síria. O que gosta de atirar em manifestantes desarmados. A proposta, impulsionada pelos Estados Unidos e pela Europa, teve maioria mas caiu pela oposição de dois com poder de veto: a China e a Rússia.

É a segunda abstenção significativa do Brasil. Fizera o mesmo na votação sobre a Líbia, na resolução que abriu as portas para a intervenção da Otan e a remoção de Muamar Gadafi de Trípoli.

O Brasil pede um lugar permanente no Conselho de Segurança, então é razoável imaginar que se já tivesse a cadeira cativa votaria do mesmo jeito. Não haveria por que ser diferente. Flutuar conforme a própria capacidade de interferir seria oportunismo.

Se o Brasil fosse membro permanente com direito a veto no Conselho de Segurança teria, na prática, aprovado a intervenção na Líbia. Pois abster-se significaria abrir mão de vetar.

Assim como não teria impedido a passagem da censura contra o governo de Bashar al Assad.

Então por que o Brasil não votou a favor em nenhum dos dois casos? Aí também já seria demais, né? Nosso governo prefere caminhar sobre o fio da navalha a arriscar o carimbo de aliado da Europa e dos Estados Unidos. O que iria dizer em casa?

Só não tem coragem suficiente para bater de frente. Como faz por exemplo a Venezuela de Hugo Chávez.

O Brasil gosta mesmo é de jogar para a plateia. Não troca por nada o direito de discursar apresentando-se como paradigma de qualquer coisa. O eterno crítico dos outros. A palmatória do mundo. Mas tampouco rasga dinheiro.

O Brasil diz defender uma solução política negociada para o impasse na Síria. O governo de Damasco também defende a negociação, mas antes pede um tempo para eliminar fisicamente os adversários.

Era a estratégia de Gadafi, antes de topar com a intervenção da Otan. O presidente líbio havia advertido que caçaria seus oponentes de casa em casa antes de promover uma abertura política. E estava prestes a conseguir. Acabou ele próprio corrido.

Nos últimos tempos o Brasil vem privilegiando um certo eixo de alianças no Oriente Médio, com o centro em Teerã. O governo anterior operou, na prática, para ajudar o Irã a ganhar tempo no desenvolvimento do programa nuclear.

É possível que o Brasil tenha feito isso por acreditar sinceramente no caráter 100% pacífico do programa nuclear iraniano.

Mas é também razoável suspeitar que o Brasil vê no empreendimento nuclear dos aiatolás uma forma de enfraquecer a posição relativa dos Estados Unidos e da Europa no Oriente Médio. E nutre a esperança de ocupar parte do espaço.

Além do mais, desde há muito existe no establishment civil e militar em Brasília quem proponha rever a adesão brasileira ao Tratado de Não Proliferação.

Exatamente para quê, não se sabe.

Toda ação deve ser medida pelos resultados. Os comerciais parecem bons. O Irã tornou-se um ótimo consumidor da carne brasileira. Na política, entretanto, parece que a coisa não anda tão bem assim.

Na ponta do lápis a influência política do Brasil na região está diminuindo, não aumentando. É só olhar país a país.

Lá atrás o Brasil colocou as fichas na estabilidade perene das ditaduras árabes e islâmicas e saiu a cultivar a amizade dos ditadores. E também por isso vai firme na defesa do carniceiro de Damasco. Que mata seu próprio povo nas ruas e ameaça conflagrar a região para permanecer indefinidamente no poder.

Se bem que em casos assim o radicalismo verbal e as ameaças do déspota costumam ser o prelúdio da queda. É o que diz a experiência. Quem fala muito grosso é por talvez não ter como agir na mesma intensidade.

Ah, sim, e os direitos humanos? E o protagonismo inegociável deles na política externa brasileira?

Sobre essa pauta, ela cumpriu seu papel propagandístico naquela hora e foi ao arquivo. Na categoria das falas descartáveis e descartadas. Nem vou mais desperdiçar, leitor e leitora, o seu precioso tempo com o assunto.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (06) no Correio Braziliense.



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11 Comentários:

Blogger Marcus Pessoa disse...

Sempre dou uma gargalhada quando leio que seu blog é "de esquerda".

É um pândego mesmo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 10:20:00 BRT  
Anonymous Samuel Vidal disse...

É estamos virando de fato a palmatória do mundo, estamos saindo de um complexo de vira-lata para um complexo de arrogância, o que no fundo é uma espécie de insegurança.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 10:57:00 BRT  
Anonymous André disse...

Concordo que há essa tendência a ficarmos no fio da navalha.

Pelo discurso da Dilma na ONU, ela vê que as intervenções em países, como a que ocorreu na Líbia, só provoca a multiplicação das mortes de civis (e a situação lá ainda é bastante incerta). As intervenções em países seriam vistas também como um desrespeito a eles, a sua soberania, etc.

É claro que não é só isso, o principal é se opor à OTAN e se alinhar com os BRICS. Há uma crítica à OTAN, dizendo que ela violou as próprias regras intervindo na Líbia.

Por outro lado há tanta hipocrisia e ambigüidade na posição brasileira como há na norte americana. Há ditaduras e matanças e carniceiros em tantos países.

Os EUA acreditam que devem exportar seu modo de enxergar o mundo a todos os países, acreditam que é o mais justo e benéfico.

Não acredito que o Brasil tenha essa convicção tão forte. Temos essa posição dúbia, relativista (cada país tem sua cultura, né...), claro que sempre favorecendo nossa balança comercial. Essa posição é útil, ao menos por enquanto.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 12:48:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Também me divirto muito com comentários consistentes e bem fundamentados como p ex esse seu, Marcus Pessoa. Parabéns pela argúcia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 15:50:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

1) Só não dá para entender como o Brasil enfraqueceria, de verdade, a posição dos EUA e da Europa no OM. E se obtivesse sucesso, como ocuparia o espaço eventualmente deixado. Em caso de ser essa a intenção, deve ter sido fruto de algum sonho de noite mal dormida.
2) No aspecto da energia nuclear, a intenção que transpareceu de tanto apoio ao Irã, pareceu ser a de tentar livrar-se do TNP e partir para ter sua bomba A "dissuasora". Para dissuadir quem, é a pergunta de mais de um milhão. E com o quê, dado que não tem vetores para atirá-la? E nem forças convencionais equipadas o suficiente. O resultado das atitudes, foi, simplesmente, o enfraquecimento de ambos. Do Irã, pouco fala-se. Do Brasil, fala-se, sempre, como um grande mercado lucrativo para investidores internacionais.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 15:59:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Comentário de quinta-feira, 6 de outubro de 2011 12h48min00s BRT.

Como alinhar-se aos Brics, apenas um acrônimo, não um bloco militar ou econômico, para opor-se à Otan?

Não há um mínimo de coordenação político-militar para tanto. Os países do acrônimo, não têm um mínimo de conexão cultural, econômica, militar etc. que permita ação comum de grande envergadura.

O Brasil está às voltas com a forte concorrência chinesa, não em mercados internacionais, mas dentro do Brasil.

A Rússia, veta carnes brasileiras e tem pouco relacionamento comercial com a China.

China e Índia crescem muito por serem pobres. Têm muita gente e áreas a incorporar e desenvolver. Quando isso afetar mais fortemente ainda as fontes de recursos naturais, crescerão menos.

O Brasil está em franca desaceleração econômica.

Dessa forma, como enfrentar a Otan, via Brics?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 16:14:00 BRT  
Blogger Marcus Pessoa disse...

Você tem razão, Alon. Foi um comentário idiota e desnecessário.

Ainda acho que o texto não analisa os interesses reais em jogo, é superficial e é uma defesa velada dos interesses norte-americanos. Mas infelizmente não tenho tempo de demonstrar isso agora.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 18:34:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Bem, Marcus, se vc acha isso, deveria argumentar. Gaste algum tempo com isso.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 20:20:00 BRT  
Anonymous André disse...

Sim, os BRICS não tem unidade política, é algo bem artificial. Acontece que são os vetores de crescimento de um mundo que desacelera, mesmo que sejam muito pobres.

O Brasil não vai se alinhar com os EUA, o governo (pelo menos esse) não concorda com as atitudes deles, exergando-os (os EUA) como intrometidos, desnecessariamente agressivos. Afinal, na visão do Brasil atual, cada país que lave sua própria roupa suja. Pra mim, essa é a lógica do governo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011 17:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, acho que você terá que esperar sentado, talvez deitado!, os argumentos do "comentarista sem tempo". Afinal, pelos clichês usados no comentário "menos idiota e desnecessário" não deve sair muita coisa dali. Quer dizer que o Alon veladamente defende os interesses ianques? É isso? I rest my case. Quanto ao posicionamento do Brasil no caso do Irã, concordo com o Swamoro. Pelo discurso feito pelas autoridades, parece mesmo que certa ala do governo tem intenção de abandonar o TNP. Pra mim, o único princípio que continua a nortear a nossa política externa, pelo menos a parte que diz respeito ao gogó, é o antiamericanismo automático, na banguela...

(essa é a versão corrigida do comentário)

sábado, 8 de outubro de 2011 11:46:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Brics, como crescimento, talvez. Se bem que o Brasil não tem taxas muito elevadas. Ainda tem muito de voo de galinha. Quem cresce, mesmo, por serem pobres, sim, são a China e Índia.

Na realidade, Brics, significa mercados promissores e lucrativos para o capital internacional. Todo o resto é só onda arrogante e mania de grandeza. Como a que diz ser o Brasil "o líder do Brics". Mesmo o acrônimo tenha sido criado por um financista, do centro do império.

O Brasil não vai "alinhar-se" aos EUA. Sim, porque não precisa alinhar-se mais do que já foi e do que está hoje. Notadamente durante o governo Bush, o companheiro Bush.
Por uma razão muito simples: embora a China seja um grande parceiro comercial, com vantagens dentro do mercado brasileiro, o Brasil não pode prescindir do mercado dos EUA para suas exportações.

Olhando de outra forma, pelo menos cerca de 400 palavras em Inglês, alguém consegue entender e falar no Brasil. Quem sabe menos, umas 100 consegue debulhar. Quantas palavras de mandarim, cantonês, russo, xhosa, zulu, urdu, sânscrito, alguém consegue falar e/ou escrever aqui e agora?

Ou seja, as velas por Obama devem continuar acesas. "Roncar papo", é simples. Até que a realidade se imponha. E a Europa é uma dessas realidades, também.

domingo, 9 de outubro de 2011 12:23:00 BRT  

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