segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Magoados e desossados (08/08)


Não é crível, por enquanto, que os insatisfeitos se unam numa grande frente, para bater de frente. Num conglomerdo de insatisfeitos dispostos a matar ou morrer para encurralar este governo

A dúvida da moda em Brasília é saber até onde irá a presidente Dilma Rousseff na operação de reconcentrar poder. Em tese, tem boa chance de ir longe.

A Presidência no Brasil é potencialmente imperial, o presidente pode quase tudo, inclusive porque legisla ad referendum do Congresso.

E apetite não parece faltar a sua excelência. A substituição de ministros tem sido rápida e cirúrgica. Nada daqueles longos e tediosos processos de consulta a aliados, de decantação.

O governo Dilma desconhece a decantação, ignora olimpicamente a regra de esperar as coisas acontecerem com aparência de naturalidade. Prescinde da formação de massa crítica.

Os balões de ensaio andam meio murchos.

É o governo do manda quem pode e obedece quem tem juízo. Do “você sabe com quem está falando?”. Agora mesmo o noticiário anda coalhado de recriminações ao estilo, digamos, assertivo da presidente no trato com assessores e auxiliares.

Mas tudo em “off”, no anonimato, que o mar não anda para peixe.

Até o tradicional quem é quem já deixou de ter a importância do passado. Celso Amorim substituiu Nélson Jobim na Defesa e houve alguma marola. Desnecessário.

Pois o ministro da Defesa continuará a atender pelo nome de Dilma. Assim como o da Fazenda, ou o presidente do Banco Central. Ou eventualmente o da Saúde. Ou da Educação.

Ou o articulador político.

Ou qualquer um cujas atribuições formais adquiram tamanho estratégico. Ou apareçam com alguma relevância na tela do radar presidencial.

É um governo de ministérios limados da dimensão política, tendência que surfa no mito da gestão técnica. Mito que, aliás, a elite e a classe média a-do-ram.

O governo dos ministros-gerentes, comandados pela chefe com mão de ferro.

Mas, e aí, vai dar certo? A crítica recorrente ao estilo de sua excelência embute naturalmente a torcida para que dê errado.

Quando alguém reclama por ter sido supostamente desrespeitado, deve-se avaliar a possibilidade de a reclamação provir de outra mágoa: talvez o reclamante esteja reclamando de não mandar nada.

É como o deputado ou senador que vaza para a imprensa estar magoado pelo modo como é tratado quando precisa ir ao Palácio do Planalto.

É provável que o parlamentar não se incomodasse caso a rudeza no particular recebesse a contrapartida pública de demonstrações de prestígio.

Como verbas liberadas para a base eleitoral, convites para acompanhar a presidente em atos no estado, influência visível na máquina estatal. Etc.

Ou seja, o governo tem margem de manobra, como ficou demonstrado no episódio recente de retirada de assinaturas da CPI dos Transportes.

Com a pomada do tradicional varejo.

Onde estão as armadilhas? Uma delas seria a vulnerabilidade presidencial a acusações, coisa que não aparece no horizonte. Seria uma surpresa. Até porque Dilma se movimenta com a desenvoltura dos destemidos.

Outra hipótese é uma crise com o Congresso Nacional, este criando um atoleiro para o Executivo. O pântano paralisante.

Por enquanto um risco limitado, desde que o Planalto não tem agenda relevante de reformas, não depende do Legislativo para transmitir a imagem de sucesso.

O sucesso ou o fracasso de Dilma Rousseff serão medidos pela economia, nos parâmetros tradicionais da inflação, do crescimento e do emprego.

Se isso estiver bem, ou pelo menos se as pessoas acharem que está bem, os políticos “magoados” pouco terão a fazer de prático contra o trator presidencial.

Porque não é crível, por enquanto, que os magoados e desossados se unam numa grande frente, para bater de frente. Num conglomerado de insatisfeitos dispostos a matar ou morrer para encurralar -ou até pôr abaixo- este governo.

Mais provável é que continuem tentando resolver as pendências cada um por si.

Até porque as contradições entre eles são, pelo menos, tão agudas quanto as de cada um deles com a atual ocupante da cadeira presidencial.

Por enquanto.


Coluna publicada nesta segunda (08) no Estado de Minas.



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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Lembrando Judite Brito, por enquanto, oposição é a imprensa.
Pauta com assiduidade a oficial, parlamentares e executivos de estados opositores.
Destaca-se a artesanal elaboração do fuxico:intrigas palacianas,insatisfações de membros da corte,difusas ameaças castrenses,insurreição nas infantarias partidárias da federação situacionista, ambições insatisfeitas e a inexorável tsunami planetária que varrerá as economias de todos os quadrantes e, obviamente, o pior a nós outros,caberá.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 10:25:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Onde estão as armadilhas?"

As duas que você mencionou são mesmo as mais contornáveis. Mas há uma outra, esta sim de poderosa efetividade: os passarinhos incomodados com a faxina podem começar a contar o que se passa no ninho petista. Corruptos são apenas os outros? O partido angélico estaria livre e acima de qualquer suspeita? Ho,ho,ho, riria papai noel...

Você é jornalista com muitos anos de janela e sabe perfeitamente que notícias que derrubam ministros não caem do céu diretamente para as mãos dos repórteres. Nada contra. De que serve a imprensa que não reporta aos seus leitores o que apura?

"Mais provável é que continuem tentando resolver as pendências cada um por si."

Sem dúvida que sim. No entanto, na hipótese de uma briga de foice entre PT e PMDB em qual dos dois você apostaria? Nessa bolsa, eu pago 100 por 1 para quem apostar no PT.

E aí, petistas, topam apostar contra o PMDB?

"O governo dos ministros-gerentes, comandados pela chefe com mão de ferro."

Alon, quem em são consciência acredita nisso?

Vamos recordar o que disse a candidata Marta a respeito de Dilma:

"Quando o presidente apontou Dilma como sua candidata, não tínhamos candidatos naturais. CAUSOU ESTRANHEZA, mas ela era o braço-direito dele, competente, mulher e protagonista de todos os projetos importantes do governo. Não foi difícil O (militante) PETISTA entender - disse Marta. [O Globo - 07/08/2011]

Ué!? Dilma não é do PT!? Se não era Dilma, qual seria o candidato natural do PT!? Por que sua indicação causou estranheza aos petistas!?

Dilma "mão de ferro" não apita nadinha no PT. Lula e o PT jamais deixariam Dilma faxinar o PMDB, Alon.

Na entrevista ao Roldão, Marta expressou-se com gentiliza de costume: "[Lula] elegeu a Dilma do nada". [ESP, 07/08/2011]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 11:43:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

A criação de uma base de apoio heterogênea serviu, mesmo, para isso: pouco importaria a base e seus indicados. Isso, desde que fossem facilmente imolados e deixassem de causar problemas para a presidente. O combate à corrupção, é sempre popular. Mais do que gerência. Nem o caricatural apelo ao preconceito contra os coroados como deserdados da sorte, pela comunicação institucional do governo anterior, ajuda mais. Isso porque a base de apoio, tem de tudo um pouco. E os problemas estão vindo da base e do governo, não da oposição. Como antes, aliás, no governo anterior. E os preconceitos, parece, tiveram exaurido o efeito catalisador do coitadismo. Por fadiga de material e de argumentos. O andar da carruagem, porém, não deixa despercebidos problemas latentes e de difícil resolução. O pacote denominado "Brasil Maior" demonstra isso. Se fosse uma política industrial, seria insuficiente. Se fosse um coletivo de medidas para defesa comercial, teria chegado tarde e também insuficiente. Pode ser que a única aposta, para valer, seja na busca de formas de retardar, ao máximo, a percepção do público, de temas ruins: inflação, endividamento das famílias, desempenho do crescimento, emprego. O crescimento de 2007/2008, foi às custas de muita liquidez e de crédito farto. Não seria crível que isso fosse possível outra vez e em tão pouco tempo. Assim, para enfrentar a crise que se avizinha, exatamente a liquidez e o crédito deverão sofrer alguma inibição. Resta saber se o que será visto será a floresta, ou apenas as árvores.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 15:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo perfeitamente com o paulo Araújo e discordo de vc, Alon. Aliás, acho que vcs, jornalistas de um modo geral, andam muito dilmescos ultimamente.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 18:43:00 BRT  
Anonymous Ticão disse...

Vou me ater somente a um assunto do seu post.

Essa questão do estilo mais rude e seco no trato com as pessoas.

Já cansei de ler notinhas sobre reclamações. Como vc anotou, sempre em off.

Mas a característica mais importante não é ser off. É que essas notinhas NUNCA explicitam o que ocorreu. Ou seja, nunca ficamos sabendo o "porque" da bronca dada pela Dilma.

Esse metodo de dizer que ocorreu mas não dizer o porque ocorreu, não descrever o ocorrido, acaba deixando uma imagem de que as broncas são gratuitas, sem motivo.

Confesso que é meio difícil de acreditar nessa hipótese. Alias, acho que se os jornalistas investigarem mais um pouco e relatarem o ocorrido com mais detalhes, veremos que na maioria das vezes a bronca foi merecida. Nem sempre mas na maioria das vezes.

As poucas vezes que fizeram uma descrição mais detalhada, me lembro de uma, foi uma coisa meio gratuita. Aparentemente.

Foi o caso de quando a Dilma pediu uma papelada, o cara ficou tentando abrir o zipper da pasta modernosa e tanto demorou que a Dilma pediu uma tesoura e abriu a pasta na marra. Confesso que, dependendo da circunstância, teria eu o mesmo desejo.

Mas fico imaginando as outras inúmeras vezes que a Dilma deu a bronca porque a explicação, ou resposta, foi absolutamente idiota. Do tipo, respondo mas não tenho a menor idéia do que estou falando. Já presenciei isso lá em Brasília. É irritante.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 18:54:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Bom comentário, Ticão.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 20:13:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ticão

Também gostei. Principalmente deste trecho:

"Mas fico imaginando as outras inúmeras vezes que a Dilma deu a bronca porque a explicação, ou resposta, foi absolutamente idiota. Do tipo, respondo mas não tenho a menor idéia do que estou falando. Já presenciei isso lá em Brasília. É irritante."

Eu fico imaginando o quanto deve ser irritante para a presidente-gerente competente do Brasil ter de governar o país em companhia de um bando de ministros idiotas. Dilma sofre as agruras da governabilidade, não é?

Mas nem tudo é horror para Dilma. Ela tem no comando da economia uma equipe altamente qualificada e competente que sabe exatamente o que fazer, não é?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 21:13:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Muito interessante. Ninguém sabe porque ocorreu a bronca. Mas, quem levou e de quem, todo mundo fica sabendo. Mas, será que não há alguma bronca em contrário? Ou seja, alguém falando para a presidente: não ouça os conselhos do ex-presidente; não fale para o povo consumi;, isso está errado e se for assim eu não faço; ou pedindo o ressarcimento por ter a bolsa cortada na marra? Olha, essas historinhas são mais para dourar a pílula da imagem. Tornar a presidente popular. Essa é a realidade. A não ser que lá esteja apenas um bando de bananas bajuladores. Pagos com recursos públicos.

terça-feira, 9 de agosto de 2011 13:04:00 BRT  

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