segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quais são as regras? (15/08)


A encrenca alimenta-se de as pessoas não saberem qual é a norma que vale. De acharem que as regras para uns e outros são muito diferentes. Pois alguns são mais iguais que os outros

A presidente da República vem numa escalada de reconcentração de poder. É um movimento sistólico, lógico, diante da herança recebida. Herdada de um governo pulverizado. É também fonte de tensão com os aliados. E com o próprio PT.

Mas os políticos não são amadores. Diz a velha máxima brasiliense que os ingênuos ficaram nas suplências. A razão de uma certa instabilidade não é Dilma tomar o manche do governo dela. Ninguém se espanta com isso.

A encrenca alimenta-se de as pessoas não saberem qual é a norma que vale. De acharem que as regras para uns e outros são muito diferentes. Pois alguns são mais iguais que os outros.

Uma “revolução dos bichos”. Um governo orwelliano.

Das coisas que minam a autoridade do líder, toma destaque a falta de regras razoavelmente claras no sistema de punições e recompensas.

Por exemplo na reação governamental a acusações trazidas pela imprensa. 

Num dia a fúria do poder abate-se sobre os acusados, como aconteceu ao Partido da República. Noutro, o desagrado dirige-se ao jornalismo que revela confusões do Partido do Movimento Democrático Brasileiro.

Não há aqui juízo de valor. Apenas se constata que o tratamento em um caso foi um e no outro é outro.

Num dia a PF é  instrumento insubstituível para conter as irregularidades no governo. Doa a quem doer. Noutro, vaza-se desconforto por a instituição atacar pontos políticos sensíveis.

Um parêntese. Foi inaceitável o episódio das fotos vazadas dos investigados no Turismo. As autoridades dizem que tomarão providências.

O episódio é um sintoma de descontrole tático.

Já a bagunça estratégica poderá nascer da dúvida sobre a regra do jogo. Sobre o que está valendo e o que não. E para quem. E em que caso.

Como se manifestará essa bagunça? Talvez com o governo deixando pedaços pelo caminho. Como foi no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, por motivos diversos.

Quando se instalou a lógica do cada um por si e Deus por ninguém.

É um risco para Dilma, ainda mais numa época de incerteza econômica. Mesmo que no começo o risco pareça negligenciável.

Na aritmética da base parlamentar a presidente tem muita reserva para queimar. Excesso.

Só que quando o processo de desagregação se instala e adquire certa velocidade, ganha dinâmica própria.

Mas Dilma possui margem. Um trunfo dela vem sendo a capacidade, até agora, de estar no lado simpático das polarizações. De empurrar a cada round o oponente para as cordas das teses indefensáveis.

Filme novo

A exploração de situações constrangedoras relacionadas à corrupção dá um gás para quem tem a missão de se opor ao governo.

É assim ao longo destes anos, em que a vida reservou ao PSDB o posto de oposição.

Mas agora a conjuntura ficou mais complexa.

Pois não vai dar para fazer contra Dilma uma campanha eleitoral acusando a eventual candidata à reeleição de ter governado de mãos dadas com os malfeitos. 

Ou com os malfeitores.

É uma mudança e tanto.

O que desafia a oposição a buscar um discurso articulado na esfera das grandes políticas de governo.

Exatamente o que não se vê até agora.

Vespeiro

O relacionamento entre as organizações não governamentais e os orçamentos públicos foi e é fonte segura de confusão.

O governo quer mexer nisso, o que promete gerar mais confusão ainda.

Pois o Brasil, e desde bem antes do PT, contruiu um sistema no qual “não governamentais” é tudo que essas organizações não são.

A cada administração, a nova turma traz com ela o acessório “privado” para drenar os cofres.

É um modus operandi consolidado na terceirização do Estado brasileiro.

Um vespeiro no qual não se sabe quem terá coragem de mexer para valer.


Coluna publicada nesta segunda (15) no Estado de Minas.



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2 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Filme novo e Vespeiro. Na realidade, caberá à presidente mostrar que algo mudou em relação ao governo anterior. E anterior, é o governo dela e de Lula. Não o de FHC. É de duvidar-se que o faça, agora que o governo seria só dela. Se não anda de braços dados com assediadores de cofres públicos, terá de fazer malabarismos para não deixar claro que o anterior o fazia. Assim, o ônus é dela.

terça-feira, 16 de agosto de 2011 11:37:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Dá para discordar do suposto conforto da presidente atual no confronto com a própria base. A cada aspecto onde a presidente coloca sua decisão, há a geração de desconfortos. Ao menos, aparenta ser assim. Ou por inabilidade ou por dureza mesmo, o governo sequer iniciou, está sem discurso e sem marca. Porém, há sempre cavaleiros salvadores. Como o grupo de senadores que discursaram defendendo a presidente e incensando a faxina, sem aspas ou com aspas. A ver, porém, deveriam, os senadores, encorparem as CPIs e legislarem na inibição de cofres com portas assim, tão abertas e conteúdo farto.

terça-feira, 16 de agosto de 2011 11:47:00 BRT  

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