domingo, 10 de julho de 2011

Estabilidade instável (10/07)

Onde a coisa embute mais riscos? Se a economia emitir sinais de sofrimento além da conta. Se a contenção produzir efeitos na popularidade presidencial, mesmo limitados, a fatura do Congresso ao Planalto tende a engordar aceleradamente

O noticiário está tomado pelos problemas políticos do governo, mas o maior problema político talvez esteja na economia. Onde a inflação, apesar de perder fôlego, mostra certa resiliência.

O dólar baratíssimo funciona como âncora. Mas a contração do crédito ainda não parece suficiente. É a velha psicologia brasileira das compras parceladas. Se a prestação cabe no salário, que se danem os juros.

E é bem compreensível, num país onde tantos ainda deixam de ter o básico.

Mas o problema da autoridade monetária não é a justiça social, é a inflação. A aposta de quem costuma apostar é o Banco Central prolongar o aperto sem medo de ser feliz. Com as consequências conhecidas.

Os movimentos recentes no Congresso Nacional indicam alguma acomodação entre o Palácio do Planalto e o PMDB, e também do Executivo com o presidente da Câmara dos Deputados.

Nas novas condições, o governo pôde adiar a regulamentação da emenda 29, que fixa constitucionalmente verbas para a Saúde.

Também há uma chance razoável de ser jogada para adiante a votação de outra emenda, a de número 300, que reajusta nacionalmente os salários dos policiais militares adotando como referência os belos vencimentos da categoria no Distrito Federal.

Mesmo que neste caso cada adiamento vá significar, apenas, um pouco mais de força no tsunami. De lenha na fogueira. Em especial depois da desastrosa condução, pelo governador Sérgio Cabral, do movimento dos bombeiros no Rio.

As turbulências políticas evidenciadas na derrota do governo durante a votação do Código Florestal ficaram para trás, a execução orçamentária anda, os restos a pagar não foram para o beleléu.

E a maioria governista nas duas casas continua ali pronta para tratorar a oposição.

Bem ou mal, a nova coordenação política vem obtendo algum grau de operacionalidade.

A crise do momento, desencadeada pelo noticiário sobre o Ministériodos Transportes, fechou a semana algo circunscrita, à espera do novo titular da pasta.

O tema tem potencial para estragos adicionais, mas o governo trabalha no Congresso para segurar a onda.

Mas a acomodação tem custo político. Medida em recursos orçamentários e também na musculatura adicional de deputados e senadores a cada conturbação.

Se um episódio pede à base sacrifícios em defesa do governo, e se ela comparece à batalha e vence, o Executivo torna-se um pouco mais dependente. Com as decorrências sabidas.

Onde a coisa embute mais riscos? Se a economia emitir sinais de sofrimento além da conta. Se a contenção produzir efeitos na popularidade presidencial, mesmo limitados, a fatura rotineira do Congresso ao Planalto tende a engordar aceleradamente.

O processo é contraditório. A cada crise, o governo vai ficando mais com a cara da presidente, com a colocação de pessoas mais próximas nas posições vagas. É o bisturi dilimista a percorrer tecidos herdados do antecessor.

Mas vai ficando também mais refém dos aliados. Pois um possível efeito colateral das seguidas cirurgias é o desarranjo do organismo como um todo.

Como evoluirá esse delicado equilíbrio numa hipotética situação de perda de musculatura popular da presidente?

Alerta

Ao longo da sexta-feira o ambiente político se dividia entre duas observações.

Num lado, o andamento da crise desencadeada pelas acusações contra o Ministério dos Transportes.

No outro, os possíveis efeitos político-eleitorais do previsto desfecho do processo deflagrado lá atrás por Roberto Jefferson.

Sobre o primeiro ponto, a expectativa está concentrada em eventuais novas revelações e nos depoimentos dos atores convidados a falar no Congresso Nacional.

Sobre o segundo, há dúvida sobre as consequências do reavivamento, quando o eleitor comparecer à urna municipal em 2012.

Preocupação mesmo no PT há com 2014. Especialmente se, em caso de condenação, o partido precisar enfrentar a campanha tendo dirigentes a cumprir pena.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (10) no Correio Braziliense.



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2 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

No caso do Alerta, pouco importaria, realmente, os efeitos do mensalão e da corrupção no ministério Transportes, nas eleições. O ótimo seria sua repercussão em termos de justiça, com a punição efetiva dos culpados. Se eleições ficarem na dependência de escândalos de corrupção, por que, então, não eliminar as eleições e abrir mais penitenciárias?

domingo, 10 de julho de 2011 11:24:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O dólar barato, decorrente dos QEs realizados pelo FED dos EUA, sob um dado aspecto, pode ajudar no combate à subida dos preços internos, com produtos similares importados. Contudo, a continuidade da sobrevalorização do Real, pode ser deletéria. Já há indícios de indústrias de máquinas passando a operar como intermediárias na venda de máquinas importadas. Ou seja, a produção industrial interna estaria inviabilizando-se. Agravantes, são advindos das declarações das autoridades monetárias e fiscal, BC e Fazenda. Ambos coincidem em chover no molhado, assustadoramente, ao dizer com ares sérios, que o câmbio flutuante, flutua para os dois lados. E daí? Só faltava ser diferente. o que se pede de autoridades que tenham algo mais a dizer além das obviedades que já se tornaram uma marca na atual administração. E de outro, o estímulo, pouco velado, à olipolização da economia em vários setores, com apoio de recursos públicos. Algo contraditório, caso seja verdadeiro o crescimento da classe média. Isso porque, esses contingentes, deveriam encontrar um ambiente mais competitivo para poder decidir por preços mais condizentes com sua renda, que, em tese, teria mudado para patamar superior. A concentração da oferta, em setores de varejo, por exemplo, pode levar a situações exatamente contrárias. Poucos ofertantes, com prováveis efeitos altistas nos preços de bens de consumo não-duráveis, duráveis, semi-duráveis, pela baixa ou mesmo ausência de concorrência. Exceto a olipolística.

domingo, 10 de julho de 2011 13:43:00 BRT  

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