domingo, 19 de junho de 2011

Protagonismo de retaguarda (19/06)

Se não queremos dar opinião sobre nada, se nunca achamos necessário tomar posição sobre assuntos alheios e se não queremos nos meter na vida de ninguém, para que mesmo o tal lugar fixo no politburo planetário de Nova York?

A diplomacia brasileira destes dias tem chance de entrar para a história como arquiteta de um conceito inteiramente novo, o protagonismo de retaguarda. Todo dignitário de algum peso que por aqui passa se obriga a percorrer a pauta das nossas — justas — pretensões a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Então, na teoria, deveríamos ser mesmo um país com algo de importante a dizer sobre os mais delicados temas planetários. Não fosse assim, para que a tal cadeira?

Pausa. Corta em direção à também novíssima política externa ancorada na exigência de respeito absoluto aos direitos humanos, doutrina anunciada por Dilma Rousseff ainda antes da posse e definida como “inegociável”.

Como explicar, à luz dessa ideia fundadora, o silêncio também absoluto do Brasil diante do massacre sistemático que o governo da Síria perpetra contra a oposição?

No Conselho de Segurança, onde ocupa um lugar rotativo, o Brasil tem trabalhado para evitar qualquer menção crítica a Damasco.

E nas instâncias multilaterais de direitos humanos, então, nem se fala. Até há pouco, o Itamaraty tinha cota master de patrocínio de candidaturas tipo Síria, ou Líbia, para cadeiras nesse nível.

Motivos para criticar Bashar Al-Assad não faltam, como diz a insuspeita Turquia, parceira do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fiasco de Teerã.

O PT tem seu acordo de cooperação firmado anos atrás com o governista Partido Baath sírio. Mas, se Dilma não deu pelota para o petismo no recente transplante cardíaco no governo dela, não deve estar guiada, na política sobre Damasco, por um papelucho partidário qualquer.

Nova pausa. Corta de novo. Enquanto não aparecer uma explicação melhor, é justo concluir que, mesmo já decorrido meio ano do início das revoltas democráticas árabes, o tempo não foi suficiente para o Brasil encontrar um caminho seu na abordagem do cenário.

Ao longo dos dois quadriênios de Lula, a diplomacia pátria atuou no palco levantino como se a única premissa invariável fosse a estabilidade política absoluta dos regimes despóticos. Um fracasso e tanto de inteligência.

Para o bom andamento dos negócios, era estratégico contornar as pautas da democracia e dos direitos humanos, e o Itamaraty soube fazer bem, pois sempre havia feito isso mesmo.

Até o dia em que Lula, convencido por Celso Amorim de que a grande hora havia chegado, esboçou a mudança de patamar.

E o Brasil apresentou-se como vetor indispensável para a busca de soluções aos problemas mais intrincados daquele complicadíssimo pedaço do mundo.

Deu errado, e a solução foi recuar ao leito original, onde pelo menos nossos diplomatas já estavam habituados ao esconde-esconde.

Mas o bicho pegou na campanha presidencial, e a bonita amizade entre Lula e Mahmoud Ahmadinejad acabou se revelando um passivo. Pegou mal além da conta.

Conclusão que levou a dupla Dilma/Antônio Patriota a ensaiar um novo caminho, onde os direitos humanos agora seriam apresentados como inegociáveis.

Caminho que entretanto não resistiu aos fatos da vida. Quando o vulcão finalmente entrou em erupção, o Brasil ficou mesmo é sem política nenhuma para o mundo árabe e islâmico.

O alinhamento incondicional aos líderes em desgraça não serve mais. Ou pelo menos não é mais publicamente defensável. E o apoio à democratização pode indispor-nos com os ditadores que eventualmente consigam sobreviver.

Nem mesmo temos — ou parecemos ter — informação para adotar a linha do cada caso é um caso, como faz espertamente a superpotência.

Assim como nos episódios de Honduras e do Irã, a diplomacia brasileira não tem conseguido evitar que nossos tomadores de decisão precisem voar no escuro e sem instrumentos.

Resta-nos o silêncio obsequioso, essa viga mestra do protagonismo de retaguarda. Que sempre pode ser vendido como “respeito à autodeterminação dos povos”.

E que de vez em quando nos empurra a situações deploráveis, como o desprezo que o governo Dilma dedicou à Nobel da Paz iraniana Shirin Ebadi, que nem sendo mulher — e lutadora pelos direitos da mulher — conseguiu sensibilizar este governo tão feminino.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (19) no Correio Braziliense.



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5 Comentários:

Blogger Manoel Andrade disse...

Excelente texto. O Brasil perde ao insistir na tal cadeira do Conselho de Segurança. Sermos liderança no Terceiro Mundo não nos desmerece em nada. E se quiserem nos convidar para a festa, tudo bem; chato é ficar pedindo para entrar.

domingo, 19 de junho de 2011 12:03:00 BRT  
Anonymous Marc disse...

Não é ofensa não! Será que o blogueiro, que tão bem maneja frases, pensamentos, assertivas, poderia sugerir à presidenta e ao Itamarati a política correta a ser seguida neste mundo de tantos interesses díspares? Experiência não lhe falta! Li o curriculum. Não vale dizer que não tem nada com isso, que não trabalha para o governo, que não ganha...
É só para a gente saber, tá?

segunda-feira, 20 de junho de 2011 01:19:00 BRT  
OpenID tuliovillaca disse...

A mim, que não sou diplomata, me soa muito melhor a atuação diplomática brasileira com o Lula, por pouco diplomática que tenha sido muitas vezes, dando errado em termos de resultado para o Brasil algumas. Ao menos ficou a impressão de que se assumia posição, como em Honduras, e se tentava soluções, como no Irã. A atitude atual (ou melhor, a falta de atitude) realmente parece ser simplesmente covardia ou mesquinharia. Se e para isso, concordo: não faz sentido nenhum querer integrar o Conselho.

segunda-feira, 20 de junho de 2011 12:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Uma sugestão ao comentarista que pede ideia de como deveria ser a política externa: simplesmente deixar de ser anódina. Simples assim. Mas, sentido em apregoar, aos quatro ventos, que o Brasil precisa estar no CS da ONU, como membro permanente, até tem sim. O sentido do pavoneio. Ou seja, votar contra os EUA, sempre. Ficar, depois, de camarote, vendo a diplomacia deles engalfinhada no mundo todo. E fazendo discursos dúbios sobre a AIEA, direitos humanos etc. E não recebendo agraciados com o Nobel, notadamente se de certos países onde opositores são apedrejados ou ficam pendurados pelo pescoço em guindastes, na rua. Assim, até eu, como diria um gozador lá do meio do mato, acocorado, preparando-se para sorver um bom gole de boa cachaça e apertando para acender um cigarro de boa palha e ótimo fumo de rolo. O resto é só firula, numa política externa anódina. Passou a hora de parar de ufanar-se pela política externa.
Swamoro Songhay
Swamoro Songhay

terça-feira, 21 de junho de 2011 10:54:00 BRT  
Blogger luiz34_wien disse...

Na minha opiniao, este desejo pelo conselho de seguranca é um erro histórico dos governos de FHC e de Lula, pois todos sabemos que antes disso o grupo dos 5( EUA, Russia, Franca, China e(nao me engano), Inglaterra), reformar a ONU, o CSU nao terá novos membros. Outra coisa a dupla Lula/Amorin tinha opinaio e ambicao, nisto ou para isto; mas esta atual dupla Dilma/Patriota, esquecam,pois como diriam na minha terra, nao fedem e nem cheira. A Tal neutralidade, hoje num mundo cada vês mais globalizado e competitivo, é inútil, e serve apenas para que os EUA saiba que seu quintal nestes tempos está verdinho, manso e harminioso. Dilma/ Patriota nao fede e nem cheira.

quarta-feira, 22 de junho de 2011 05:33:00 BRT  

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