segunda-feira, 4 de julho de 2011

A maior esperteza (04/06)

Itamar não era esperto, na acepção vulgar da palavra. Muito menos teleguiado. Talvez tenha sido sua maior esperteza. Um sintoma é não ter precisado, na reta final da fértil e longa vida política, dar explicações nem pedir desculpas

Quando morre alguém importante há certa tendência a exaltar as qualidades e minimizar os defeitos. Em alguns casos a forçação de barra é maior. Para Itamar Franco, porém, os elogios vêm fluindo com certa leveza.

Há os interessados em elogiar-se a si próprios por meio do elogio ao ex-presidente morto, mas é humano. É sobretudo da política. Uma atividade em que a homenagem ao outro costuma ser a maneira indolor de se convidar ao centro do palco nestas ocasiões.

Tem quem aproveite a situação para promover um póstumo encontro de contas políticas. Uma quitação indolor de dívidas.

Mas por que Itamar é fácil de elogiar? Por que o elogio a ele soa sincero?

Por ter sido um político reto. Dizia exatamente o que queria dizer, e o que estava pensando sobre o assunto. Era do tipo apreciado pelo jornalismo por, como se diz, “dar lide”. Não fugia do risco de produzir notícia.

Um contraste espantoso com nosso tempo. Vivemos uma época de raposices, matreirices, jogos de esconde-esconde e blindagens marqueteiras. Um tempo de espertos maquiados. E de espertezas.

Um tempo de políticos teleguiados.

Itamar não era esperto, na acepção vulgar da palavra, tão em voga. Muito menos teleguiado. Talvez tenha sido sua maior esperteza.

Um sintoma é não ter que, na reta final da fértil e longa vida política, dar explicações adicionais sobre fatos passados nem pedir desculpas para ninguém por uma palavra de que precisasse se arrepender.

Uma esperteza bem contemporânea da política brasileira é dizer qualquer coisa, fazer qualquer coisa, pois sempre haverá oportunidade para retificar, se necessário.

Aceita-se com naturalidade que o político diga uma coisa na oposição e o contrário no governo. Como se não fosse um atentado aos direitos e à inteligência do eleitor.

Nesta sociedade mergulhada em informação e crescentemente conectada, coisas assim deveriam ser cada vez menos toleradas. Hoje em dia a política -e o jornalismo- são atividades submetidas a controle de qualidade em tempo real.

E serão cada vez mais.

O espaço para bravatas, para ludibriar, para enrolar, vai ficando estreito.

Talvez por isso Itamar, na teoria um político de outro tempo, e que morreu octogenário, tenha sido moderno até o fim.

Quem, como eu, teve o privilégio de vê-lo em ação no Senado nestes meses, pôde comprovar.

Tolerante

Se os governantes de hoje reclamam dos incômodos produzidos contra eles pela imprensa, deveriam dar uma pesquisada em como o jornalismo tratou o então presidente Itamar Franco.

Após uma rápida lua de mel começou a pancadaria. Bastou Itamar preencher as duas vagas econômicas (Fazenda e Planejamento) com quadros menos conhecidos ou menos prestigiados.

Itamar apanhou como gente grande, justa ou injustamente, mas nunca escorregou para ataques aos jornalistas ou à atividade. Muito menos cedeu à tentação autoritária de imaginar um país com imprensa menos livre.

Lição a resgatar pelos governantes que ficam.

Popular

Quando Fernando Collor assumiu a Presidência o Brasil era uma economia bem mais fechada. Sobre o setor automobilístico, por exemplo, ficou famosa a frase do então presidente comparando os carros nacionais a carroças.

Os efeitos da abertura econômica desde Collor são sentidos até hoje, para o bem ou para o mal. No caso da indústria automobilística, à importação de carros seguiu-se a importação de montadoras, para cá ou para outros países do Mercosul.

Um legado do itamarismo automobilístico é a explosão do mercado de carros populares. Quando o então presidente disse ter saudades do fusca deu o sinal. O fusca voltou por um tempo, mas o recado era mais amplo. Carro tinha que ser para muitos.

Falta hoje em dia um Itamar na Presidência para, com toda a simplicidade, perguntar porque afinal o brasileiro paga por um carro tão mais do que os cidadãos de outros países.

Coluna publicada nesta segunda (04) no Estado de Minas.



youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Blogger Alfeo Viero Filho disse...

Um contraste espantoso com nosso tempo. Vivemos uma época de raposices, matreirices, jogos de esconde-esconde e blindagens marqueteiras. Um tempo de espertos maquiados. E de espertezas

segunda-feira, 4 de julho de 2011 00:21:00 BRT  
Anonymous J Roque disse...

Caro Sr. Alon.

Quem sabe poderia partir da imprensa seria um movimento nacional para que ninguem compre um automovel por 30 dias. Tenho certeza que em pouco tempo o povo brasileiro deixaria de subsidiar outros povos.

segunda-feira, 4 de julho de 2011 10:18:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

1) Não que não o fosse em outros tempos. Contudo, o que há hoje em política é mesmo uma grande incompetência mistificada.
2) No caso de Itamar Franco, ele apanhou muito durante todo o governo. Seu retorno ao Senado, porém, imprimiu um ritmo novo, que é uma pena ter terminado.
3) Daria um basta ao marasmo absurdo, que gera resmungos mal educados, captados e distribuídos pelo microfone aberto na mesa do presidente de sessões. Que o diga a arrogância da senadora Marta Suplicy em várias das sessões que presidiu.
4) Já os aproveitadores de sempre, alfinetam sobre a paternidade do Plano Real. Coisa que Sarney resolveu de uma forma inusitada: disse, em sua coluna de sexta-feira próxima passada, na FSP, ter sido ele o formulador do Plano Real e tê-lo deixado na prateleira. FHC só o teria pego e implantado. Sarney deve ter esquecido-se de ter contado isso ao presidente Itamar. Como dizem, porém, como o Real deu certo, definitivamente não pode ter sido elaborado pelo Sarney.

segunda-feira, 4 de julho de 2011 12:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Itamar ,oposto de Collor,embora na mesma chapa. Essa é uma jaboticaba de respeito ! Problema residia no seu temperamento peculiar.Naquela altura,depois do momento "collor',porque passara à nação,ninguém poderia ser pior e nenhuma experiência tão aterrorizante,quanto do antecessor alagoano.Faltou-lhe eficaz RP,pois os méritos lhe foram subtraidos e autorias defraudadas.Salvou-lhe Minas.

segunda-feira, 4 de julho de 2011 18:07:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Anônimo-segunda-feira, 4 de julho de 2011 18h07min00s BRT. Defraudar, mesmo, quem fez foi o ex-presidente de 2003/2010. Até o Brasil teria ele sido o descobridor. Ainda bem que o está sendo salvo pela história e pela verdade.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 15:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Itamar processou jornalista, o Lula não.

domingo, 10 de julho de 2011 15:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Justa homenagem, ainda mais vindo de você que não acha os mortos merecedores de reverência de que não foram merecedores em vida. E bem mais justa que o post anterior “Contra todos os prognósticos” de domingo, 03/07/2011.
Faço aqui menção ao post “O injustiçado Itamar, por Janio de Freitas” de quarta-feira, 06/07/2011 às 11:02 no blog de Luis Nassif. O post que está no seguinte endereço:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-injusticado-itamar-por-janio-de-freitas
surgiu de comentário de Rosan Amaral que trouxe para o blog o artigo de Janio de Freitas, Itamar revisto, que deveria ter saído na terça-feira, mas foi publicado na Folha de S. Paulo de quarta-feira, 06/07/2011.
Um bom artigo de Janio de Freitas e também uma homenagem justa a Itamar Franca.
Como tive oportunidade de dizer em comentário que enviei quarta-feira, 06/07/2011 às 13:13 para junto do comentário da comentarista Angela RAMarques enviado quarta-feira, 06/07/2011 às 11:29, Itamar Franco recebeu um tratamento preconceituoso da imprensa no período em que ele foi presidente da República.
Agora, no comentário eu fiz uma observação que eu não lembro ter feito antes e sobre a qual eu não tenho certeza sobre a veracidade dela. Ocorreu-me, entretanto, que o truque de se passar a idéia de Itamar Franco como um presidente fraco, sem capacidade de desempenhar a grande missão que o destino lhe reservou, pode ter sido uma das grandes estratégias para a eleição de Fernando Henrique Cardoso.
Nunca tive dúvida em atribuir ao Fernando Henrique Cardoso e à equipe que ele escolheu a paternidade do Plano Real. Creio, entretanto, que se Itamar Franco fosse visto como um grande presidente e tendo em vista que dos praticamente 18 meses e meio que restavam para o governo de Itamar Franco quando Fernando Henrique Cardoso assumiu o ministério da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso só poderia exercer o mandato por pouco mais de nove meses, dificilmente se conseguiria passar a idéia de que Fernando Henrique Cardoso era o elo primordial no encadeamento que produziu o Plano Real. Pelo menos imagino que nos momentos anteriores a deflagração do Plano Real essa possibilidade fora pensada.
Agora, para quem como eu acha que Itamar Franco não teve nenhum mérito no Plano Real a não ser o de não o impedir de ter sido feito e utilizado eleitoralmente (Se Itamar Franco quisesse, o uso eleitoral do Plano Real não teria ocorrido, bastava que para isso ele postergasse a introdução do real após as eleições), as homenagens que se prestaram a ele na morte foram muito além do que ele merecia, principalmente para alguém como eu que crê que o Plano Real deve ficar como uma pecha para o quem o deflagrou em época de eleição pois é disso que decorre a nossa elevada dívida pública, os juros bem acima da média mundial e os estrangulamentos do Balanço de Pagamentos que reduziram o crescimento econômico na década de 90 e elevou o desemprego.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/07/2011

domingo, 17 de julho de 2011 23:10:00 BRT  

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