terça-feira, 5 de julho de 2011

Capitalismo popular (05/07)

Se o governo tem mostrado muito empenho para ajudar os grandes, está faltando alguém que explique como popularizar o capitalismo brasileiro. Como fazer o trabalhador ser sócio não apenas na hora de repartir os riscos, mas também na de saborear os lucros

Um dia, ainda no governo passado, o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, causou furor ao propor certo raciocínio, até que simples. Um ovo de colombo.

Para criticar o perfil do crédito no Brasil, Meirelles disse o seguinte. Uma parte do estoque nacional é emprestado a juros reais baixíssimos (quando não negativos) pelos organismos estatais. Então o restante acaba alocado a juros maiores além da conta.

A velha lei da oferta e procura em plena ação.

Na teoria tem lógica. O problema? Meirelles tinha razão na crítica. Falar aqui em "média" é tão razoável quanto seria, por exemplo, discorrer a respeito da temperatura de um sujeito com os pés no freezer e a cabeça no forno a lenha.

Aliás, essa comparação era muito usada no tempo em que se criticavam os governos por não combater devidamente a má distribuição de renda. Se a renda per capita é boa, é preciso olhar também quanto cada capita tem de renda.

Não sei se o pensamento do ex-presidente do BC faz tecnicamente sentido, deixo o juízo para os especialistas. Mas ele parece fazer sentido no popular. Politicamente tem impacto.

Teve na ápoca, e Meirelles precisou explicar rapidinho que não estava propondo o fim do juro amigo para alguns. Esse alicerce da nossa república.

Mas, e você, leitor, ou leitora? Você não pode pegar dinheiro no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para cobrir o cheque especial. Ou para pagar antecipadamente, com desconto, o crédito consignado que precisou tomar no aperto.

Então, pelo raciocínio de Meirelles, você acaba assumindo uma parte do preço de mercado do empréstimo conseguido pelo feliz parceiro do BNDES.

Você racha com ele os ônus. Mas não os bônus. O empréstimo retorna ao BNDES do jeito que foi. Se ganhar da inflação está bom. A valorização do patrimônio do tomador do empréstimo fica integralmente com o próprio.

Aí você vai dizer “legal, mas os recursos do BNDES são para investimento, para gerar negócios, empregos, não podem ser comparados com empréstimos para operações destinadas ao consumo”.

Verdade. Mas também é verdade que as arcas do BNDES são abastecidas é com dinheiro do trabalhador.

É um debate complexo. Todo assalariado já passou pela exasperante situação de quebrar a cabeça atrás de um jeito de pagar as dívidas, enquanto o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço repousa inacessível, recolhendo a magrinha remuneração de praxe.

O que isso tem a ver com uma coluna de política? Bem, o que os políticos mais fazem é bater na tecla da necessidade de deixar feliz a nova classe média.

Segundo onze em cada dez opiniões abalizadas, é ela quem vai decidir as eleições doravante.

Boa parte dessa turma entrou na classe média pela porta do registro em carteira, da formalização do emprego. Tem grande interesse objetivo em debater como melhorar o retorno que o FGTS traz ao assalariado.

Mas o noticiário transborda é de notícias sobre como o governo se movimenta para acelerar a concentração de capital em vários ramos de atividade.

O governo diz que faz isso para tornar o capitalismo brasileiro mais competitivo globalmente. Que precisamos de multinacionais brasileiras para competir de igual para igual com os grandes em escala planetária.

Daí que o Planalto se comporte tal qual maestro da nova sinfonia estatal-capitalista, na qual o distinto público é convidado a pagar o bilhete de entrada. Que, infelizmente porém, não dá direito a apreciar a música.

Se o governo tem mostrado muito empenho para ajudar os grandes, está faltando alguém que explique como popularizar o capitalismo brasileiro. Como fazer o trabalhador ser sócio não apenas na hora de repartir os sacrifícios, mas também na de saborear os lucros.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (05) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Blogger He will be Bach disse...

É a tal da teoria dos Campeões Nacionais. Uma forma bonitinha de justificar oligopolizações.

terça-feira, 5 de julho de 2011 13:35:00 BRT  
Anonymous Ayr Tavares disse...

Aceito o desafio. Tenho projeto de capitalismo popular e democrático. Posso mandar-lhe? Para que endereço?

terça-feira, 5 de julho de 2011 13:57:00 BRT  
Anonymous Pablo Vilarnovo disse...

Sinto muito mas "sinfonia estatal-capitalista" = facismo.

Não estou querendo dizer que o PT é um partido totalitário, mas sim que a relação entre o alto empresariado e o governo está ficando igual às relações que o governo facista da itália possuia com os empresários daquele pais.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 11:25:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Na realidade, o BNDES não teria nada que entrar nesse negócio. Isso é pacífico. E os recursos do BNDES são públicos, como o são os do BNDESpar. Tudo o mais é conversa de cerca Lourenço. Como esse ufanismo de "mercadorias brasileiras no mundo". Oras, quer dizer que o oligopsônio Pão de Açúcar/Carrefour, vai comprar produtos brasileiros aos montes, para colocar em suas gôndolas mundo afora? Todo mundo sabe que na realidade, as compras globais, ocorrem globalmente, ou seja, busca-se onde está mais favorável em termos de logística, qualidade e preço. E isso não quer dizer que o Brasil esteja melhor que outros produtores emergentes afora em tais quesitos. Isso é outra lorota triunfalista. Se isso fosse verdadeiro, porque, até agora, o Casino, o Carrefour, o Wal Mart, não encheram suas gôndolas de jabuticabas, em suas lojas mundo afora?

quarta-feira, 6 de julho de 2011 15:34:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Esse "capitalismo popular", não teria nada de popular. Mas, teria ao menos, um pouco mais de valorização do dinheiro que o trabalhador deixa nas arcas. Por exemplo: 1) o FGTS deveria ser movimentado como capitalização pelo seu possuidor, que é o trabalhador. Colocado para render, capitalizado, uma verdadeira aplicação financeira, marcada a mercado para remunerar o aplicado compulsoriamente hoje; 2) a aposentadoria, passar do sistema de repartição, para um sistema de capitalização, também marcação a mercado, para remuneração e não para fazer de conta. Ou seja, não existe capitalismo popular. Existem consumidores sem recursos e produtos caros. Para comprá-los, o consumidor tem de endividar-se a taxas derivadas da Selic, 12,5% ao ano. Enquanto seus recursos, contribuições ao INSS e ao FGTS, são remunerados muito aquém disso.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 15:43:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, adoro esses textos em que você se arrisca mais. Minha resposta sobre o “enigma” de Meirelles que você lançou é que, se o objetivo é o controle da inflação pela política monetária, ou seja, pela taxa de juros fixada no Banco Central – e se é dado como certo que os juros afetam a inflação –, ninguém discordaria de que essa política seria tão mais potente quanto maior a participação do crédito afetado pela taxa do Banco Central, no total do crédito contratado na economia. A taxa de juros para estabilizar certo patamar de inflação seria menor, quanto menor a participação do BNDES (e afins). Então a questão em aberto é outra: a inflação deve ser a prioridade do governo? Os defensores do BNDES podem dizer que não: com mais recursos alocados pelo BNDES e menos pelo setor privado, crescemos mais rápido (e/ou distribuímos mais a renda). Mas aqui estamos em plena discussão entre “liberais” e “socialistas” (para simplificar), velho como o século 19, para o ocidente, mas será mesmo que reproduzimos a discussão que acompanhou a história do ocidente nos últimos duzentos anos? Creio que apenas macaqueamos: enquanto nas democracias originais o sistema nasceu de pressão da sociedade para que o Estado passasse do puro e simples parasitismo para se responsabilizar por determinados serviços para a sociedade como um todo (especialmente segurança e justiça), por estas bandas o Estado sempre visou o próprio umbigo, sempre se voltou para as classes altas e médias que de uma forma ou outra o constituíam, e ignorou a maior parte da população. Ou seja, o debate civilizado parte do princípio de que o Estado, ainda que ineficiente, desincumbe-se de certos serviços que lhe são próprios, e para a sociedade como um todo (e nem estou falando em saúde e segurança), enquanto aqui o pressuposto está ausente, mas o debate quer replicar o que ocorre em outros ares. Daí uma dualidade que perpassa toda sociedade, como você coloca muito bem, a que conta com privilégios como o dos “BNDES” e afins, e os que precisam se virar por conta própria. A corte ou as zelites e a plebe.

quarta-feira, 6 de julho de 2011 18:15:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, meu comentário anterior apegou-se ao secundário. Você quer popularizar o “cumpadrismo”, o aceso ao almoço grátis, e não o capitalismo. Você sonha com a universalização do privilégio, um velho sonho de Brasília. Já conseguimos o impossível por aqui: nos pseudo “balões” que estão na entrada de quase todas as superquadras do Plano Piloto de Brasília, todos têm o privilégio de parar quem vem na preferencial, se vai contornar à esquerda (infelizmente, essa é para quem conhece o transito de Brasília). Também o bolsa família foi a forma de universalizar o almoço grátis (ainda que ninguém receba dois bi de Euros na conta, afinal temos de guardar as proporções, não é mesmo? Mas não deixa de ser integração no cumpadrismo.) O capitalismo popular, porém, já existe, meio na clandestinidade, e já foi chamado também de economia informal: a “Feirinha do Paraguay” aqui em Brasília, que você certamente conhece, é um bom exemplo. Muitos lá são mais sérios que lojas de shopping de elite e também oferecem produtos que não se encontram nessas lojas. A concorrência está ali encostada, mas muitos prosperaram e viraram classe média ali. Capitalismo de fato, mercado, não “cumpadrismo”.

quinta-feira, 7 de julho de 2011 16:26:00 BRT  

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