quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Da decepção à esperança (07/09)


As coisas não se definem apenas pela personalidade ou por convicções dos líderes. As circunstâncias históricas moldam as ações de quem comanda. Mas que o indivíduo tem um papel na História, isso tem

O futuro da indústria brasileira é ponto de tensão entre economistas. Uns a consideram condenada, pela desvantagem competitiva diante de países com mão de obra abundante e barata. Outro defendem que não há como uma nação do tipo do Brasil alcançar a plena realização sem reconhecer papel central no setor.

A História brasileira registra a presença permanente de traços anti-industrializantes. Desde a colônia, quando manufaturas eram criminalizadas. Passando pelo Império, que levou um século quase inteiro para abolir a escravidão e nunca chegou a fazer a reforma agrária. Chegando à República, que na primeira fase (Velha) se limitou a estender no tempo o poder das oligarquias agrárias.

Aí veio Getúlio Vargas, e o Estado começou a arrastar a sociedade pelos cabelos rumo à industrialização forçada. Depois recebemos Juscelino, com a substituição de importações. E tivemos sorte na sequência. Assim como os argentinos, fomos vítimas de uma era ditatorial, mas nossos generais eram industrialistas, ao contrário dos generais deles, que destruíram a base manufatureira.

Claro que isso é uma redução, as coisas não se definem apenas pela personalidade ou por convicções dos líderes. As circunstâncias históricas moldam as ações de quem comanda. Mas que o indivíduo tem um papel na História, isso tem.

Industrialização não é processo indolor, especialmente para quem chega tarde ao baile, e não pode portanto se movimentar livremente na busca de mercados consumidores e fontes de matéria-prima.

Essa tensão entre velhas e novas potências industriais ofereceu o substrato para as duas grandes guerras mundiais do século passado. Muitas dezenas de milhões de mortes ficaram no registro histórico para comprovar.

Industrializar exige sacrifícios. Exige poupança e também competitividade da força de trabalho. Mas não é, como se poderia supor, uma questão de destino. É sempre decisão política, e que, aí sim, depende em bom grau do que deseja a liderança política.

O viés anti-industrialista no Brasil não é danação de origem divina. É produto de escolhas. De uma sociedade que se acostumou a combinar 1) a aversão ao trabalho braçal, traço herdado de quatro séculos de escravidão, 2) o hábito de contar com poupança alheia para sustentar o próprio consumo, 3) o recurso a uma agricultura de potencial supostamente infinito e 4) a ilusão de que o estado sempre virá em socorro quando as coisas derem errado.

Da colônia ao Império e deste à República o Brasil urbanizou-se, democratizou-se, deixou de ser uma sociedade de camadas congeladas. Mas aqueles traços não foram superados.

Até temos indústria, mas nem de longe ela é o setor dinâmico da economia. Por estes dias assistimos a uma guerra que a Apple, paradigma planetário de inovação industrial, trava com a coreana Samsung. O Brasil, infelizmente, vai a anos-luz de ter uma empresa que possa competir com a Apple.

Nas ruas brasileiras trafegam cada vez mais marcas de automóveis. As montadoras instalam-se aqui para ocupar mercado. Só não há marcas brasileiras de carros.

Nossa indústria aeroespacial come poeira. Verdade que temos uma importante montadora de aviões, a Embraer, mas é só. Outro ramo estratégico, a nossa indústria bélica, deixou na prática de ter relevância, nacional e globalmente.

O leitor e a leitora poderão objetar com estatísticas sobre a participação da indústria no produto etc. Aqui os números mascaram o fato já dito, da ausência de dinamicidade industrial no país. Há quanto tempo você não ouve falar que o PIB industrial está puxando o crescimento econômico?

Para a acomodação à sina vale de tudo. Até a constatação de que o baixo crescimento ajuda a preservar o meio ambiente. Uma pedra verde juntada ao edifício ideológico de séculos.

Eis por que merece atenção o gesto do governo Dilma Rousseff, de, por meio do Comitê de Política Monetária, cortar os juros em cenário inflacionário desafiador. A resposta veio. O dólar pouco a pouco vai recuperando valor diante do real.

Para decepção dos que diziam que a hipervalorização da moeda pouco ou nada tinha a ver com o diferencial dos juros internos e externos. Para esperança dos que sonham com um Brasil independente, finalmente liberto das suas amarras anti-industrialistas.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (07) no Correio Braziliense.



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9 Comentários:

Blogger pait disse...

Só que.... as assim-chamadas proteções à indústria são as coisas que mais emperram o dinamismo da indústria brasileira. Palavra-chave: Apple. Dizem que vão fazer uma montadora de iPads no Brasil. Por conta da proteção à indústria brasileira, os tablets aqui custam o dobro do preço norte-americano. Isso quer dizer: maiores custos para os usuários e programadores, mercado menor para quem quer desenvolver alguma coisa. A indústria de software, que poderia crescer muito no Brasil, fica muito limitada.

E qual o valor adicionado pela manufatura de iPads? US10 do prelo de venda de $500 (link no meu blog: http://j.mp/nVq7qI). O fato é que os formuladores de política industrial não têm a menor noção da dinâmica da indústria. Com o pretexto de proteger as montadoras de computador, sacrificam 98% do processo tecnológico, sem contar todo o entorno, software e mídia, cujo valor é certamente muito maior que a parte de hardware.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011 09:10:00 BRT  
Blogger Geraldo G. Brasil disse...

Muito interessante essa digressão do Alon. Acho que pode iniciar uma discussão sobre a nossa vocação, enquanto país. Mesmo depois de tantos incentivos fiscais (Alon, você se lembra quantos?) nossa indústria nunca conseguiu um grande destaque dentro do PIB nacional. E estou me referindo à uma época em que a questão dos juros altos ainda não existia. Então porque atribuir só à alta taxa Selic nossos problemas industriais? Porque não nos dedicamos a pensar em alternativas, inovações tecnológicas, serviços, agro-industria. Porque não pensamos mais na nossa Educação? Meu caro Alon, acho que temos muito mais assuntos importantes a tratar do que atribuir aos nossos altos juros os problemas de nossa indústria. Para finalizar, nossa indústria nunca foi competitiva em nenhum setor, a não ser mais recentemente em alguns produtos agro-pecuários. Mas vamos continuar a discutir o assunto, é fundamental para o nosso auto conhecimento.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011 10:30:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Nesse contexto, difícil crer que seria apenas o posicionamento dos juros o fator decisivo para que indústrias brasileiras abandonem a produção e passem a ser distribuidores de bens industriais importados. Sejam eles, matéria-prima, ferramentas, máquinas-ferramenta, equipamentos de hardware e software etc. E se há esse deslocamento da indústria, ou de parte dela, para o setor terciário, os serviços tenderão a ser o carro-chefe da economia? E se for assim, qual seria o papel dos juros básicos na expansão ou na retração do nível de atividades?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011 11:26:00 BRT  
Anonymous MIchael Xavier disse...

Alon, fiquei um tanto quanto feliz ao descobrir que ainda temos jornalistas independentes neste país, que buscam informações antes de lançar pontos de vista. Descobri isso ao assistir programa da Globo News em que v. tece comentários a respeito do aumento salarial do Poder Judiciário, expondo a questão diante de um prisma eminentemente técnico, constitucional. Às vezes temos que pagar um preço por vivermos em uma Democracia e isso passa necessariamente por um Judiciário forte, que coíba os abusos praticados pelo Poder Público. Ressalto que, no caso do reajuste, grassa a desinformação. Os servidores do Poder Judiciário estão, no mínimo, há 05 (cinco) anos sem reajuste. O que se busca, tão-somente, é a equiparação, o nivelamento dos salários com demais cargos de atribuições semelhantes, pertencentes ao Executivo e ao Legislativo.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011 01:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A nossa agropecuária é muito eficiente e os preços dos produtos agrícolas e minerais estão historicamente altos. Isso puxa o cambio para baixo e afeta a indústria. Sem trazer o cambio para acima de 2 reais não há crescimento na industria.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011 09:09:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro alon, é tudo bem o contrário. Sem dúvida a indústria teve seus momentos de glória no século XIX e fez a fortuna da Inglaterra. Durante boa parte do século XX, riqueza era sinônimo de grandes e pesadas fábricas, com milhares de operários. Assim como nos séculos XVI e XVII riqueza era sinônimo de comércio e, na falta de um suporte material, o fetiche grudou no ouro. Está lá ate hoje. Engraçado que pessoas com formação marxista, que deveriam estar vacinadas contra esse tipo de “miopia”, que deveriam saber que valor é apenas uma forma social, perpetuem esse fetichismo da indústria... (de fato, algumas vezes, ou mesmo muitas vezes, Marx também caiu nessa esparrela). Importa o nível de emprego, pouco importa o setor em que este se dá. Numa economia do tamanho da nossa, sempre restarão alguns pregos ou carroças que valham ser feitos por aqui. Não, com exceção do período colonial, a indústria nunca sofreu essa oposição toda, a partir dos anos 30 passou a ser a menina dos olhos da maioria dos governos. Por quê? Porque era moda, funcionou como funcionou o fascismo para o Estado Novo, era o modelo da vez. Eu afirmaria que a industrialização a todo custo está justamente na perenzação de nosso atraso relativo. Mesmo agora, quando capitais deveriam estar resolvendo nossos gargalos (graves e evidentes) para a exportação de commodities, de maneira que essa atividade produzisse maior renda disponível, lucros e salários, nossos burocratas buscam incrementar atividades indicadas por teorias mal formuladas ou mesmo por “amigos” com evidentes insights empresariais. E o PSDB fica discutindo, como se fosse um mistério, nossa elevada taxa de juros “de equilíbrio”: é o preço que pagamos porá “transferir” recursos dos setores mais rentáveis aos mais simpáticos aos descolados da república.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011 16:16:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Pait lá em cima já disse tudo:"...as assim-chamadas proteções à indústria são as coisas que mais emperram o dinamismo da indústria brasileira." e não só da indústria mas do crescimento todo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011 16:19:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Correto Alberto099. Por que ficar insistindo nessa esparrela do "made in Brazil", mesmo pagando mais caro e tendo menor qualidade? Isso só causa o que causou com a indústria de informática, com a indústria automobilística, com a têxtil etc. Se tivesse dado certo o paternalismo estatal, teríamos quantas empresas competindo globalmente, com as americanas, européias e chinesas, por exemplo? Contudo, isso não significa que não se tenha defesa comercial eficaz. E defesa comercial eficaz não significa escolher parceiros que serão ou não objeto de sanções.

sábado, 10 de setembro de 2011 14:15:00 BRT  
Anonymous Ticão disse...

Com esse tamanho de mercado para automóveis e sem NENHUMA fábrica que podemos chamar de brasileira, de fato podemos duvidar muito da nossa capacidade empresarial industrial.

Acrescentaria em sua lista de forma explicita a nossa Selic. Pra que se meter montando uma industria, correr risco de dar com os burros nágua, e ter uma margem de lucro que fica próxima de um bom fundo de investimento?

E pode piorar. Se a nossa Selic chegar próxima do resto do mundo, pra que continuar aqui? Porque não mudar de vez para a Europa ou os EUA ?

Sem esquecer que na área da exploração de petróleo provavelmente o Brasil será o que mais vai precisar de produtos industriais. Espero que essa chance não seja perdida.

Só relembrando aos colegas leitores, os EUA subsidiam fortemente a industria aeronáutica deles. E não vejo reclamação dos apóstolos da "sagrada mão do livre mercado inteligente". Deve ser em obediência a uma parte da doutrina que desconheço, alguma regra secreta dessa religião.

Alias, alguém precisa avisar os Suíços que câmbio controlado é pecado mortal, é heresia. Irão todos arder no Fundo do Inferno Monetário - FIM.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011 15:47:00 BRT  

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