terça-feira, 20 de setembro de 2011

A ilusão maximalista (20/09)


Dois povos colocados em campos opostos pela História só aceitam conviver em paz quando ambos concluem ser impossível neutralizar o projeto nacional do outro

A declaração unilateral de independência da Palestina enfrenta resistências de dois tipos. Israel e aliados preferem que o novo país surja de negociações que deixem para trás alguns graves impasses, focos latentes de novos conflitos.

Já o extremismo palestino e islâmico teme que proclamar um Estado nos limites da Cisjordânia e Gaza signifique abandonar o projeto de riscar Israel do mapa e impor uma derrota estratégica aos Estados Unidos.

Há aqui e ali avaliações sobre o isolamento de Israel em consequência da Primavera Árabe, mas o risco de isolamento ameaça mais a Fatah, espinha dorsal da Autoridade Palestina (AP).

Um lance da recente movimentação turca para retomar a posição imperial perdida na Primeira Guerra (1914-18) é procurar deslocar a influência do Irã sobre o Hamas, do qual os turcos agora pretendem ser o principal patrocinador.

Estão de olho no ponto futuro, pois se eventualmente o Hamas assumir o poder no Estado Palestino a Turquia terá instalado ali uma cabeça de praia.

No Egito pós-Tahrir a solução política imediata mais provável é a aliança de fato entre militares e Fraternidade Muçulmana (FM), deixando em segundo plano os vetores libertários que brilharam na derrubada de Hosni Mubarak. E a FM é a célula-mater do Hamas.

O Hamas também tem seus problemas, pois o bastião de Damasco anda cai não cai. Mas o trade-off pode ser bom. Egito e Turquia juntos valem por algumas Sírias. E sabe-se lá quem vai tomar o palco quando Bashar al Assad finalmente embarcar no merecido trem rumo à caçamba da História, uma questão de (pouco) tempo.

A erosão do domínio assadista na Síria é hoje uma dor de cabeça mais para o Hezbollah. Pelas consequências na relação interna de forças no fragmentado Líbano.

Dentro do governo libanês, no qual a guerrilha xiita é fiadora, já surgem pressões para desconectar a política interna da externa. Para que o Hezbollah aceite desarmar-se mesmo sem a “libertação total da Palestina” (a eliminação de Israel).

Pois se na teoria as armas do Hezbollah estão voltadas contra o Estado judeu, na prática servem mesmo é para manter o Líbano refém, inclusive da Síria de Assad.

A ida da AP à ONU em busca de reconhecimento é um passo adiante, mas sob pressão. A favor da AP, registre-se que as outras opções têm viabilidade discutível.

Aceitar a reabertura incondicional de negociações e caminhar para um status final de dois Estados nas circunstâncias impostas pelo realismo seria uma vitória de dimensões históricas, mas desencadearia graves conflitos internos entre os palestinos.

Não por falta de apoio popular, mas pelas divisões político-militares.

Pelo mesmo motivo Yasser Arafat acabou declinando da melhor (ou menos pior, conforme o ponto de vista) oferta já recebida, onze anos atrás em Camp David na reunião com Bill Clinton e Ehud Barak.

E caminhar para uma terceira intifada desataria um processo de radicalização no qual prevaleceriam outros protagonistas, não a Fatah. Que provavelmente seria a primeira riscada do mapa no processo de luta.

A AP busca com o gesto desta semana recolher legitimidade interna e internacional para continuar na liderança do processo. E vai mesmo ganhar algum fôlego.

Mas o impasse tende a prosseguir. Dois povos colocados em campos opostos pela História só aceitam conviver em paz quando ambos concluem ser impossível neutralizar o projeto nacional do outro.

Os árabes-palestinos vêm depositando desde 1948 seguidas esperanças em soluções militares que lhes prometem o programa máximo, eliminar Israel.

Deu errado em 1948, quando as monarquias árabes anunciaram que impediriam o surgimento do Estado judeu mas fracassaram no campo de batalha. Deu mais errado ainda em 1967, quando o nasserismo repetiu o lamentável papel. E conduziu o campo árabe à sua maior derrota militar.

No começo dos anos 90, Arafat chegou até a apoiar a intervenção do Iraque de Sadam Hussein no Kuait. Era a aposta numa potência regional "libertadora".

É curioso que Anuar Sadat, o único líder a desempenhar relativamente bem numa guerra contra os israelenses, em 1973, e que por isso conseguiu retomar todo o território egípcio perdido seis anos antes, tenha recebido do mundo islâmico um viés negativo.

A ilusão maximalista encontra agora refúgio em Teerã. Aí reside o xis do problema.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (20) no Correio Braziliense.



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2 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Terra e principalmente, água. Quem terá terra e quanto de água. E quem terá água e quanto de terra. Desde que tenha acesso à água. Pela via militar, está mais ou menos claro quem perde, mesmo que vença nos campos de batalha. E pela via militar, muitos atores canastrões sempre ganham realce. Pela via da paz, é mais difícil, mas é a única que pode dar resultados reais, concretos. E deixar os canastrões de fora.

terça-feira, 20 de setembro de 2011 18:04:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

A presidente brasileira, hoje, na ONU falou sobre o OM e defendeu o Estado Palestino. Mas, não falou em água. Parece que ninguém dá bola para água. O único bem natural de real imprtância do mundo e o mais escasso. Só que é encarado como abundante. Impressiona.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011 18:31:00 BRT  

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