terça-feira, 16 de agosto de 2011

Deu o óbvio (16/08)


Kirchner fez apenas o que qualquer empresário faz quando pega uma firma com um monte de maus negócios em andamento. Entre morrer agarrado aos contratos e exigir a renegociação deles, vai sempre pela segunda opção. Os resultados políticos estão aí

A presidente Cristina Kirchner venceu com facilidade o ensaio geral da eleição argentina marcada para outubro. Lá tem disso. Dois meses antes de ir à urna para decidir de fato, o eleitor precisa comparecer para um faz-de-conta.

A viúva de Néstor deu de lavada, confirmou os prognósticos. Os adversários ficaram na poeira. Apesar das recentes derrotas dos candidatos dela em eleições locais, em regiões importantes.

Lá como cá o eleitor não vota em bloco. Não mistura as coisas. Pode perfeitamente caminhar de um jeito para prefeito, ou governador, e de outro para presidente da República. A maioria do eleitorado não olha para partidos, mas para pessoas, linhas.

Os Kirchner conseguem recolher a confiança popular por uma razão singela. Porque a Argentina deixou para trás a bagunça econômica legada por etapas desastrosas sucessivas. Um trabalho de desconstrução nacional sistemático.

Da desindustrialização dos militares à fantasia cambial de Carlos Menem, passando pela hiperinflação de Raúl Alfonsín. Uma bagunça que culminou no colapso do governo de Fernando de La Rúa.

Que pagou o pato pelas maluquices acumuladas, não mostrou energia para montar o touro bravo e precisou sair pela porta dos fundos. Ou pelo teto. De helicóptero.

Aí veio Néstor Kirchner, eleito na onda antimenemista, e teve a coragem de dizer que a dívida argentina era mais que impagável, até por já ter sido paga.

E impôs aos credores um deságio forçado dos títulos. A banca e os representantes dela chiaram, como esperado, mas a situação do país legitimava a ousadia.

O sucesso político de hoje dos Kirchner apoia-se naquela ruptura. Naquela recusa a tratar o “respeito aos contratos” como religião.

Kirchner fez apenas o que qualquer empresário faz quando pega uma firma com um monte de maus negócios em andamento. Entre morrer agarrado aos contratos e exigir a renegociação deles, vai sempre pela segunda opção.

Ainda que na hora de tratar com o governo o mesmo empresário prefira rezar pela cartilha do respeito aos contratos a qualquer custo.

A partir daquele passo a Argentina pôde entrar na trilha do crescimento econômico robusto e com estabilidade.

É pouco? Para os argentinos parece ser muito, daí as seguidas vitórias eleitorais do kirchnerismo.

Falta ainda à Argentina um arcabouço institucional para perenizar esse progresso com estabilidade. O governo investe sistematicamente contra a imprensa. A cultura política do confronto produz turbulências periódicas.

E a inflação é desagradavelmente alta. Sem que ninguém saiba direito qual é o número de verdade.

Mas na comparação com o antes a dupla Kirchner vai longe na frente. Os números comprovam. E as urnas também.

Inexplicável

Dilma Rousseff adverte para o necessário cuidado com a nossa jabuticabeira, a árvore que fornece a maior taxa básica de juros e o maior spread do planeta.

Desculpe, leitor, se às vezes aqui a coisa fica meio repetitiva. Mas se os problemas são os mesmos não há muito como fugir.

No discurso das nossas autoridades o Brasil é um portento planetário. Aqui as crises não chegam, ou chegam só como marolinha.

As nossas contas públicas são exemplares, produto da disciplina fiscal que o governo cultiva com mão de ferro.

No entanto, o governo brasileiro é o que tem mais dificuldade para rolar suas dívidas. Para pegar emprestado precisa pagar juros maiores do que qualquer outro país.

Jornais e revistas já organizaram séries com intervenções de sábios. Seminários discutem aprofundadamente o tema. Papers acadêmicos mostram o produto da imensa energia intelectual investida no assunto.

E os especialistas têm lá suas explicações, sempre proferidas com jeitão de verdade absoluta.

Mas o problema continua no mesmo lugar. Sem uma explicação simples e direta.

De duas uma. Ou 1) somos tudo o que acreditamos ser e então os juros aqui são um escândalo ou 2) nossos juros são necessários e o surto pátrio de autoestima hiperbólica é apenas o retrato de uma farsa.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (16) no Correio Braziliense.



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5 Comentários:

Anonymous Orago disse...

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Quanto ao nosso juro da Selic...
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Acredito que ele esta aí para financiar os fundos de renda fixa.... garantindo os fundos de pensão, notadamente, os estatais.
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E, também, no financiamento do BNDES... inclusive, na penultima alta, quando os juros de empréstimos a longo prazo subiram junto com a Selic, houve uma "grita muito alta" de um comentarista na rede globo, que não se repetiu... algumas empresas devem ter penado...
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Para reduzir a demanda, as medidas macroprudenciais tem um impacto muito maior... pois mexem nos juros do dia a dia... a Selic é um juro anual (12,5%)... os cartões já estão cobrando isto por mês...
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Falar que a Selic mexe com a demanda do povão é uma piada...
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terça-feira, 16 de agosto de 2011 01:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É sempre bom falar sobre a Argentina, pelas diferenças que aquele país nos traz.
A Argentina ao contrário do Brasil, foi ao fundo do poço. Em razão disso pode destruir toda a herança maldita. O Brasil em razão do câmbio não ser fixo pôde ir ao Fundo. Para nós então o colchão do FMI cobriu o poço.
O partido Justicialista é proporcionalmente o maior partido do ocidente se se leva em conta também a fraqueza do adversário. No Brasil, o PT não consegue ter 30% da representação política brasileira. Se o PT destruísse a herança maldita, o partido não teria condição de governar com governadores fortes impondo a pauta à União. É o dito: há males que vêm para o bem.
E a Argentina de Fernando de La Rúa não pode ser comparada com a Grécia porque a Grécia tem dois caminhos: ou fazer o que a Argentina fez, mas para isso terá que sair do Euro, ou exigir a solidariedade da Europa que teria que assumir parte da dívida da Grécia de tal modo que a Grécia possa pagar a parte restante sem fazer um esforço que destruísse a economia grega.
Pensei que tivesse comentado no seu blog uma entrevista de Fernando de La Rúa ao jornal Valor Econômico de quarta-feira, 20/10/2010, e cujo título é “De la Rúa diz que FMI puniu a Argentina”. Fiz a pesquisa e só encontrei referência minha à entrevista junto ao post “Pesquisas” de 21/10/2010 de Na Prática a Teoria é Outra. O link do post é:
http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=7500
De um comentário meu número (#53) enviado em 21/10/2010 às 10:19 pm (O número, a data e horário só aparecem se não deixar o intensedebate baixar), eu retiro a seguinte passagem:
“Chamo a atenção para a entrevista por causa da resposta de F. de la Rúa para esta questão do Valor Econômico:
“Como atuou o Brasil?”
F. de la Rúa deu a seguinte resposta:
“Queria ter visto mais solidariedade na crise de 2001, quando o FMI atuou contra a Argentina e preservou o Brasil.”
A questão é por que o Brasil não foi solidário? Porque estava aos frangalhos depois de tantos desacertos de FHC ou porque o governo pensou que podia lucrar (Eleitoralmente) com a crise Argentina? A idéia na segunda hipótese é que se De la Rúa com toda a cultura levou a Argentina aquela situação, imagine a que situação levará o Lula.
A segunda hipótese é plausível, mas ela parte do princípio que o governo não pensou que a crise poderia virar contra o próprio governo. A desvalorização do Peso fez os produtos brasileiros mesmo após a desvalorização de 1999 (Em parte corrigida pelo juros altíssimos de Armínio Fraga) ficarem mais caros e, portanto, menos competitivos e forçou ainda mais a desvalorização de 2002.
De todo modo a segunda hipótese tem muita relação com o espírito PSDBista: vale qualquer coisa para ganhar uma eleição e solidariedade só a de mineiro.”

Bem e quanto à questão do juro no Brasil ser muito alto, a justificativa é muito simples e eu já a mencionei várias vezes aqui no blog. Talvez uma próxima vez eu traga uma relação desses posts. Penso que o juro alto está relacionado com o curto prazo da nossa dívida pública (Depois trago também a opinião de Gustavo Franco mencionando isso).
A razão de a nossa dívida ser de curto prazo é o que eu já disse várias vezes aqui no blog e alhures. Repito. A nossa dívida é de curto prazo porque acabamos com a inflação de uma vez em um ano eleitoral para eleger um presidente que não fora sequer presidente de um grêmio recreativo na juventude.
A razão necessária e suficiente para a dívida ser de curto prazo foi acabar com a inflação de uma vez. Eu dou sempre destaque para o restante da frase para mostrar que optamos por acabar com a inflação de uma vez não por incompetência, mas por oportunismo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/08/2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011 08:31:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Inexplicável marola, que faz a presidente vetar aumentos reais de correção de aposentadorias, previstos na LDO aprovada pelo Parlamento.

terça-feira, 16 de agosto de 2011 12:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Poucos recordam,por ser conveniente,pois,quando Nestor uniu-se à Cristina,ambos oriundos dos movimentos estudantis de oposição,lamentavam por ele a submeter-se a forte personalidade dela,reconhecidamente líder no seu meio. Mais tarde,a carreira de Nestor, deslanchou,tornou-se líder nacional e acabou presidente.Cristina sucedeu-o,tornou-se viúva e presidenta e as críticas já eram contrárias àquelas:não suportaria
a ausência do marido-tutor-conselheiro e certamente sucessor.
Lá como cá,pitonisas especialistas e da mídia, têm utilizado a mesma opaca bola de cristal. . .

terça-feira, 16 de agosto de 2011 13:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bandeira novinha em folha desfraldada pelos neo-udenistas:anticorrupção doa a quem doer.
À frente, com a fanfarras da moralidade em estridência de ensurdecedores decibéis o PIG, seguido de um cortejo de napoleões de Pinel,cuspidores de fogo,porque ninguém é besta de engolir,e lázaros com mandatos esquecidos.
Curioso,nada com Dilma ,o alvo, é Lula!

terça-feira, 16 de agosto de 2011 13:33:00 BRT  

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