quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Obsolescência programada (15/09)


O Brasil não precisa de uma narrativa oficial sobre os acontecimentos da ditadura. Já há narrativas suficientes. A comissão deveria se propor um trabalho abrangente, documentado, de levantamento factual sobre aquele período da nossa História

A única certeza sobre narrativas oficiais é que elas um dia deixarão de ter o status, serão derrubadas pelo surgimento de fatos. Ou pela hegemonia de um vetor político diferente, portador da sua própria narrativa.

Esse é o maior risco que corre a comissão proposta pelo governo para verificar os acontecimentos relacionados a violações de direitos humanos na ditadura. O período proposto é mais extenso, mas o foco é nos acontecimentos entre 1964 e 1985.

O próprio conceito de narrativa é uma deformação, pois supõe que um pedaço da realidade será desconsiderado. Agora mesmo no Oriente Médio vê-se um choque de narrativas, sem qualquer utilidade prática a não ser aguçar as contradições.

Não fosse a intenção de oficializar interpretações históricas parciais, não seria necessário falar em narrativa.

Bastaria dizer que a comissão vai repor a história completa do período. 

Mais objetivo e fácil de explicar. E de compreender.

Narrativas são seres condenados à obsolescência exatamente por não resistirem ao oxigênio das novas descobertas históricas, ou às mudanças políticas. 

Regimes que pretendem impor narrativas produzem apenas pilhas de livros inservíveis. Obras candidatas ao ridículo, em primeiro lugar pelos críticos encarregados de emplacar as narrativas subsequentes.

Mas se as narrativas são seres de obsolescência programada, têm alguma utilidade no prazo limitado, quando servem como motor em lutas político-ideológicas. Proporcionam à facção conforto e segurança espirituais. 

Depois serão descartadas, mas já terão prestado o serviço encomendado.

O Brasil não precisa de uma narrativa oficial sobre os acontecimentos da ditadura. Já há narrativas suficientes. A comissão deveria se propor um trabalho abrangente, documentado, de levantamento factual sobre aquele período. 

O que implicaria ouvir todos os lados e, dentro do possível, guardar algum distanciamento.

Mas aí chegamos a uma contradição em termos. Se distanciamento crítico é difícil até para historiadores profissionais, quanto mais para políticos. 

Acadêmicos buscam (ou deveriam buscar) antes de tudo a perenidade da obra intelectual. Já os políticos buscam acima de tudo a perenidade no poder.

Uma boa providência na formação da comissão seria garantir pluralidade. Se a neutralidade é impossível, melhor será deixar as diversas narrativas brigarem, os diversos facciosismos disputarem, para ver se sai algum coelho do mato.

Quanto mais ela conseguir incorporar características plurais, menos datado será o produto do seu trabalho e mais respeito vai angariar.

Mas não aposto haver razão para otimismo.

Sucupira

De todas as características ainda remanescentes de subdesenvolvimento político, uma incomoda além da conta: os autoelogios disparados pelas autoridades quando se unem a adversários para gastar o dinheiro do povo.

Posam de magnânimos, por fazerem o favor de relevar diferenças em prol do suposto interesse público.

Onde está o traço de subdesenvolvimento? Exatamente na impressão de favor, de magnanimidade, nos salamaleques.

Pois o dinheiro não é de suas excelências. Os senhores e senhoras apenas o administram, o dinheiro é do povo. E ao se unirem para gastá-lo supostamente em benefício do povo fazem apenas e nada mais que a obrigação.

Tal aspecto deveria dispensar as invariáveis e tediosas sessões de elogios mútuos, autoelogios, piscadelas, etc.

Aliás, nesse tipo de solenidade, são comuns os agradecimentos trocados entre as autoridades.

Mas o que nunca se viu é uma autoridade agradecer publicamente aos que pagaram impostos e permitiram, com esse gesto, que a obra ou serviço se tornasse viável.

Kosovo

Entre os assuntos esquecidos da diplomacia brasileira está Kosovo, um novo país que a Sérvia ainda considera província dela.

Alguém consegue explicar por que até hoje o Brasil não reconheceu Kosovo como nação independente e soberana?


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (15) no Correio Braziliense.



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3 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Uma alternativa à Comissão da Verdade. Por que não imitar São Paulo?

O Arquivo Público do Estado de São Paulo, durante o governo Fleury [03/1991 - 01/1995], recebeu a guarda da documentação da Delegacia de Ordem Política e Social de São Paulo [DEOPS]. O acesso a essa documentação foi regulado pelo Decreto-lei n. 8.159, de 8 de janeiro de 1991, que “restringe a abertura de documentos que de alguma maneira possam afetar a honra e violar a intimidade de pessoas ou a segurança do Estado.” [...]

“Porém o mesmo decreto, em seu artigo 21, estabelece que a “legislação estadual, do Distrito Federal e Municipal definirá os critérios de organização e vinculação dos arquivos estaduais e municipais, bem como a gestão e o acesso aos documentos”.

No caso de São Paulo, por se entender que o Acervo DEOPS é uma documentação de interesse social, uma intensa discussão foi realizada no momento de transferência da documentação para o Arquivo Público do Estado, deliberando-se o livre acesso aos documentos produzidos pela polícia política de São Paulo ao público interessado. Através da Resolução nº.38, de 27 de dezembro de 1994, da Secretaria de Estado da Cultura, o uso das informações ficou sob a responsabilidade dos consulentes, por meio da assinatura de termo próprio.

Assim, foi possível conciliar os princípios democráticos de direito à informação e de resguardo da privacidade, atendendo também à demanda dos pesquisadores, os quais encontram na documentação DEOPS-SP um campo extremamente rico de informações.”

http://www.arquivoestado.sp.gov.br/permanente/deops_pesquisa.php

quinta-feira, 15 de setembro de 2011 16:44:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Concordo com o post. Apenas faço um reparo quanto ao ofício do historiador. Dado que não há ciência da História, o trabalho do historiador é o de construir narrativas do passado. Mas este trabalho tem suas regras, sendo que a principal é o compromisso inquebrantável com a construção de narrativas verdadeiras, isto é, que têm correspondência com elementos empíricos logicamente analisados. Assim, a narrativa histórica é completamente distinta da narrativa do romance.

Feita por homens, a narrativa da história é carregada de ruídos. No entanto, melhor do que ceder ao fácil e falso apelo do ceticismo relativista pós-moderno, é preciso ter claro que a verdade nas narrativas da história tem um caráter provisório. O trabalho do historiador é o pensamento em um contínuo exercício de pesar e medir e de trazer os dados empíricos para a linguagem narrativa.

Francis Bacon procurou mostrar que ver de uma só vez as diversas partes de um conjunto é, em ciência, sempre algo a ser modificado, exatamente pelo trabalho de pesquisa. E este, completamente afastado das coisas do Eterno e unido aos acontecimentos mutáveis. A ideia de uma ordem imanente [uma ontologia] ao mundo físico e humano é somente uma ideia.

Este ensinamento de Bacon é útil aos historiadores. As narrativas da história podem ser verificadas se o historiador apresentar aos seus pares o método de pesquisa e os dados empíricos. É assim que funciona ou deveria funcionar a comunidade dos historiadores. Nessa comunidade não há lugar para a INTUIÇÂO do que estaria oculto na História. O campo do historiador é o fenômeno, controlado objetivamente, nos termos propostos por Bacon.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011 16:47:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Acho que não chegou aí o comentário principal, que foi antes. O Arquivo Público de São Paulo recebeu na gestão Felury a guarda dos documentos do DEOPS. Hoje, o Arquivo disponibiliza o Acervo DEOPS para consulta pública. Por que o governo federal não imita o que foi feito em SP?

O cometário foi com link para o Arquivo, por isso talvez esteja na caixa de spam do blog. Dá uma olhada. A solução encontrada pelo Arquivo foi simples e sem ferir a lei.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011 21:27:00 BRT  

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