terça-feira, 25 de outubro de 2011

Memória viva (25/10)


Governos espertos olham, em primeiro lugar, para o emprego e a renda. E procuram reger as demais variáveis em função das duas. Mas, e a inflação? A verdade é que a América Latina já esqueceu dela. A memória mais recente é a da estagnação

Cristina Kirchner venceu com folga o desafio reeleitoral, por uma razão simples, bem conhecida e já muito tratada, inclusive aqui. Na comparação com os antecessores, os governos Kirchner têm sido paradigma de eficência, desenvolvimento e preocupação social.

Lá, como cá, o desejo de não retornar ao passado ajudou Cristina. A ponto de ela obter votação recorde.

A Argentina tem seus problemas, com destaque para a fragilidade institucional. Ninguém sabe direito a quantas anda a inflação, aliás falar disso costuma dar dor de cabeça para os jornalistas dali. Pois os preços ali correm rápido.

E as convicções democráticas do casal Kirchner nunca foram uma brastemp.

Mas a economia cresce, gera empregos, há sinais de reindustrialização e a percepção social é que o kirchnerismo defende o país e os mais pobres. Ainda que as nuvens adiante estejam carregadas.

O momento fundador dessa percepção foi a denúncia da dívida externa, lá no começo do governo de Néstor.

Nascida do caos social e político provocado pelo colapso econômico, a necessidade da moratória se impôs, por cima de todas as advertências, ameaças e exibições de dentes.

A Argentina simplesmente não teria como sair do buraco sem ignorar uma parte dos compromissos financeiros. Ou até teria, a um custo social proibitivo.

Mais ou menos como a Grécia agora. A desvantagem dos gregos é fazerem parte de uma união monetária.

E o mais interessante foi a Argentina ter dado o passo no auge da deificação das “ideias certas”. Por exemplo a que prega a santidade e a imutabilidade dos contratos.

Uma ideia muito querida dos ideolólogos do empresariado, ainda que o empresário mesmo, o de raiz, nunca hesite quando denunciar um contrato é bom para o negócio dele.

Eu pelo menos nunca conheci nenhum que aceitasse levar a empresa à falência para honrar um mau contrato.

Os argentinos impuseram aos credores um forte desconto na dívida e não aconteceu nada. O dinheiro continuou chegando, engordando e indo embora, como sempre fizera antes. E como continuará fazendo desde que lhe garantam as necessárias condições de reprodução.

Argumentarão que a Argentina precisou pagar caro para compensar o maior risco.

E quem somos nós para dizer isso?

Aqui se produz todo ano um belo superávit primário. Um pouco mais, um pouco menos, mas sempre belo. Aqui vigora uma Lei de Responsabilidade Fiscal bastante rígida. E aqui a transparência das contas públicas é exemplo para outros países.

Tudo muito bonito.

E mesmo assim pagamos o maior prêmio do mundo a quem traz dinheiro para cá. Nossa taxa real de juros não tem concorrente. Pelo ângulo da engenharia reversa da precificação do risco, talvez sejamos, no fim das contas, um lugar bastante arriscado para investir.

Por incrível que pareça.

Se pagamos juros tão elevados é porque a coisa não vai tão bem assim. Do contrário não precisaríamos remunerar tão maravilhosamente quem traz o dinheiro.

Como curiosidade, os Estados Unidos, que estão na draga, pagam juro tendente a zero e mesmo assim qualquer marolinha planetária provoca um tsunami a favor dos títulos do Tesouro americano. E não contra.

Ainda que esse detalhe possa enfraquecer o argumento central da coluna, pois um trunfo dos Estados Unidos é a garantia pétrea de que honrarão seus compromissos.

A realidade é mesmo contraditória.

Vindo para a economia doméstica, a reeleição de Cristina Kirchner explica bem por que a colega do lado de cá da fronteira sustenta a política de redução de juros agora praticada pelo nosso Banco Central. Uma política agressiva, nas circunstâncias.

Governos espertos olham, em primeiro lugar, para o emprego e a renda. E procuram reger as demais variáveis em função das duas.

Mas, e a inflação? A verdade é que a América Latina já esqueceu dela. A memória mais recente é a da estagnação.

Com as devidas consequências políticas.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (25) no Correio Braziliense.



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19 Comentários:

Anonymous Samuel Vidal disse...

Apesar de achar que a moratória no caso da Argentina foi acertada por não haver outra alternativa, precisamos esperar as cenas dos próximos capítulos para dizer que o modelo argentino é "vitorioso". A inflação real na casa dos 20% revela graves distorções na economia, o governo emitindo dinheiro para financiar suas despesas e o trabalhador perdendo poder de compra.

terça-feira, 25 de outubro de 2011 10:51:00 BRST  
Anonymous Samuel Vidal disse...

Quanto aos juros no Brasil, uma coisa é nós termos juros altos comparados com os internacionais, que estão zerados, outra coisa é achar que não crescemos por causa dos juros. O Brasil tem uma dívida pública bruta de 55% do PIB. Juros reais da Selic de 5%. Se toda nossa dívida fosse indexada a Selic,pagaríamos juros reais de 2,8% do PIB. Acontece que o investidor ainda paga entre 15 % e 22% de IR sobre o rendimento bruto (12% ao ano). Assim no mínimo 1% do PIB (55% x 12% x 15%)volta para o governo. Nós pagamos líquido "apenas" 1,8% (2,8% - 1%)do PIB para os rentistas ou 72 bilhões de reais por ano. Isso de uma dívida bruta de 2,2 trilhões, muito elevada. O que tiramos dos impostos para pagar dívida (3,5% do PIB) é maior, mas a nossa relação/dívida PIB cai 2 pontos do PIB todos os anos, enquanto no mundo desenvolvido vem aumentando.

terça-feira, 25 de outubro de 2011 11:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Como é que faz para o povo não notar uma explosão inflacionária em uma economia desindexada? Dá pra explicar? Ou será que a explicação é a de que andaram carregando nas tintas também com a Argentina, como fazem com a Venezuela?

terça-feira, 25 de outubro de 2011 16:23:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

De todo modo o "haircut" argentino, se não não fez bem para a economia, fez muito bem para o populismo político. Tanto que, a Argentina, frequentemente, rejeita produtos brasileiros. Ou seja, politicamente, a Argentina não sente-se obrigada a aceitar qualquer coisa que não seja de seu interesse, mesmo sendo o segundo maior do Mercosul, que, aliás, não fala-se mais dele.

terça-feira, 25 de outubro de 2011 16:37:00 BRST  
Blogger pait disse...

Excelente artigo, com destaque para a parte "Ainda que esse detalhe possa enfraquecer o argumento central da coluna... A realidade é mesmo contraditória."

Quem sabe do que fala não precisa se colocar acima da dúvida, não tem medo de se revelar enfrentando uma contradição. Parabéns!

terça-feira, 25 de outubro de 2011 19:23:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Obrigado, Pait. Se a realidade é mesmo contraditória não há por que tentar esconder :-)

terça-feira, 25 de outubro de 2011 21:22:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Samuel Vidal (terça-feira, 25/10/2011 às 10h51min00s BRST),
A minha opinião é de leigo, mas ainda não encontrei um bom economista que me convencesse do contrário. Para mim, a inflação é apenas um problema político e não um problema econômico, embora sejam econômicos os métodos para a combater. Isso não significa que eu considere que você esteja errado quando você diz que:
“A inflação real na casa dos 20% revela graves distorções na economia”.
Ao contrário, penso que você está certo, mas penso também que a sua frase está incompleta. Completar a frase significaria dizer que “a inflação real na casa dos 20% não só revela graves distorções na economia como as corrige”.
Agora, pode ser também que mais razão assiste ao comentarista Anônimo no comentário que ele enviou terça-feira, 25/10/2011 às 16h23min00s BRST questionando se não andam carregando nas tintas quando se fala sobre a inflação na Argentina dos Kirchner, ou melhor, quando se fala sobre a inflação dos Kirchner na Argentina. Como tenho insistido aqui, os nossos melhores técnicos só conhecem os dados de crescimento econômico, de geração de empregos, de taxa de inflação depois que esses dados são informados pelos órgãos competentes e dependendo da metodologia com uma defasagem muito grande. Por exemplo, o PIB brasileiro desde o terceiro trimestre de 2010 vem crescendo a uma taxa próxima de 3%. Só agora que os técnicos começam a falar sobre isso. A taxa de inflação, dependendo da metodologia e do último dia adotado para o levantamento pode vir também com quase um mês de defasagem. O povo sabe a variação dos preços no dia a dia das compras que ele faz. Fica um tanto estranho o povo não sentir esta inflação que seria de mais de 20% segundo o que vem sendo alardeado pela mídia.
Tenho também que reconhecer que há um efeito econômico real da inflação que é a redução da demanda (Aliás, a inflação corrige a grave distorção na demanda). Quem reduz a demanda é a poupança. Então a inflação é poupança. E ai fica a dúvida: esse efeito real da inflação é bom como defendem os economistas ortodoxos que sempre dizem que o país precisa aumentar a poupança, ou é ruim como dizem os heterodoxos que dizem que sem demanda não há crescimento? Considero que os economistas heterodoxos estão errados porque você pode desvalorizar a moeda e aumentar a demanda externa.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/10/2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011 08:03:00 BRST  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/10/2011.
"...Inflação é poupança...".
Essa expressão remete décadas passadas. Do Real, do Império, ao Real, da República em, 1994.
Passando pela "década perdida" dos 80s. Caso soubessem disso, seria só passar de D. João VI, direto para 2014.
Ter-se-iam economizado muitas moedas e tantos zeros cortados.
Com a vantagem do País ser chamado de "emergente e promissora potência", prestes a "...comprar estatais européias, com dinheiro do BNDES...", como sugere o ministro do MCT, muito mais cedo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011 17:39:00 BRST  
Anonymous Samuel Vidal disse...

Caro Clever,
Eu vejo a inflação como um imposto indireto do governo. O governo da Argentina aumentou os programas sociais e previdenciários mas não aumentou os impostos na mesma proporção para custeá-los. A carga tributária ainda é muito baixa na Argentina, menos de 20% do PIB contra os nossos 35% do PIB. Para a conta fechar o governo imprimiu moeda para financiar os seus gastos sem se endividar. Isso gerou inflação. E quem paga pelo gasto do governo? O trabalhador que recebe 100 pesos no começo do mês e no final do mês perde 2%, 3% do poder de compra devido a inflação.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011 18:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Samuel Vidal (quinta-feira, 27/10/2011 às 18h39min00s BRST)
Eis ai mais uma razão para você levar mais em conta o comentário que o Anônimo enviou terça-feira, 25/10/2011 às 16h23min00s BRST. Você não está com a informação correta sobre a carga tributária na Argentina.
A nossa grande imprensa sempre omitiu a informação sobre a carga tributária na Argentina salvo na discussão sobre o aumento do imposto de exportação nas commodities quando Cristina Kirchner foi derrotada. Eu também não tinha a informação até recentemente quando li na grande impressa dados contrários ao que você apresenta. O artigo com a informação que me parece precisa veio na coluna de Humberto Saccomandi no Valor Econômico de quarta-feira, intitulado “Aos Kirchner o que é dos Kirchner, mas ‘ojo!’”. O link para uma chamada do artigo é:
http://www.valor.com.br/internacional/1060042/aos-kirchner-o-que-e-dos-kirchner-mas-%E2%80%98ojo%E2%80%99
No artigo (Mas não no link que eu indiquei) há a seguinte passagem:
"Um feito notável foi elevar a carga tributária de 21% para 32,5% do PIB e só nove anos, apelando principalmente a impostos de exportação".
Foi até um alívio para mim, pois como explicar a minha crença na carga tributária para tudo resolver se a Argentina estava resolvendo grande parte dos problemas dela sem aumentar a carga tributária? Felizmente veio a informação correta.
Um endereço útil para entender a situação Argentina é junto ao post no blog de Luis Nassif intitulado "A Argentina de Cristina e o Peronismo" de terça-feira, 25/10/2011 às 10:00 e originado de um comentário do comentarista Andre Araujo. Eu aproveitei o primeiro comentário ao post para colocar lá alguns links que ajudam a entender melhor a Argentina. Colocava o link ou indicava um outro comentário no post onde havia um link de interesse. O endereço do post "A Argentina de Cristina e o Peronismo" é:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-argentina-de-cristina-e-o-peronismo
Creio que o problema maior na Argentina são os subsídios para manter baixo os preços de energia elétrica, e outros. Quando o governo acertar isso vai haver um repique da inflação, uma redução do consumo interno, mas se esses setores forem bem tributados a carga tributária da Argentina vai crescer mais e ela terá melhores condições para enfrentar outros problemas.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/10/2011

sexta-feira, 28 de outubro de 2011 13:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (quinta-feira, 27/10/2011 às 17h39min00s BRST),
É saudável sua ira contra a inflação. Se o mundo todo fosse assim talvez não vivêssemos melhor, mas haveria bem menos inflação no mundo.
De todo modo ao criticar a inflação não esqueça de conferir os fatos. Assim, do início do século XX até a década de 80, com uma inflação não tão sob controle o Brasil foi um dos três países do mundo que mais cresceu (É bem verdade que parte do crescimento foi reflexo estatístico da taxa de crescimento populacional e da taxa de emigração do meio rural para a cidade onde o crescimento é facilitado).
E mais importante, no período de José Sarney quando a inflação estava totalmente descontrolada o crescimento econômico foi maior do que nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso (É bem verdade que o crescimento foi maior quando a inflação embora alta ainda era controlada: 1985).
A década perdida foi a do desemprego do Plano Real. Ai há que se reproduzir um parágrafo do artigo "Metas inflacionárias" de autoria de Antonio Delfim Netto e que foi publicado no Valor Econômico de 04/10/2011. Diz lá o ex-ministro:
"A igualdade de oportunidade é objetivo fácil de ser enunciado, mas esconde enormes problemas conceituais e práticos. De qualquer forma, deve começar com a chance de todo cidadão ganhar a vida com o seu esforço. De todos os desperdícios de recursos naturais de uma sociedade, nenhum é mais injusto, mais prejudicial à integração social e à autoestima do cidadão, do que negar-lhe a oportunidade de viver honestamente e sustentar a família com o resultado de seu trabalho."
Eu já havia reproduzido este parágrafo em comentário que enviei segunda-feira, 10/10/2011 às 08h53min00s BRT para junto do post "Por que discriminar?" de sábado, 08/10/2011 (Embora conste também 09/10). E espero que possa reproduzi-lo mais vezes. Reproduzo-o não só porque ele é muito precioso para ser esquecido como também para lembrar que ele deveria constar como parte do estatuto de todos os partidos políticos e da entrada de todos os prédios do Banco Central.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/10/2011

sexta-feira, 28 de outubro de 2011 14:16:00 BRST  
Anonymous Samuel Vidal disse...

Caro Clever,
Dei um lida no artigo que você mandou. O problema é que muitos analistas afirmam que a inflação maquiada eleva a carga tributária oficial da Argentina. O balanço das empresas continua a ser expresso em valores nominais e a arrecadação de impostos também, sendo que todos os 2 valores continuam crescendo com a ajuda da inflação real de mais de 20%. Por outro lado não há nenhum deflator do PIB válido para calcular o valor exato do PIB, com a manipulação inflacionária. Assim se o valor do PIB fosse calculado adequadamente, a carga tributária em % do PIB seria muito menor do que os 32,5% oficiais. Veja o link:
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/10/17/inflacao-maquiada-eleva-carga-fiscal-na-argentina

segunda-feira, 31 de outubro de 2011 16:35:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Samuel Vidal (segunda-feira, 31/10/2011 às 16h35min00s BRST),
Volto a insistir no post sobre a Cristina Kirchner no blog do Luis Nassif intitulado "A Argentina de Cristina e o Peronismo" de terça-feira, 25/10/2011 às 10:00 e que indiquei em meu comentário enviado sexta-feira, 28/10/2011 às 13h37min00s BRST para este post “Memória Viva de terça-feira, 25/10/2011. O post "A Argentina de Cristina e o Peronismo" é mais uma análise política sobre a Argentina, mas ele é enriquecido com muitos bons comentários.
Bem, em meu primeiro comentário do post "A Argentina de Cristina e o Peronismo" eu já havia feito referência a esta reportagem no Valor Econômico de 17/10/2011 e de autoria Cesar Felício e intitulada “Inflação maquiada eleva carga fiscal na Argentina" e para a qual você deixou o endereço. Aliás a minha intenção em meu comentário anterior aqui para o post “Memória Viva era fazer o link para a segunda página onde estava o meu comentário, mas deixei o link da primeira página porque nela eu ia colocar um comentário indicando os melhores comentários do post ou os com os melhores links e havia uma grande quantidade deles na segunda página do post.
Na verdade,em meu primeiro comentário para o post "A Argentina de Cristina e o Peronismo" eu queria indicar a coluna do Humberto Saccomandi que eu mencionei aqui porque ele parece ter uma ideologia mais conservadora e era um texto que eu já tivera lido, mas na busca na internet só aparecera a reportagem do Carlos Felício.
Agora, parece-me que você deu uma interpretação bem especial ao que disse Federico Sturzenegger, presidente do Banco Ciudad, pertencente ao governo municipal de Buenos Airessob comando do prefeito Mauricio Macri de oposição a Cristina Kirchner.
Primeiro, a declaração de Federico Sturzenegger deve ser vista como choro de perdedor, ainda que ele não seja tão perdedor assim, uma vez que Mauricio Macri estrategicamente não concorrera. E segundo, pelo seu comentário ficou parecendo que o PIB argentino seria maior do que o informado e que assim a carga tributária, sempre dada em percentual do PIB, seria um percentual menor de um número maior. Se fosse assim a Argentina estaria no melhor dos mundos. As despesas não seriam altas em percentual do PIB e a carga tributária contaria com um grande espaço para aumentar caso haja necessidade de aumento de despesas. Não penso que esse deva ser o entendimento do choro de Federico Sturzenegger. O que ocorre é que se a inflação não informada corrigisse os valores do balanço, o lucro das empresas seria em um percentual menor e haveria menos imposto de Renda. Não acho que isso seja suficiente para o aumento da carga tributária na ordem de grandeza apresentada.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/11/2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011 21:34:00 BRST  
Anonymous Samuel Vidal disse...

Clever,
Pode até não ser 100% responsável pela aumento da carga tributária, mas tem grande influência. O fato concreto é que a inflação do governo é uma, a dos analistas é outra. Nesse cenário não há como o governo usar uma deflator do PIB super diferente da inflação oficial. A Argentina faz numa medida menor o que o Brasil fazia nos anos 80, emitia dinheiro para cobrir as despesas do governo. A inflação gerada corroía o salário do trabalhador, quando ia receber o dinheiro ele já não valia o mesmo que 5 dias atrás. Na prática, tirando a desorganização econômica, o efeito não é nem benéfico nem maléfico. O governo tira da sociedade de forma indireta quando o dinheiro das pessoas perde valor de compra e devolve a sociedade através dos seus gastos.
Sim quanto ao seu primeiro post você falou que achava estranho a população não "sentir 20% de inflação". Ora se os trabalhadores argentinos estão pedindo 30% em média de aumento, com certeza eles não estão focando na inflação oficial de 9%¨.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011 13:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Samuel Vidal (sexta-feira, 04/11/2011 às 13h05min00s BRST),
Não sou economista, mas, pelo que eu sei, o deflator implícito é a forma de calcular a verdadeira inflação. Tem-se todo o produzido no ano anterior a um determinado preço e assim tem-se o PIB. Tem-se depois tudo produzido esse ano a outro preço. A diferença depois de abatido o crescimento do PIB é o deflator implícito. Assim, em princípio, o PIB informado é o PIB real.
Não nego que a inflação informada seja menor do que a real. O que eu disse em meu comentário de quinta-feira 27/10/2011 às 08h03min00s BRST é que seria também necessário ficar atento ao que dissera o "Anônimo no comentário que ele enviou terça-feira, 25/10/2011 às 16h23min00s BRST questionando se não andam carregando nas tintas quando se fala sobre a inflação na Argentina dos Kirchner".
O que você está dizendo agora no seu último comentário é que a inflação é de grande ajuda ao governo. Talvez haja ai uma diferença de idade, pois eu digo isso há uns trinta anos.
Para um governo o importante é não perder o controle dela (Basta evitar subsídios ou saber a hora de os colocar e os tirar, ter um bom controle da base monetária, um bom sistema tributário, uma dívida pública não muito alta e de preferência com prazo de rolagem no longo prazo e gastos dentro da realidade da receita) e avaliar o quanto ela está influindo na popularidade do governo (Para isso existem as pesquisas) para a reduzir ou até a deixar expandir um pouco mais se o povo estiver mais preocupado com o nível de emprego. Enfim, é o povo e não o economista quem deve decidir sobre o tamanho da inflação. O economista serve apenas para oferecer o instrumental para acompanhar a inflação.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/11/2011

sexta-feira, 4 de novembro de 2011 14:06:00 BRST  
Anonymous Samuel Vidal disse...

Clever,
Há diferenças entre o deflator do PIB e a inflação oficial (IPCA). Na era Lula se o PIB fosse corrigido pela inflação teria tido um crescimento médio de 6% ao ano, enquanto que o crescimento real corrigido pelo deflator do PIB foi de 4% ao ano. O IPCA mede a inflação das famílias, mas não mede a inflação das empresas e do governo, dados que são medidos pelo deflator. Outra diferença é que o deflator mede apenas os preços das mercadorias produzidas no país enquanto o IPCA é influenciado pelos preços dos produtos importados consumidos pelos brasileiros aqui. E por fim a maior diferença: o IPCA calcula a inflação de um cesta fixa de bens e serviços,1 quilo de arroz, 1 quilo de feijão e 1 quilo de farinha, por exemplo. Já no deflator se um produto passa a ser mais consumido de um ano para outro, o peso da variação de preços dele aumenta no deflator.

sábado, 5 de novembro de 2011 21:40:00 BRST  
Anonymous Samuel Vidal disse...

Clever,
A inflação alta é boa para o governo porque ele fecha as contas emitindo dinheiro ao invés de criar impostos impopulares. As pessoas perdem dinheiro com a desvalorização da moeda sem se dar conta que estão perdendo para o governo. A inflação alta também não é decisiva para o crescimento econômico. No governo Médici crescíamos 12% ao ano com inflação enquanto que no governo Collor crescíamos -1% com inflação também. No entanto a inflação gera efeitos colaterais sérios na economia. Muitas vezes a economia cresce, mas a população não tem noção de quanto ela paga pelo crescimento. A inflação penaliza mais os pobres do que os ricos, já que estes repassam os seus preços reajustados com mais facilidade, enquanto o trabalhador passa 30 dias para receber o salário. Além disso a inflação alta pode gerar um governo mais perdulário e ineficiente porque não precisa se preocupar com que os seus gastos caibam nos impostos. Por fim é importante salientar que ao longo da história a maioria dos países que se tornaram desenvolvidos conseguiram isso com inflação anual baixa. Então porque querer reinventar a roda?

sábado, 5 de novembro de 2011 22:04:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Samuel Vidal (sábado, 05/11/2011 às 21h40min00s BRST),
Obrigado pelas informações sobre o deflator implícito. Embora desde o final da década de 60 quando passei a consultar o relatório anual do Banco Central trazendo quadros ilustrativos da situação econômica dos países mais desenvolvidos e do Brasil eu já me acostumara com o termo não sabia dos detalhes que você salientou, ainda que os detalhes fossem bastante intuitivos. Aliás, como o conhecimento técnico sobre a metodologia da inflação é mais difundido, principalmente na disciplina de Estatística, eu conhecia algumas falhas dos índices de inflação, em especial, a dificuldade de acompanhar a variação na quantidade diante de variação de preços. Por isso que eu disse em meu comentário de sexta-feira, 04/11/2011 às 14h06min00s BRST que pelo que eu sabia “o deflator implícito é a forma de calcular a verdadeira inflação”
Agora, não me parece que seja necessário calcular previamente a inflação pelas metodologias padrões para se pode ter em seguida o deflator implícito. E mesmo sendo necessário o levantamento prévio dos dados sobre a inflação, os dados que a Argentina possui não são fraudados, o que pode ser fraudado é o resultado que os dados fornecem. Assim, o deflator implícito usado para o cálculo do PIB argentino deve ser real. E lembrar que o deflator implícito pode ser maior ou menor do que os índices de inflação.
Então a minha discordância em relação ao seu comentário de segunda-feira, 31/10/2011 às 16h35min00s BRST se resumia a você ter dito que não haveria “nenhum deflator do PIB válido para calcular o valor exato do PIB, com a manipulação inflacionária”.
Em meu entendimento há o deflator implícito, pois a manipulação inflacionária se existir é para divulgação externa e não no armazenamento interno dos dados. Os dados que o instituto argentino competente para o levantamento recolhe são corretamente levantados permitindo assim estabelecer o deflator implícito.
Enfim, a menos dos erros e distorções naturais nesses cálculos de PIB e que estão dentro da margem de segurança que um cálculo estatístico permite, os dados sobre o PIB da Argentina estão corretos. Os dados sobre a arrecadação tributária são menos sujeitos a erros e, portanto, também não devem estar errados. A inflação sim deve estar sendo omitida de algum valor, mas muito provavelmente a omissão é menor do que se tem alardeado. A omissão desse valor apenas agrava o grande efeito econômico da inflação: reduz a demanda. Efeito que em princípio é prejudicial ao crescimento do PIB, pois a demanda compõe o PIB, mas que pode ser visto sob o lado benéfico: cria poupança. Poupança que Swamoro Songhay procurou negar no comentário de caráter histórico que ele enviou quinta-feira, 27/10/2011 às 17h39min00s BRST. E ele tem um pouco de razão. Como gostam de dizer os economistas mais ortodoxos, pobre não poupa (Aliás, eles dizem mais, pois dizem que é necessário primeiro crescer para depois dividir, pois se se divide antes todos serão pobres e não haverá poupança). Então eu não chamo poupança de poupança, mas de sacrifício. E então, como quer Swamoro Songhay e eu sei que posso dizer, a inflação não cria poupança, mas impõe sacrifício. Aliás qualquer saldo comercial só é alcançado quando há esse sacrifício. Sacrifício que pode ser imposto tanto pela inflação como pelos juros e é uma das causas da necessidade de juro mais alto no Brasil quando passamos a ter saldos na Balança Comercial ao mesmo tempo que queremos inflação mais baixa.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/11/2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011 08:45:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Samuel Vidal (sábado, 05/11/2011 às 22h04min00s BRST),
Concordo com a primeira frase do seu último comentário que é em síntese o que eu venho dizendo, mas só concordo em parte com a segunda frase. Penso que “as pessoas perdem dinheiro com a desvalorização da moeda”. Para mim, entretanto, elas se dão conta que estão perdendo dinheiro para o governo. Quer dizer, elas se dão conta que estão perdendo dinheiro para o governo e para o empresariado. Aliás é essa a razão de eu dizer que a inflação é um problema político. O povo (Aqui incluindo o pequeno empresário) vê a inflação como um conluio entre o governante de plantão e o grande empresariado. O conluio se comprovaria na permissão que se dá ao grande empresário de aumentar o preço das mercadorias.
Quanto a dizer que a inflação alta não é decisiva para o crescimento econômico, eu prefiro nem concordar nem discordar de você. Há que se analisar cada caso. Na Alemanha e Japão e em muitos Tigres Asiáticos, o crescimento depois da Segunda Guerra Mundial foi feito com baixa inflação. O que facilitou o crescimento foi o câmbio bem desvalorizado que todos esses países adotaram.
Agora, a Itália, com mais dificuldade de estabelecer um forte sistema tributário capaz de assegurar baixos índices de inflação com juros menores, utilizou, para conseguir boas taxas de crescimento econômico, a moeda desvalorizada e também taxas de inflação mais alta. Após a Segunda Grande Guerra e até a década de 80, a Itália foi provavelmente o maior crescimento europeu.
E não se pode deixar de mencionar aqui também o caso da China que teve inflação elevada na década de 80, chegando 20% no final da década de 80 e início da década de seguinte. E no caso da China não se pode omitir o grande movimento de rebeldia que se verificou naquela época, comprovando mais uma vez o problema político da inflação.
A situação da Itália foi bem ilustrada por um comentário que Martin Wolf no artigo “Chegou a hora de apoiar o BCE” diz ter sido dito por autoridade econômica italiana e que transcrevo a seguir:
““Nós abrimos mão das velhas válvulas de segurança – inflação e desvalorização – em troca de juros mais baixos, mas agora não temos sequer os juros mais baixos”.”
Fiz referência recentemente aqui no blog de Alon Feuerwerker junto ao post “Dança com dois pares” a esse artigo publicado no Valor Econômico de quarta-feira, 14/09/2011. Repito o que eu já disse porque estou reproduzindo frases de pessoas com certa autoridade e frases que revelam divergência com entendimento que não seria merecedor de tanta simpatia. No seu comentário você diz, por exemplo, que:
“A inflação gera efeitos colaterais sérios na economia. Muitas vezes a economia cresce, mas a população não tem noção de quanto ela paga pelo crescimento. A inflação penaliza mais os pobres do que os ricos, já que estes repassam os seus preços reajustados com mais facilidade, enquanto o trabalhador passa 30 dias para receber o salário.”
Não discordo do que você diz, mas também não vejo importância. Dou mais relevância ao desemprego do que à inflação para ser preocupação daqueles que preocupam com a sorte dos pobre. Foi isso que eu tentei transmitir em meu comentário de sexta-feira, 28/10/2011 às 14h16min00s BRST para o comentário de Swamoro Songhay que ele enviou quinta-feira, 27/10/2011 às 17h39min00s BRST, aqui neste post “Memória viva” e foi por isso que eu fiz transcrição de um parágrafo do artigo "Metas inflacionárias" de autoria de Antonio Delfim Netto e que foi publicado no Valor Econômico de 04/10/2011.
Dizer que a inflação penaliza mais os pobres do que os ricos é questionável. A comparação deve ser feita entre os salários dos mais pobres e os lucros dos mais ricos. E o resultado dessa comparação vai depender da correlação de força existente.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/11/2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011 08:46:00 BRST  

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