sexta-feira, 8 de julho de 2011

Tecnicismo impossível (08/07)

Quem ajuda a sustentar governos na democracia ou na ditadura quer retribuição em nacos de poder. Para abrigar os amigos e alavancar os negócios dos amigos

A crise no Ministério dos Transportes e a remoção do ministro desencadearam nova rodada de debates a respeito do chamado fisiologismo. É mesmo inevitável a discussão. Há entre nós a ideia consolidada sobre a vantagem de governos ditos técnicos.

Vacinados contra a política.

Eles só existem na imaginação. Combater a corrupção é vital. Imaginar que o sucesso nessa empreitada passa pela recusa à política é devaneio.

Governos técnicos são impossíveis na democracia, mas toda crise provocada pela revelação de malfeitos, ou por simples acusações, acaba retornando ao tema. Uma ficção conveniente.

A única certeza sobre governos técnicos é serem formados por políticos suficientemente espertos para vender o peixe. Até que o primeiro grande escândalo desmonta o teatro.

Aliás, são impossíveis também nas ditaduras. Principalmente. Quem ajuda a sustentar governos na democracia ou na ditadura quer retribuição em nacos de poder. Para abrigar os amigos e alavancar os negócios dos amigos.

Até que um dia a sociedade se cansa do monopólio do mando pelo mesmo grupo e resolve dar um basta. Pode ser com eleição ou, na falta dela, com revolução.

É o que se passa no mundo árabe. Países com muitas riquezas em que panelinhas se aboletam no poder para fazer negócios embalados numa suposta missão histórico-ideológica.

Há muito tempo as formações evoluídas encontraram o mecanismo mais eficaz para combater a tendência de o poder escorregar rumo à ilegalidade sistemática e orgânica.

É a alternância. Revezar os grupos, as panelinhas. Não deixar a rapaziada na zona de conforto.

A melhor maneira de impedir que o Estado passe a ter donos é cultivar as condições para que alguém diferente mantenha a possibilidade real de chegar lá.

Há as ferramentas de controle e punição do próprio Estado. Que devem ser usadas. A polícia, os promotores e os juízes estão aí para isso.

Infelizmente, toda autonomia tem um limite. É inevitável que as partes do Estado se deixem influenciar pela política.

O sistema perfeito de freios e contrapesos não existe. É utopia.

De vez em quando alguém pomposamente recorre à expressão “políticas de Estado, instituições de Estado e não de governo”, mas o discurso costuma vir para dar legitimidade adicional aos intentos de um governo qualquer.

E a regra vale em todos os patamares. Um sistema político é tão mais saudável quanto menos penoso e arriscado é fazer oposição. Nacional, regional ou local.

Vai mal

Por esse ângulo, a coisa no Brasil merece cuidados. Nota-se nos vários níveis o quase desaparecimento da oposição. Não a formal, mas a real. A fórmula corriqueira no Brasil destes dias é o governo sem contraponto.

O fenômeno tem mais visibilidade na União e nos principais estados, mas espalha-se por todo o território nacional. Uma gentileza aqui, uma emenda ali, uma canetinha acolá. E a coisa está resolvida.

A tendência não discrimina partido ou viés político-ideológico.

É raríssimo encontrar quem esteja disposto a ficar fora do jogo para construir seu próprio caminho à margem do poder.

Para começar, o sujeito precisa de uma legenda. Como as atuais têm dono, precisa de uma só para ele. Fica um pouco mais fácil se o objetivo é aderir. Mas se é construir uma alternativa, o risco é chegar à situação atual de Marina Silva.

Tendo que começar do zero. Não é para qualquer um.

E só uma sigla não basta, pois o sistema bloqueia a possibilidade de outsiders adquirirem massa crítica. Um bloqueio eficaz são as regras para a propaganda no rádio e na televisão e para os debates. Outro é a fidelidade partidária.

Nem ouvir falar

A comissão da Câmara dos Deputados que analisa a reforma política tem esperança de que o assunto seja votado ainda este ano. Mas há preocupação com a descoordenação entre deputados e senadores.

Outra preocupação é com as eleições municipais. A comissão decidiu que não fará nenhuma proposta de mudança para as urnas do ano que vem. A pressão das bases municipais prevaleceu.

Prefeitos e vereadores não querem nem ouvir falar em reforma política já.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (08) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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15 Comentários:

Anonymous Leo Quintino disse...

Estou com vontade de chorar! Quem sabe eu tiro no ouvido? O pior é que concordo com você. Porém, tem que haver uma saída. Me dedico esporadicamente a estudar a política e num futuro não muito distante estudarei a fundo e quiçá descobrirei que o Alon tinha profetizado a desgraça do Brasil. Não posso aceitar seus argumentos como imutáveis. Mas, ainda tenho argumentos contrários. Triste.

sexta-feira, 8 de julho de 2011 22:01:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Governo técnico foi o que teriam tentado os militares, nos idos de 64 até 85. Com maior ênfase nessa tecla, nos anos 70, quando os ministros foram chamados de "super ministros", pela ilusão criada de que os políticos não sabiam governar. Teriam sido responsáveis pelo que motivara a entrada dos militares, por 21 anos, em cena. E pelo subdesenvolvimento. Pura balela: todos haviam sido responsáveis pelo subdesenvolvimento de então. Na realidade, era a velha politica, só que realizada sob a tutela da força. Hoje, também, não valeria tal argumento, como muito bem aborda o post. Vale a velha política de sempre. Com a diferença de que operada de forma, incrível, pior que no período de 64 a 85.

sábado, 9 de julho de 2011 12:14:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Quanto às reformas, melhor que parem de dizer que as estariam pensando. No mínimo, estariam, mesmo, é avaliando o quão grande é o vazio político que está sendo criado por um governo fraco e um chefe de executivo sem muitas capacidades de mudar o rumo das coisas. Se por um lado, isso poderia favorecer o surgimento de algumas capacidades novas, por outro, revela o pior cenário: não está surgindo ninguém capacitado para tocar as coisas. Ou seja, que reforma sairia de um laboratório tão insalubre como o atual?

sábado, 9 de julho de 2011 12:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Existe uma questão de fundo, e nesse caso o fundo é sempre político, então, não há dúvidas sobre se existe ou não um governo técnico, simplesmente não existe. Quem conhece Hanna Arendt da Condição Humana sabe que: ao homem que faz, ou seja, o técnico, no máximo é dada a licença de ser apolítico apenas no momento do afazer, e, a ninguém será possível ser anti-político, na medida em que a política abrange tudo. Quer dizer toda vida sociedade. Talvez antes quando não se habitava a pólis, mas a floresta, se dispensasse a política. Agora nossa atualidade dominou tão completamente a natureza que passamos a discutir politicamente um código tão técnico como o florestal.
Ismar Curi

sábado, 9 de julho de 2011 14:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Outra coisa: sobre as questão da falta de oposição, ou, da dificuldade de se fazê-la no cenário atual, - discordo no no varejo, e, principalmente no atado: no varejo (conjuntural)porque me parece que o motivo da fraqueza da oposição é puramente ideológico, o projeto deles está em crise, - situação do neoliberalismo, não apenas em escala nacional, mas, mundial, daí que a razão é concreta e não imprecisa como figura no texto. No atacado (estrutural) então, você deixa em branco a questão histórica e o fim das ideologias que a emergência do neoliberalismo proporcionou, e que os próceres do capital denominaram com o acróstico TINA (There Is No Alternative) o que determinou exatamente a idéia do fim de qualquer oposição política, o que felizmente foi desmontado com a crise atual.
Ismar Curi

sábado, 9 de julho de 2011 18:19:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O melhor do post, é o fecho. Um sistema político é tão mais saudável quanto menos penoso e arriscado é fazer oposição. Nacional, regional ou local. Isso mata a charada. A ideologia mais avoenga, ainda persegue hegemonias através de mistificações. O reparo que cabe fazer. As oposições não estão impossibilitadas de fazer seu trabalho. Na realidade, estão sendo derrotadas, neste momento.

domingo, 10 de julho de 2011 10:45:00 BRT  
Anonymous Orago disse...

Separaria neste modêlo de Gestão do País, 4 grandes camadas... que se misturam e interpenetram, fornecendo os sabores, ora mais politico, ora mais técnico...
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1. Camada de Poder Real, ideológico e/ou economico... está acima de tudo e todos, geralmente invísivel...tem influência direta no Governo, na Iniciativa Privada, nas Ordens Religiosas... em tudo... É a camada que dá as Macro-diretrizes de seu interesse para o Mundo e para cada país em particular...
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2. Camada de Poder Político, dentro do país, a serviço do grupo acima, que se encarrega das "decisões", notadamente no Poder Legislativo e Judiciário... Implementa as leis e jurisprudência necessária ao atendimento dos interesses que abraçam... TODA DECISÃO É POLITICA ou FAZER POLITICA É TOMAR DECISÃO..
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3. Camada de Poder Executivo, que manobra o método e a técnica de realizar obras e outros feitos necessários aos interesses, notadamente os economicos, do Grupo 1 e 2...É a burocracia estatal, profissional e, também, quase que a totalidade dos Empreendimentos da Iniciativa Privada. O Estado, o que chamamos de UNIÃO (Federal, Estadual e Municipal) está sempre concatenado e sincronizado com a INICIATIVA PRIVADA... Não dá para analisar um sem o outro...
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4. O POVO, a quarta camada, que hoje tem homologado o direito de escolher seus representantes... é, o menos ativo no dia a dia, mas tem que ser satisfeito para continuar mantendo os "representantes eleitos" das camadas 2 e 3. É mais ou menos envolvidos no resultados concretos da riqueza gerada, mas sempre é "cabulado" para dar seu voto via uso de técnicas de persuasão sentimentais, com a busca de obliteração da razão...
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Usando esta modelagem:
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Na época dos militares, a enfâse maior foi no FAZER, a enfâse técnica... Isto foi facilitado porque era uma época de reestruturação, com necessidades de obras e reestruturação legislativa muito fortes... Hoje, a infraestrutura já atende as necessidades básicas de crescimento e o fazer "feijão-com-arroz padrão" já está no piloto automático...
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Tivemos uma grande mudança idelógica, que está sendo absorvida na Camada 1 Nacional, que expande a distribuição de benefícios sociais para além da simples meritocracia... Aceita-se, após a CF88, que isto seja um direito e não apenas um privilégio e o POVO (4 camada) está atento a seus direitos... E isto está mudando todo o equilibrio decisório na Camada Política e o fazejamento está se adaptando aos novos tempos...
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O Governo Dilma já se mostra como o inicio do retôrno de uma enfase mais técnica para implementar esta mudança... até que, o pendulo volte a apontar para uma meritocracia mais forte (a volta para "valorizar os preparados e os ambiciosos")... onde nova agitação política predominará...
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Como sempre, vale a Lei da Curvatura da Vara: excesso de enfâse numa direção, forçando as fibras da madeira, para que quando fôr solta, retornar para antes da posição anterior, realizando a mudança esperada...
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segunda-feira, 11 de julho de 2011 12:58:00 BRT  
Anonymous Orago disse...

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Para o Ismar Curi
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Como você assina seu comentário de Anonimo, uma dica...
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No pé dos comentários, escolha a opção Nome/URL...
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Lá você poderá colocar o seu nome e deixar a URL em branco, porque é opcional..
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Ai, seu nome aparecerá no cabeçalho, como: Ismar Curi disse...
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Estes sites estrangeiros tem uma cabeça meio complicada... demorei para descobrir isto...
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Abçs
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segunda-feira, 11 de julho de 2011 13:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Esse assunto me interessa bastante. Se tivesse aguardado um pouco mais teria consertado os erros dos comentários que eu envie para o seu post anterior "Fim de linha?" de quinta-feira, 07/07/2011 e os enviado para cá.
Pensei quando li este post "Tecnicismo impossível" sexta-feira, 08/07/2011, em trazer para cá um comentário que eu enviara em 11/05/2009 às 02h18 para o post "Recado ao deputado" de 07/05/2009 às 18h29 no antigo blog de Pedro Doria tentando justificar a um comentarista do blog o que eu queria dizer quando escrevi:
“Ninguém mais competente que os políticos e ninguém é mais incompetente que os técnicos, tanto é assim que quem manda no mundo são os políticos e não os técnicos”.
O meu comentário explicando a frase é o de número 103. Na minha explicação eu não faço referência crítica aos modelos tecnocratas muito em voga no final da década de 60 e que podiam bem ser representados pela figura de Herman Khan, mas reconheço que muito do que eu digo tem a ver com a crítica, que eu incorporei talvez até sem um pouco de senso crítico, que se fazia aquele representante de algum Think Tank americano e na época visto como o supra-sumo do tecnicismo.
No entanto, o comentário de Orago de domingo, 10/07/2011 às 10h45min00s BRT leva-me a fazer outras observações. A frase em que eu dizia sobre a superioridade do técnico é do final da década de 80, mas mesmo lá eu reconhecia que o conhecimento não deveria ser desconsiderado. E mais recentemente eu falo de muitas normas que são impostas ao mundo político pelo conhecimento científico dos técnicos. É o caso de estabelecer que 30% dos gastos públicos devem ser destinados à educação. É também quase todas as normas de finanças públicas impostas aos países da União Européia tais como, o déficit público não deve ser maior do que 3% do PIB, a dívida pública não deve ser maior do que 100% do PIB, a inflação anual não deve ser superior a 3%, sendo essas a que eu lembro.
Fiz esse complemento as minhas idéias porque considerei muito boas as observações de Orango salvo ele ter dito que existiria uma Camada de Poder Real, ideológico/econômico/invisível, encarregado de dar as macro diretrizes para o mundo e para cada país em particular. Creio que o que há são normas técnicas impostas por políticos muitas vezes até pelo próprio temor de não ser competente suficiente para administrar um país ao seu talante. Assim, o político prefere que alguma norma estabeleça para ele uma conduta de tal modo que ele não se sujeite a pressões que ele não tenha força para enfrentar. É o caso europeu e é o caso da independência dos Bancos Centrais estabelecendo um mandato para o presidente do Banco Central. É também o caso das regras do Regime de Metas de Inflação. Não se quer inflação não porque seja ruim para a economia, mas não se quer a inflação porque se sabe que não se tem habilidade suficiente para enfrentar a revolta popular pela insatisfação diante de índices mais altos de inflação.
E não se trata de ordens superiores estabelecendo essa conduta para o país, mas sim dos interesses manifestados pela camada política ainda que, pela ineqüidade da representação, mais poderes sejam concedidos a quem já desfruta de muitos poderes.
É claro que há situações que fogem a uma tentativa de racionalidade. Sobre isso cabe lembrar um momento em um curso de Direito que eu fizera um pouco mais tarde no final da década de 80 em que em uma aula de Introdução ao Estudo do Direito, um professor falando sobre soberania salientou que tudo que ele dissera pedia a importância quando se recordava que em 1979 quando Paul Volcker subiu o juro americano, e os preços das commodities despencaram, nos países da periferia, o conceito de soberania muitas vezes expresso no valor da moeda própria, fora para o beleléu.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/07/2011

terça-feira, 12 de julho de 2011 00:05:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, é perfeita sua definição de política (a disputa, dentro de um grupo, por um naco maior, ou não menor, dos recursos disponíveis para o grupo), bem como a ilação de que ela está sempre presente nos negócios humanos. Mas em alguns momentos você parece comprar a idéia de uma contraposição irredutível entre o que é político (fisiológico) e o que é técnico, e confundir política com democracia. Mas a política existe mesmo em governos despóticos, a diferença está na transparência (é mais fácil saber o que pensa e faz o gabinete de coalizão britânico do que o que se passa no comando do PC Chinês, por exemplo) e na capacidade de trocar o grupo no comando, como você diz. Mas a política, no sentido acima, existe em toda parte: no trabalho de qualquer espécie, em casa, na escola ou na vizinhança. Quem nunca ouviu falar em panelinhas a propósito de qualquer grupo relativamente estável? Ou em futricas de corredor? Ou em escaramuças palacianas? Alguém acredita que quando uma “agencia reguladora” do que quer que seja (de fato criada para agradar um segmento da burocracia caro ao governante de plantão, mais política...), precisa preencher um cargo intermediário de comando, estabelece sempre um processo isento para avaliar o mérito de cada candidato? A política antecede mesmo nossa existência como espécie (terminei há pouco um livro que recomendo com entusiasmo – “Eu, primata” de Franz de Waal, pela Cia. das Letras –, nossos primos também competem pelo poder dentro de suas respectivas comunidades, inclusive selam alianças, e o “poder” corresponde basicamente a mais comida e sexo, mas também mais afeto e prestígio). Então, alguns de nós somos “técnicos”, no sentido de detentores de um saber especializado, mas todos somos políticos. A contraposição entre decisões políticas e técnicas é falsa, mas tem uma força extraordinária, entre nós brasileiros, como ideologia. Uma ideologia dominante, que atende a um segmento facilmente identificável, que detém inclusive um partido político (ainda que decadente, talvez uma UDN indestrutível, enquanto estivermos condenados aos moldes getulistas). O mesmo segmento, claro, ao qual interessa um Congresso prostado, e ao qual é bastante útil (apenas para alfinetá-lo, Alon, com a sua permissão, mas sem incluí-lo no grupo), um confuso sistema eleitoral simultaneamente proporcional e nominal. Fazendo repousar todos os nossos males em políticos venais e seus eleitores, curiosa democracia. Mas se temos a alternância no poder e certa transparência sobre o que se passa no mundo da grande política (uma imprensa livre), porque persiste a corrupção crônica e difusa? Chamemos pelo nome, fisiologismo é uma palavra equívoca: ou bem uma nomeação atende uma reivindicação política legítima, ou bem visa à corrupção, mas o equivoco da palavra também é funcional para aquela ideologia: facilita o circo, um falso confronto político onde cada lado torce as poucas evidências segundo seus interesses, e onde o debate político se resume a acusações e defesas. A resposta mais comum dada à questão acima me parece correta, mas parcial: a impunidade. Parcial, porque precisa ser explicada: ela repousa em um judiciário moroso e formalista, mas também em um aparato de investigação (polícias e Ministério Públicos) ineficazes. Adoramos fazer leis, sem nos preocupar em fazê-las cumprir, em saber se (e como) vão pegar. Em suma, um imenso aparato burocrático mantém como refém um governo a quem deveria obedecer (e único elo entre o eleitor e o serviço público de que necessita), não fazendo o dever de casa e acusando a política de atividade abjeta (enquanto faz política de fato). A propósito, o Procurador Geral da República, um técnico eminente (sem sombra de ironia aqui), em seqüência de sua recondução ao cargo, encaminhou ao STF o pedido de condenação dos “mensaleiros”, em um documento de 400 páginas que tenho preguiça de enfrentar para constatar que não traz nada de novo. Estaria a passar algum redado para alguém? Claro que não, maldade a minha sugerir que haja qualquer ligação entre uma coisa e outra, não é mesmo?

terça-feira, 12 de julho de 2011 14:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (terça-feira, 12/07/2011 às 14h31min00s BRT),
Primeiro uma transcrição que eu creio ser bem pertinente e torcer para que ela não contrarie o Alon Feuerwerker.
Naquele tempo disse Thomas Mann a seus discípulos:
"In our time the destiny of man presents its meaning in political terms"
E W. B. Yeats versificou:
"Politics
How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or an Spanish politics?
Yet, here's a travelled man that knows
What he talks about,
And there's a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war's alarm's,
But O that I were young again
And held her in my arms!
- x - x - x -
Bem, achei interessante o seu comentário, mas tenho algumas restrições a alguns dos seus argumentos. Diz você quase ao início:
"Mas a política existe mesmo em governos despóticos, a diferença está na transparência (é mais fácil saber o que pensa e faz o gabinete de coalizão britânico do que o que se passa no comando do PC Chinês, por exemplo) e na capacidade de trocar o grupo no comando, como você diz."
Se a transparência for fruto da liberdade de imprensa é claro que você tem razão. No entanto, mesmo sem levar em conta o que ocorre atualmente na imprensa londrina com o escândalo do tablóide News of the World, não seria possível questionar se a transparência não seja decorrente de uma ação impositiva e que ela possa estar mais presente em um país ditatorial como a China do que em um país democrático como a Inglaterra?
Você poderia argüir sobre a razoabilidade em dizer que a ditadura tenha mais interesse em transparência do que a democracia. Eu sei que você tem razão, mas antes gostaria de indagar se não seria interesse de um ditador para mostrar a superioridade dos seus atos mostrá-los em toda a extensão? Enquanto a democracia, para não revelar a fraqueza dela tenha interesse em não dar transparência aos atos que com base nela são praticados?
Outro ponto no seu comentário para o qual eu tenho resistência é a forma como você o finda fazendo crer que o que há de ruim na política brasileira o é assim somente no Brasil. Corrupção é um mal da nossa sociedade e existe no mundo todo. Até mesmo onde os casos descobertos são tratados da forma mais severa possível como com a pena de morte o que cria um sistema de injustiça inimaginável em que os que são pegos são eliminados e os que não são pegos vivem no bem bom, a corrupção persiste.
Também critico os que vêm no termo fisiologismo um caráter equívoco. Procurei tratar sobre isso junto ao blog ‘politicAetica’ (ou de Pax), ainda na época da votação da Lei da Ficha Limpa, em post intitulado "Vaccarezza, não suje mais o PT" de 07/04/2010. Nos comentários que enviei para o post, eu pude desenvolver bastante as minhas idéias sobre o fisiologismo. O post pode ser encontrado no endereço:
http://politicaetica.com/2010/04/07/vaccarezza-nao-suje-mais-o-pt/
Deixo-o com o link porque ele não aparece quando se faz a pesquisa no google, embora já tenha feito a indicação aqui em post mais antigo E lembro que em meu comentário de terça-feira, 12/07/2011 às 00h05min00s BRT, eu indiquei o post "Fim de linha?" de quinta-feira, 07/07/2011 porque lá eu faço menção a um post mais antigo de Alon Feuerwerker onde o tratamento que ele dá ao fisiologismo é semelhante ao que eu considero como válido. Indico novamente o post "O darwinismo político e o suicídio da elite" de quarta-feira, 09/08/2006 porque nunca li algo tão próximo do que eu penso.
Termino aqui, mas espero voltar a outras discordâncias que tenho com o seu comentário.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/07/2011

terça-feira, 12 de julho de 2011 23:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (terça-feira, 12/07/2011 às 14h31min00s BRT),
A maior crítica que eu tenho ao seu comentário é a idéia de que se possa ter política em ditaduras e em governos técnicos. É bem verdade que tudo depende da definição. Considero política, democracia e fisiologismo basicamente como termos sinônimos e significando a atividade de compor interesses conflitantes em torno de recursos escassos pela via consensual.
No extremo em um governo eminentemente técnico toda decisão seria tomada via uma regra técnico-científica que definiria claramente como o recurso seria repartido como, por exemplo, estabelecer que 30 % dos recursos seriam para a educação.
Em um governo totalmente ditatorial, não haveria também o toma-lá-dá-cá da política fisiológica democrática porque o ditador possui a solução exata para cada distribuição de recurso e ao hierarquicamente subordinado apenas resta cumprir a decisão.
E vale ressaltar que o primata com menos conhecimento técnico do que o homo sapiens seria mais político à medida que recorreria menos a norma para a tomada de decisão. É claro que ele poderia ser menos político à medida que não fosse capaz de chegar à decisão consensual.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/07/2011

terça-feira, 12 de julho de 2011 23:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (terça-feira, 12/07/2011 às 14h31min00s BRT),
Meu comentário enviado terça-feira, 12/07/2011às 23h35min00s BRT, não aparecera até ontem à tarde e pensei que fora censurado. Ia substituí-lo repetindo alguns pontos que eu lembrava e que havia apresentado no comentário supostamente censurado e acrescentar outros. Entre os acréscimos, eu dizia que a "contraposição irredutível entre o que é político (fisiológico) e o que é técnico, e confundir política com democracia" não me parecia uma característica específica de Alon Feuerwerker neste post. Há posts recentes e mais antigos com os mesmos argumentos. E eu voltava a indicar os post que eu apresentei em meu comentário supostamente censurado.
Aproveitei também para discutir a duplicidade de sentido do termo fisiologismo. Tomo como se ele não gerasse equívoco. Reconheço, entretanto, que considerar fisiologismo como a defesa do interesse do representado pelo representante acima e antes de qualquer outro interesse é apenas meu desejo e meu entendimento. No dia a dia fisiologismo tem realmente significado duplo. Um significado como eu disse e outro que é praticamente um tipo penal, pois significa atuar como representante na defesa do próprio interesse. Esse significado pejorativo, entretanto, não deveria ser considerado um significado válido. O pior é que mesmo no sentido não pejorativo ele só não é visto como uma pecha por uma meia dúzia de três ou quatro.
Agora, considero que esse uso equivocado do termo fisiologismo só prosperou pelo caráter pouco técnico das redações jornalísticas e pelo bom proveito que os que querem mandar (Produzir uma lei orçamentária) sem serem questionados (sem que a lei orçamentária sofra emenda) obtêm ao acusar de fisiológicos aqueles que ousam dar roupagem diferente (acrescer uma emenda) ao mandamento que lhes fora imposto.
Digo bom proveito porque não se trata de proveito proibido por lei. Pode até ser proibido pela ética, mas o processo de composição de interesses conflitantes por ser um processo de luta feito por representantes e não pelo próprio dono do interesse não pode ser conduzido por princípio ético.
Assim, agir com oportunismo acusando outros de fisiológicos é quase uma obrigação de quem exerce a atividade política.
No governo de José Sarney iniciou essa acusação de fisiologismo aos políticos que não tratavam com mais relevância o interesse maior da nação. Alguém que conhecia a realidade americana deve ter mostrado aos críticos do fisiologismo que nos Estados Unidos onde se alegava que havia mais democracia era também onde mais o fisiologismo se destacava. Paulatinamente, passaram a utilizar o termo para aqueles que na política defendiam o interesse particular deles. Isso, entretanto, é crime e quando sabido deveria ser denunciado. Se, entretanto, fisiologismo tivesse esse significado pejorativo configurativo de um tipo pena quem acusasse outro de fisiológico estaria cometendo uma calúnia passível de sanção penal.
E faço agora alguns acréscimos na definição que eu dei de política, fisiologismo e democracia no comentário que enviei terça-feira, 12/07/2011 às 23h58min00s BRT, logo em seguida ao comentário supostamente censurado, mas que aparecera na caixa de comentários ainda na manhã da quarta-feira. Transcrevo a minha definição com os acréscimos em maiúsculas:
Política, fisiologismo e democracia significam o processo ou atividade de compor interesses conflitantes em torno de recursos escassos pela via consensual VISANDO AO BEM COMUM E REALIZADO PELOS REPRESENTANTES.
A questão do bem comum é que ele não é definível. Quando o é não há política, mas decisão técnica. Assim a definição pára na via consensual. Quanto aos representantes eles são imprescindíveis na definição. Na democracia direta não há política. Há decisão que obedece à regra matemática: metade mais um. É a ditadura da maioria. Não é processo, pois se efetiva por atos estanques. Não há composição, não há barganha, não há fisiologismo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/07/2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011 22:41:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Clever, admiro sua coragem, se é que o entendo corretamente. Você não recua da conclusão lógica a que leva sua premissa de um governo técnico: um governo autoritário. Admiro também o que me parece ser certa ingenuidade, porque sem um olhar ingênuo não vamos enxergar o novo, e estaremos condenados a repetir a cantilena alheia, o que a grande maioria faz. Mas essa coragem e essa ingenuidade, esse entusiasmo, estão a serviço do que me parece ser um grande equívoco: a infalibilidade da ciência e a possibilidade de tratar tudo de maneira isenta, “técnica”. Primeiro, a ciência pode dizer muita bobagem que pode ser desmascarada no momento seguinte, a ciência é uma hipótese provisória, precária, apenas que, provavelmente, seja a melhor que possuímos a cada momento. Segundo, a ciência não consegue abarcar tudo: lembra da crise econômica de 2008, provocada por “brancos de olhos azuis”, segundo o presidente de então? Melhor que essa referência racial, mas com certeza provocando entre nós uma reação muito mais virulenta, seria apontar com mais precisão os culpados: possivelmente o exército com a maior proporção de “PHDs top”, formados nas mais renomadas escolas, e recebendo os maiores salários que Wall Streat e Washington podem pagar. Terceiro, há questões que estão fora da esfera da ciência: dizer que todos os homens são iguais (não estou aqui interessado em fronteiras raciais, claro) é pura ideologia, mas é um princípio norteador essencial à democracia. Mas você justamente está denunciando a democracia em nome de um governo técnico. Eu, pelo contrário, digo que o governo hoje é dominado por técnicos que usam de seu pretenso saber para impor soluções, sem muita preocupação com o que acontece ao longo deste país continental, inclusive sem muita preocupação sobre se suas soluções funcionam ou não de fato, para além da pose que fazem na grande imprensa (o outro setor fortemente beneficiado por nossa estranha democracia).

sábado, 16 de julho de 2011 09:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (sábado, 16 de julho de 2011 09h26min00s BRT),
É você entendeu equivocadamente. Eu penso algo, não consigo expressar na escrita exatamente o que pensei, você não lê com a modulação que eu imaginei presente nos meus escrito e entende algo bem diferente (Por isso na escrita precisa os parágrafos têm que ser curtos, pois há menos espaço para equívocos nas palavras e há menos espaços para modulação).
Que fique claro: tenho um medo muito grande de ter coragem ou mesmo de me apresentar como corajoso. E não gostaria de ser ingênuo, mas ver em mim coragem e ingenuidade é-me demais preocupante, pois penso que coragem e ingenuidade andam juntas.
Trouxe o poema de W. B. Yeats apenas para lembrar que há os que vêem em tudo política e há os que não vêem. Eu resolvi essa questão dando um significado específico à política de tal modo que ela e democracia se assemelham e de tal modo que o fisiologismo seja imprescindível a realização da democracia.
Não disse que um governo técnico leva a um governo autoritário. Penso que, no extremo, um governo técnico não leva à política, pois todas as decisões seriam como que informatizadas, isto é, surgiria do cálculo de um computador. Algo como o país vai arrecadar 35% do PIB, de tais e tais empresas e vai gastar tanto em tais e tais projetos, programas e atividades.
Dei muito destaque a sua abordagem sobre a transparência apenas porque me parece que a transparência pode ser uma exigência técnica. E um governo autoritário pode ser também um governo técnico. E assim, a sua afirmação de que a distinção entre um governo democrático e um governo despótico estaria na transparência seria questionável.
Não acredito na infalibilidade da ciência e tomei a possibilidade de tratar tudo de maneira isenta, “técnica” apenas para a argumentação. No extremo um governo técnico será um governo de máquinas (Como se determina a inflação que o país vai ter? Pelo regime de metas de inflação segundo a regra de Taylor). Como gosto de mencionar quando me refiro a ideologia de Alon Feuerwerker, sou como ele: de esquerda, nacionalista (Já mencionei que me acho menos nacionalista do que ele) e democrata.
E sou um democrata que não acredita na regra técnica (técnica porque é regra) de que “governo bom o povo põe e governo ruim o povo tira”, mas mesmo se se demonstrar que o governo técnico é bom e fica, eu me posicionaria contra o governo técnico porque acho que o valor da igualdade que o modelo democrático pressupõe é valor maior a que devemos nos ater.
Bem, é claro que a realidade é bem diferente dos extremos que eu utilizei para argumentação. Por quase vinte anos o Consenso de Washington imperou impondo dez regras que boa parte dos países pobres seguiu. Assim, sei que no dia a dia não só há a presença técnica no mundo democrático como pode ocorrer o que você disse na sua denúncia final:
“o governo hoje é dominado por técnicos que usam de seu pretenso saber para impor soluções, sem muita preocupação com o que acontece ao longo deste país continental, inclusive sem muita preocupação sobre se suas soluções funcionam ou não de fato, para além da pose que fazem na grande imprensa (o outro setor fortemente beneficiado por nossa estranha democracia).”
E quanto a imprensa é claro que o técnico, que normalmente não possui o carisma necessário ao político, tente fazer uso dela. E que até consegue levar muitos a procurar, por exemplo, a corrupção onde ela não está. Este é o assunto do post deste domingo, 17/07/2011, intitulado “Probabilidade nula”, aqui no blog de Alon FEuerwerker. Parece-me que a técnica Dilma Rousseff, que não tem o carisma dos nossos grandes políticos, ou com o carisma d um Marechal Lott, vem usando com sabedoria a imprensa.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/07/2011

domingo, 17 de julho de 2011 10:53:00 BRT  

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