sexta-feira, 22 de julho de 2011

Os holofotes e as surpresas (22/07)


No governo dizem que a balança não penderá para o lado do PT. Que é apenas um movimento para reverter o descontrole e evitar o prejuízo administrativo e político. Mas está difícil achar em Brasília quem acredite, do fundo do coração

As eleições municipais vêm aí, e com elas o retesar de músculos. E será inevitável que a somatória dos cenários locais se conecte novamente no noticiário à projeção das disputas futuras de poder.

É uma sinfonia conhecida.

Mas as eleições locais têm influência apenas relativa no quadro político. Dois motivos contribuem.

Primeiro, a dependência financeira de estados e municípios ao governo federal impede os poderes locais de fazerem oposição. No fim das contas é todo mundo governo. Precisa ser.

Segundo, o eleitor exerce bastante bem a liberdade de escolha. Não é por ter votado de um jeito para prefeito que votará do mesmo jeito para governador, ou presidente.

A política local acaba tendo, sim, mais peso quando o eleitor avalia o alinhamento municipal-estadual-federal como decisivo para receber benefícios públicos.

Esse pensamento persiste, e é mais observável conforme mais pobre e dependente é a localidade.

Governos federais costumam desempenhar bem em áreas muito pobres, desprovidas de economia que permita maior independência política.

Felizmente, a pobreza vem declinando no Brasil. Tendência que produz, também felizmente, mais graus de independência no eleitorado.

Mas o poder federal, com suas verbas, continua um instrumento não desprezível na disputa local.

Com o PT, entretanto, acontece um fenômeno curioso. Até agora, a capilarização do partido anda aquém do padrão histórico governista.

Contribui o PT ser um partido relativamente fechado, para padrões brasileiros. Beneficia-se pouco da capacidade atrativa do governo. Mesmo quando estimula o adesismo, não faz isso de portas abertas.

Também por ter sido construído de baixo para cima e continuar dividido em tendências formalmente organizadas. É um equilíbrio interno delicado, pouco permeável a intervenções externas.

O governo comandado pelo PT no Planalto sustenta-se numa ampla coalizão congressual. E um custo da coalizão é dar sobrevida a aliados na disputa do poder local.

É um foco permanente de tensão no governo.

O deputado do partido aliado vota a favor na Câmara, mas na base precisa enfrentar o quadro petista que, instalado num cargo de prestígio e capacidade orçamentária, ameaça tomar o reduto.

Operando por dentro da máquina para minar na base a força do aliado de Dilma Rousseff em Brasília.

Vem também daí a guerra por cargos de escalões inferiores.

O petista olha para o Planalto e enxerga um governo do PT. E quer apoio do governo para tomar os votos locais.

Já o governo precisa em Brasília dos votos dos adversários locais do PT, que por sua vez pedem ao Planalto conter o apetite dos partidários.

Mas o governo não pode tampouco desestabilizar o PT, a espinha dorsal.

A solução óbvia seria verticalizar as alianças, coisa possível na prancheta mas altamente improvável na vida real. Aqui e ali Brasília pode dizer façam isso, façam aquilo, mas está longe de ser viável como regra.

É um equilíbrio muito instável, e exige o máximo de perícia para não desandar.

Dilma herdou de Luiz Inácio Lula da Silva uma coalizão amplíssima e já no primeiro ano as tensões andam mais pronunciadas, na comparação. Com a operação política no Ministério dos Transportes, acrescenta um foco a mais de temor nos aliados.

Todos cabreiros com a hipótese de o PT avançar no espaço orçamentário alheio, e com os prováveis reflexos na capacidade de cada um desempenhar eleitoralmente ano que vem.

No governo dizem que não. Que a balança não penderá para o lado do PT. Que é apenas um movimento para reverter o descontrole e evitar o prejuízo administrativo e político.

Mas está difícil achar em Brasília quem acredite, do fundo do coração. Dilma anda performando bem em tempo real diante dos holofotes, mas se não garantir o espaço de quem a apoia pode ter surpresas desagradáveis no virar da esquina.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (22) no Correio Braziliense.



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1 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Alon, a presidente vir a sofrer surpresas no virar da esquina, pode até ocorrer. Faz até parte do jogo. Notadamente, por conta desse neo-feudalismo, onde vassalagem e servidão, confundem-se tanto, emaranham-se. Enquanto o rei, vacila. Contudo, pelo andar da carruagem, os erros atuais fatais, estão sendo moldados como virtudes próprias da presidente. Assim, amainando o falso dilema e problema dos Transportes, as estradas federais continuarão esburacadas, qual cofres públicos. Porém, a imagem da presidente estará incólume, patinando nas espumas de ótimo/bom, com Copa, trem-bala, como indutores. Talvez, nunca, desde Tomé de Sousa, foi feita uma rearrumação nos transportes como agora, em 2011. Ou talvez, tenha mais apelo, nunca desde a primeira governante do Brasil, a Redentora Princesa Isabel. Isso tudo para dizer, que, se for para chutar, será difícil aos queremistas ou/e sebastianistas, emplacarem o ex-presidente em 2014. Terão de peitar os fiquistas, os que com certeza, bancarão a reeleição da atual presidente. Esse seria, a ver, o núcleo da questão, o chute do estorvo comentarista. O restante, também importante, fica como sobressalente. Mas, é certo que a presidente atual, deverá ser convocada a mostrar força eleitoral, já, em 2012. Ai é que será a verdadeira Arena. Essa, que, depois PDS, foi batizada de maior partido do Ocidente, para não perder a piada e nem as similaridades.

sexta-feira, 22 de julho de 2011 12:06:00 BRT  

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