quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Avenida aberta (29/09)


Sem se opor radicalmente a ninguém, e presente nas contas de todo mundo como possível aliado, o PSD enxerga uma avenida aberta. Um dia ela afunilará, mas até esse dia chegar Kassab poderá ter acumulado boa musculatura

Saiu o registro do PSD (Partido Social Democrático), do prefeito Gilberto Kassab. Quem tentou inviabilizar a construção da nova legenda travou uma luta desigual. O prefeito é conhecido pelas qualidades de articulador político, e escolheu caminho lógico.

Articulou-se com o poder, em Brasília e nos estados. E não se pode acusá-lo de ingratidão: consumado o registro, Kassab tratou de agradecer à presidente da República e ao governador de Pernambuco pela força. Foram os dois principais padrinhos.

A mãozinha pernambucana chegou antes das demais, mas não foi exceção nos estados.

O PSD nasceu também empurrado por governadores em busca de opção para acomodar base local de apoio. Na vigência da fidelidade partidária o PSD acabou como "partido da janela".

A "janela de infidelidade" que não pôde ser aberta para todos foi escancarada assim: ao ir para um partido novo, ninguém perde o mandato. 

Comprova-se novamente que os fatos não costumam ser contidos indefinidamente por burocratismos.

O PSD é mais um partido que nasce em São Paulo, mas a conexão pernambucana e os vasos comunicantes nos demais lugares evitam que se acuse Kassab de ser mais um político paulista em busca apenas de alavancagem nacional.

O PT não ataca o PSD pois vê a oportunidade histórica de dividir o campo de alianças tucano no maior colégio eleitoral, que o PSDB comanda desde 1995. 

Já os tucanos olham de lado, mas estão algo constrangidos por uma circunstância: aqui e ali governadores do PSDB constroem a nova legenda de mãos dadas com Kassab.

Só quem dá combate efetivo é o Democratas, vítima principal da sangria. Mas o DEM está fraco para ser um adversário decisivo.

Certas circunstâncias da política paulista estão na origem do PSD.

O PT comandava a prefeitura da capital em 2004, quando o PSDB de José Serra se aliou ao então PFL de Gilberto Kassab para tomar a cidadela. Em 2006 Serra saiu para disputar e vencer o governo estadual e deixou Kassab na cadeira.

Em 2008 o natural seria o PSDB apoiar a reeleição do aliado, mas o então ex-governador Geraldo Alckmin decidiu concorrer. 

Enquanto os tucanos mineiros evitavam o isolamento e apoiavam a chapa PSB-PT em Belo Horizonte, o PSDB de São Paulo abria a fenda de ruptura com o principal aliado.

Em 2010 caminharam todos juntos, mas a ferida nunca cicatrizou. E agora o projeto de Kassab parece desafiar a liderança de Alckmin e do PSDB no estado em 2014. 

E o primeiro capítulo acontece ano que vem, na luta pela Prefeitura da capital. Onde todas as alianças são possíveis, mas a complicada mesmo de costurar é a PSDB-PSD.

É uma oportunidade para o PT, mas também um risco. Em São Paulo e nacionalmente.

Em São Paulo o PT aposta que a cisão no campo adversário permitirá ao petismo sair do isolamento em que ficou desde que o malufismo deixou de existir como força polarizadora, desde que o voto centrista e conservador se deslocou para o PSDB.

O risco é surgir do PSD uma força conservadora não identificada diretamente com o desgastado malufismo e capaz de articular uma nova hegemonia.

Nacionalmente o PT aposta no estreitamento ainda maior do campo de alianças potenciais do PSDB-DEM, pois o nascente PSD abriga-se sob as asas do dilmismo.

O risco é surgir mais um jogador capaz de agregar massa crítica a uma alternativa no campo governista mas fora do PT. Como o PSB. Que ganharia um "PMDB" novo em folha.

Pois se a oposição fica fraca demais as opções passam a surgir de dentro.

E o PSD não carrega, por enquanto, as dificuldades do PMDB, sensíveis no perene déficit de imagem do peemedebismo.

Sem se opor radicalmente a ninguém, e presente nas contas de todo mundo como possível aliado, o PSD enxerga uma avenida aberta. 

Um dia ela afunilará, mas até esse dia chegar Kassab poderá ter acumulado boa musculatura.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (29) no Correio Braziliense.



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5 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Não resisti. Refaço parte de um comentário deixado no post "Teste de musculatura (16/02)"

Os intelectuais [o termo é tomado na clássica conceituação de Gramsci] conservadores “de direita” e “de esquerda” produzem as teorias do povo como suporte do Soberano. Sabemos que nada neste mundo é tão flexível quanto a espinha dos intelectuais. Então, na primeira oportunidade, estes gostosamente aderem aos donos do mando e parasitam o poder. O discurso conservador exige, sempre, fé religiosa ou laica.

Enfim, no Estado conservador a única lei verdadeiramente universal é a de Gérson.

Parece-lhe brutal? É assim que funciona.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011 13:03:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sendo um dos assuntos do post a questão das filiações ao PSD, creio ser pertinente deixar a seguinte questão;

Se ao contrário da visão de que o PT é um partido em SP, isto é, continua politicamente firme e forte em SP, por que isto? :

"PT filia até ex-integrantes do DEM e do PSDB"

"O Partido dos Trabalhadores (PT) abandonou as restrições históricas para a inclusão de novos membros e anunciou um pacote de filiações que inclui até mesmo políticos remanescentes de siglas rivais, como PSDB e DEM. Nesta reta final do prazo estipulado pela justiça eleitoral para a filiação em partidos políticos dos interessados em se candidatar nas eleições municipais de 2012 - a data limite é 7 de outubro - pelo menos 57 lideranças de vários partidos, ou mesmo sem legenda, estão a caminho do PT no Estado de São Paulo."

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,pt-filia-ate-ex-integrantes-do-dem-e-do-psdb,779111,0.htm

quinta-feira, 29 de setembro de 2011 17:20:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, você diz: “se a oposição fica fraca demais as opções passam a surgir de dentro”, principalmente se tratar-se de um presidencialismo de coalizão, não é mesmo? A disputa real, que não tem por que se dar às claras, põe em confronto Lula e Dilma. O PSD tem improtância nesse novo quadro. O PSDB só tem importância nas eleições estaduais de SP e MG.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011 18:25:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O PSD é algo impressionante. Sem demonstrações empíricas, se caberia o termo, mas apenas observando. Parece que número de quem gosta e de quem não gosta da criação do partido é o mesmo. O número de políticos que têm certeza de contar com seu apoio, é praticamente igual, ao dos que esperam poder contar também.
Há quem considere o partido alinhado com o liberalismo, em número que aparenta ser igual aos que não acham. O mesmo para quem ache ser o partido governista. Pode ser que até o governo ache que não. Mesmo quando expoente do PSD, disse que apoia a presidente, tem muita gente que diz que não ouviu nada a respeito. Mesmo quando expoentes do PSD dizem que o partido surge para ser "a favor do Brasil", parece haver um número, aqui muito, mas muito maior, dos que perguntam se haveria outra possibilidade. Poderia um partido político surgir, ser registrado nos órgãos competentes etc., para ser contra o Brasil? Podem ser contra o Brasil por incapacidade, porém.
Os princípios do partido, ao menos os divulgados, colocam-no no rol do liberalismo. Só que o PSD rebate dizendo não ser de lado algum. Só agora diz ser de "centro". Um centro com quinas, cantoneiras, deve ser.
De todo modo, o PSD está criado. Pode ser que haja um número idêntico de quem ache que não. E como todo e qualquer partido, prepara-se para eleições. Como pode ser que haja um grande número de quem ache que não. Pois sim.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011 18:41:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

ops!

Se ao contrário da visão de que o PT é um partido EM DECADÊNCIA em SP, isto é, continua politicamente firme e forte em SP, por que isto? :

quinta-feira, 29 de setembro de 2011 23:16:00 BRT  

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