sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Levanta e anda (02/09)


Ainda falta muito. Falta principalmente acabar com a espoliação das pessoas e empresas pelos bancos. Se Dilma quiser mesmo avançar nessa trilha, e se conseguir, já terá justificado o mandato dela

Alguém um dia tinha que tomar uma providência. Dilma Rousseff tomou. Deixou o Banco Central numa situação em que o Comitê de Política Monetária não teve como persistir na linha de sempre.

Guerras são assim. Por mais que se planeje, desenhe, considere, pondere, quando ela começa é sempre diferente do previsto. E quem precisa guerrear e fica esperando eternamente pelas condições ideais acaba derrotado sem luta.

Onze entre dez autoridades, economistas, empresários, consultores e jornalistas especializados dizem que o Brasil vai bem. Eu não chegaria a tanto, dado nosso crescimento modestíssimo, na comparação com os primos emergentes.

Mas é verdade que as finanças brasileiras estão razoavelmente em ordem, temos reservas, que aliás custam caríssimo. Temos inflação incômoda, mas o governo diz que vai colocar na descendente. A ser cobrado.

Então por que nossos juros são os maiores do mundo?

Não apenas os que o Estado paga para rolar sua dívida, mas também e principalmente os cobrados do tomador em banco. O infeliz que não conhece o endereço do BNDES nem está pendurado em subsídio.

Já tive oportunidade de escrever que parte da nossa saúde financeira deriva de uma doença.

Nossos bancos estão melhor que os de outras paragens porque emprestam de menos e cobram demais. O brasileiro deve relativamente pouco mas compromete muito da renda com o pagamento das obrigações financeiras.

Os últimos governos tiveram o mérito de controlar a inflação. Parabéns. Mas o controle da inflação não é a parada final do bonde. O objetivo de qualquer país é produzir prosperidade, oportunidades, bem estar.

O Brasil cresce pouco. As bravatas sobre como seria fácil subir o PIB potencial para além de 4% viraram fumaça. Em condições normais de temperatura e pressão, o governo Dilma estará condenado a um porvir medíocre e a um desfecho idem.

Ainda mais se for esperar pelas “grandes reformas” que nunca virão. É uma esperteza dos nababos. Pedir o impossível para justificar o injustificável. Já que não dá para desmontar o welfare state brazuca, melhor não mexer com a banca.

Errado. Um bom método na administração de encrencas é criar o problema para acelerar a solução. Em vez de esperar pelo dia de São Nunca, agir agora. Em vez de se atolar no pântano congressual das reformas supostamente indispensáveis, levantar e andar.

O Brasil pratica um juro básico real de 6%. Aqui, uma pergunta de leigo. O que mudaria se a remuneração real dos títulos do governo baixasse para 3%, num planeta em que os governos dos países desenvolvidos praticam juro real zero ou negativo?

Iríamos à breca? O mundo acabaria? Tenho minhas dúvidas.

Disseram que o mundo ia acabar quando a Constituinte enfiou um monte de direitos trabalhistas e sociais na Carta Magna. A licença-maternidade de quatro meses, por exemplo, provocaria o fim do emprego formal feminino.

Para 2012, o salário mínimo brasileiro tem previsão de ir a quase 400 dólares. Mesmo descontada a hipervalorização do real, é um número glamoroso.

O país, felizmente, não esperou pela solução estrutural definitiva de todos os problemas da previdência para aumentar decididamente o valor do mínimo.

E o Brasil não acabou. Nem vai acabar.

A decisão do Copom de baixar a taxa básica de juros em meio ponto percentual é animadora, ainda mais se for somente o início da caminhada. Pois falta muito. Falta principalmente acabar com a espoliação das pessoas e empresas pelos bancos.

Se Dilma quiser mesmo avançar nessa trilha, e se conseguir, nem que parcialmente, já terá justificado o mandato dela.

Autonomias

Ouvem-se lamentos pela suposta perda de autonomia do Banco Central.

A autonomia não é um fim em si. Qualquer instituição da República recebe o bônus ou paga o ônus pelo exercício das atribuições.

Se age bem, fortalece-se. Se age mal, enfraquece-se.

A Câmara dos Deputados, por exemplo, exerceu sua autonomia ao absolver na terça-feira a deputada Jaqueline Roriz. Os que não gostaram pediram uma limitação na autonomia dos deputados.

Pediram o fim do voto secreto.

O voto no Copom também é secreto. Sabe-se o resultado das votações, mas não se sabe quem votou como.

Contra esse voto secreto não se notam tantas reclamações assim.

Curioso.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (02) no Correio Braziliense.



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9 Comentários:

Blogger pait disse...

Porque os juros pagos por quem pede $ ao banco são tão maiores do que os juros pagos pelo banco? Eu não sei. Nenhum economista explica direito. Um motivo é que o governo empresta barato para alguns, via bancos oficiais, então na média a diferença não é tão grande. Outro são os calotes incobráveis. Um 3o é a taxa de juros determinada pelo banco central. E ainda há os enormes custos e lucros dos bancos. E finalmente, o brasileiro, escolado pelos calotes do Delfim, do Sarney, do Collor, e outros, prefere dever do que poupar. Mas mesmo assim a explicação não está completa.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011 07:19:00 BRT  
Blogger Geraldo G. Brasil disse...

Esse artigo tem a característica política, com a evidente preocupação de buscar um conforto maior para os cidadãos. Nesse sentido, é perfeito em sua lógica interna. Mas, do ponto de vista das Leis da Economia, tenho minhas dúvidas. E mais, a ideia básica briga com a matemática. Se concordamos com a proposta de bem estar geral, precisamos concordar também que para alcançá-la é necessário aumentar o Investimento através do aumento significativo da Poupança. Esse é o caminho do crescimento sustentado e com inflação baixa. Quando o governo estimula o crescimento gastando mais do que arrecada, ele produz Inflação, que por sua vez, anula todo o esforço de crescimento. Concordo com a essência, mas discordo fortemente da forma. Não seria melhor para todos discutirmos melhor essa forma de fazer crescer a nossa riqueza?

sexta-feira, 2 de setembro de 2011 08:14:00 BRT  
Blogger Geraldo G. Brasil disse...

Me esqueci de citar o meu e-mail

sexta-feira, 2 de setembro de 2011 08:15:00 BRT  
Blogger Geraldo G. Brasil disse...

Pait, estamos de novo no mesmo problema que mencionei sobre o artigo. Acho que você está levantando um novo problema, que também merece ser discutido. Mas o artigo refere-se ao fato do governo estar propondo um crescimento da economia via gasto público e sem investimento. Isso contraria as leis da Economia e nos conduz à inflação, que por sua vez anula o crescimento, concentra renda, e tudo o mais que estamos cansado de saber. O que proponho é discutirmos como combinar gastos públicos elevados, inflação alta e em alta, baixos investimentos e crescimento da economia para o conforto de todos nós. Conforme as leis da Economia e da matemática, esses fatores não combinam e certamente causarão problemas lá na frente. Discutindo e nos pondo de acordo nesse assunto, iniciaremos uma discussão sobre os juros no país.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011 09:30:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sua posição quanto às taxas de juros do BC é conhecida de longa data.

Para mim, o que interessa saber é se essa decisão do COPOM sinalizou para a sociedade que o regime de metas foi pro saco. No meu entendimento, "meta" e "intervalo para mais ou para menos" são coisas distintas. Com a decisão, parece que agora "meta" virou de vez sinônimo de "para mais" e não se sabe até quando. A meta que era para 2011, foi para 2012, adentrou 2013 e, tudo indica, agora foi empurrada para as calendas. Se for isso, então o BC deve explicitar a posição. BC não pode agir como se fosse um Oráculo de Delfos. A instituição deve ser transparente nos atos que pratica e nos fins que almeja.

Expansão de gasto público com inflação em alta não me parece uma coisa boa. Queria saber o que os economistas do governo pensam de fato sobre isso, isto é, se de fato está se trocando de vez meta de inflação por "mais" crescimento. Se for, já não vimos esse filme antes? No curto prazo, muito bom para o governo ganhar eleições e para a ilusória felicidade "casas bahia". No médio e longo prazos, um verdadeiro abacaxi azedo para a sociedade descascar. A ver.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011 14:44:00 BRT  
Blogger Nélio disse...

A Dilma preocupadíssima com o equilíbrio fiscal, a ponto de querer dar uma volta no Poder Judiciário (eu acho que ela chamou o STF de otário, mas isso é uma opinião minha. Vai ver foi esquecimento...) é a mesma pessoa que chefia um governo de 38 (trinta e oito!) ministérios. Também é a mesma que nunca pronunciou a palavra faxina - a imprensa atribui a ela o cumprimento de expectativas que são nossas, não dela - mas setores da mesma sonegam o fato de que todas, repito, TODAS as ações tomadas por ela nesse sentido foram por livre e espontânea pressão. Ela não pretende nem nunca pretendeu fazer uma limpeza no modus operandi pactuado pelo eneadáctilo pilantra, até por que ela foi eleita por esse esquemão e fazer isso seria admitir que o governo ao qual ela pertenceu era corrupto e pior, ela sabia disso. O que está ocorrendo é que Dilma não está sabendo governar, nem pelo esquemão canalha que herdou, nem de modo nenhum. Por isso esse zig-zag institucional. Querem ver uma prova disso? Qual a meta do governo Dilma? A quê ele se propõe? Em 8 meses, sua mais vistosa realização foi a demissão de corruptos? Desse jeito, para onde ela pretende conduzir a Nação? Porque sem objetivos definidos, somente por acaso chegaremos a algum lugar...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011 18:53:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

A presidente terá meramente cumprido com sua obrigação se puder melhorar a situação econômica do País. E isso não passa por pressões sobre o BC. Pelo contrário. Influenciar, positivamente, a política monetária, seria realizar ajuste fiscal, concretamente. Por exemplo, reduzir os 39 ministérios e suas estruturas daria um sinal claro de austeridade. Contudo, o que parece, é que será criado o 40° ministério, promessa de campanha, o da micro empresa. Promessas de campanha devem ser cumpridas, porém, gastos não podem ser promessas. Se fossem gastos para investimentos, OK. A ver, mas não parece ser o caso. A estrutura de gastos parece cristalizada e rígida para baixo. Com a estrutura de gastos já fixada em patamar elevado, como combater a crise expandindo a demanda? Afrouxa a política monetária, via queda da Selic e expande pelo lado fiscal: trem-bala, Copa, Olimpíadas, desonerações fiscais etc. E a previsão do PIB, recua para menos de 4%. E as previsões de inflação seguem batendo a banda superior da meta e acima da evolução do PIB. Levantar e andar, dá. Mas, mancando e caindo.

sábado, 3 de setembro de 2011 15:38:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, “iríamos à breca? O mundo acabaria?” Claro que não, mas quando chegamos a fazer essas perguntas é porque já deixamos o terreno do razoável, não é mesmo. A inflação, por maior que seja, não inviabiliza a existência do país, já sabemos disso, já vivemos isso. E daí? Não, a hecatombe não virá, mas creio estarmos assistindo ao enterro de uma iniciativa que, dentre pouquíssimas ¬– se é que as há –, demonstrava que poderíamos um dia pertencer ao rol dos países sérios, não digo ricos, ou o que seja, mas sérios. O país acaba de jogar fora o sistema de metas de inflação, algo que permitiu, mesmo com tropeços, o controle da inflação por mais de dez anos. Creio que o recente prestígio do país no mundo deve-se em grande parte ao relativo sucesso dessa experiência, voltaremos à companhia da Venezuela, com a capital em Buenos Aires. E a inflação, quando presente, domina as questões na mesa, deixaremos de discutir expectativas e passaremos a culpar o chuchu ou o tomate. Esse não é o tipo de problema que é melhor provocar para resolver. Já sabemos disso. Mas você tem razão, os dez anos de relativa tranqüilidade não foram suficientes para que discutíssemos a questão relevante: por que os juros permanecem tão altos ou porque a poupança é tão baixa? (Em outro diapasão, mais psicanalítico, por que resistimos tanto em sermos uma economia capitalista, e não cumpadresca?) Em recente reunião, no Instituto Fernando Henrique Cardozo, com a nata dos gurus do plano de estabilização, houve quem defendesse algo parecido com o que o governo está fazendo agora (em meio, é claro, a todo um blá blá blá diversionista), e tampouco é diferente do que José Serra já defendia nas eleições de 2008, que seria possível uma rápida redução dos juros (como se, hipnotizados pela crise, os mercados se esquecessem de elevar a inflação. Como se, tudo mais constante, juros menores não fizessem a menor diferença, típica estratégia de evasão de moleque quer fugir ao dever de casa, coisa de quem não é sério). Não, a inflação não irá disparar amanhã, mas deverá se acomodar em nível alto o bastante para ser politicamente muito custoso fazê-la retroceder, ainda mais para quem se cansa quando se mexe.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011 06:37:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Uma inflação elevada inviabiliza sim a existência do País. E já vivemos isso e já passamos por isso. E a breca existiu, sim. Foram necessários vários planos, desde o Bulhões e Campos, nos 60s, passando por vários cortes de zeros de várias moedas, até a estabilização em meados dos anos 90. Agora, a breca pode estar mais próxima, com o pilar fiscal rachado e o pilar monetário descalibrado. A meta de inflação, beirando a banda superior dos 6,5% e PIB previsto abaixo de 4%. Máquinas exportadoras de manufaturas, aproveitando o mercado interno carente, muita demanda insatisfeita e gastador. Disposto a ficar alavancado, desde que o gasto mensal caiba no bolso. E isso, com mercados tradicionais recessivos, mais propensos a vender do que a comprar. Não há propaganda institucional que mude a realidade.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011 14:02:00 BRT  

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