sexta-feira, 29 de julho de 2011

Contaminação às avessas (29/07)


Seria bom se o PT contagiasse os demais partidos e estes passassem a praticar um pouco mais de democracia interna. Mas a tendência parece ser o contrário

O PT ensaia abandonar o mecanismo de prévias, quando os filiados escolhem pelo voto direto os candidatos a cargos majoritários, se há disputa interna. Caso consumada, a mutação vai nivelar um pouco mais o PT aos demais partidos.

No que têm de pior.

A democracia interna vem sendo um traço distintivo do PT, em contraste com a concorrência. O partido nasceu como aglomerado de tendências e grupos. Ao longo dos anos as correntes surgiram, desapareceram, mudaram de nome, fundiram-se.

Mas o mecanismo de disputa ficou essencialmente preservado.

A corrente majoritária, comandada por Luiz Inácio Lula da Silva, manteve o controle absoluto da sigla nestas três décadas, com exceção de um pequeno período. Nenhuma oposição interna conseguiu consolidar-se.

Mas quem quis disputar sempre pôde.

Até o momento ninguém propôs no PT acabar com outro mecanismo democrático: as eleições diretas para escolha de dirigentes partidários nos diversos níveis. Talvez seja questão de tempo.

No Brasil, os partidos funcionam assim. O dono da legenda naquele nível decide tudo. O candidato majoritário, a chapa proporcional, como investir o dinheiro. Os partidos brasileiros são ajuntamentos de caciques.

Abastecidos com dinheiro público, sem precisar prestar contas a ninguém.

Entre convergir para organizações de massas ou de quadros, as siglas nacionais descobriram uma terceira via. O Brasil é o paraíso dos partidos de personalidades.

O sujeito consegue poder sobre uma máquina estatal qualquer, usa-a para sustentar e proteger os amigos, e acabou.

Certo pedaço do PT teme a continuidade de prévias, especialmente num centro vital como São Paulo, pois a disputa poderá deixar sequelas.

Em português mais claro, Lula quer impor o ministro Fernando Haddad como candidato a prefeito ali. E enfrenta resistências.

Pois o PT em São Paulo tem líderes consolidados, além de políticos emergentes. A candidatura de Haddad, de uma penada, aposentará os primeiros e fechará a porta aos segundos.

Na vitória ou na derrota, o hoje ministro da Educação fincará uma estaca como a nova proeminência, a nova referência para o grande público. E uma página terá sido virada. O pensamento de Lula envereda pelas mesmas trilhas tateadas por Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin. Todos estão — ou dizem estar — atrás de um nome que possa representar renovação.

Renovação à brasileira. Na base do dedaço caciquista. “O povo quer um político novo”, informam as pesquisas e os marqueteiros. Desde que seja da confiança dos políticos velhos, informam suas excelências.

É a regra do jogo.

Seria ótimo se, neste ponto, os hábitos do PT contaminassem os demais. O PSDB, por exemplo, vive às voltas com a fraqueza resultante da incapacidade de produzir uma disputa interna democrática e com regras claras.

Mas parece que o processo vai ao contrário.

É bom

O mundo está em polvorosa porque a Casa Branca engrossa com o Congresso —e vice-versa— na dívida interna.

É ameaçador. Mas também reconfortante. Congresso com poder real no debate sobre o orçamento é sintoma de democracia.

Aqui a coisa já estaria resolvida numa canetada. Como aliás vem acontecendo, pois o endividamento público vai de vento em popa sem que ninguém dê pelota.

A conta sobrará para todos nós, mas o povo está à margem.

Absoluta

Uma ficção recorrente é a suposta vantagem de preencher cargos de confiança com funcionários de carreira. A cada escândalo, o espanto com as “nomeações políticas” cria o ambiente.

É um debate sem sentido. Esteja no cargo quem estiver, deverá prestar contas a quem o indicou. Isso vale para todos os indicados por razões políticas, sejam de carreira ou não.

Sempre que você vir alguém clamando por “nomeações técnicas”, procure saber a que partido, grupo ou corrente se filia o candidato “técnico” que este alguém apoia para o cargo.

Governo é um lugar em que as pessoas estão por razões políticas. Eis uma verdade absoluta


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (29) no Correio Braziliense.



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2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Existe uma diferença importante: caso seja flagrado desviando recursos públicos, o servidor perde, não só a chefia (DAS), como também seu cargo de servidor e aposentadoria.
O nomeado "não servidor" tem menos a perder, pois sua passagem pelo órgão é mais provisória.

João Luis Gondim.

sexta-feira, 29 de julho de 2011 11:18:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Para quem acreditava ser o PT um partido diferente, apresenta-se o partido de caciques. Ou melhor, cada vez mais, de cacique. Cada um tinha sua "sub-legenda". Agora, todos reconhecem que têm e sempre tiveram o indicador, assim mesmo, sem aspas: o que manda e indica. As prévias, ao menos, ajudavam a resolver a difícil convivência entre as várias tendências e caciques. O indicador, nas últimas eleições presidenciais, escancarou o processo de potentado. O processo tende a ser expandido, com a indicação para a disputa em São Paulo. Premiação não seria para casos de sucesso na área da Educação? O indicador, porém, parece querer deixar claro, que pode fazer, sempre, cada vez pior escolha do que fez nas eleições presidenciais. Pode almejar superar-se, por suposto. Os resultados estão evidentes: ruins. Ainda há tempo do indicador desistir do despropósito. Ou de encarar uma grande derrota, depois, de tentar assustar a todos com terra arrasada. Por óbvio, Garanhuns não merecia tal homenagem. E por óbvio, São Paulo não é uma capitania, donataria ou feudo.

sexta-feira, 29 de julho de 2011 13:58:00 BRT  

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