quinta-feira, 28 de julho de 2011

O sucesso de um modelo (28/07)


Humala assume num momento de crescentes incertezas econômicas. Talvez não venha a dispor da abundância de capitais externos sobre a qual o Brasil ergueu a sua atual política econômica
 
O modo como o presidente peruano Ollanta Humala chega ao governo é paradigmático de uma estratégia desenvolvida pelo PT no Brasil e agora exportada com sucesso para o vizinho nos Andes.

Moderação econômica, ênfase nos programas sociais e  busca de uma posição não hostil aos Estados Unidos.

Na resultante, a procura de um ambiente estável em prazo suficientemente longo para permitir a consolidação e a capilarização do poder. Com isso, e para isso, isolar a oposição política de suas fontes internas e externas de legitimidade.

Vem funcionando razoavelmente aqui. Funcionará com Humala?

O novo presidente peruano era na origem mais assemelhado a outro líder regional, o venezuelano Hugo Chávez. Na extração militar, nas raízes indígenas e na ideologia, que combina o nacionalismo à etnicidade.

Daí o nome do movimento que o catapultou à política nacional: o etnocacerismo. Uma fusão de nacionalismo militar, central na história moderna do país, e nativismo inca.

Mas o modelo chavista, confrontacional, mostrou-se recentemente algo desvantajoso. Na economia e na política.

Nesta, o ponto de inflexão talvez tenha sido a crise hondurenha, quando o presidente Manuel Zelaya pretendeu romper os limites institucionais e acabou vítima de um vitorioso golpe de estado.

Cujo desfecho se deu pela via pacífica, com a eleição de um sucessor e o último acordo político de reconciliação. O resultado da encrenca acabou por reforçar a posição americana e enfraquecer Chávez, o sócio de Zelaya na aventura que tirou o hondurenho da cadeira.

O Peru é exemplo regional de sucesso econômico, mas o presidente que sai, Alan Garcia, não pôde ou não quis influir decisivamente na própria sucessão. Provavelmente porque planeja voltar mais adiante e não arriscou catapultar uma liderança alternativa no seu próprio campo.

É sempre uma aposta arriscada, mas vai saber?

Humala, que perdera a última disputa para Garcia, venceu agora a filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko. O etnocacerista conseguiu atrair um pedaço do voto centrista-conservador, bem expresso no apoio recebido do escritor e Prêmio Nobel Mário Vargas Llosa, liberal convicto e militante.

Humala agitou bem a bandeira antigolpista, antifujimorista, e acabou levando por estreita margem no segundo turno.

Sua receita para obter os recursos necessários à implementação das políticas sociais é aumentar a taxação sobre setores oligopolizados, o mais destacado deles a mineração.

Humala assume num momento de crescentes incertezas econômicas. Talvez não venha a dispor da abundância de capitais externos sobre a qual o Brasil ergueu uma política econômica que, simultaneamente, tem garantido os benefícios sociais aos mais pobres, a remuneração generosa ao capital financeiro e algum controle da inflação.

É possível que o novo presidente peruano talvez precise copiar outro vetor do modelo brasileiro: a desnacionalização maciça, marcada pelo bonito nome de “investimento direto”. O mecanismo de preferência para atrair recursos que permitem o fechamento das nossas contas externas.

Como Humala vai combinar isso com o discurso nacionalista? Nem aqui precisará ser original. O que antes seria a inaceitável entrega das riquezas nacionais aos estrangeiros transformar-se-á rapidamente em sinal de confiança do resto do mundo na economia peruana.

E os opositores, eles próprios defensores dessa próspera alienação, irão dividir-se entre aplaudir e remoer-se de inveja. Estes últimos desperdiçarão tempo e energia cobrando coerência. E serão chamados de ressentidos, de não aceitarem a chegada do povo ao poder.

Assim como toda projeção, esta minha pode ser furada. Mas ela é pelo menos divertida.

Fascista

Culpar os cristãos ou os conservadores pelos atos do maluco de Oslo equivale a criminalizar os muçulmanos pelas ações da Al Qaeda.

Quando alguém aceita lançar mão do conceito de culpa coletiva, permite invariavelmente que a irracionalidade penetre um pouco mais na própria alma.

Fica um pouco mais fascista, em resumo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (28) no Correio Braziliense.



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4 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Parabéns pela cacetada no fascismo implícito e explícito em muitas análises ideológicas do ato perpetrado pelo assassino na Noruega. Há até quem esteja, estupidamente, forçando a barra e associando, em textos na rede, o assassino doentio, com políticos brasileiros, como numa espécie chula de prestação de serviços sob encomenda. Assino embaixo, se permite.

quinta-feira, 28 de julho de 2011 10:20:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

"quando o presidente Manuel Zelaya pretendeu romper os limites institucionais"

Plebiscito sobre reeleição da qual
Zelaya não concorreria é forçar os limites constitucionais?
Como classificar a emenda da reeleição que beneficiou FHC?

quinta-feira, 28 de julho de 2011 17:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O comentarista Marcos não entende que países diferentes têm legislações diferentes. No Brasil, a emenda do FHC foi legal, no caso de Honduras a constituição diz que tentar a reeleição implica em deposição imediata do presidente. Errado está o Alon em chamar de golpe o que golpe não foi, pois estava tudo seguindo ao pé da letra a constituição.

O único ponto fora da constituição foi levarem-no livre para outro país, quando deveriam tê-lo prendido. Ou seja, foram agir para tentar evitar confusão institucional e aumentaram os problemas. O grande erro foi confiar em um acordo com um golpista.

Fora isso, acho que o post já merece um update depois da posse do Humala que já iniciou prometendo desrespeitar a constituição em vigor. Chavistas são todos iguais, nenhum vale nada.

sexta-feira, 29 de julho de 2011 12:17:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Marcos-quinta-feira, 28 de julho de 2011 17h53min00s BRT. Uma diferença. O instituto da reeleição, no Brasil, está consolidado. E desde 2003, FHC não governa mais o País. Se governasse, o País estaria muito melhor do que está. Ou seja, já houve tempo suficiente para que sucessores pudessem encaminhar por outro modelo e não o fizeram. Nem político e muito menos econômico. No econômico, além, de não mudarem nada, conseguiram piorar o que estava funcionando. No político, há encaminhado um legado de crises e inapetências. Portanto, o que tem a ver FHC com Manuel Zelaya e seu golpe contra os preceitos constitucionais hondurenhos? E com o fato de terem deixado a embaixada do Brasil, em Tegucigalpa, transformar-se em hotel? Alguns advogam mandato de 5 anos, sem reeleição. Com certeza, em caso de vingar tal preceito, logo ter-se-á mandato de 5 anos, com reeleição.

sexta-feira, 29 de julho de 2011 13:16:00 BRT  

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