segunda-feira, 18 de julho de 2011

A equação dos profissionais (18/07)


Nem toda a modernidade, ou pós, conseguiu até agora alterar a receita clássica na disputa política. Ela é missão para profissionais. Da política. O cidadão comum vive atarefado demais no dia a dia, empenhado demais em sobreviver, em pagar as contas

A última moda são manifestações ditas espontâneas, organizadas por cidadãos indignados ou apenas inspirados pela causa genérica comum. Do Cairo a São Paulo, de Madri a Damasco, a receita parece semelhante.

Lança-se a semente nas redes sociais e o fermento da insatisfação, temperado pelo anseio, cumpre a tarefa de fazer o bolo crescer.

Será? Quanto se transformou mesmo a política após a massificação do uso da internet? O meio já cumpre o papel de substituir as organizações partidárias? O indivíduo passou a ocupar o lugar do grupo organizado?

O senso comum diz que sim, que a coisa mudou muito de uns tempos para cá, mas é melhor guardar prudência, para o caso de necessidade, para o caso de não ser bem desse jeito.

Política é política e comunicação é comunicação. Parece acaciano, mas não custa relembrar.

Quando o período dos presidentes militares entrou em declínio não existia ainda nem o fax, hoje obsoleto, e conversar por telefone a respeito de como derrubar o regime era impensável.

Corriam os anos do mimeógrafo a álcool, das gráficas clandestinas e da possibilidade, aqui e ali, de emplacar um texto na imprensa que conseguira sobreviver. E cuja circulação era restritíssima.

Mesmo assim o movimento político e social organizou-se, com os resultados conhecidos. O rio sempre encontra um caminho para o mar. A insatisfação com a economia foi o caldo de cultura para a proliferação.

Nem toda a modernidade, ou pós, conseguiu até agora alterar a receita clássica na disputa política. Ela é missão para profissionais. Da política.

O cidadão comum vive atarefado demais no dia a dia, empenhado demais em sobreviver, em pagar as contas. Pode haver exceções, mas, como o nome diz, elas não são a regra.

Uma andorinha não faz verão sozinha. De vez em quando ela pode até gorjear pela internet, mas é só.

O tempo é um bem escasso. Há uma diferença entre apoiar determinada iniciativa no Facebook e engrossar a militância real.

E essa diferença costuma expressar-se em números. Basta checar.

Os movimentos democráticos no mundo árabe, por exemplo, beneficiam-se da massa crítica reunida no segundo plano da política por organizações islâmicas. Não significa que elas tenham desencadeado ou liderado a emergência dos protestos, mas são fundamentais para a ação adquirir massa crítica.

Todas as revoluções começam mais ou menos de um modo parecido. Resultam da combinação de desarranjos graves na cúpula do poder e fortes insatisfações na base da sociedade, invariavelmente provocadas por dificuldades econômicas e aspirações materiais não atendidas.

Mas nem toda fagulha tem o poder de incendiar a pradaria. É preciso quem se ocupe do trabalho de espalhar o fogo, e de impedir que seja apagado. Nem é indispensável que os espalha-brasas sejam a maioria, eles apenas precisam estar em número suficiente.

Quanto porcento da população egípcia participou dos protestos na Praça Tahrir? Uma porcentagem pequena, bem pequena. E nem vou tão longe. Quantos brasileiros, na ponta do lápis, foram às ruas para exigir as diretas já para presidente naquele hoje algo distante 1984?

Sobre essa última contabilidade, aliás, as mistificações da época vem sendo derrubadas desde que se resolveu lançar sobre elas um olhar de mais precisão matemática.

Dia destes um jornalista espanhol esceveu artigo perguntando por que as acusações de malfeitos não provocam uma reação social e popular no Brasil. A resposta é óbvia.

Não há, no fundo, forças ponderáveis que desejem mudar o status quo, já que todos estão atendidos, de uma maneira ou de outra. No topo e na base, na situação e na oposição, em Brasília ou nos estados e nas cidades.

Ninguém social ou politicamente expressivo deu sinais até o momento de estar vivamente interessado em mudar a equação dominante.

A coisa pode mudar? Sempre pode, mas entre nós seria preciso mobilizar o único foco potencial de insatifação: a classe média que julga sustentar com seu trabalho e seus impostos o bem-estar alheio.

Mas a classe média é uma camada social produzida e cultivada na base do cada um por si. Pode no máximo ajudar a engrossar o caldo quando a onda vem de cima, ou de baixo.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (18) no Correio Braziliense e no Estado de Minas.



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5 Comentários:

Blogger cleidebrag disse...

Caro Alon.
Como você bem diz, não existe manifestação "espontânea".
Elas começam com grupos que têm interesses próprios, que por sua vez arregimentam uma massa maior, criando "grandes movimentos".
Ocorre que no Brasil, desde 2003, os tais grupos se integraram ao governo. Mais que isso, dele se alimentam financeiramente e com distribuição de benesses e cargos.
Veja a UNE, os sindicatos, o MST, as ONGs de militantes políticos.
Para que vão sair angariando apoio para "ir às ruas", se estão todos bem alimentados e nutridos, mamando na viúva?
Essa é a verdadeira explicação que deveria ser dada ao jornalista espanhol.
Não é nada profundo ou ligado à natureza ou ao atual status do povo.
O povo não vai à rua protestar, se não for aliciado e doutrinado.
Falta hoje, no Brasil, que alicie ou doutrine.
É isso. Simples e facilmente compreensível.
Só me admira analistas nos jornais, blogs e TVs não darem essa resposta ao espanhol.

segunda-feira, 18 de julho de 2011 04:51:00 BRT  
Blogger FWOLF disse...

Certíssimo. Nem mesmo os empresários pensam em movimentar o status quo, anestesiados que estão pelas políticas do Estado. Aqueles que fazem alguma manifestação, tal como Paulo Skaf e Afif Domingos, estão interessados em ingressar na política como profissão. Não pensam em melhorar de fato o ambiente empresarial. A classe média, por seu turno, anda anestesiada pela promessa dos concursos e seus bons salários.
Faz lembrar uma pichação que existe nas paredes da Universidade de Coimbra: "Só não há revolução porque não há revolucionários. Razões há de sobra."

segunda-feira, 18 de julho de 2011 19:25:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, você está certo, precisa juntar a fome com a vontade de comer. Sem um elemento catalisador, a insatisfação tende a se dissipar. Só não sei se é papel para partidos numa democracia, como era o papel do MDB (e das siglas abrigadas dentro dele) na redemocratização. Também gostei do comentário dacleidebrag acima, o PT e os movimentos sociais, que fizeram de fermento em tempos mais recente (ainda que, muitas vezes, ficavam a falar sozinhos), hoje estão bem acomodados no aparelho do Estado. Mas eu acrescentaria um ingrediente nessa receita: houve uma decepção geral com o resultado do escândalo que resultou no impeachment de Collor. Responda quem souber: a quanto montou aquele que foi, na época, o maior esquema de desvio de recursos públicos? O mensalão, depois, seria maior, claro, cada novo escândalo supera o anterior na retórica dos que acusam. Quando Collor saiu as classes médias, a antiga e a recentemente identificada (definição da antiga: aquela que, em São Pulo, mora em Higienópolis, e não que uma estação do metrô em sua porta, a nova é a que veio depois), saíram às ruas de preto quando Collor pediu outra cor (não lembro qual) para a manifestação de apoio a ele. Mas quando a nova classe média, que é muito maior, percebeu que tudo não passava de um circo político, que nada viria à tona ou seria investigado (para não falar da impunidade resultante, se é que é impunidade porque não se conhece a gravidade do crime ou no limite se de fato houve crime...), entendeu por bem que melhor faria se fosse tratar da própria vida. Um elemento a mais para explicar a atual apatia política, que não é inconsistente, creio, com o que ficou dito acima.

terça-feira, 19 de julho de 2011 18:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É isso, ou então, penso mais ou menos isso.
Quanto a resposta ao artigo (faltou um link) do jornalista espanhol perguntando por que as acusações de malfeitos não provoca, uma reação social e popular no Brasil, eu não sei se a resposta é óbvia. Quer dizer, talvez seja óbvia se ele tivesse substituído "no Brasil" pela expressão "em outros países do mundo onde não ocorre reação social e popular". Por outros países do mundo entende-se, por exemplo, os Estados Unidos. E menciono os Estados Unidos pelos escândalos frequentes, como a indicação pelo governador de Illinois, Rod Blagojevich, do substituto de Barack Obama na cadeira de senador. Rod Blagojevich chegou a ser preso em 09/12/2011 sob acusações de corrupção incluindo a tentativa de venda da vaga de Barack Obama no Senado.
Comento sobre isso junto ao post "Os crimes corporativos globais" de quinta-feira, 26/05/2011 às 19:02 no blog de Luis Nassif e feito a partir de indicação do comentárista Antonio Ateu do artigo de Jeffrey Sachs que saiu no Aljazeera e intitulado "A onda de crimes corporativos na economia global".
E concordando sobre sua análise do mundo árabe remeto aos meus comentários enviados para o post "Passagem para o futuro" de sexta-feira,25/02/2011 aqui no seu blog. Nos comentários eu digo bastante sobre as razões para a revolta no mundo árabe. Aliás tanto eu disse que os comentários até saíram duplicados.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 20/07/2011

quarta-feira, 20 de julho de 2011 13:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Livros serão publicados e teses elaboradas para avaliar a onda de revolta no mundo árabe (Talvez só se possa dizer que as teses não contarão com o financiamento de Muammar al-Gaddafi). Como sempre para cada tese bem fundamentada haverá a tese contrária com fundamentação de igual valor.
Nos 4.096 caracteres de um comentário ou em mais outros que eu poderia enviar, eu apresentaria opinião não muito diferente da sua. Primeiro eu daria ênfase à economia.
Em comentário anterior eu mencionei o post "Passagem para o futuro" de 25/02/2011 pelos muitos comentários que eu levei para lá analisando entre outros assuntos a questão da revolta no mundo árabe. E eles também são úteis pela remissão que fazem a posts aqui no seu blog ou em outros blogs. Faço aqui também a remissão aos posts lá mencionados e a outros que ajudam na avaliação da importância da economia na revolta árabe.
O primeiro post é "Carville em xeque" de sábado, 17/04/2010 aqui no seu blog. No post você questiona a validade do slogan - "é a economia, estúpido" - de James Carville usado na candidatura de William Jefferson Clinton, tendo em vista o relativo sucesso da candidatura de José Serra diante de Dilma Rousseff. Para mim, James Carville não estava em cheque, apenas a economia não era tudo.
Pouco depois saiu no blog de Na Prática a Teoria é Outra o post "A Eleição e a Economia" de 08/06/2010. A idéia era que Dilma Rousseff iria ganhar com base na economia. Para lá, eu enviei comentários dizendo que em meu entendimento a economia não era tudo.
Três meses depois junto ao post "Jânio de Freitas, clássico" de 23/09/2010 também no blog de Na Prática a Teoria é Outra eu discuti muito a validade da tese levantada no artigo “Democracia e Cultura: Uma visão não culturalista” de Adam Przeworski, José Antonio Cheibub e Fernando Limongi em que há a afirmação:
“Acima de 6.000 dólares, as democracias podiam esperar durar para sempre”.
Para os autores, países democráticos com renda per capita superior a 6.000 dólares não corriam o risco golpes de Estados capazes de acabar com a democracia. Achei a tese bastante não culturalista e o valor de 6.000 dólares pouco significativo, pois pelo cálculo poder-se-ia dizer que poucos países preenchiam o critério de renda per capita superior a 6.000 dólares no período em que o levantamento fora feito.
Dois outros posts em que eu trato da questão econômica nas revoltas populares são: “Um problema de lógica” de domingo, 20/02/2011, em que eu faço referência à queda de Fernando de La Rua em um país democrático com grave crise social, e "O nó egípcio"" de quinta-feira, 10/02/2011, em que eu lembro que o Egito é um país muito pobre.
Bem, um segundo aspecto com elevado efeito no grau de insatisfação popular e que pode levar a uma revolta é a questão inflacionária. A inflação não age sozinha. Ela só produz o acirramento da insatisfação popular, porque parece associar-se à corrupção. O problema é que só a inflação é mensurável e a corrupção sempre é suposta como existente.
O interessante é que o melhor instrumento de combate a inflação é o aumento da carga tributária. E a carga tributária é o melhor medidor da força de um Estado (O Estado mais forte do mundo possui a maior carga tributária do mundo em valor absoluto).
Assim, inflação e corrupção normalmente se encontram em um Estado fraco incapaz de enfrentar a revolta popular. Sobre isso menciono o link na Wikipedia “Carga Tributária” com a carga tributária por país. O endereço é:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carga_tribut%C3%A1ria
Não parecem confiáveis os dados tendo em vista que a Turquia, a carga mais alta, aparece com dois valores (32,5 e 23,7%), mas vale à pena observar como a carga tributária no mundo árabe e no mundo muçulmano é baixa. E isolada no meio do mundo árabe está Israel com a carga tributária de 36,8%.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 20/07/2011

quarta-feira, 20 de julho de 2011 21:57:00 BRT  

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