quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Escolhidos pelo dinheiro (10/08)



Os Estados Unidos têm lá seus problemas causados por políticos de qualidade duvidosa, ou vista como tal em períodos difíceis. Mas estão bem melhor, muitíssimo melhor do que estariam caso o poder repousasse não nas mãos dos eleitos pelo povo, mas na dos escolhidos pelo dinheiro
 
As circunstâncias políticas em torno da elevação do teto da dívida americana tiveram influência decisiva para o rebaixamento daquele país por uma agência de classificação de risco.

Mesmo alertada — e tendo admitido — que seus números estavam errados, a tal agência decidiu rebaixar o rating americano, e ponto final.

É até curioso que a esta altura agências de risco sejam levadas a sério, depois das lambanças protagonizadas na crise de 2008. Quando até a véspera atestavam a saúde de gente podre na alma, como os fatos mostrariam.

Talvez se explique pela necessidade obsessiva de bússolas, até das quebradas. O sujeito olha para o instrumento e sente algum conforto, mesmo sabendo que o bichinho de pouco serve, depois de ter falhado além do razoável.

Essa necessidade é fonte de poder. Daí que a arrogância das tais agências tenha sobrevivido aos recentes fracassos delas na sua competência principal, avaliar riscos.

Como o médico que vem errando diagnósticos, mas na falta de outro colega disponível emite novos pareceres com a mesma empáfia e autossuficiência de quando era visto como intocável.

Há uma divergência política instalada nos Estados Unidos sobre a maneira de controlar a dívida pública. Democratas querem taxar quem ganha mais e reduzir despesas militares. Republicanos não aceitam aumento de impostos nem cortes no esforço de guerra.

Essa é a divergência. O consenso está em ambos defenderem que a dívida precisa ser controlada para ser honrada. E para abrir espaço ao crescimento. O keynesianismo lá anda meio em baixa.

Ou seja, a agência desclassificou os Estados Unidos não por ela valorizar as diferenças entre as forças hegemônicas, mas por desconsiderar um dos únicos pontos consensuais entre elas.

E por desconsiderar também que o conflito encontra um mecanismo seguro para ser resolvido: as eleições de daqui a pouco mais de um ano.

Na verdade, o que certa gente não tolera mesmo é a democracia. Se os Estados Unidos, por exemplo, cultivassem também a jabuticaba das medidas provisórias, possivelmente os sábios da medição de rating respirassem mais aliviados.

A ala mais radical do Partido Republicano ganha fôlego entre os americanos porque a população não quer pagar mais impostos. Mas esse sentimento não é novo, e não é exclusivo dos cidadãos dos Estados Unidos.

Mais que não querer pagar mais, o americano recolhe de outra fonte a sua insatisfação.

A saída keynesiana foi boa para impedir um mergulho na escuridão três anos atrás, mas não vem sendo suficiente para recolocar a locomotiva nos trilhos em velocidade razoável.

O próprio governo brasileiro, que dia sim outro também acende uma vela “contra o neoliberalismo”, apresenta a renúncia fiscal como elemento importante de uma política econômica voltada ao crescimento e ao emprego.

Barack Obama poderá, se assim entender, defender na campanha de reeleição que o remédio keynesiano é bom, mas a dose vem sendo insuficiente.

Já o candidato republicano certamente retrucará com as vantagens — segundo ele — de deixar mais capital na mão dos empresários, para que invistam e assim gerem crescimento econômico.

A exemplo do que faz o governo do Brasil.

Quem vai decidir? As urnas. E se elas produzirem uma situação de ainda equilíbrio, que os futuros poderes busquem o consenso possível.

Como encontraram dias atrás. Mas a tal agência não gostou, e desencadeou uma onda global de instabilidade.

Paciência. Para os czares da economia a democracia pode até ser um estorvo. Mas ela é insubstituível.

Os Estados Unidos têm lá seus problemas causados por políticos cuja qualidade é duvidosa, ou é vista como tal em períodos difíceis.

Mas estão bem melhor, muitíssimo melhor do que estariam caso o poder estivesse não nas mãos dos eleitos pelo povo, mas na dos escolhidos pelo dinheiro.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (10) no Correio Braziliense.



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1 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Só há um comentário a fazer sobre as considerações do post: ainda bem que os EUA não adotam a excrescência das Medidas Provisórias. Notadamente as árvores de Natal, bonde, trambolho, guarda-chuvas e outros furdunços. O governo brasileiro deveria aproveitar e propor via projeto, o fim das MPs. E se assim não o for, que os parlamentares as rasguem todas que chegarem ao Congresso. Ou que legislem pelo seu fim.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011 08:41:00 BRT  

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