domingo, 3 de julho de 2011

Contra todos os prognósticos (04/07)

Itamar teve uma longa trajetória, que encerrou onde começou na prática, no Senado. Onde enquanto teve forças procurou
fazer oposição com altivez e dignidade


O julgamento que a História fará do presidente Itamar Franco talvez vá ser um belo exemplo de como o olhar jornalístico a quente precisa ser, pelo menos, relativizado.

Itamar chegou ao Planalto num acidente, vice de um presidente vítima de impeachment. Antes, correra enorme risco político ao aceitar ser o número dois de um candidato de partido pequeno, Fernando Collor, cuja eleição viria a ser surpresa.

A vida política de Itamar foi feita de riscos políticos assim. Era prefeito de Juiz de Fora no começo dos anos 70, pelo oposicionista MDB (Movimento Democrático Brasileiro), quando a hegemonia da governista Arena (Aliança Renovadora Nacional) parecia inexpugnável.

Ao ponto de o então chefe político do MDB de Minas, Tancredo Neves, recusar o risco de concorrer ao Senado, preferindo uma cadeira certa na Câmara dos Deputados.

A História regista que, contra todos os prognósticos, o MDB deu uma lavada nas eleições para o Senado em todo o país em 1974. Em Minas inclusive, e Itamar ganhou a porta de entrada na grande política nacional, exatamente na decolagem da luta pela redemocratização.

Essa expressão, “contra todos os prognósticos”, cai bem na longa carreira política de Itamar. No fim dos anos 80 o MDB se dividiu e a eleição do senador para o governo de Minas ficou improvável.

Até que o voto vinculado (o eleitor estaria obrigado a votar para todos os cargos em candidatos do mesmo partido) imposto pelo então presidente João Figueiredo induziu a oposição ex-emedebista a se reaglutinar no novo PMDB.

Aí Tancredo chegou finalmente ao Palácio da Liberdade, com Itamar na chapa reeleito ao Senado. Em seguida, talvez ele próprio escaldado pelo excesso de prudência do passado, Tancredo decidiu correr o risco de deixar prematuramente o governo de Minas para concorrer à Presidência no Colégio Eleitoral.

O cavalo já tinha passado arriado uma vez, e não era o caso de deixar passar uma segunda sem montar. E deu certo, antes de a doença impedir Tancredo de assumir a cadeira.

Na eleição indireta de Tancredo pelo colégio eleitoral Itamar refugiou-se no movimento Só Diretas. Era uma luta perdida, e aí pareceu ter chegado a hora do declínio. Depois Itamar acabou saindo do PMDB, apenas para perder a eleição ao Palácio da Liberdade.

Declínio que se desenhou mais forte quando aceitou a vice de Collor.

Mas, de novo contra todos os prognósticos, Collor caiu e Itamar assumiu. A boa vontade com ele durou pouco, pois as forças políticas que tinham se unido para o impeachment desuniram-se em seguida, cada uma em busca de seu projeto presidencial para 1994.

Foi um momento complicado, em que Itamar tentou assumir o comando de fato do governo, sem sucesso. E apanhou do jornalismo como gente grande.

A coisa só estabilizou quando Fernando Henrique Cardoso se apossou do Ministério da Fazenda e sinalizou um projeto alternativo à favorita candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Aí o governo Itamar adquiriu massa crítica na elite e se equilibrou. Já era na prática o projeto de eleger FHC, projeto que se organizou em torno do Plano Real. A História registra que funcionou.

Com o tempo, os méritos do Plano Real acabaram concentrados em FHC, uma construção quase ideológica. Uma obra a quatro mãos, dos apoiadores do tucano mas também dos críticos.

Ficaram fora tanto os elaboradores -economistas que vinham de insucessos (ou sucessos apenas parciais) anteriores- como também quem em última instância ofereceu o arcabouço político.

Itamar estava fraco politicamente, mas poderia ter optado por outro caminho. Afinal era o presidente. Tinha a caneta.

FHC elegeu-se, e aí cuidou em primeiro lugar da própria reeleição. Uma operação cruenta e Itamar acabou marginalizado na disputa federal, o que permitiu voltar a Minas como governador. O cargo que faltava.

Depois, sempre respeitado, frequentou as especulações sobre uma improvável volta ao Planalto. Até eleger-se agora senador.

Uma longa trajetória, que encerrou onde começou na prática, no Senado. Onde enquanto teve forças procurou fazer oposição com altivez e dignidade.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (04) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Nunca gostei de Itamar Franco, embora em todas disputas estaduais eu tenha votado nele, mesmo que tenha arrependido depois como em 1986, pois eu votei nele contra Newton Cardoso porque via em Newton Cardoso um defensor do Plano Cruzado e não percebera ou relevara o quanto Itamar Franco estava ligado às políticos do golpe de 64, além de ele também fazer campanha pelo Plano Cruzado.
Digo isso porque achei a sua coluna um tanto superficial no tratamento que a imprensa deu a Itamar Franco. A imprensa que eu menciono é a imprensa empresa e não a imprensa jornalística que para você tem um olhar a ser relativizado, observação que eu achei bem apropriada.
Você diz que Itamar Franco correra risco político ao ser vice de Fernando Collor. Se não soubéssemos que Fernando Collor de Mello fora vencedor em 1989, talvez fôssemos propensos a pensar que havia risco, mas temos que considerar que Itamar Franco não tinha mais vez no PMDB, então dominado pelo Newton Cardoso, que o vencera em 1986, e o partido pelo qual ele se candidatara - o PL - não tinha futuro político.
O vice na chapa de Fernando Collor de Mello não era um ponto tão alto como seria um vice na chapa de Leonel Brizola que Itamar Franco provavelmente tenha recusado, mas não tenho informação que possa esclarecer esse imbróglio. De todo modo, dado o favoritismo de Hélio Garcia para as eleições a governador de 1990, o cargo de vice presidente na chapa de Fernando Collor de Mello era ponto mais alto do que o que a política reservava para Itamar Franco nos quatro anos que se seguiriam.
Para conseguir uma posição de destaque em Minas Gerais, Itamar Franco teve que se aliar a Newton Cardoso em 1998.
Para mim, Itamar Franco é mal avaliando desde o início. Há uma forma de se o ver como um caipira, esquecendo que antes de ser político era engenheiro e tinha formação em Administração Pública (Pós) na FGV. Normalmente naquilo que os jornalistas não tinham intimidade: planejamento e finanças públicas ele tinha conhecimento teórico e prático (fora prefeito de Juiz de Fora ainda novo).
Creio que acabaram truncados os dois parágrafos em que você trata da eleição de 1982. O certo seria no primeiro dos dois parágrafos, você fazer referência ao início dos anos 80 e não ao fim.
E a minha crítica ao seu tratamento, que eu considerei superficial, à imprensa empresa na relação com Itamar Franco foi pela seguinte passagem:
"Mas, de novo contra todos os prognósticos, Collor caiu e Itamar assumiu. A boa vontade com ele durou pouco, pois as forças políticas que tinham se unido para o impeachment desuniram-se em seguida, cada uma em busca de seu projeto presidencial para 1994".
Na passagem acima você não dá o devido destaque aos ataques que Itamar Franco recebeu da grande imprensa até que ele nomeou Fernando Henrique Cardoso para ministro da Fazenda.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/07/2011

domingo, 3 de julho de 2011 17:50:00 BRT  

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