domingo, 25 de setembro de 2011

Uma nova oportunidade (25/09)


Ao histórico pronunciamento do presidente Mahmoud Abbas em Nova York seguiu-se o anúncio de que o Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas) alcançou acordo sobre a reabertura das negociações para a busca de um status definitivo

Há alguns obstáculos à criação do Estado Palestino, direito legítimo daquele povo. São externos e internos. E conectados.

Há dificuldades políticas no Conselho de Segurança da ONU. Um jogo entre as grandes potências. Coisa que não chega a ser novidade.

No caso de Kosovo, por exemplo, a rixa tem sinais trocados: Estados Unidos, Reino Unido e França apoiam a independência da ex-província sérvia, mas a Rússia é contra e a China, como de hábito, prefere não jogar papel decisivo.

Ao contrário da Palestina, a também islâmica Kosovo ainda não pediu formalmente ingresso na ONU. Por temer o veto russo.

O debate entre as potências sobre assuntos assim é sempre delicado. Pois cada uma tem seus próprios problemas.

A Rússia herdou do antigo império dos czares e da União Soviética um portfólio de nacionalidades, hoje fonte permanente de dor de cabeça para Moscou. Especialmente pelo terrorismo.

Mas não só. A re-emergente Rússia consolida o desejo de retomar a liderança no que considera seu quintal. A Geórgia pode testemunhar a respeito.

A periferia russa na Ásia Central é islâmica. E o círculo se fecha.

O separatismo é também motivo de preocupação para os chineses. Os casos mais visíveis são Taiwan e o Tibete. Mas Pequim não desgruda o olho da sua minoria islâmica.

Quando se discutem áreas de domínio e influência toda potência leva para a mesa seus próprios interesses, mesmo quando jogam para a plateia. E levam em conta os interesses das demais do clube.

Isso não impede que arrisquem passos unilaterais. Como o Ocidente com Kosovo, ou a Rússia com as províncias rebeldes da Geórgia.

Mas a regra é cada uma respeitar o interesse das sócias. Ainda que esferas de influência sejam como placas tectônicas. Móveis, mesmo que se movam lentamente.

Outro desafio palestino é o interno.

Israel não foi criado pela ONU. A organização apenas aprovou a partilha da área do antigo mandato britânico na Palestina entre dois países. Um árabe e um judeu.

O Estado judeu pôde nascer porque dispunha de liderança política e de força militar bastante unificadas, capazes de estabelecer autoridade sobre o território e defendê-lo.

Por isso, o governo do novo país prevaleceu sobre as correntes nacionalistas para quem aceitar a partilha do território com os árabes era uma traição aos ideais do nacionalismo judeu.

A Palestina enfrenta resistências no Conselho de Segurança da ONU. Mas o que impede os palestinos de, como Kosovo, simplesmente declarar a independência, criar na prática seu país e cuidar depois do reconhecimento internacional?

Falta a liderança unificada e a capacidade de estabelecer autoridade, inclusive militar, sobre o território.

O desenvolvimento histórico da legítima luta dos palestinos para terem seu país acabou produzindo um cenário de múltiplos grupos, cada um com suas armas, ideologia e objetivos. E patrocinadores.

Isso impede que a liderança escolhida em eleições imponha democraticamente a vontade da maioria à minoria quando está em jogo o interesse nacional.

Daí por que a Palestina necessita recorrer aos jogadores externos, para construir de fora para dentro um consenso difícil de construir de dentro para fora.

O amplo apoio internacional à constituição de um Estado Palestino é um ativo, mas traz junto a dificuldade: todo mundo se dá o direito de opinar sobre como fazer a coisa.

Brigar com os fatos não chega a ser inteligente. Ao histórico pronunciamento do presidente Mahmoud Abbas em Nova York seguiu-se o anúncio de que o Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas) alcançou acordo sobre a reabertura das negociações para a busca de um status definitivo.

É uma nova excelente oportunidade. Resta saber se os diretamente envolvidos vão saber aproveitá-la.

O Brasil, que frequentemente enfatiza a preferência por soluções negociadas, aplaudiu.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (25) no Correio Braziliense.



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