sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Onde mora o perigo (09/09)


O maior risco para o governo é a soma de dois vetores. Dificuldades econômicas combinadas à percepção de que no momento difícil, quando o sacrifício deveria ser distribuído para todos, um pequeno grupo se locupleta enquanto o povo paga o pato

A presidente Dilma Rousseff está diante de um enigma, que irá exigir dela habilidade política em alto grau. Precisará doravante, e simultaneamente, convencer a sociedade de que o governo combate a corrupção, mas sem deixar que essa ação desorganize a base no Congresso nem paralise a máquina administrativa.

As manifestaçõs do domingo, com destaque para Brasília, introduziram um elemento novo no cenário. As forças políticas que ocupam a máquina federal perderam o monopólio da mobilização social. É verdade que as manifestações não foram propriamente gigantescas, mas isso é menos relevante.

Importante foi terem trazido instabilidade ao edifício do discurso hegemônico. E, ao contrário do "Cansei" de anos atrás, rapidamente caricaturizado e esvaziado, desta vez não será simples estigmatizar os manifestantes. Eles não parecem pertencer à elite, não são abertamente antigoverno e não adotam uma fala raivosa.

Mobilizações de caráter genérico, gelatinosas, aparentemente despidas de ossatura partidária e sem objetivos políticos claros costumam ser subestimadas no nascedouro. Por isso são perigosas. São alvos móveis e quase intangíveis. Dificílimos portanto de manter na mira e alvejar.

A bem da verdade, quem começou tudo foi o próprio governo, ao oferecer vazão à ideia de que a presidente da República estava empenhada em uma faxina para remover as manchas de corrupção da Esplanada. O que antes eram casos isolados, ainda que sequenciais, passou a fazer parte de um arcabouço único.

Esse "fazer sentido", esse encaixar-se numa narrativa costuma ser catalisador poderoso de processos políticos. É como se alguém acionasse o interruptor e acendesse a luz. Momentos antes a escuridão era absoluta, mas a luminosidade já existia em estado potencial. Faltava só apertar o botão.

A presidente da República bem que vem tentando reintroduzir a batalha contra a miséria no centro da agenda, e é compreensível. A pauta da corrupção traz forte carga negativa, mesmo quando as autoridades estão empenhadas em combater os malfeitos.

E como sempre haverá limites à ação saneadora, será inevitável o governo acabar com a culpa pelo que não tiver feito, apesar de tudo que eventualmente faça.

Mas agora Inês é falecida, e a administração se vê com o tal enigma. Movimentos políticos, especialmente os radicalizados, não seguem a dinâmica dos debates comandados pela lógica argumentativa. E o tempo não é o das decisões judiciais. É bem mais rápido.

Ou seja, Dilma precisará entregar garrafas, ou cabeças, num certo ritmo. Para fugir do risco de acharem que ela não tem garrafas para entregar ou de suspeitarem da falta de disposição da chefe do governo para cortar cabeças. Mas o ritmo precisará ser dosado, para evitar que a base parlamentar vá pelo ralo.

Mesmo porque o suposto apoio que alguma oposição oficial e certa dissidência governista oferecem agora à ocupante do Planalto tem prazo de validade. Está mais para cavalo de troia. O projeto da oposição é chegar ao poder, não é entronizar Dilma como imperadora de todos os Brasis, a soberana austera e incorruptível.

Dilma está condenada a governar com os dela, com quem a elegeu, com quem deu suporte à ideia de continuidade. E é exatamente um bom pedaço desse pessoal que pousa na mira telescópica da turma disposta a ir à rua.

Sempre se poderá argumentar, e é verdade, que movimentos anticorrupção encontram limite bem definido quando o período é de prosperidade. Mas se o Brasil está economicamente melhor do que a maioria dos protagonistas planetários, é também verdade que para os próximos tempos vem contratada alguma retração e alguma inflação.

O maior risco para o governo é a soma de dois vetores. Dificuldades econômicas combinadas à percepção de que no momento difícil, quando o sacrifício deveria ser distribuído para todos, um pequeno grupo se locupleta enquanto o povo paga o pato.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (09) no Correio Braziliense.



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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, participei da Marcha em Brasília, e a sua análise foi a única que conseguiu entender algo. Os demais jornalistas e blogueiros estão clueless.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011 10:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Motivação é necessária até para atravessar a rua.
Uma vez,tá bom. Mas e depois, ? Quantas "marchas anticorrupção", devem ou podem acontecer? Só isso?
Corrupção da mídia, dos bancos, das industrias ,da FIESP,sim, ela mesmo!Revela-se, agora, um verdadeiro"mensalão", recursos aos borbotões oriundos dessa tradicional instituição para sustentar campanha no congresso visando a derrubada da CPMF.Parlamentares pagos para se esgoelarem,serem entrevistados,publicarem nos periódicos aliados,sua indignação de contribuinte lesado. Então,todos prontos para a próxima passeata?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011 15:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

as manifestacoes foram 7 de setembro! quarta-feira!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011 18:53:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

1) Anônimo-sexta-feira, 9 de setembro de 2011 15h52min00s BRT, o governo foi derrotado na CPMF, pelas oposições e por boa parte da base de apoio. Conspiração não pega. Pega é a incompetência do governo e um imposto ruim para manter o caixa e deixar a Saúde de ruim a péssima.

2) As manifestações de rua, não fosse pelo que já se conhece, chamam de crime a corrupção que o governo atenua para malfeitos. Isso já diferencia as coisas.

2) No mensalão, crime passou a ser erro. E crime de caixa dois, passou a ser o que "todo mundo faz no Brasil", coisa menor. E muitos acreditaram por incautos.

3) Agora não. A manifestações apontam aspectos e desdobramentos da corrupção tipificados como crimes. Portanto, corrupção é crime.

4) Logo logo, espera-se, que chamem de conluio e fraqueza, senão medo, atenuar crimes para malfeitos.

5) Nunca é tarde repetir: malfeito é apenas o cérebro de quem muda o nome das coisas para fugir das responsabilidades.

6) Em Português, corrupção é crime. E quem conspira é quem comete crimes de corrupção e não quem não os aceita e combate.

7) Se a faxina passou a ser contra a pobreza, é sinal de que nada será feito de um a lado e de outro. Quem pode discordar de faxina contra a pobreza? Isso é mais do que manjado.

8) Outro modo de perguntar: quem pode tentar fazer pobreza encobrir crimes de corrupção?

sábado, 10 de setembro de 2011 14:59:00 BRT  
Anonymous Ticão disse...

Sempre existe um pequeno grupo que se locupleta.

Resta conseguirem camuflar como sempre fizeram. Visto que existem integrantes desse grupo que são de diferentes partidos, grupos, áreas econômicas, então podem contar que a dissimulação continuará sendo bem feita e aceita por quem deveria denunciar.

Não esperem uma nova queda da bastilha. As lideranças revolucionárias ou oposicionistas também fazem parte do tal "pequeno grupo que se locupleta".

segunda-feira, 12 de setembro de 2011 16:47:00 BRT  

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