terça-feira, 9 de agosto de 2011

Das palavras aos atos (09/08)


Se o Brasil está convicto do que diz o novo ministro da Defesa (e ele no ambiente atual certamente não sairia deitando falação sem combinar com a chefe), deve avaliar a sério a assinatura do protocolo adicional do TNP

Começou bem o novo ministro da Defesa, Celso Amorim, ao dizer que interessa ao Brasil manter o continente como área completamente livre de armas de destruição em massa. 

Contribui para afastar um pouco as dubiedades cultivadas no período anterior, quando o então chanceler Amorim e o chefe dele fizeram o mundo desconfiar de nossas intenções nesse tema.

A doutrina é sabida. Numa América do Sul estrategicamente pacífica nossa liderança é natural e nossa hegemonia, inercial. Nas redondezas ninguém compete conosco em território, população ou economia. 

Aliás, bastou o Brasil nos anos recentes inverter a lógica de dar as costas aos vizinhos que liderança e hegemonia se impuseram quase naturalmente.

Quem procura ter a bomba é para apontá-la na direção de alguém. Nós não temos contenciosos territoriais com os vizinhos, nem somos alvo nuclear da superpotência.

E a Amazônia ser cada vez mais brasileira depende principalmentende de outras políticas, econômicas e demográficas. E de defesa convencional.

Qualquer sinal brasileiro rumo à bomba desencadearia uma corrida regional, quando certamente alguns hoje parceiros iriam bater às portas de Washington atrás de proteção contra nós. 

Ingerência é tudo que não queremos. E do que não precisamos.

Quando o Brasil se meteu no imbroglio levantino, dando sustentação política ao jogo belicista de comprar tempo praticado pelos iranianos, despertou a dúvida razoável sob nossas próprias intenções. 

A transformação do TNP (Tratado de Não Proliferação) em letra morta cairia bem para um país, suportamente nós, incomodado por ter assinado o acordo.

E desconfortável por estar legalmente manietado nas ambições nucleares.

Estava na moda dizer, como fez o governo da época, que os detentores de tecnologia bélica nuclear não tinham moral para impedir ninguém de buscar o mesmo status.

Lógico, mas bizarro. Pois a consequência prática dessa linha seria uma corrida nuclear em escala global. O armamento nuclear generalizado.

A partir do qual ficaria certamente mais difícil promover o desarmamento generalizado.

E o risco de perda de controle dos estoques, o risco de disseminação, sofreria elevação exponencial.

Resta saber se a nova linha de Amorim é jogo de sedução, convicção ou decisão política de governo. Provavelmente uma combinação dos três vetores.

E a vida prática se encarregará de esclarecer qual deles pesa mais.

Para remover dúvidas, talvez fosse o caso, então, de passar das palavras aos atos. 

Se o Brasil está convicto do que diz o ministro da Defesa (e ele no ambiente atual certamente não sairia deitando falação sem combinar com a chefe), deve avaliar a sério a assinatura do protocolo adicional do TNP.

Protocolo que prudentemente aumenta o poder investigativo e fiscalizatório da Agência Internacional de Energia Atômica sobre os programas nucleares dos signatários.

E o certo seria dar esse passo no âmbito da Unasul, a união de países sul-americanos. Todos juntos.

Exatamente para garantir o cenário regional pacífico, que mais atende ao legítimo interesse nacional.

Corrida

O rebaixamento dos títulos americanos gerou uma corrida não contra, mas a favor dos títulos americanos.

Foram rebaixados e saiu todo mundo correndo para comprar. As bolsas desabaram e o dólar valorizou, pois o Tesouro americano faz dívida em dólar.

Ou seja, os investidores não concordam que tenha aumentado o risco de insolvência dos Estados Unidos. 

Mas concordam que o rebaixamento dos títulos americanos contribuiu para piorar o ambiente econômico planetário.

E o Brasil? Se o dólar subir um tanto, valerá mais que toda a conversa sobre política industrial. O problema será se subir o suficiente para apertar ainda mais a inflação, com ela já no teto.

Se bem que o teto, sabemos, já tinha deixado de sê-lo faz tempo.

A outra variável é o crescimento, mas não consta que o Brasil vá colocar o pé no breque. Vai ficar pendurado no crescimento mundial. Ou na falta de.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (09) no Correio Braziliense.



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6 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Olha, se é inegável que liderança brasileira é praticamente "osmótica" na AL e do Sul, por que cargas d'água, não foi a própria presidente quem deu as diretrizes em declarações sobre o assunto diretamente aos meios de comunicação nacionais e internacionais? Assim, a dubiedade anterior sobre o assunto continua. A diretriz foi da presidente, mesmo? Ou foi ato de voluntarismo do novo ministro? O que significa "manter a AL livre de armas de destruição em massa"? Armas de destruição em massa podem ser bacteriológicas, também. Gases. Podem ser a fome. E a nuclear. O pessoal do governo fala e o cidadão tem de ficar adivinhando de que raios se trata, afinal.

terça-feira, 9 de agosto de 2011 13:18:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

No que tange à crise econômica, o problema não é só nos/dos países ricos, EUA e Europa, Japão. A crise tem componentes internos poderosos e alavancadores, tal como, no caso do Brasil o desequilíbrio fiscal. Assim, não parece coerente, ou melhor, é incoerente, o governo falar que o cidadão pode continuar consumindo. Na realdade, todo mundo sabe que não. Em 2007/2008, foi a forma encontrada. Agora, não seria mais o caso de agir da mesma forma. Exceto se o governo emitir moeda de forma primária, de onde sairão os recursos para injetar liquidez na economia? Como ficarão os juros? Como ficará a inflação? Como ficará o R$ x US$? Então, o momento é de frear o consumo. Limitá-lo ao máximo absolutamente necessário e poupar. O crédito tenderá a encarecer mais, a inflação a subir.

terça-feira, 9 de agosto de 2011 13:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Estavam, pelo menos para mim, todos os pingos nos 'Is', até que me surpreendeu a ilação entre o acordo iraniano e a bomba A brasileira. Pelamordedeus...
Ismar Curi

terça-feira, 9 de agosto de 2011 19:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

PROVA DE VESTIBULAR DA UFBA/09, QUESTÃO 17, INDICA HAVER UMA AMAZÔNIA INTERNACIONAL, NA QUAL INCLUÍRAM TERRAS BRASILEIRAS
www.vestibular.ufba.br/docs/vest2009/gabaritos/Caderno2.pdf

quarta-feira, 10 de agosto de 2011 00:26:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Críticas pesadas contra a proliferação nuclear têm de existir sempre. Seja de quem forem. O que importa ser a bomba iraniana, americana ou brasileira? É a mesma besteira, asnice. O ministro atual da Defesa tem de ser claro sobre isso e não ficar com meias palavras. Aliás, quem deveria ser clara sobre isso seria a presidente. Agora, quem gosta de dar nacionalidade às bombas, ideologizá-las,que faça bom proveito no que sobrar dos cemitérios.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011 08:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ismar Curi (terça-feira, 09/08/2011 às19h36min00s BRT),
Creio que uma das maiores dificuldades da esquerda é poder assumir a coordenação de um ministério de segurança interna e externa. Sorte de a Dilma Rousseff poder escolher uma pessoa da esquerda. E o ministro Celso Amorim pôde ser essa pessoa porque como ministro das Relações Exteriores ele criou certo vínculo com as Forças Armadas. E esse vínculo aumentou exatamente quando o Brasil tentou meter-se, nas palavras de Alon Feuerwerker "no imbroglio levantino, dando sustentação política ao jogo belicista de comprar tempo praticado pelos iranianos. Tentativa no meu entender que originava do desejo de entrar na canoa da bomba atômica iraniana. Desejo que a meu ver se abriga preferencialmente entre os militares.
Bem, pelo menos era assim que eu percebia até o ano passado. Mas este ano, aqui no blog de Alon Feuerwerker eu manifestei minha surpresa com declaração vazada no Wikileaks de que Vladimir Putin teria desaconselhado Mahmoud Ahmadinejad a seguir os passos do Brasil no caso do uso da energia nuclear porque o Irã não ficava na América do Sul.
Foi assim que eu me expressei em comentário que enviei quinta-feira, 17/02/2011 às 23h59min00s BRST para junto do post "As freqüências do colonizado" de 13/02/2011 aqui no blog de Alon Feuerwerker no seguinte endereço:
http://www.blogdoalon.com.br/2011/02/as-frequencias-do-colonizado-1302.html
Então não vi razão para se surpreender com o que Alon Feuerwerker escreveu neste post.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/08/2011

domingo, 14 de agosto de 2011 20:21:00 BRT  

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