domingo, 24 de julho de 2011

Qual é o escopo? (24/07)


Na crise dos Transportes a presidente vem riscando o chão a faca. Pintou a dúvida está demitido. É popular mas estabelece um padrão. Doravante a comparação não mais será com o “cadê as provas?”. Será com o “cortem-lhe a cabeça”

A novidade na crise dos Transportes é o Palácio do Planalto nela ter surfado para concentrar poder, como já se escreveu aqui. Não apareceu a acusação de as revelações fazerem parte de uma operação política contra o governo, para desestabilizar o governo.

E a coisa ficou facilitada pelo alvo ser um partido secundário na coligação, o PR. Nada que vá chacoalhar de fato a aliança dilmista. Haja o que houver com o PR a vida seguirá. Políticos não são lemingues, não correm solidariamente rumo à morte certa. A espécie não é solidária.

Restou porém a curiosidade legítima sobre a abrangência do método. Na terminologia da moda, falta saber o escopo da linha palaciana.

Não é crível que o Ministério dos Transportes seja uma ilha de problemas, então qual será a abordagem dos cenários trazidos por novas revelações embaraçosas?

Agirá o Planalto com a mesma rapidez e crueza quando o alvo for uma pasta comandada pelo PMDB? Ou pelo PT? Reproduzirá a estratégia de cortar fora inclusive tecidos sãos para evitar a permanência de coisa ruim no organismo?

A verdade é que Dilma Rousseff se depara com uma oportunidade de ouro. Tem apoio da opinião pública -entendida como o pessoal que julga dominar a opinião pública- para tratorar qualquer aliado incômodo sobre quem recaiam suspeitas de andar fora da linha.

Não parece haver obstáculos significativos à iniciativa da presidente de assumir o controle absoluto do próprio governo. Ela tem aval externo para isso.

Mas a associação costumeira entre crise e oportunidade é verdadeira nos dois sentidos. Se toda crise embute uma oportunidade, toda oportunidade também carrega dentro dela o embrião da crise, entendida como conflito agudo do novo com o velho.

Afinal Dilma foi eleita pelo arcabouço político-administrativo que agora cuida, aparentemente, de demolir. E o arcabouço a apoiou na eleição imaginando a continuidade.

Os motivos e as intenções importam menos. Valem os fatos. Na crise dos Transportes a presidente vem riscando o chão a faca. Na dúvida está demitido. Eis um fato.

É popular mas estabelece um padrão. Doravante a comparação não mais será com o “cadê as provas?”. Será com o “cortem-lhe a cabeça”.

Ainda que a guilhotina insista, por enquanto, em concentrar-se nos crânios pequenos, nos relativamente desimportantes.

Mas o efeito-demonstração é irreversível. O jogo foi zerado nesse nível.

Balões vazios

Coisa comum no noticiário é o partido x ou o político y terem contratado pesquisas para conhecer a demanda, para saber as propostas que o público deseja comprar. Ou o perfil.

Daí que todos -ou quase todos- os políticos se pareçam.

Estão preocupadíssimos com o meio ambiente, atentíssimos à nova cidadania propiciada pelas tecnologias, empenhadíssimos em buscar soluções para as graves desigualdades sociais e mergulhadíssimos na busca de saídas para a educação, a saúde e a segurança.

Nestes três últimos pontos todos concordam na necessidade vital de mais verbas.

São todos balões vazios à espera de serem inflados de fora.

Falando em “íssimos”, é raríssimo encontrar nos dias que correm o político disposto a defender suas ideias, a afrontar o senso comum, a disputar na contracorrente.

A apresentar uma ideia de interesse do país, para mobilizar o país em defesa do interesse nacional.

Há um espaço. Como o que, um dia, ocuparam, por exemplo, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. Ou o Mário Covas do choque de capitalismo.

É perigoso. Mas a vaga para o relançamento do projeto nacional existe, e está à espera de alguém.

Pois é visível o cansaço com o mesmismo. Com o político supostamente esperto, escondido atrás do rosto alheio.

Não

Qual é a punição adequada para alguém que abre fogo e mata dezenas de jovens adolescentes reunidos num acampamento para discutir política?

Será que tudo se explica pela política? A política tem o condão de tornar tudo explicável, desde que se usem parâmetros racionais?

É razoável responder que não.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (24) no Correio Braziliense.



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4 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Esse assassino que realizou os atentados na Noruega, merece prisão perpétua, indenizar as famílias com o que tenha de bens pelo resto da vida, por óbvio. E ostracismo: pelas praças não terá nome. O que tal idiota deseja, é aparecer nos meios de comunicação com lamúrias, lamentações e discursos sem pé nem cabeça. Tirando a promoção gratuita, fica apenas um assassino. Seria um erro pautar tal infeliz.

sábado, 23 de julho de 2011 20:14:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Sem perder a piada, a maior punição ao PR, é permanecer na base de apoio ao governo. Uma vez que ficou clara a necessidade do governo nos votos de seus 40 deputados federais e 6 senadores. Tanta importância para votar a favor, pode merecer a confiança para algum cargo em algum lugar, em qualquer momento. Assim, não teria para onde ir não ser ficar onde sempre esteve.

sábado, 23 de julho de 2011 20:20:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O balões vazios que pululam ultimamente, merecem algo como o NINJA, por extensão. Ou seja, a criação da crise de 2007/2008: no income, no job, no asset. Por óbvio, quanto mais pesquisam, quanto mais falam, quanto mais sugerem, os eternos estorvos ficam sem educação, sem saúde, sem segurança: without education, without health, without security.

sábado, 23 de julho de 2011 20:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Crânios pequenos?Se, ministros de estado são assim classificados,o que será um crânio normal ou um desejável macrocéfalo?
Essa assepsia ministerial pode se classificar como "contencioso higiênico",tal qual a que postergamos indefinidamente no âmbito doméstico pessoal, com efeitos devastadores, psicológicos e financeiros.

domingo, 24 de julho de 2011 13:11:00 BRT  

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