segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O prelúdio da derrota (12/09)


Se a instabilidade política no mundo árabe e muçulmano produzir no médio e longo prazos sociedades encruadas, atoladas num belicismo ruidoso mas impotente, e incapazes portanto de projetar o próprio poder, o 11 de Setembro virará um sub-Pearl Harbor

Não sei bem se é fenômeno contemporâneo a mania de buscar em tempo real o significado histórico dos acontecimentos. Ou se já era assim no passado. Acho que é novo.

De todo modo, parece que nossas sociedades, embebidas em informação, buscam com volúpia conhecer a História enquanto ainda é produzida. Como desejo, é legítimo. Ainda que a frustração seja certa.

E o jornalismo ajuda a avolumar a onda, por ser atividade na qual é preciso apresentar todo dia uma grande novidade.

Talvez não haja novidades em quantidade suficiente para atender a esse mercado viciado nelas, então o que não seria tão novidade assim passa a ser.

Agora, por qualquer critério o atentado às torres gêmeas em Nova York foi sim uma novidade, acho que isso ninguém ousará negar.

Foi uma baita novidade operacional e semiótica.

Aviões carregados de combustível e passageiros, atirados contra prédios altíssimos, tudo com transmissão ao vivo pela televisão.

O que não implica ter sido uma novidade política merecedora de figurar como tal nos livros de História.

As guerras do Afeganistão e do Iraque vieram na sequência, mas pelo menos sobre Bagdá não se pode dizer que tenha sido em consequência.

A Guerra do Iraque guarda elo imediato mais anterior, com a Guerra do Golfo, travada pelos Estados Unidos para pôr fim à ocupação do Kuait pelas tropas de Sadam Hussein.

O que sonhou ser imperador do Oriente Médio mas acabou mal.

Bush filho completou o serviço que o pai dele não quis -ou não pôde- concluir.

Mas qual será, afinal, a dimensão histórica dos atentados de 11 de setembro, quando o futuro tiver virado presente e der uma olhada para trás? Aí vai depender.

Se o anunciado declínio militar dos Estados Unidos comprovar-se, o ataque ao World Trade Center será ensinado nas escolas como ato fundador de uma era.

Mas se, por exemplo, a instabilidade política no mundo árabe e muçulmano produzir no médio e longo prazos sociedades encruadas, atoladas num belicismo ruidoso mas impotente, e incapazes portanto de projetar o próprio poder, o 11 de Setembro virará um sub-Pearl Harbor.

Um prelúdio espetaculoso da derrota estrepitosa.

Osama Bin Laden mandou aquele punhado de jovens conduzirem os aviões contra o WTC, o Pentágono e possivelmente o Capitólio, ou a Casa Branca, para obrigar o Ocidente a retirar-se fisicamente da maior região exportadora de petróleo no planeta

Dez anos depois, em termos práticos, os interesses ocidentais no pedaço do mundo entre o Mediterrâneo e o Índico vão bem, obrigado. A exceção é o Irã, que luta uma batalha desesperada para não ver cair o último aliado em Damasco.

Um Irã cuja retórica agressiva é apenas a outra face do isolamento muito temido.

Passada a primeira década do 11 de setembro de 2001, o Iraque antes altivo e desafiador deixou de ser na vida real uma nação soberana. Prevê-se o aumento da influência iraniana após a retirada final das tropas americanas, mas é uma previsão a confirmar.

E nada garante que o Irã do futuro será o mesmo de agora. Um eventual Irã pós-revolucionário poderia inclusive desempenhar papel positivo na preservação do delicado equilíbrio entre xiitas, sunitas e curdos no vizinho.

Se é que o vizinho ainda existirá com um só.

O regime sírio luta pela sobrevivência, mas já comprou passagem no trem que o conduzirá à caçamba da História. Onde fará companhia aos colegas líbios.

O fundamentalismo religioso ameaça ganhar musculatura política nas hoje conturbadas sociedades árabes. Mas não há sinal de elas estarem em condição de constituir um polo antiocidental viável. Especialmente no terreno militar.

Para isso, seria necessário que outra superpotência se dispusesse a abrigar a miríade sob seu guarda-chuva estratégico. A Rússia talvez pudesse ser atraída para o projeto, mas aí apacem dois problemas.

O primeiro é que a Rússia não tem hoje massa crítica para tanto. Nem de longe lembra os tempos da superpotência soviética. O segundo é que o fundamentalismo islâmico, separatista, é um problema para a própria Rússia.

Há a China, mas não há sinal de que os chineses vão sair por aí desafiando militarmente os americanos.


Coluna publicada nesta segunda (12) no Estado de Minas.



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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Finalmente , conseguiram ! Transformaram uma tragédia, em fenômeno midiático.
Maratona televisiva,mobilizando profissionais sustentando incansável verbosidade sobre o espetáculo cênico
e seus atores de variados matizes.
Um crítico rigoroso diria que faltou
regência no que abundou em produção.
Obama ,teve seu momento "kodak" ,numa versão "soft",um "intermezzo",da pauleira servida diariamente pelo "tea party" e convidados.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011 11:32:00 BRT  
Anonymous Ticão disse...

Enquanto continuarem fragmentados serão tratados como quintal. Dos fundos, lá no fundo. E vez em quando o dono aparece, chuta de lado alguém, para cavar mais um poço.

Talvez tudo acabe quando acabarem de furar todos os poços. Daqui uns 70 anos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011 17:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Vejo a chamada do seu post que diz ”uma visão democrática, nacional e de esquerda” e fico pensando, que democracia, nacionalismo e esquerdismo são esses?
Você diz:
“As guerras do Afeganistão e do Iraque vieram na sequência, mas pelo menos sobre Bagdá não se pode dizer que tenha sido em consequência.”
Sim, você tem razão em apontar as diferenças. E você diz em seguida:
“A Guerra do Iraque guarda elo imediato mais anterior, com a Guerra do Golfo, travada pelos Estados Unidos para pôr fim à ocupação do Kuait pelas tropas de Sadam Hussein.”
É verdade, a Guerra do Iraque guarda elo com a Guerra do Golfo. E então você conclui:
“Bush filho completou o serviço que o pai dele não quis -ou não pôde- concluir.”
Eu poderia até concordar com a afirmação, mas se foi para fazer um encadeamento assim tão longo por que você não foi até o final? Por que você não disse que Bush filho completou o serviço do pai para não correr o risco que o pai correu em 1992 e em conseqüência reduziu a possibilidade de ele ganhar a eleição para William Jefferson Clinton? Por que você não disse que Bush filho completou o trabalho do pai quando observou que após a campanha no Afeganistão em guerra que se tornou a de mais longa duração dos Estados Unidos, o Partido Republicano recuperou a maioria no Congresso Americano, escudando-se no patriotismo nacionalista americano. Partido Republicano para o qual há muito se prevê o enfraquecimento tendo em vista a redução da população dos lugares mais conservadores. E que ganhou com George Walker Bush, o filho, em 2000, às custas da completa ausência de carisma do candidato democrata e um pouco de ajuda das falcatruas eleitorais. Foi a previsão de ganhar a eleição que fez Bush, o filho fazer a guerra contra o Iraque.
Que democrata nacionalista é esse que esconde as fraquezas do nacionalismo e da democracia.
E para que a frase entre a Guerra do Golf e a Guerra do Iraque em que você diz:
“O que sonhou ser imperador do Oriente Médio mas acabou mal”?
Ora, Saddam Hussein se sonhou ser o imperador do Oriente Médio, o fez na década de 70, principalmente no final da década e principalmente atiçado pelos americanos que o levaram a guerrear contra o Irã. Naquela época, provavelmente o Iraque estava surgindo como a maior potência do Oriente Médio. No final da década de 70, o PIB Iraquiano girava em torno de 100 bilhões de dólares. No final da década de 80 depois de ser atiçado a fazer uma guerra contra o Irã, o PIB do Iraque era de 100 bilhões de dólares e totalmente endividado com o Kuait. E dez anos depois da Guerra do Golfo, o PIB do Iraque ainda seria de 100 bilhões de dólares. E provavelmente devendo o Kuait mais do que devia antes. O PIB que eu tenho para o Iraque em 2010, muitos anos depois da Guerra do Iraque é de 74 bilhões de dólares. Não sei quanto o Iraque deve ao Kuait e nem quanto os Estados Unidos vão cobrar pelos gastos que lá fizeram.
Se era para lembrar do Iraque quando o Iraque foi grande que se lembrasse que muitos brasileiros puderam estudar nos melhores colégios no Brasil ou mesmo no Iraque em escolas montadas por brasileiros porque seus país foram trabalhar lá construindo rodovias e ferrovias. Se lembrasse do Iraque quando a Mendes Junior era uma das maiores empresas brasileiras de construção civil, ou seja, ali no final da década de 70. E o Pitágoras fez escolas lá para poder ensinar a filhos de trabalhadores brasileiros.
O Iraque que Bush filho invadiu era um arremedo de país. Uma nação forte como os Estados Unidos invadir um país destroçado como o Iraque é a mesma barbárie do 11 de setembro.
E porque colocar no atentado de 11 de setembro, que acabou destruindo uma das datas mais caras à esquerda, a data do golpe militar apoiado pelos Estados Unidos contra Salvador Allende, a assinatura do mundo árabe e muçulmano? Será que o atentado do norueguês Anders Behring Breivik deve ser atribuído ao mundo anglo-saxônico cristão?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/09/2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011 21:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Acho que a principal qualidade da esquerda é colocar o princípio da justiça acima do princípio da eficiência que na maioria das vezes se lhe é contrário. Não creio que você foi justo com o mundo árabe muçulmano.
Qualquer que seja a avaliação que se faça sobre os Estados Unidos não foi com base nos bons valores daquela sociedade que eles reagiram ao atentado de 11 de setembro. Não só reagiram com base em maus instintos como continuam a cometer barbáries semelhantes ao redor do mundo para manter o poder de império. Não é justo não mencionar isso. É claro que há vozes que parecem acreditar em uma grandeza maior nessa atuação do exército americano. Essa pelo menos foi a impressão que me ficou da leitura de um texto ontem em blog da Reuters intitulado “The wars America doesn’t talk about” de 12/09/2011 às 10:40 EDT de autoria de Susan Glasser e que pode ser visto no seguinte endereço:
http://blogs.reuters.com/susanglasser/2011/09/12/the-wars-america-doesnt-talk-about/
E ao falar no mundo árabe muçulmano valeria mencionar o quanto essa cultura está impregnada na cultura brasileira e a triste sina que o Brasil tem lá desempenhado. Escolhemos o Iraque para termos uma aproximação maior e os americanos do norte no-lo tomaram. Depois de longa ausência encontramos na Líbia solo para investimentos brasileiros ainda que como no Iraque fosse apenas em infra-estrutura. Parece que de lá também teremos que sair.
Qualquer dirigente de um país árabe que se preze já sabe quem eles devem evitar chamar.
E a sua referência à China no final do comentário quando você diz:
"Há a China, mas não há sinal de que os chineses vão sair por aí desafiando militarmente os americanos"
Pareceu afastar totalmente do problema que tem escala mundial. O grande interesse da China é que um país amigo desempenhe esse papel de gendarme mundial dos investimentos dela que começam com o financiamento desse país amigo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/09/2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011 08:42:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/09/2011.

Seus comentários sobre a guerra do Golfo e depois a guerra do Iraque, são interessantes. Um negócio de pai para filho.
Só que, se diz e piada não se perde, que o filho pensou que estaria mandando suas tropas para o Texas. Estado, este, natal seu, que pensou estar ameaçado de invasão pelos mexicanos. Estes intentando recuperar o Álamo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011 11:54:00 BRT  

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