quinta-feira, 21 de julho de 2011

A hora da sístole (21/07)


Dilma herdou um governo orçamentariamente distribuído, no qual os muitos pilares de apoio mantinham cada um a capacidade de alavancar recursos para a reprodução do próprio poder. Agora vem a recentralização

Olhar um governo exige técnicas de diagnóstico. Há situações em que você pode enxergar diretamente o objeto. Se aparece um documento, uma gravação, algo dotado de materialidade.

E há situações em que você precisa deduzir.

A dedução é útil quando a matéria prima são conversas. Você nunca deve acreditar em tudo que dizem. Mas ouvir sempre é bom. Tampouco deve descartar nada. Se alguém lhe mente, a mentira embute pelo menos uma verdade: o fato de alguém ter mentido para você.

Procure a razão pela qual o sujeito decidiu mentir, talvez haja aí algo útil.

Luiz Inácio Lula da Silva falava muito em público. O roteiro do governo dele podia ser alinhavado a partir da produção verbal do presidente. Sabia-se a cada momento quais eram os propósitos, quem eram os inimigos, onde estavam as barreiras a suplantar.

Foi um período repleto de comunicação. O sujeito podia gostar ou não do que Lula dizia, ou de como dizia, podia concordar ou não com ele, mas ninguém reclamava da falta de sinais orientadores. Todos conheciam o sentido do fluxo e do contrafluxo.

Já Dilma Rousseff fala economicamente, e tampouco se conhecem porta-vozes. Daí que olhar o governo dela exija outras técnicas propedêuticas. A energia maior será necessariamente dispendida em procedimentos interpretativos a partir de sinais indiretos, fragmentados, contraditórios.

A crise corrente no Ministério dos Transportes, por exemplo, pede um exercício de interpretação complexo. A etapa pública da crise foi desencadeada pelo próprio governo, na reunião de enquadramento entre os palacianos e a turma da pasta.

Reunião que depois foi objeto de apuração jornalística e veio a público.

E o governo agiu -e vem agindo- numa rapidez impecável, passando o bisturi com a perícia de quem conhece em detalhe os tecidos a remover. Há os constrangimentos da política, mas eles não têm sido definitivos. A presidente não parece disposta a deixar a onda passar.

Surfa nela com gosto.

O movimento dela é duplo. Procura naturalmente remover os focos de eventuais problemas administrativos, que sempre tenderão a tomar dimensão política, mas há também uma operação política propriamente dita a rodar.

Dilma busca reorganizar o governo com parâmetros menos dispersos, mais centralizados. Busca concentrar poder.

O que implicará menos autonomia ainda para os políticos e movimentos políticos instalados nos ministérios e demais órgãos dotados de capacidade de investimento. Manterão a capacidade, mas perderão autonomia.

Aqui, o delicado processo de centralizar e descentralizar é quase uma reprodução da sístole e da diástole cardíacas. Assim bate o coração de qualquer governo. Centraliza-se e divide-se o poder, conforme a força e a necessidade.

O mandato de Lula começou bem sistólico. Se havia alguma distribuição de poder, era entre as correntes do PT. Para os demais, postos formais e a obrigação de tomar a bêncão a cada passo. O símbolo dessa lógica foi o então presidente ter desfeito a entrada do PMDB no governo, desfazendo o acordo costurado por José Dirceu.

E a coisa funcionou no primeiro ano, com o Planalto vencendo votações decisivas no Congresso Nacional, em assuntos delicados como a previdência social e os impostos.

Mas a concentração de poder também significou concentrar potenciais dores de cabeça. Quando veio a crise, ela estourou bem no coração do governo.

Como resultado, e para sobreviver, Lula enveredou pela longa diástole que o levaria a concluir o primeiro mandato, a reeleger-se e a eleger a sucessora.

Que por sua vez herdou um governo orçamentariamente distribuído, no qual os muitos pilares de apoio mantinham cada um a capacidade de alavancar recursos para a reprodução do próprio poder.

Daí para o descontrole é um passo. Eis por que Dilma produz agora a nova sístole. Uma recentralização.

Vai funcionar? Provavelmente. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Até o dia em que o poder, de tão concentrado, fique instável o suficiente para exigir uma nova diástole.

E, de crise em crise, a vida seguirá.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (21) no Correio Braziliense.



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8 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Pode-se interpretar sobre o governo atual e a Chefe do Executivo, que a distribuição do governo não foi tão herdada. A presidente foi a principal ministra na gestão anterior. Difícil crer não ter avalizado a construção. Pode não ter herdado apenas características próprias de cada um. Todo o resto não foi herdado, mas, construído em conjunto. Se o que está em andamento for um diferenciador, a ver, com o tempo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011 15:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Fantástico. Um texto para não esquecer.
Para não perder a minha verve ranheta, eu poderia perguntar, consertando antes o "exija":
"técnicas propedêuticas"?
Você está querendo imitar o Nelson Jobim? Pelo menos o Nelson Jobim do artigo “Autoridade é uma coisa, eficácia é outra”, também para não esquecer, de Roberto Pompeu de Toledo que saiu na revista Veja de 14 de novembro de 2007, pág 190. Texto tão bom que foi motivo de trabalho na Universidade Federal de Viçosa com o título "As múltiplas vozes que se entrecruzam na construção dos sujeitos". Trabalho e artigo que valem à pena a leitura
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/07/2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011 21:31:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Claro, Clever. Já corrigi. Obrigado.

quinta-feira, 21 de julho de 2011 23:49:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Clever Mendes de Oliveira-BH, 21/07/2011. Boa sacada sobre propedêuticas. Foi um bom prolegômeno.

sexta-feira, 22 de julho de 2011 11:34:00 BRT  
Blogger Carlos Figueiredo disse...

Alon, eu já tinha lido bons textos seus, mas esse é fora de série. Foi a melhor análise que eu li sobre o momento que o governo está vivendo. Dilma tem um perfil de burocrata. Você acha que ela emplaca quadros técnicos mesmo com essa base aliada heterogênea? Parabéns pelo texto.

sexta-feira, 22 de julho de 2011 22:00:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Valeu, Carlos. Talvez. Ela tem apoio na opinião pública. Mas eu relativizaria essa expressão "técnicos".

sábado, 23 de julho de 2011 01:02:00 BRT  
Anonymous Samuel disse...

Prezado Alon:
Acho que há outro fator, além do descontrole, para esta nova sístole. Trata-se do fato de Lula ter governado em uma estreita janela na qual foi possível agradar a todos. Após um pouco de maldades em 2003 que resultou em um aumento de carga tributária legal da ordem de 0,5% do PIB (fruto da extensão da nova PIS e Cofins para a importação) e após o forte ajuste fiscal de 2003, a situação externa muito favorável e o ganho de produtividade advindo da maturação das reformas estruturais do governo anterior e das reformas do período Palocci, permitiram anos de crescimento forte com elevação de carga tributária sem necessidade de elevação da carga tributária legal (pelo contrário, com o fim da CPMF ela reduziu-se). Neste sentido Lula está para FHC assim com Médici estava para Castello Branco. A situação mudou, não é mais possível agradar a todos e ela está tendo que administrar a redução relativa (aos desejos ilimitados) do bolo. Como já tem contratado elevação de gastos na casa de 50 bi até 2014 (regra do salário mínimo), a inflação ainda está forte e precisa manter os investimentos elevados para que não façamos figura muito ruim nos eventos esportivos, está difícil fazer a conta fechar. Segue de aí a sístole.
Abraço, Samuel

sábado, 23 de julho de 2011 13:09:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Na realidade, ela necessitaria de "técnicos em política". Política ela já o é. E já tem quadros técnicos no governo: BNDES, Fazenda, BC, para citar alguns. Não há necessidade de colocar um "engenheiro de estradas e pontes" no Ministério dos Transportes. A opinião pública poderia até vir a gostar, se se preocupasse com isso. Mas, seria o caso de ver se o governo seria desemperrado. E isso quem define é a política.

sábado, 23 de julho de 2011 14:26:00 BRT  

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