sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Feijões e feijões (12/08)


Como de hábito, pressões desencadeiam-se. Para tentar encurralar o governo e conseguir que a presidente da República vete o feijão transgênico da Embrapa, 100% verde-amarelo. Argumentos? Os de sempre

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu um feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado, praga transmitida por inseto cujo nome popular é “mosca branca”.

O feijão geneticamente modificado é totalmente nacional.

Não há multinacionais envolvidas no desenvolvimento. É 100% nosso.

A coisa passa pelos processos da CTNBio, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, órgão do governo encarregado de atestar a qualidade do produto. Bem como a segurança do consumo dele.

Assim como seu impacto ambiental.

A comercialização depende de aval do conselho de ministros competente, segundo a legislação.

Mas, como de hábito nesses casos, pressões desencadeiam-se. Para tentar encurralar o governo e conseguir que a presidente da República bloqueie o andamento, vete a comercialização.

Argumentos? Os de sempre. A interpretação estrita do princípio da precaução, por um viés capaz de bloquear todo e qualquer avanço científico.

Aliás, se adotássemos o tal princípio nos moldes apregoados pelo fundamentalismo qualquer alimento estaria proibido para o consumo.

Pois tudo que comemos hoje é produto de algum tipo de engenharia genética.

Alguma feita pelo homem. A imensa maior parte, pela própria natureza.

A polêmica sobre os transgênicos no Brasil vem de longe, mas não consta que os núcleos de resistência ao desenvolvimento científico tenham apreendido algo útil da discussão, ou pelo menos aceitem confrontar suas teses com a realidade.

Basta recordar o radicalismo que marcou a disputa sobre a soja transgênica. Foi uma guerra civil ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

Muito calor e pouca luz. Nenhuma das ameaças potenciais apontadas pelo precaucionismo radical se comprovou. Nenhumazinha. Índice zero de acerto.

A soja transgênica e seus derivados são hoje consumidos em larguíssima escala. Não há um relato, uma suspeita, um mísero caso de alguém cuja saúde tenha sofrido por causa do consumo.

E o anunciado desastre para os ecossistemas? Ninguém sabe, ninguem viu.

Estatisticamente, a esta altura talvez seja um dos experimentos mais confiáveis da história. Nem que só pelo tamanho do universo observado.

Mas isso é irrelevante para o fanatismo, imbuído da missão de bloquear a todo custo o desenvolvimento na área.

Por falar em feijão, tempos atrás soube-se que um broto do dito cujo foi substrato para o aparecimento de nova e mortal modalidade da bactéria Escherichia coli no centro-norte da Europa.

Teve gente que morreu.

E não é que o tal broto de feijão era cultivado em ambiente classificado de orgânico? Natural da Silva. Como Deus criou.

Imagine por um instante, caro leitor ou leitora, a tempestade que seria desencadeada caso o micróbio mortífero viesse ao mundo num meio de vegetais geneticamente modificados.

Mas não se viu nenhum movimento, nenhuma iniciativa, nenhum pio em defesa da suspeição das culturas orgânicas.

Não se invocou o princípio da precaução. A polícia política não foi chamada e intervir.

Não se convocaram audiências públicas no nosso Congresso Nacional para exigir a introdução de novas normas destinadas a prover segurança ao consumidor de orgânicos, coitado, desprotegido.

Não se anunciou o fim do mundo. Não houve alertas para informar do apocalipse.

Ninguém deu a mínima.

É um detalhe que fala por si.

O que quer?

Um bom princípio da administração de qualquer coisa é resolver problemas na mesma velocidade que são criados.

Ou uma hora a coisa fica inadministrável.

A fila de pautas incômodas para o governo no Congresso Nacional faz inveja àquelas comuns em shows de artistas populares.

Tem assunto para todos os gostos. É gastar, gastar e gastar. Numa época em que o Planalto prefere economizar, economizar, economizar.

Isso e mais o desarranjo na base produzem, quase inercialmente, a atual paralisia.

Na política, este governo precisa definir com urgência o que quer, até para saber com quem deseja contar.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (12) no Correio Braziliense.



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8 Comentários:

Anonymous Marilena disse...

O que me preocupa é que as teses do ambientalismo estão sendo levadas às nossas crianças na escola, sem questionamento.

Todas são tidas como absolutamente verdadeiras, ainda que não se demonstrem com as respectivas equações matemáticas.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011 01:21:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Pois é. Mais uma coisa sobre a qual o Parlamento deveria estar mobilizado. Parece haver um vácuo no assunto ciência e inovações no Brasil. Dai, vir do ministro do MCT a ideia de contratar "hackers", de repente, acaba virando um grande lance. O tal ditado popular sobre ter um olho em terra de cego. Ou crenças insanas de conspirações para transformar o Brasil em Jardim do Éden, enquanto a produção agrícola e pecuária estaria no exterior. Contudo, há , sim o chatismo politicamente correto sobre ecologia e agricultura que transforma tudo em perigo. Talvez haja uma outra conspiração para fazer todos os seres humanos viverem de luz, uma espécie de seres capazes de fazer a fotossíntese, tal qual capim tiririca, nabos, repolhos, pepinos e logicamente e talvez, jabuticabas. Só fica engraçado perguntar quem vai falar isso para as crianças somalis.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011 17:41:00 BRT  
Blogger Ed Garcia disse...

Pelo princípio da precaução, o celular deveria ser proibido também: causa cancer.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011 20:50:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Pelo princípio da precaução, leite longa vida, açúcar refinado,
conservantes de alimentos industrializados, mamadeiras de polipropileno e as panelas com revestimento teflon também deveriam ser proibidos, pois "diz que" provocam câncer e mais uma série de outra doenças

A lista é enorme. Lembrei esses.

sábado, 13 de agosto de 2011 08:56:00 BRT  
Blogger maisvalia disse...

Bom artigo, bons argumentos e a idiotice avança.

sábado, 13 de agosto de 2011 11:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Acho que às vezes você exagera. Eu não comprei no todo a tese ambientalista contra as sementes transgênicas, geneticamente modificadas, por uma porque o assunto é um tanto árido para mim e por duas porque é sempre bom dar tempo ao tempo para tudo assentar melhor, o que servia tanto para se opor às sementes transgênicas como para as defender.
Agora, pelo que eu sei, as sementes transgênicas não são combatidas, salvo por fundamentalismo religioso, pela engenharia genética envolvida, mas porque a modificação genética permitia o uso de determinado defensivo agrícola com maior intensidade.
Qual é a natureza do "feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado, praga transmitida por inseto cujo nome popular é “mosca branca”"? Trata-se de um feijão resistente ao vírus do mosaico dourado, ou um feijão resistente ao defensivo agrícola que combate o vírus do mosaico dourado? A reclamação no caso dos ambientalistas é que tanto o produto, no caso a semente de feijão, como o terreno sofrem mais intensamente a aplicação do defensivo.
E outra, o defensivo agrícola que combate o vírus do mosaico dourado é defensivo com patente ainda em validade ou não. Se está em validade, significa que o Brasil estaria financiando pesquisa para tornar o defensivo quase um monopólio.
Não se pode esquecer que durante quase uns quatro anos, o governo brasileiro financiou a fabricação de remédios genéricos via propaganda gratuita, incentivando o consumo de remédios e aumentando o espírito hipocondríaco e a mentalidade tendenciosa à auto-medicação com todos os males que isso causa à saúde do brasileiro. No caso, se serve de consolo, pelo menos houve empresas que usufruíram da propaganda genuinamente nacional.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/08/2011

sábado, 13 de agosto de 2011 12:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Interessante esta sua frase:
"Na política, este governo precisa definir com urgência o que quer, até para saber com quem deseja contar."
Esta tática ou estratégia é postulado do conhecimento científico ou é desejo do governo, ou melhor até, quem sabe, é desiderato do jornalista?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/08/2011

sábado, 13 de agosto de 2011 12:30:00 BRT  
Blogger Francisco G Nobrega disse...

Caro Alon

Parabéns pelo post, claro e racional. A força do lobby orgânico, que é agora um meganegócio, com o príncipe Charles envolvido, entre outros, conseguiu que raramente se mencionasse que o tremendo e mortífero acidente com a contaminação bacteriana do broto de feijão revelasse a origem: uma fazenda de produção orgânica do norte da Alemanha. Nada contra os orgânicos, quem quiser que pague e consuma. Lembrando que estudos sérios não detectam diferenças em segurança com os alimentos convencionais. Há tempo Bruce Ames publicou no PNAS um artigo mostrando que 99,99% dos pesticidas consumidos pelos americanos são de origem natural. Planta não tem perna nem dente. Sua defesa é principalmente química: produzem milhões de substâncias antibacterianas, antifúngicas, inseticidas e toxinas para afastar os animais. Apenas os 0,009% são derivados dos defensivos usados pelos agricultores que seguem as diretivas da legislação. Em geral não nos causam mal algum porque é na dose que se conhece o veneno. Nosso cafezinho, entre ~ 40 substâncias pesquisadas, metade causa câncer em animal experimental, em doses no entanto, claramente superiores ao do consumo habitual. Se consumir cenouras em excesso terá alucinações pois lá existe uma neurotoxina. Curioso é que eles tem que atacar duramente uma tecnologia segura. São intolerantes e acabam reproduzindo inverdades. Aí entra a política de manter os países periféricos fora dos avanços da ciência, cavalo de Tróia que surfa na onda do ambientalismo fundamentalista e acientífico.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011 14:18:00 BRT  

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