segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mateus embalado (10/10)


Em 2009 poderíamos ter consertado o avião no solo. Agora temos que consertar no ar, voando. Mas como Dilma e o governismo foram os beneficiários do discurso da "marolinha", é razoável que agora se encarreguem de dar um jeito na situação

Os dados da inflação esta semana confirmaram as diversas projeções. A acumulada furou, e bem, o teto da meta de 6,5%. E o presidente do Banco Central fez dois ajustes no discurso.

Falou em reduzir sim, mas gradualmente, a taxa de juros e em alcançar sim o centro da meta em 2012, mas só no fim do ano.

O ajuste parece resultado de um par de incógnitas. A primeira é o grau de risco trazido pela variável externa, sobre a qual o país não tem controle. A premissa é as grandes economias desacelerarem com força. Mas a tendência de paralisia é menor que em 2008, pelo menos por enquanto.

Ainda que gente boa fale em projeções de depressão, de longa recessão.

A segunda variável é a inflação interna, cujos mecanismos realimentadores vão bem, obrigado. Do bom crédito à má indexação.

O governo precisa do mercado interno para manter a roda girando, e a indexação jamais deixou de ser significativa. A sobrevivência dela é uma herança maldita dois oito anos de PSDB e dos primeiros oito anos de PT.

Não é trivial reduzir a inflação com crédito ainda encorpado, mercado de trabalho aquecido e preços sincronizados pelos índices passados.

Mas desta vez, diferente de 2008, o governo decidiu travar a batalha. Naquele ano fomos vítimas do discurso eleitoral da "marolinha", que deu ao BC legitimidade para manter insanamente os juros no céu num mundo paralisado e encharcado de dinheiro.

Agora, tanto Dilma Rousseff quanto o BC dizem a verdade. O cenário é preocupante, a economia vai crescer bem menos mas vamos tentar fazer do limão uma limonada. Acreditar no mercado interno e aproveitar para baixar os juros

Pois se o país cortar à metade os juros reais ainda estará de bom tamanho, ainda seremos um porto atraente para a poupança. E  ganharemos de brinde um espaço fiscal, pois vamos aliviar o que o Tesouro paga aos emprestadores.

Mas, e a inflação? Se em 2008 poderíamos ter consertado o avião no solo, hoje temos que consertar com a aeronave em pleno voo.

Se não agimos em 2009 -quando a economia andava para trás-, precisamos fazê-lo numa época em que pousar não é opção na política.

Inclusive porque o PT e o governo têm eleições a encarar em 2012. Podem não ser decisivas para o 2014 de Dilma, mas são vitais para a base política da presidente no Congresso.

Os vereadores e prefeitos eleitos ano que vem serão os pilares da eleição parlamentar dali a dois anos. Especialmente para a Câmara dos Deputados.

Mas, já que o governismo, Dilma em particular, beneficiou-se em 2010 do discurso vendido em 2008/2009, é razoável que se encarregue de pegar agora o touro pelos chifres. Quem trouxe Mateus ao mundo que o embale.

O governo e o BC que se virem. O país quer crescer, mesmo que menos na comparação com outros emergentes, e não quer mais inflação, não suportará que ela saia do controle.

Subestimado

Subestimar o adversário ou concorrente é sempre a pior escolha. Inclusive nos negócios e na política.

O PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi subestimado pela oposição. Só quem apostou de início as fichas na empreitada foi o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSD).

Deu-se bem.

A moda agora é propalar que o PSD irá mal nas eleições por não ter tempo de rádio e televisão. Mas é provável que o partido resolva isso fazendo alianças com quem tem, especialmente -de novo- o PSB.

Trégua

Há sinais de que o caciquismo tucano anda fumando internamente o cachimbo da paz. Pode ser temporário, mas o ambiente anda menos conflagrado do que há algumas semanas.

Talvez a conflagração tenha sido apenas adiada, mas não deixa de ser uma novidade.


Coluna publicada nesta segunda (10) no Estado de Minas



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7 Comentários:

Blogger pait disse...

O problema é que em 2008 o governo resolveu combater a queda de demanda aumentando as despesas permanentes, em vez de diminuir os juros e fazer um estímulo temporário para a demanda. Daí quando a "marolinha" passou pelo Brasil - nos países ricos continua - ficaram os gastos e voltou a inflação. Para combater, só com medidas indesejáveis - aumento dos impostos e dos juros.

Diagnóstico errado, remédio errado, agora estamos sofrendo as consequências.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011 11:47:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

E agora, Pait, o governo não tem como poupar. E nem de pedir para que o cidadão poupe ao invés de gastar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011 19:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Inflação e taxas de juros,eram aquelas , da era pre´-Lula.Ambas consumiam e indexavam o que não se tinha:renda e acesso aos bens de consumo duráveis.
Convenhamos, nem deu para surfar na "marolinha".Frustraram-se os que torciam pelo "tsunami".
Hoje , a tarefa cruel é de represar o consumo,conter os impulsos diante da vitrine.Enquanto,EUA e Eurolândia terçando teorias e veladas ameaças, carecem de imaginação e decisões.Os oráculos apontam o Sul como repositório de soluções e oportunidades.Não estão errados.Sobreviventes da fascinante arte de administrar excesso de mês nos fins dos salários,teremos numerosa plateia garantida pelos próximos meses.Como míticos astros da prestidigitação.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011 19:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Gostaria de ter a verve do anônimo do comentário enviado segunda-feira, 10/10/2011 às 19h43min00s BRT. Com a verve dele, a crítica que eu tenho feito a você talvez continuasse não sendo considerada, mas seria pelo menos irônica.
Não sou economista e meu economista de consulta há muito anda por outras plagas. Imagino que você ai em Brasília, com o bom trânsito que você desfruta, tenha oportunidade de falar com os melhores economistas. Fico pensando, o que será que os nossos melhores economistas em Brasília andam dizendo?
Bem, eu sei o que você diz. Você diz, por exemplo:
"Mas desta vez, diferente de 2008, o governo decidiu travar a batalha. Naquele ano fomos vítimas do discurso eleitoral da "marolinha", que deu ao BC legitimidade para manter insanamente os juros no céu num mundo paralisado e encharcado de dinheiro."
Aqui, como em quase todo o texto, você diz um puro fato. Puro, mas não todo ele. Bem, você complementa o fato mais à frente quando você diz:
"Mas, já que o governismo, Dilma em particular, beneficiou-se em 2010 do discurso vendido em 2008/2009, é razoável que se encarregue de pegar agora o touro pelos chifres. Quem trouxe Mateus ao mundo que o embale".
De novo é puro fato, mas o fato não está completo. Não está completo porque ele omite que houve quem deixou um Mateus proporcionalmente bem mais pesado.
Creio que é obrigação de todo bom jornalismo lembrar que o esforço de Lula para eleger Dilma Rousseff em 2010 não se compara com o esforço que Itamar Franco fez para eleger o sucessor dele, não só porque o esforço de Itamar Franco, destruiu o nosso saldo na Balança Comercial de um bilhão de dólares mensais transformando-o em déficit de quinhentos milhões mensais, manteve o juros elevadíssimos que aumentou a nossa dívida pública como criou constrangimentos no Balanço de Pagamentos que forçavam a elevação do juro e em conseqüência redução da taxa de crescimento econômico e aumento da dívida pública. Além disso, ao acabar com a inflação de uma só vez inviabilizou que se transformasse a dívida de curto prazo em dívida de longo prazo e assim manteve o déficit público se se contabiliza a rolagem da dívida em patamares só comparáveis com os dos países europeus que estão em petição de miséria. É claro que se poderia alegar que quem teve que embalar o Mateus foi o Fernando Henrique Cardoso. Sim, isso é fato, mas também não se pode esquecer que Fernando Henrique Cardoso entregou um Mateus muito mais gordo e incapacitado de andar com as próprias penas todo amarrado na herança maldita.
Atualmente Mateus está bem mais gordo, mas quem o embala é proporcionalmente mais robusto. Há saldo na Balança Comercial que permanecerá robusto enquanto os Estados Unidos não subirem o juro. A dívida pública é proporcionalmente menor. O juro é menor.
Como eu disse acima “Como em quase todo o texto, você diz um puro fato”. É este o caso na frase a seguir:
“Mas, e a inflação? Se em 2008 poderíamos ter consertado o avião no solo, hoje temos que consertar com a aeronave em pleno vôo”.
De fato. Se o Banco Central fosse comandado por gênios, que soubessem exatamente quanto poderiam baixar o juro para que o dólar nem a inflação saíssem do controle e ao mesmo tempo permitisse uma lenta recuperação da economia brasileira, talvez no primeiro semestre de 2010 o PMDB não tivesse convencido da vantagem de associar-se a Lula, talvez Dilma Rousseff não fosse eleita presidenta e a oposição receberia um país com um potencial maior de crescimento, uma dívida pública menor, uma taxa de juro menor, um câmbio mais favorável.
Talvez tenha sido ruim para o Brasil, mas para quem como a mim preferia que Dilma Rousseff fosse eleita, é de ficar satisfeito saber que quem mandava no Banco Central era o presidente da República, afinal, Henrique Meirelles era só Presidente para inglês ver. E o sacrifício foi pequeno depois que Itamar Franco abriu a porteira que autorizaria qualquer esforço menor.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/10/2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011 08:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Como eu disse nem tudo que você falou é fato. Você diz por exemplo:
“Se não agimos em 2009 -quando a economia andava para trás-, precisamos fazê-lo numa época em que pousar não é opção na política.”
Eu tenho as minhas dúvidas. Não vejo correção em dizer que em 2009 a economia andou para trás. A economia andou para trás no quarto trimestre de 2008. Os dados para 2009 podem ser visto junto ao post aqui no seu blog “Com que humor? de quarta-feira, 21/09/2011 e que se encontra no seguinte endereço:
http://www.blogdoalon.com.br/2011/09/com-que-humor-2109.html
Ou também no seu blog junto ao post "Um governo ou dois?" de domingo, 10/04/2011. Post do qual, com acréscimos dos dados do PIB do 1º e do 2º trimestre de 2011, eu retirei os outros dados. Enfim, só não posso dizer que há muito não tínhamos crescimento trimestrais como aqueles de 2009, porque os trimestres bons de 2007 e de 2008 foram também de alto níveis de crescimento.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/10/2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011 08:33:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/10/2011, em seu comentário ...mas também não se pode esquecer que Fernando Henrique Cardoso entregou um Mateus muito mais gordo e incapacitado de andar com as próprias penas todo amarrado na herança maldita..., a palavra penas, deve ser pernas. Mas, o que importa é que a herança de FHC foi um conjunto de medidas estabilizadoras que tiraram as contas públicas da clandestinidade, segundo dito por Guilherme Fiuza, se a memória não falha. É ocioso dizer, mas, as contas públicas estão de volta à instabilidade. Por exemplo, o noticiário de 11/10/2011, traz que o governo pretenderia gastar "...R$ 14 bi para recuperar desgastes...", ou seja, em campanhas para dar "uma cara" ao governo. Bem, a cara do governo é a presidente. E as ações que toma são as ações de governo, que a imprensa divulga diuturnamente. E noturnamente, também. Se o gasto em tal rubrica for efetivado, as contas públicas não estariam consideradas no rol dos assuntos sérios. E FHC não teria absolutamente nada a ver com isso. De outra forma de ver, caso o País tivesse sido quebrado, da forma como insistem em dizer, por FHC, não seriam os sucessores capazes de resolver tamanho enrosco.

terça-feira, 11 de outubro de 2011 17:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (terça-feira, 11/10/2011 às 17h41min00s BRT),
Você não concorda comigo que "Fernando Henrique Cardoso entregou um Mateus muito mais gordo".
E deu seus motivos. A "herança de FHC foi um conjunto de medidas estabilizadoras", FHC "não teria absolutamente nada a ver . . . . Se o gasto em tal rubrica for efetivado" e "caso o País tivesse sido quebrado, da forma como insistem em dizer, por FHC, não seriam os sucessores capazes de resolver tamanho enrosco".
Primeiro me ocorreu a idéia de o lembrar que "a cara do governo é a alma do negócio", mas esqueço esse ponto e lembro que "a cara do governo é a presidenta".
Bem, tanto se discutiu aqui no blog do Alon Feuerwerker a herança do Plano Real que vale resenha de posts onde, para você, para outro comentarista ou para o próprio Alon Feuerwerker, eu exponho minha avaliação do período de governo de Fernando Henrique Cardoso, incluindo o tempo em que ele, junto com a equipe, foi ministro da Fazendo de Itamar Franco e, com o apoio de Itamar Franco, lançou o Plano Real.
Inicio referindo-me a debate que fiz com Alberto099 sobre os efeitos eleitorais do Plano Real, junto ao post "A espera de um carinho" de sábado, 12/12/2009. Com você há o post "Carville em xeque" de sábado, 17/04/2010, embora lá a discussão fosse mais sobre a influência eleitoral da situação econômica e não sobre o Plano Real em si. Além do post "Carville em xeque", em um curto período no ano passado houve um pouco mais de discussão sobre o Plano Real. Servem como exemplos os posts "A Alca cambial de Lula" de sexta-feira, 09/04/2010 ou "O ponto falho na gestão" de quarta-feira, 31/03/2010, ainda que nele haja apenas breve referência ao uso de Planos Econômicos com fito eleitoral, e o post "Plateia sábia" de quinta-feira, 01/04/2010.
Em posts mais recentes há as discussões que fizemos junto ao post "O modus operandi" de quarta-feira, 16/03/2011, junto ao post "A teimosia dos fatos" de sábado, 26/03/2011 e ainda junto ao post "Gosto pelo teatro" de sexta-feira, 01/04/2011.
Menciono também o post "Um problema de lógica" de domingo, 20/02/2011. Nele eu comparo a evolução do salário mínimo no período de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso e no período de Lula. Faço referência a esse post porque lá eu apresento apenas dados, o que está longe de ser minha prática comum, mais propenso que sou em expor minha opinião.
Não sou economista e isso tem uma vantagem: não saberia provar o que não é possível de prova. Resta-me então expor a minha idéia sabendo-se tratar apenas de opinião. E torço para você tenha apenas opinião e não o dono da verdade.
Tenho que concordar que discordamos sobre a herança de Fernando Henrique Cardoso. Não a vejo como herança estabilizadora, pois tem efeitos nos dias de hoje, repercutindo diretamente nos gastos do governo e penso que você menospreza a capacidade de ação do ex-metalúrgico ao não ver o quanto ele teve que fazer para sobrepujar o tamanho enrosco que Fernando Henrique Cardoso havia legado.
A herança é maldita se se compara com a Argentina e se verifica que os platinos não receberam esta herança: regime de metas de inflação, liberação do comércio exterior, livre fluxo de moeda, livre flutuação da moeda nem Lei de Responsabilidade Fiscal e no período eles sem a mesma tradição que o Brasil em apresentar crescimento econômico elevado desenvolveram muito mais do que a gente.
E ao acabar com a inflação de uma vez, o Plano Real impediu transformar a dívida de curto prazo em dívida de longo prazo e assim aumentou o déficit público. E o Brasil não quebrou em 1998 ou em 2002 porque o FMI veio com um colchão em nosso socorro que até para nos livrarmos dele exigiu do presidente sorte e virtude.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/10/2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011 23:35:00 BRST  

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