quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sei lá se eu quero (22/06)

O projetar da falta de ambição impede que Dilma vire precocemente um alvo político. No cenário como posto hoje, nenhum dos postulantes à cadeira tem interesse real em atacá-la, enfraquecê-la

A presidente Dilma Rousseff tem revelado supreendente habilidade política. Sim, foi isso mesmo que escrevi. O senso comum repisa que falta à chefe do governo jogo de cintura. E é verdade.

Ela também consegue encrencar-se simultaneamente com os dois maiores partidos da coalizão, coisa pouco prudente. E a base parlamentar vive turbulências imprevistas.

Onde estaria então a evidência da habilidade, talvez involuntária? Num detalhe estratégico, que neutraliza todos os demais. O Planalto dá vazão sistemática à dúvida sobre se Dilma quer ou não um segundo mandato. E talvez ela esteja mesmo em dúvida.

Aliás, a versão mais difundida vem com viés de não, de que a presidente deseja cumprir bem os quatro anos e ponto final. Afinal, o cargo nem estava no horizonte antes de a então chefe da Casa Civil receber a unção do superpadrinho.

Esse projetar da falta de ambição impede que Dilma se transforme precocemente em alvo político. No cenário como posto hoje, nenhum dos postulantes à cadeira tem interesse real em atacá-la, enfraquecê-la.

Um bom exemplo foi a crise que engoliu e digeriu o principal ministro. A presidente passou olimpicamente ao largo, bem longe do alcance das balas que cortavam o ar no tiroteio.

Houve aqui e ali a possibilidade de a confusão bater em sua excelência, mas ninguém dos que contam deu curso. Não havia interesse.

A política é algo complicada, mas as leis que a regem são belas na simplicidade. Mais que as análises e projeções, importam as percepções.

A preocupação primeira e última dos políticos é com o poder. Procuram fazer crer ao público que se ocupam principalmente com o que farão nele. Mas ninguém deve levar a sério.

As forças políticas são sistemas planetários que orbitam em torno dos sóis, os candidatos a candidato. Eles são a referência última. Nenhum exército se move à toa.

Nesta linha de “não sei se é bem isso que eu quero” Dilma por enquanto vem enquadrando o foco potenciamente mais problemático, o antecessor. Ela não está obrigada a fazer sempre o que ele deseja, mas ele não tem por que confrontá-la.

Na oposição é a mesma coisa.

Nem falo aqui da atração de Fernando Henrique Cardoso para a turma do aplauso, migração que resulta também de um vetor psicológico. Na política que conta, a disputa do poder real, não há por enquanto motivo para os opositores abrirem fogo contra quem, afinal, pode nem disputar a reeleição.

Um gato empenhado em caçar dois ratos estará seriamente arriscado a não capturar nenhum deles. Na dúvida atual sobre quem será o candidato em 2014, ganham os dois, Dilma e o padrinho.

Festa

Na Copa do Mundo, São Paulo está pronta para abrir os cofres.

A injeção ensaiada vem na forma de incentivos fiscais, o que dá na mesma. Em vez de o governo colocar recursos, abre mão de impostos.

A festa vai começar.

Virtual

O Rio vem de promover mais uma ocupação pacífica no perímetro de comunidades que cercam o Maracanã.

Pelo menos neste particular a preparação da Copa do Mundo vai bem.

O Rio consolida uma estratégia revolucionária no combate ao crime organizado, ao tráfico de drogas e de armas.

Avisa aos traficantes que vai ocupar a área, dá tempo para eles se retirarem, e todo mundo ganha.

A oferta da droga parece que vai bem, obrigado. Até porque a demanda continua lá.

Combater o crime sem combater os criminosos. Mais uma jabuticaba genuinamente nacional.

Ilusionismo

A iminente entrada em pauta da regulamentação da emenda constitucional 29, a que reserva recursos orçamentários para a saúde, traz uma dor de cabeça para as autoridades do setor.

Votada a regulamentação, o Congresso Nacional terá transmitido à sociedade a impressão de estarem solucionados os problemas de financiamento da área. Só que não estarão.

E a conta política vai sobrar para os executores. Que precisarão explicar por que diacho não conseguem desatar os nós depois garantidos os recursos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (22) no Correio Braziliense.



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3 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

1) Reeleição. Dá até para cravar, com poucas chances de errar, que a atual presidente não abrirá mão da reeleição. O ex-presidente deve já ir preparando a saída de cena. Exceto se desejar peitar, dividir o partido e perder a refrega. Além do que suas aparições tem sido melancólicas e irresolutas.
2) Copa. São Paulo não deveria isentar de impostos obras privadas para a Copa. É um absurdo incomensurável e pior ainda, valida um processo inoperante que, se fosse o caso, deveria ter começado há mais de três anos. Se a iniciativa privada não se interessa, para que realizar a Copa aqui no Brasil?
3) Saúde. Não conseguiram o retorno da CPMF, mas, pode ser que não desistam. Com tanta incompetência, podem acabar abrindo espaços para alguma barganha. Criar imposto é um esporte interessante.
4) Combate ao crime. Impressionante. O Rio de Janeiro mostrou que era a coisa mais simples do mundo combater o crime. Basta avisar aos meliantes que saiam. E os meliantes saem. Puxa!!!

quarta-feira, 22 de junho de 2011 11:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quem não se dobrou no pau-de arara,iria submeter-se ao previsivel jogo & pressões de uma oposição oligofrênica e um PT cronicamente em ebulição pela natureza litigiosa de suas correntes? Baixar a cabeça , tocar a obra, concluir o serviço,substituir quem atrapalha e emitir sinais ambíguos às parcas em emboscada é talento de executivo político.

quarta-feira, 22 de junho de 2011 17:54:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Não foram os cidadãos que colocaram ninguém no pau-de-arara. Merecem tudo de melhor e não de pior. Não há justificativas para um mau governo. E não dá para ficar ouvindo essa choradeira de sofredor por só querer fazer o bem a quem não está fazendo nada. Não cola mais. E se colar, descola, rápido. Quem bateu à toa, se é que bater tem motivos, além de covardia, que de dane. Os cidadãos merecem sempre o melhor. Quem não souber fazer o melhor, que caia fora. Ponto.

quinta-feira, 23 de junho de 2011 15:01:00 BRT  

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