quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um freio de arrumação (11/08)


Ameaças à economia são bom argumento para frear pressões por gastos, mas sucessivas revelações de irregularidades administrativas acabam tirando autoridade de quem pede austeridade

A presidente da República enfrenta o primeiro funil, o primeiro corredor polonês, com a base política algo instabilizada, a economia exibindo nuvens escuras e taxas de aprovação em ligeiro declínio.

É possível que os índices estejam influenciados pelas acusações de malfeitos. Possível é, mas convém tomar cuidado.

A presidente tem fixado nesses episódios uma imagem altiva, alinhada com as aspirações da maioria por um governo honesto. E não há acusações contra ela.

Flutuações expressivas de opinião no eleitorado costumam vir relacionadas a mudanças de avaliação da própria situação e das perspectivas futuras.

E aí o que era menos importante passa a ser mais. O aceitável deixa de ser.

Está em andamento certa deterioração nas expectativas econômicas, o que acaba produzindo impacto no juízo sobre as políticas públicas.

E no olhar sobre o governo. E sobre quem o comanda.

Pela maioria das previsões realistas o Brasil fecha este 2011 com um crescimento que será metade do de 2010. Terá perdido portanto 50% do ritmo.

Tirada a inércia, 2011 terá sido um ano perdido.

E a desaceleração econômica convive com a alta dos preços, que o governo promete irão pousar suavemente, sem comprometer o que resta de crescimento.

Mas isso é promessa. Enquanto não se realiza, a realidade para o cidadão é expansão econômica medíocre acompanhada de inflação incômoda.

Combinação que costuma produzir efeito negativo na confiança do consumidor. E em seguida na maneira como ele vê o governo. E a presidente.

Diante do contraste com a euforia de 2010, o impacto negativo do breque econômico estava precificado. Não vinha precificada, entretanto, a combinação de enfraquecimento econômico e turbulências políticas.

Uma soma de vetores que torna mais difícil a travessia, pois o governante fica vulnerável a pressões, especialmente quando precisa implementar medidas austeras.

Como é o caso agora. Ameaças à economia são bom argumento para frear a demanda por gastos, mas sucessivas revelações de irregularidades administrativas acabam tirando autoridade de quem pede austeridade.

Nada que Dilma Rousseff não possa enfrentar, pois tem a caneta e dispõe de maioria ainda confortável. Mesmo no caso de instalada a Comissão Parlamentar de Inquérito em ensaio no Senado, o governo teria maioria nela e condições de controlá-la.

Na largada.

Pois o risco é uma eventual CPI transformar-se em palco de ajuste de contas intragoverno, um caldo de cultura bem sensível na Esplanada de hoje.

Onde paira a desconfiança de que a tal “faxina ética” seria mais adequadamente rotulada com a etiqueta de “limpeza étnica” orwelliana.

Com alguns bem mais iguais que os outros.

Daí por que o governo talvez esteja a precisar de um freio de arrumação. Pode até ser meio na moita.

Pois dá a impressão de vir algo desarrumado. Apesar de formalmente no começo.

Xadrez

A instabilidade econômica internacional já produziu pelo menos um efeito favorável ao Brasil: a valorização do dólar.

Pois a corrida não é contra os títulos americanos, é a favor. E eles são negociados em dólar.

Dólar mais caro é mais receita para nossos exportadores, já beneficiados pelo recente pacote de defesa econômica.

Mas não existe almoço grátis, e se o dólar mais caro ajuda a manter empregos aqui dentro também enfraquece a âncora cambial.

Com os importados encarecidos, vem mais pressão inflacionária. Que talvez seja neutralizada pela retração da demanda.

Retração que entretando ainda não é sentida por aqui. Diferente do fim de 2008, quando tudo parou.

A situação vai exigir pilotos treinados para voar na tempestade, e sem instrumentos.

Bom

O Brasil faz parte de uma missão de países não hegemônicos que busca em Damasco a solução negociada para a crise síria.

Tomara que dê certo. A contabilidade dos mortos ali não para.

É uma boa iniciativa do Brasil. Até para depois, caso não dê certo, a nossa diplomacia poder fazer o que deve ser feito.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (11) no Correio Braziliense.



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4 Comentários:

Anonymous Marilena disse...

E foi extamente no dia 11 de agosto do ano da graça de 2011 que o Alon Feuerwerker iniciou um parágrafo assim: "Mas não existe almoço grátis"

Pouquíssimos se dão conta do quanto uma frase, aparentemente singela, possa ser tão rica de significados.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011 01:20:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Difícil o governo ser ruim e a presidente não. Se o governo é ruim, isso respinga em quem o comanda. E já foi dito aqui que o combate à corrupção é apenas obrigação. Assim, isso não deve ser motivo para exaltações e bajulações. O pior para o Brasil ficará péssimo, caso obrigações cumpridas ganhem status de méritos. Portanto, essas críticas do governo e de governistas às ações da PF são um bom sinal, se não forem apenas jogo de cena. Isso, porque, a PF não age e não prende ninguém sem autorização judicial. Se o governo ficou assustado que engula seco: quando eram adversários políticos, como ocorreu no governo anterior, a PF era "republicana". Por que deixaria de sê-lo agora? E as críticas ao uso de algemas, a decisão do STF sobre o caso deveria ser revista. As algemas deveriam ser utilizadas em todos os casos de detenção com mandatos judiciais ou prisões em flagrante por atos de furto, roubos, arruaças etc. para conduzir suspeitos ou mesmo por ações cíveis que envolvam prisão. As algemas protegem o policial que está cumprindo suas obrigações. Se ele tiver de pensar se coloca ou não algemas, ele pode correr riscos e outras pessoas, idem.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011 09:14:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Ei, Marilena, já escrevi isso outras vezes. P ex aqui ->
http://www.blogdoalon.com.br/2006/08/falta-que-faz-um-almoo-grtis-2208.html

quinta-feira, 11 de agosto de 2011 23:23:00 BRT  
Anonymous Marilena disse...

"Assim é a vida na política, um ramo da atividade humana em que o erro não existe. Ou nunca é admitido -o que, afinal, dá na mesma."

Excelente o texto de 2006.

A cópia do trecho acima, vai só para justificar um "mea culpa" - não vivo na/da vida política.

Desejo-se tudo de bom.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011 01:03:00 BRT  

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