quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Dúvida no celeiro (18/08)


Se a proteção ao trabalho e à indústria nacional amortece os custos sociais da transição, o desestímulo aos mais eficientes é um veneno que costuma ser fatal, ainda que a morte possa vir de maneira lenta

A versão de ser “o último a entrar e o primeiro a sair” da crise econômica planetária continua alimentando o debate político no Brasil, agora que um segundo vale ensaia engolir a humanidade num período razoável de estagnação, ou crescimento medíocre.

Só não fazer nada, continuar a consumir, que lá na frente tudo se resolverá.

Verdade que o discurso vindo do Planalto anda mais centrado, talvez por um traço do temperamento da chefe.

Transmite-se certa preocupação, fala-se na necessidade de conter o gasto público dentro de limites, bem como sobre os cuidados no endividamento das pessoas e das famílias.

Mas e os problemas estruturais? Continuam a ser tocados apenas de passagem.

A indústria, por exemplo, até hoje não retomou o ritmo. Primeiro foi a contração da demanda em 2008/09. Quando ela voltou, veio a supervalorização do real.

E agora a indústria enfrenta no front externo quase uma tempestade perfeita. Mercado fraco para produtos de valor agregado e a moeda nacional batendo todos os recordes de valorização.

Nunca dependemos tanto das commodities, da nossa “vocação para celeiro do mundo”.

A presidente da República vem de anunciar um pacote de medidas votadas à defesa da indústria e do mercado interno.

Espera-se que o efeito supere, pelo menos, os alcançados pelas autoridades econômicas quando garantem que vão dar um jeito de segurar a subida do real.

Mas os movimentos em defesa da indústria nacional, especialmente dos segmentos intensivos em trabalho, introduzem outra variável na equação.

Como proteger sem dar aos menos competitivos uma vantagem estratégica que lá na frente acabe prejudicando o relançamento da economia brasileira num patamar superior de produtividade?

Tome-se o debate sobre desonerar a folha de pagamento e compensar com a taxação progressiva do faturamento.

Vale aqui a antiga e conhecida observação de que para todo problema complexo existe uma solução simples, e errada.

Tenta-se afrouxar a corda que rodeia o pescoço dos segmentos de menor produtividade, o que é bom, mas à custa dos de maior produtividade, o que é ruim.

Qual será a ordem das nações na fila de saída da crise? É hora de profecias. E há para todos os gostos. Mas um detalhe é inquestionável.

A produtividade vai dar as cartas.

Corremos o risco de sacrificar o estratégico ao tático, o médio e o longo prazos ao curto. Como de hábito.

Não que o abacaxi seja fácil de descascar. Se a proteção ao trabalho e à indústria nacional amortece os custos sociais da transição, o desestímulo aos mais eficientes é um veneno que costuma ser fatal, ainda que a morte possa vir de maneira lenta.

Melancias

A turbulência no governo confirma que nos solavancos da estrada as melancias se ajeitam na carroceria do caminhão.

A costurar

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), não está propriamente feliz com a inclinação do Palácio do Planalto a favor da candidatura do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para o Tribunal de Contas da União.

A também deputada Ana Arraes (PSB-PE), mãe do governador, é candidata. Mas a preferência do governo está com Aldo.

Explicação

A melhor dos últimos tempos é o pessoal do PV dizer que vai voltar à base do governo, pois deseja ajudar o Brasil a enfrentar a crise econômica internacional.

Como o governo brasileiro enfrentaria o desafio econômico global sem a ajuda do PV?

Nem um pio

Ouvem-se por aqui ferozes críticas ao governo e ao sistema judicial britânicos pelas duras punições aos responsáveis por incitar o vandalismo.

Talvez haja mesmo exagero nas penas.

Mas Londres não lançou os tanques à rua para atirar contra cidadãos desarmados. É o que acontece na Síria.

Sem que os tais críticos deem um pio.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (18) no Correio Braziliense.



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6 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.

“Face aos desdobramentos da crise financeira global, a presidente Dilma Rousseff decidiu revisitar a obra do economista Celso Furtado. Quem é próximo à presidente diz: a escolha não foi por acaso.” [15/08/2001 às 10h19 Valor Online]

Comentário

A teoria do subdesenvolvimento baseava-se na premissa “histórica” de que os preços internacionais dos produtos primários necessariamente se desvalorizariam em relação aos dos industrializados.

Aos olhos de hoje, a premissa soa como piada. Hoje, há mais valor agregado em uma semente de soja, em uma poça de petróleo ou em minério de ferro pelotizado do que num tablet eventualmente produzido na zona franca de Manaus.

Monica Baumgarten escreveu um post delicioso a respeito:

Meia Noite em Brasília

No filme de Woody Allen, toda noite o protagonista esperava pelo (espaçoso) carro antigo que o levava de volta para a Paris de outras épocas, desfrutando da convivência com alguns dos principais pintores, escritores e intelectuais da era moderna. Integrantes do governo brasileiro parecem ter se inspirado nessa fantasia deliciosa para recolher antigas relíquias da política econômica e reciclá-las com ares de ousadia. O automóvel disponível para a volta no tempo da trupe de Dilma é um Isetta, o primeiro carro produzido no País, em 1956. Toda noite, quando passa pela rampa do Palácio do Planalto, entra alguém da equipe econômica para um tour nostálgico. O problema é que o Isetta é um microcarro – algo como o tio do Mini Cooper – e só acomoda um passageiro, além do motorista. Talvez seja por isso que as políticas recicladas venham de várias épocas distintas, prejudicando a congruência, dependendo das preferências particulares de quem entra no carro, a cada noite.

Continua

http://www.galanto.com.br/monicablog/?p=1283

PS: "Como o governo brasileiro enfrentaria o desafio econômico global sem a ajuda do PV?"

HAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHA!!!!!!!!!!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011 19:43:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

E é esse país que pretende realizar uma Olimpíada?

A indagação predileta do colunismo brasileiro desapareceu diante dos motins que abalaram as cidades britânicas. Governo fraco, polícia incompetente e brutalizada (a mesma que assassinou Jean Charles de Menezes), crise econômica, preconceito, desigualdade social, gangues de criminosos – todos os piores ingredientes do imaginário autodepreciativo das repúblicas bananeiras reúnem-se para desintegrar as ilusões do paraíso civilizatório europeu. De novo, e sem as desculpas fáceis de uma psicose individual.

Depois nós é que não merecemos abrigar efemérides internacionais. E somos nós, pasmem os senhores, que desprezamos nossas prioridades administrativas.

Enquanto os gênios colonizados tentam culpar os vilões de sempre (minorias étnicas e imigrantes), os analistas locais derrubam a teoria e acusam justamente as milícias brancas xenófobas pela exacerbação dos conflitos. Sobra até para o otimismo revolucionário de parte da esquerda, às vezes condescendente com certas pautas vazias das protestações contemporâneas, e que agora precisa engolir sua vanguarda jovem espalhando badernas como uma súcia de vikings embriagados.

E é importante salientar que, mesmo cercada pela selvageria, a combativa imprensa do Reino Unido jamais ousou condenar a realização dos Jogos Olímpicos ou questionar a capacidade do país para sediá-los.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/

quinta-feira, 18 de agosto de 2011 20:46:00 BRT  
Anonymous Orago disse...

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Pelo que vi em diversas entrevistas e comentários e considerando que o AMBIENTE ECONOMICO ESTÁ EM TUMULTO NO MUNDO INTEIRO, a Presidenta tenderá a adotar o método de administração japonês chamado KAIZEN...
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Kaizen significa "caminho dos degraus", também traduzido como "Aperfeiçoamento Constante"... ir melhorando os pontos fracos do processo de forma rotineira e constante... tipo uma medida de melhoria a cada semana ou mes...
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No fim de um ano, você estará bem melhor que hoje e abrindo vantagem sobre seus competidores...
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Pode chegar o ponto em que uma "reengenharia estrutural" ficará fácil de ser implementada, dando um salto evolutivo... mas não vai ficar esperando por isto... vai melhorando um dia de cada vez (degrau por degrau)...
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Por exemplo, se a mudança de taxação salvar as empresas que estão perdendo... ótimo... as que já estão ganhando não precisam de nada no momento... estão fortes...se safam sòzinhas...
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Vai chegar o ponto que uma reforma tributária pode ser feita e atender todos... mas nada de ficar esperando...
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É a estória do tigre: se um tigre estiver te perseguindo, você precisará correr mais que o mais lento na mesma situação... não mais que o tigre, o que seria impossível...
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No caso das industrias, vai ter algumas que não tem mais futuro... precisará ser ajudada a mudar de ramo ou abrir opção de remanejar seus empregados atuais...
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O FUNDAMENTAL É MANTER O EMPREGO E A SENSAÇÃO DE MELHORIA NO FUTURO... inflação, juros Selic, reservas é tudo teoria financeira... não ganha eleição...
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011 01:27:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Explicação, risível. Outro partido que também disse que quer "voltar à base do governo", é o PR. O interessante é que ninguém pode acreditar que o partido havia saído da base do governo. De todo modo, o governo deve estar à salvo. Já o Brasil...

Já o PV, retornar à base do governo para "ajudar no combate à crise econômica internacional", sem senadores para votar contra o novo Código Florestal, fica um tanto estranho. Além do que, o que o PV pensa sobre a crise, quais as medidas que propõe, concorda com os estímulos do pacotaço do governo recente, dentre outras coisas? Seria interessante saber. Quanto a apoiar o governo, pode apoiar o quanto e quem bem entender. Não faltarão motivos para rir.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011 16:27:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

1) Síria. Aos que criticam a reação das autoridades inglesas ao tumultos e se calam quanto à Síria, que vão passar um longo período na Síria. Sempre há um lugar para ser alvo de bombardeios. Ai, poderão contar como foi.

2) Aldo Rebelo no TCU, com apoio do governo? Antes ou depois da votação do novo Código Florestal?

3) Crise econômica. Além do forte apoio do PV e do PR, o governo pode ficar sossegado. Há também a preocupação do PSDB, com a renda dos mais pobres. E o compromisso do PSD, de votar tudo "que for pelo bem do Brasil e for consoante com o programa do partido", segundo falado por um prócer do PSD após visita à presidente. Há também os senadores preocupados com o isolamento da presidente em sua "faxina" contra a corrupção, que é gasto público super dimensionado. Pois bem: o PSDB não precisava ser tão afoito e compreensivo; o PSD, precisa mostrar seu programa; os senadores deveriam pugnar por CPIs, para colocar os corruptos à mostra e punir com rigor. E a crise? Bem, com base em tudo dito no item 3 acima, alguém duvida que a crise já chegou e vai ficar um tempo?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011 16:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo (quinta-feira, 18/08/2011 às 19h43min00s BRT)
Toda vez que eu leio essas afirmações categóricas sobre o futuro não se repetindo faz-me lembrar de uma historinha que eu li no início da década de 70 quando estava aprendendo inglês. Comprei alguns números do quadrinho Peanuts. Em uma das historietas, Linus ia sair de casa quando viu à frente da casa coberta de neve. Foi para o fundo da casa e começou a construir soldadinhos de neve. Subiu na sacada e olhando para os soldadinhos que ele construíra ele disse:
"Today the backyard, tomorrow the world".
Logo depois o sol se levanta e os soldadinhos de neve começam a se derreter. (Devem ter sido só uns seis quadros e a frase do Linus.
Não era pela falta de lógica que a história me pegou. Embora criança, o que Linus dissera era de uma lógica adulta. O que faltou a Linus foi a memória. Ele esqueceu que no verão o sol é escaldante. No verão o sol é forte como a prime rate é forte no período em que a economia americana está aproximando do pleno emprego. Quando ocorre de a prime rate elevar-se, cala-se tudo que a musa antiga canta.
Não vi nenhum economista dizendo o que eu digo há um bom tempo. Não sou economista, mas não me desesperei de não encontrar argumento de autoridade para me sentir com a razão. Francisco Lopes recentemente escreveu no Valor Econômico o artigo “Sobre risco cambial, besouros e borboletas” de 15/06/2011. Era o segundo de uma série de artigos sobre a conjuntura econômica atual, com foco maior nos problemas de câmbio, juros e inflação, feitos por renomados economistas a pedido do Valor Econômico. A tese de Francisco Lopes que pode ser expressa na frase a seguinte:
"A bolha de acumulação de reservas vai estourar em algum momento entre 2013 e 2015."
Era uma crítica mais dirigida à atual condução da política econômica do governo, mas o fundamento da crítica estava na expectativa que a partir de 2013 a prime rate americana iria se recuperar e desvalorizaria a moeda dos países em desenvolvimento e com isso o preço das commodities, como tem sido assim em toda recuperação econômica americana.
E vale à pena uma consulta ao post “Administração no varejo” de quinta-feira, 07/04/2011 para onde eu enviei um comentário sexta-feira, 08/04/2011 às 00h36min00s BRT. Se deflacionarmos, o preço do ouro, do petróleo, do café, preços que por uma razão ou outra eu sempre acompanhei mais de perto, verifica-se que os preços das commodities eram mais altos no final da década de 70 do que hoje. Aliás, se se olhar apressadamente vai-se dizer que no final da década de 70, a prime rate era alta o que desmentiria a tese. Na verdade o que era alta no final da década de 70 era a inflação e a prime rate embora alta não chegava a cobrir a inflação
Clever Mendes de Oliveira
BH, 20/08/2011

sábado, 20 de agosto de 2011 17:52:00 BRT  

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