quarta-feira, 6 de julho de 2011

Fatos e salamaleques (06/07)

O PT e o governo ganham duplamente. Mantêm o PSDB imobilizado no culto ao passado impopular e constrangem a oposição formal. Não pega bem você chutar a canela de quem, no fundo no fundo, diz lhe querer tanto bem

O PSDB vem construindo ao longo dos anos uma teoria conveniente para explicar a longa ausência do poder.

Segundo a teologia tucana, o governo Fernando Henrique Cardoso foi muito bom, mas a oposição implacável do PT na época e a desconstrução propagandística promovida pelo petismo no poder petrificaram a impressão de ter sido ruim.

Uma lavagem cerebral coletiva. Com as decorrentes consequências eleitorais.

A casa seguinte nesse tabuleiro é o PSDB vir lançando a fatura das três últimas derrotas presidenciais na conta da suposta falta de empenho em defesa das realizações de FHC no Palácio do Planalto.

A construção ideológica tucana para explicar seus problemas é frágil mas aconchegante. Ela exime, por exemplo, de fazer um balanço crítico do período FHC. Mais fácil considerar -e propalar- que o povo não está bem informado sobre aqueles tempos.

Foram anos de estabilização monetária e democracia. Mas também de baixo crescimento e pouco emprego. A privatização da telefonia produziu um país em que todo mundo tem telefone. Mas usá-lo ficou caríssimo. Foram lançados programas sociais. Mas a timidez deles evidenciou-se quando veio o PT e lhes deu prioridade.

São os fatos.

O PSDB reage aos fatos com ideologia. Parecido com o PT pré-2002. Para os tucanos, tratar-se-ia apenas de corrigir a hipotética lacuna comunicacional, de partir para a desconstrução da desconstrução.

Daí o panegírico em que se transformou a passagem dos oitenta anos de FHC.

Esse foi o terceiro movimento.

E qual é o quarto? Vem do governo, por perceber a espetacular relação custo benefício embutida em qualquer palavra simpática dirigida por um petista a FHC. Especialmente quando o elogio é de petistas graduados.

O PT e o governo ganham duplamente. Mantêm o PSDB imobilizado no culto ao passado impopular e constrangem a oposição formal. Não pega bem você chutar a canela de quem, no fundo no fundo, diz lhe querer tanto bem.

E o PT não perde nada.

Quando vier a próxima eleição, poderá dizer que as privatizações de FHC foram muito ruins, mas com todo o respeito. E que os programas sociais do PSDB foram muito tímidos, apesar das boas intenções. E que o PSDB de FHC, apesar de ter ajudado a atacar a inflação, fez isso sacrificando o crescimento.

Enquanto o PSDB fica embasbacado com os salamaleques, o seu problema eleitoral continua exatamente no mesmo lugar, e do mesmo tamanho.

Acalmando

O ambiente congressual está mais calmo desde que o Palácio do Planalto abriu a torneira do pagamento de emendas parlamentares de anos anteriores.

Fez algum jogo de cena ao anunciar a “compensação” por ter cedido nos restos a pagar. Enquanto paga parte do que empenhou lá atrás, segura a rédea dos novos empenhos.

É jogo de cena porque governo nenhum entra o primeiro semestre do primeiro ano empenhando (reservando recursos para acões orçamentárias) desenfreadamente. Segura o que der para segurar.

É um freio de arrumação costumeiro.

No fim, o roteiro será o de sempre. O governo federal vai continuar pagando as obras já iniciadas, no ritmo que der, mas dificilmente vai aceitar colocar dinheiro em algo que estava previsto lá atrás mas nem chegou a começar.

Dilma Rousseff foi bem no episódio. Acabará fazendo o que não iria deixar de fazer, sem precisar fazer o que não queria mesmo fazer.

Maioria

A substituição do oposicionista Itamar Franco por um senador governista deu a deixa para observar novamente a maioria acachapante do governo no Senado. Assim como acontece na Câmara.

É diferente do que viveu Luiz Inácio Lula da Silva no começo do primeiro mandato. Mas não é diferente do vivido por Fernando Henrique Cardoso na largada do governo dele.

Como Dilma, FHC tinha maiorias teoricamente folgadas no Legislativo. Que entretanto foram sendo dilapidadas à medida que surgiam as dificuldades políticas.

Viu-se na crise em torno da articulação do governo que em Brasília a política manda na aritmética, apesar das aparências em contrário.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (06) no Correio Braziliense.



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11 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

"Inferno é estar apartado de Deus".
O mesmo se poderia dizer dos que vivem longe do poder,contemplando à distância o brilho emanado do Olímpo, de reverentes liturgias dos cargos que seduzem hipnóticamente e arrastam a malta disposta a subalternas sujeições,gravitando como Lázaro em torno das migalhas da opulenta e ambicionada mesa.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 00:55:00 BRT  
Blogger Bagual disse...

Os tucanos, aves de grande bico e escasso miolo, devem te adorar, Alon.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 03:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que petismo precisa deixar claro nas próximas eleições é que FHC privatizou o patrimôniio público e o governo petista apenas tem aconselhado a iniciativa privada em investir em alguns setores por falta de dinheito ou por ser investivmento de pouca urgência, como aeroporto que só serve para a elite viajar de avião

quarta-feira, 6 de julho de 2011 08:55:00 BRT  
Blogger Borromini disse...

Eu tenho consciência que outros presidentes da República não tiveram as mesmas condições que eu”, afirmou. “O presidente Sarney pegou o Brasil em época de crise. O Fernando Henrique Cardoso, mesmo se quisesse fazer, não poderia, pois o Brasil estava atolado numa dívida com o FMI. Quando você deve, tem até medo de abrir a porta e o cobrador te pegar”, afirmou o atual presidente.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 15:41:00 BRT  
Blogger Marco disse...

Discordo. Eles não hesitarão em chutar a canela, o saco, o peito... como fizeram o ano passado, ao apelar para o "submundo da política", expressão lapidar de Lula, para pastores evangélicos a lobotomizar seu crédulo e analfabeto politicamente rebanho.
Cada um na sua área, cada macaco no seu galho, cada galo em seu terreiro, cada rei em seu baralho. Muita sutileza nesse caso causa confusão. O ideal é que fique sempre bem claro para a sociedade quais são as diferenças entre os dois partidos.
E nisso o PT tem tido uma dificuldade constrangedora...

quarta-feira, 6 de julho de 2011 16:38:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

A estratégia e tática políticas são incríveis. Aplicadas de um determinado lado, podem ser fisgadas de outro, com certa facilidade. E erros. Por exemplo, os recentes elogios de próceres petistas a próceres do PSDB. Ou melhor, a FHC. Tais homenagens podem ter seu efeito neutralizador, em maior ou menor graus, em algumas áreas das oposições. Porém, deixam fisgar um aspecto interessante: o PT não tem quem elogiar que seja de seu próprio lado. Assim, na falta de ter quem alçar aos píncaros da glória, reconhece, protocolarmente, FHC e sua obra. E avançando, ficaria mais, diga-se, popular, com mais apelo e credibilidade, a foto da atual presidente junto a FHC e Serra, no velório do Senador Itamar Franco? Isso, comparando-se tal foto e momento, com eventual mesma foto dela ladeada por Sarney, Collor e Lula? Logicamente, nenhum petista vai reconhecer que sim e chamar FHC de incomum. Isso está reservado a aliados fiéis, como fizeram com Sarney, há tempos, por exemplo e a Collor, mais recente protegido. FHC não é aliado. Pelo contrário. Mas, de todo modo, quando criaram o incomum aliado presidente do Senado, defenestravam FHC. Isso deixa FHC extremamente confortável e sem a necessidade de exaltar que o estariam reconhecendo tardiamente. Se o fizer, o será por educação, mas sem deixar de apontar as barbeiragens atuais com sua herança. Aliás, em cerca de seis meses, as crises do governo rivalizam com sua inoperância. A junção destes dois aspectos, o torna um governo precocemente velho, de fato e de direito.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 16:45:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Continuando a tentativa vã de analisar a conjuntura e de dar chutes quanto ao futuro. Se for tomado como estratégia, a trégua de petistas para com FHC, isso pode ser jogado para 2014 e após em termos de algum resultado que não seja um furo n'água. Se for tática, isso pode colocado já para 2012. Neste próximo ano, a presidente será chamada a eleger alguém dos seus, em Capitais e grandes cidades. Aliado, aos constantes e sem resolução problemas de governo, economia, política externa, Código Florestal, emendas, fisiologismo, inapetências, utilização de recursos públicos de forma duvidosa etc. ela terá de mostrar um mínimo de força eleitoral. Algum corajoso já deve ter colocado a ela tal incumbência. Da qual não pode furtar-se, ou sucumbe. Ou seja, no curto e no longo prazos, o PT não perde nada, exceto o rumo.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 17:04:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Anônimo-quarta-feira, 6 de julho de 2011 08h55min00s BRT. É até correto que o transporte aéreo não está lá essas coisa. Contudo, dado o decantado sucesso econômico-social do governo redentor de 2003/2010, a nova classe média, então, não está viajando de avião e comprando bens duráveis a prestações a perder de vista e juros com poder de, hoje, furarem os bolsos mais reforçados? Pelo que dá para entender de seu comentário, o PT não apenas não reestatizou o tal "patrimônio público privatizado", como não gerou recursos, está sem dinheiro e teve de chamar a iniciativa privada, que o PT sempre criticou. Muito interessante e revelador.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 17:13:00 BRT  
Anonymous edgar boaventura mariot disse...

O psdb nasceu para ser um partido de centro esquerda. O fhc cometeu o engano de unir-se à direita ( pfl ).Optou pelas teorias de milton friedmann( estado mínimo ). O lula espertamente excluio a estrema esquera ( psol ) do pt e ocupou a centro esquerda.Como a classe c emergindo a centro esquerda é grande beneficiada . Não é atoa que o fhc fala em conquistar a classe c. Porém com a guinada que foi dada para direita, isto ficou impossível. Ou seja o psdb ficou sem as bases proprias e a dilma está com 80% de aprovação . Tem um espaço de centro direita ser ocupado. Isto não acontecerá com oposição raivosa . A dilma está mandando mensagens para o psdb ocupar este espaço e diminuir a influencia do pmdb que está ocupando uma parte corrupta deste espaço. Mas o psdb sofre arrogancia

quinta-feira, 7 de julho de 2011 10:11:00 BRT  
Anonymous Swarmoro Songhay disse...

edgar boaventura mariot-quinta-feira, 7 de julho de 2011 10h11min00s BRT. Muito interessante. Quem foi para a direita, pelo que dá para entender de seu comentário e com um pouco de olhar para a realidade, foi Lula e o PT. A atual presidente ter percebido essa brecha que é citada, para anular o PMDB, Lula, se fosse assim tão perspicaz, teria percebido antes até de cacifá-la como candidata. A análise não fecha, exceto se a conclusão for que o PMDB tomou conta do governo e está colocando o PT na berlinda. E Lula está ficando sem espaço. Confere?

quinta-feira, 7 de julho de 2011 19:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Edgar Boaventura Mariot quinta-feira, 07/07/2011 às 10h11min00s BRT),
Muito interessante seu comentário. Só não concordo com a sua frase:
"O fhc cometeu o engano de unir-se à direita ( pfl ).Optou pelas teorias de milton friedmann( estado mínimo )"
Para que Fernando Henrique Cardoso uniu-se a direita? Dificilmente se saberá com exatidão, mas qualquer que tenha sido o motivo, parece-me que pelo acordo cabe mais elogiar Fernando Henrique Cardoso do que o criticar.
Qual era a avaliação que se tinha da vitória de Fernando Henrique Cardoso em 1994 antes do acordo? Penso que era muito pequena fora do grupo que trabalhava com os resultados altamente satisfatório do Plano Real. E dentro do grupo, penso que o que se imaginava então era que se desse tudo certo Fernando Henrique Cardoso se tornaria o próximo presidente do Brasil. E este dar tudo certo incluía ter o PFL amarrado para não causar dano eleitoral a Fernando Henrique Cardoso. Então unir-se ao PSDB foi um ato extremamente tático e perfeito.
E se eleito o que seria melhor para o PSDB, ter o PFL amarrado ao PSDB ou ter o partido solto. Penso que o melhor seria ter o PFL amarrado ao PSDB. Então a união do PSDB com o PFL foi um ato extremamente estratégico.
Não sou economista, mas não chego a considerar que o PSDB tenha embarcado na teoria do Estado mínimo. O aumento da carga tributária ocorrida no período é uma negação da idéia de que Fernando Henrique Cardoso fosse um neoliberal. Penso que no extremo pode-se dizer que houve certa atração por políticas liberais, mas esse extremo apenas nos permitiria dizer que o grande problema do PSDB foi o partido embarcar no Consenso de Washington. O Consenso de Washington foram regras impostas a países de periferia tendo como fundamento a idéia de que os países do centro chegaram até onde estavam por ter cumprido com as regras do Consenso de Washington antes de elas serem divulgadas. Idéia falsa que prosperou no mundo subdesenvolvido e no caso do Brasil antes de se descobrir que o Consenso de Washington estava errado, o tombo já havia ocorrido (Com o grande crescimento da dívida pública e os estrangulamentos do Balanço de Pagamentos).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/07/2011

domingo, 17 de julho de 2011 20:28:00 BRT  

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