quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Com que humor? (21/09)


Apesar das condições potencialmente favoráveis na economia para ações políticas que desgastem o governo, este vai navegando mares bem tranquilos. Mas as eleições vêm aí

A economia brasileira desacelera, o curto e o médio prazos projetam crescimento medíocre do PIB, ainda que a inflação mostre exuberância resistente.

O governo decidiu afrouxar a política monetária para evitar mergulho na recessão -providência elogiável- mas a firmeza de convicções exibida pelo presidente do Banco Central não tem sido suficiente para liderar a manada das projeções de mercado.

Ainda que continue sendo mais prudente apostar no BC do que no mercado.

O Executivo ofereceu à autoridade monetária gestos de disciplina fiscal, para anabolizar o cacife do Copom na corajosa redução de juros. A austeridade tem custo político e social.

No Parlamento ela estimula a insatisfação e portanto a instabilidade. No serviço público é combustível para mobilizações sindicais. O governo diz que deu bastante em anos anteriores e acredita estar com crédito, mas não parece sensibilizar a turma.

Um bom exemplo é o Judiciário, que se vê com legitimidade para autodefinir reajuste pela inflação acrescido da recuperação de perdas. Mas o governo sente-se forte para dar de ombros.

Uma ingerência como nunca antes neste país.

São na teoria vetores de desgaste, que deveriam preocupar o governo e animar a oposição. Mas não se vê nem uma coisa nem outra. O governo tem gordura política para queimar, e a oposição parece contida.

A primeira variável se alimenta da segunda.

Entre as razões da contenção oposicionista há duas mais óbvias.

Há o constrangimento pelo fato de que, no governo, provavelmente a atual oposição faria coisas parecidas.

E há o velho problema do necessário e conveniente bom relacionamento administrativo entre a União e os estados. O PSDB é forte regionalmente e as consequências aparecem em Brasília.

Quando estava na oposição o PT tinha mais liberdade de movimentos, pois era relativamente fraco no plano local. E podia portanto ser mais aguerrido na capital federal.

A distinção entre a tendência acomodatícia de governadores e prefeitos e a combatividade das bancadas federais é bonita na teoria. Na prática são variáveis dependentes.

Há também outro detalhe. O governo Dilma Rousseff está solidamente fincado no centro. Nem é suficientemente “mercadista” para despertar a ira dos nacional-desenvolvimentistas nem é tão “progressista” que justifique um levante do lado oposto.

Isso na economia, mas vale em todas as áreas, ou quase.

A Comissão da Verdade vai sair, mas de um jeito que não agrada completamente a ninguém, tampouco desagrada. No tema da liberdade de imprensa, o governo não dá sinais de seguir com a regulamentação desejada pelo PT, tampouco afasta completamente.

O Executivo pendula com leveza em torno de um centro, que é sua referência real. Quando promove heterodoxia mais pronunciada, como na guinada protecionista, cuida de agir apenas depois de haver massa crítica social.

Sem falar no enigma paralisante. Se ajudar a enfraquecer Dilma, a oposição pode estar preparando a volta de Luiz Inácio Lula da Silva. Coisa de que algumas fontes sociais relevantes da oposição não querem ouvir falar.

Então, apesar das condições potencialmente favoráveis na economia para ações políticas que desgastem o governo, este vai navegando mares bem tranquilos.

Mas 2011 está no fim e vêm aí eleições municipais. Até aqui o governo Dilma parece bem posicionado. Na capital de São Paulo, por exemplo, os vários fragmentos da oposição federal parecem mais empenhados em derrotar uns aos outros.

O que não é, para a presidente, garantia de nada. Pois o estado de espírito do eleitor costuma guardar boa autonomia em relação à dança da política institucional e à cobertura que a imprensa faz desta.

Bom mesmo será ficar de olho na economia para saber com que humor o eleitor vai estar daqui a um ano.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (21) no Correio Braziliense.



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2 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Interessante o post. Pega bem o movimento de inércia do governo. E destaca os leves e breves solavancos para marcar posição, talvez, diferenciada, do governante anterior. Mas, é um movimento pendular.
Outro aspecto que deve deixar as oposições preocupadas: a menção ao eventual ou virtual medo do retorno de Lula. Oras, as oposições não devem temer tal despropósito. A presidente atual não parece disposta a ser apenas uma protegida, com prazo de validade. Ou seja, não parece querer desistir de tentar a reeleição. Mesmo relembrando a frase que diz ser, no Brasil, até o passado incerto. Assim, o ex-presidente só tentaria uma candidatura, caso pensasse em não respeitar o direito político de uma mulher. E levar o partido dele junto. Não seria politicamente correto impedir uma primeira mulher presidente, que inclusive abriu os trabalhos da ONU e tem mais três para abrir, não disputar mais um mandato presidencial. Assim, só restará ao ex-presidente voltar para casa ou receber mais títulos de "honoris causa". Presidência é um sonho que, se acalentado, se esboroa a cada dia. Assim, se for esse também o medo das oposições, elas estarão piores que o partido do governo. Pois este tenta manter um posicionamento à esquerda, à duras penas, enquanto a presidente sequer denota alguma preocupação ideológica. Tanto que já há quem chame o governo de uma tecnoburocracia. Nome que remete a um certo período dos anos 70, chegando até os 80. Até a imprensa, ou a tal de "mídia", a presidente chama de fundamental e que não sofre qualquer tipo de constrangimento governamental. Assim, ela destaca o papel da imprensa nas descobertas de desvios de recursos públicos. Muitos casos, sem dúvidas, seriam crimes tipificados. O partido do governo, assim, ao menos até agora, talvez, não esteja encontrando guaridas para suas bandeiras históricas, muitas beirando o autoritarismo mais tacanho. Ao mesmo tempo, não tem forças para isolar a presidente e fortalecer o ex-mandatário e cacique maior do partido. Seria essa, talvez, a única forma de tentar fazer avançar projetos mais palatáveis ao que podem ser chamadas de bases do partido. Ou de suas tendências. Por enquanto, o partido está perdendo o jogo no campo ideológico. E o tempo. Só consegue, por inércia, botar medo nas oposições. Por enquanto.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011 19:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Para não ser só elogios vou fazer alguns acertos no seu post "Com que humor?" de quarta-feira, 21/09/2011. Primeiro, o título deveria ser "Um post com humor", se por nada, só a história do "enigma paralisante" provoca, como diria a camada do andar de cima, frouxos de risos. E se alguém recusar a rir é de se perguntar: esse ri "com que humor?"
Segundo, a frase inicial do seu post está em tempo equivocado. Como eu já devo ter dito aqui no seu blog em algum ponto, o humor do povão é um pouco diferente do humor dos nossos intelectuais. O povão sente os preços subirem na prateleira. Os intelectuais esperam os dados do IBGE e quando o índice acumulado da inflação mensal atinge certo patamar anual ele perde a compostura e diz: "a inflação chegou". O povão vê os amigos dele, os familiares dele ou ele mesmo arrumando emprego e pensa: "isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais". O intelectual espera o IBGE fornecer o crescimento do PIB de um trimestre em relação ao trimestre do ano anterior e fala que o PIB cresceu ou decresceu. Assim, na frase em vez de dizer "A economia brasileira desacelera", talvez fosse melhor dizer "a economia brasileira desacelerou a partir do terceiro trimestre de 2010 e, apesar dos dois trimestres de 2011 terem sido melhores que os dois últimos de 2010, há a possibilidade da economia imbricar para baixo (ou de se chegar a um ponto de inflexão)". Os dados podem ser vistos junto ao post aqui no seu blog "Um governo ou dois?" de domingo, 10/04/2011 e que se encontra no seguinte endereço:
http://www.blogdoalon.com.br/2011/04/um-governo-ou-dois-1004.html e ao qual eu acrescento os dados do PIB do 1º e do 2º trimestre de 2011. Assim tem-se:
2º trimestre 2009 - 1,5% (Anual - 6,14%);
3º trimestre 2009 - 2,5% (Anual - 10,38%);
4º trimestre 2009 - 2,5% (Anual - 10,38%);
1º trimestre 2010 - 2,2% (Anual - 9,09%);
2º trimestre 2010 - 1,6% (Anual - 6,56%;
3º trimestre 2010 - 0,4% (Anual - 1,61%);
4º trimestre 2010 - 0,7% (Anual - 2,83%);.
1º trimestre 2011 - 1,2% (Anual - 4,89%) e
2º trimestre 2011 - 0,8% (Anual - 3,24%;
Também em relação às razões para a contenção da oposição, eu teria esticado um pouco a frase: "Há o constrangimento pelo fato de que, no governo, provavelmente a atual oposição faria coisas parecidas." Talvez como eleitor de Lula e por ter sido brizolista, mais ainda eleitor de Dilma Rousseff, eu, para espezinhar, teria dito:
"Há o constrangimento pelo fato de que, no governo, provavelmente a atual oposição faria coisas parecidas, se fosse capaz."
E por fim agora mais como eleitor do Lula eu não diria só o que você disse no trecho a seguir transcrito:
"Então, apesar das condições potencialmente favoráveis na economia para ações políticas que desgastem o governo, este vai navegando mares bem tranquilos".
Sim, eu acrescentaria: "e nunca dantes navegados"
É isso.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/09/2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011 20:23:00 BRT  

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