terça-feira, 2 de agosto de 2011

De quem o sustenta (02/08)


Fôssemos um país normal o mundo político estaria atento à dança financeira, com a oposição cobrando o governo e este empenhado em explicar o que faz com o dinheiro dos impostos. E como vai dar um jeito na dívida

Enquanto assistimos, saquinho de pipoca numa mão e refrigerante na outra, à superprodução com a disputa política em torno da dívida americana, na sala ao lado meio vazia passa um filme talvez mais a ver conosco.

Uma legítima produção nacional.

Graças à elevação da Selic e também à inflação, só no primeiro semestre deste ano o Brasil gastou R$ 120 bilhões com juros.

Um crescimento de 30% em relação ao ano passado. Em proporção do PIB, um empate técnico na liderança, cabeça a cabeça com 2008.

Para pagar a conta, fizemos um espantoso superávit primário de R$ 80 bilhões, quase o dobro do ano passado, mas que entretanto não cobriu a despesa financeira.

Ou seja, apesar de uma certa austeridade, de segurar gastos (um pouco) e aumentar (muito) a carga tributária, o governo não escapou de fazer mais dívida para pagar juros.

Você que ganha salário mínimo ou está aposentado apertou o cinto, mas a situação apesar disso piorou.

Até porque a dívida anda cada vez mais cara, pois a Selic sobe para conter a inflação alta. E as duas são lenha na fogueira.

E também porque a capacidade de investimento continua baixa.

É verdade que os diversos agentes econômicos auferem parte da renda dessa ciranda. Há um erro na afirmação de que a despesa com juros é dinheiro que o governo dá exclusivamente aos banqueiros.

Pois o dinheiro que os bancos emprestam ao governo não é dos banqueiros, mas das pessoas e empresas que emprestaram aos bancos.

Eis também por que no Brasil o besouro voa com desenvoltura. A despesa financeira do governo é a receita financeira de quem emprestou dinheiro ao governo. E tem gente boa por aí mascarando com essa receita suas dificuldades operacionais.

Os bancos não são os únicos a viver de renda.

Mas é igualmente verdade que a explosão do gasto com juros cria grandes desafios a um governo instado a 1) desonerar a atividade produtiva, 2) elevar as despesas sociais, em particular na saúde e na educação e 3) aumentar sua própria capacidade de investimento.

Outra verdade é que o nível de juros pagos pelo Tesouro puxa ainda mais para cima o patamar das taxas desembolsadas pelas pessoas físicas e jurídicas.

O poupador ganha algum ao receber mais do governo pelo que lhe empresta. Mas corre o risco de ver esse ganho ir embora na fogueira do juro que paga, em qualquer modalidade de crédito.

Do consignado ao cheque especial.

E aí sim esse esforço adicional do governo acaba irrigando mais o bolso de quem já tem muito.

Fôssemos um país normal, o mundo político estaria atento à dança financeira, com a oposição cobrando o governo e este empenhado em explicar para o país o que faz com o dinheiro dos impostos.

E como vai dar um jeito na dívida. Pois a dívida do governo não é dele, é de quem o sustenta. É de cada um de nós.

Sócio

A onda de revoluções árabes fez envelhecer instantaneamente a política externa brasileira para a região. O que parecia importante se mostrou nem tanto e o que parecia irrelevante, a democracia, virou questão central.

Um a um os países vão se adaptando à mudança, com mais ou menos cautela.

O Brasil não.

É incompreensível o Brasil insistir em blindar no Conselho de Segurança da ONU o líder sírio, Bashar Assad. A esta altura, nosso país já é na prática sócio do carniceiro de Damasco na carnificina que promove contra seu próprio povo.

Uma página triste da nossa política externa.

Mapa

E a suposta e tão propagandeada “faxina” na Esplanada vai mostrando ser o que sempre pintou.

Operações pontuais para remover focos de poder orçamentário autônomo. E só.

Aliás, o mapa do poder poderá ser doravante rascunhado assim. Medindo se, e quanto, cada notícia se converte em escândalo. Ou não.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (02) no Correio Braziliense.



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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Melhor ser Dilma do que Obama, na atual conjuntura.Os números da economia nacional têm sua movimentação restrita na lousa orçamentária:nada indica índices metafísicos semelhantes a economia americana e sua esgrima medieval ,mouro versus cristão...Quanto ao imbróglio levantino,os bandidos nem sempre vestem albornoz,tampouco os mocinhos envergam terno&gravata,regularmente.
Há ou deveria haver, uma máxima doméstica que reza: sujeira encruada desista,substitua a faxineira pelo engenheiro.É radical mas resolve.

terça-feira, 2 de agosto de 2011 12:07:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Anônimo-terça-feira, 2 de agosto de 2011 12h07min00s BRT.
Nesse caso, não trata-se de ser melhor Obama do que Dilma, ou vice- versa. Lá nos EUA, Bush falhou. Foi defenestrado. Seu candidato, ou do seu partido, foi derrotado por Obama. Agora, Obama passa por problemas. Poderá ser trocado também. Aqui, pelo contrário, foi comprada uma ilusão de maravilha política e econômica por oito anos. Os problemas existiam, porém, era crime de lesa-pátria apontá-los. E a candidatura indicada pelo governo anterior, venceu. E poderá até ser reeleita a atual presidente. E os problemas de oito anos atrás, estão emergindo com força, em vários ângulos e caros. Se a vantagem for essa, os cidadãos dos EUA estão muito melhores.

terça-feira, 2 de agosto de 2011 14:46:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

1) Não faz tanto tempo e falava-se muito em ciranda financeira, como o mal encarnado. Isso gerou vários planos de estabilização e até um que congelou os ativos financeiros mais amplos. Todos falharam.
2) Agora, assiste-se a quê? Ciranda financeira rebobination: é a mesma, só que chamada de medidas anti-cíclicas.
3) Em suma, o buraco nas finanças está aberto. Notadamente, no saldo negativo das contas externas. Com o tempero da sobrevalorização cambial. Que afoitos, batizam de real valorizado pela pujança do País.
4) Realmente deve ser uma economia pujante. O governo, em dificuldades para fechar as contas, abre ainda mais os cofres, já combalidos, com desonerações e isenções.
5) Ou é um ato de genialidade, a descoberta do moto perpétuo em economia, ou é o que o ministro da Fazenda explicou: a diferença causada pelas isenções, será coberta pelo Tesouro. Interessante.
6) Com coisas assim na economia e nas finanças, quem tem cabeça para cuidar bem da política externa e da administração pública que virou um furdunço?

terça-feira, 2 de agosto de 2011 15:07:00 BRT  

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