domingo, 26 de junho de 2011

Profecia realizada (26/06)

E não é que aconteceu? De símbolo da luta contra a fome o Brasil vai se transformando em motor da inflação mundial nos preços da comida

Escrevi anos atrás que o projeto de alavancar planetariamente os biocombustíveis fabricados a partir de alimentos transformaria o Brasil de campeão mundial da luta contra a fome em campeão mundial do estímulo à inflação.

A ilusão sobre a convivência pacífica entre a produção de biocombustíveis e de comida durou enquanto esteve no palco o contorcionismo verbal de Luiz Inácio Lula da Silva, um caixeiro viajante de primeira.

Aproveitou sua excelência o pânico com a ameaça do aquecimento global para vender o peixe (no caso, o álcool) e também disputar a vaga de estadista verde número um.

Mas não colou. A lábia não foi suficiente. Depois veio o pré-sal e a fantasia acabou recolhida ao baú.

Ficou entretanto o problema de o que fazer com a turma que tinha comprado o bilhete de ida para o futuro de uma humanidade abastecida com o combustível fabricado a partir da cana brasileira.

E voltaram as velhas histórias de preços mínimos e estoques reguladores, para de novo transferir a dolorosa ao contribuinte. Um remake do Proálcool em pleno século 21.

O que vem acontecendo com os preços agrícolas estava escrito nas estrelas. A conta é simples.

Se a finitude das terras agricultáveis é uma premissa, pois o pensamento hegemônico inisiste em classificar qualquer desmatamento como crime, e se a produção de alimento precisar dividir as terras disponíveis com os biocombustíveis, uma hora haverá constrangimento de oferta.

A não ser que os bilhões de asiáticos, latino-americanos e africanos que começam a comer decentemente sejam atendidos apenas com base no aumento de produtividade. Quem acredita nisso, especialmente num mundo instado a tomar como pecado todo desenvolvimento técnico e científico da agricultura?

Até porque não é razoável imaginar europeus e americanos em dieta forçada por causa dos mais pobres.

Nem o Brasil acredita na ficção que propaga. O candidato brasileiro à agência da ONU responsável pela alimentação defende o avanço firme das plantações sobre a savana/cerrado africana, como também lembrei aqui tempos atrás. Na África pode, e ali rende votos.

Mas nem tudo está perdido para o colonizado. Os Estados Unidos vêm cansados de depender do petróleo árabe e venezuelano. E de subsidiar seu caríssimo etanol de milho.

Há uma porta de saída para quem deseja o Brasil atrelado à demanda americana por biocombustíveis.

Há alguma chance de as boas terras agricultáveis do Brasil serem mobilizadas para produzir o líquido que abastecerá os tanques de combustível dos carrões da superpotência.

Quem está preocupado com isso? Em primeiro lugar os chineses. Eles precisam de comida e relutam em importar inflação apenas para ajudar a manter o padrão irresponsável de consumo energético da América do Norte. No que têm razão.

Os chineses têm exibido nas décadas mais recentes boa capacidade de olhar para seu futuro com olhos próprios, e não subordinados a interesses alheios.

Daí que o Brasil esteja, como a reunião de Paris pôde observar, alinhado neste tema aos esbanjadores do Primeiro Mundo, e oposto aos amigos dos Brics. Que aliás ultimamente não se unem para nada mesmo. Uma amizade apenas teórica.

Capitalismo

O governo está preocupado com a compra de terras por estrangeiros, e as autoridades falam em tratar diferentemente o investimento para produção e para especulação.

Será possível? Talvez a preocupação principal devesse ser outra. Estimular fortemente a produtividade. Por que não repensar, por exemplo, o engessamento das terras usadas para assentamentos da reforma agrária?

Progrediu? Beleza. Não conseguiu? Pense em passar o negócio adiante.

Se apesar de todo o apoio do governo o sujeito não consegue fazer sua parcela render, que seja liberado para vendê-la legalmente.

Ganharia todo mundo. A começar do assentado que sairia com um dinheiro no bolso e a oportunidade de fazer outra coisa, para a qual esteja mais apto.

Ganhariam também, naturalmente, o investidor no agronegócio e o país.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (25) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo


Para obter um link para este texto, clique com o botão direito do mouse no horário de postagem, abaixo

7 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Ao que parece, já existe um mercado de compra e venda de terras dos assentados pelo INCRA. Acontece hoje entre os assentados algo semelhante a o que os mutuários inventaram para sair dos antigos financiamentos de casa própria da CEF: o bom e velho contrato de gaveta parece funcionar a pleno vapor.

E quanto ao etanol, não precisamos nos preocupar. A Petrobras foi convocada pelo governo para suprir a demanda e ajudar a segurar a inflação [a Petrobras está cada vez mais parecida com a PDVSA...]

"Governo vai elevar participação da Petrobras na produção de etanol contra disparada nos preços"

http://oglobo.globo.com/economia/mat/2011/06/21/governo-vai-elevar-participacao-da-petrobras-na-producao-de-etanol-contra-disparada-nos-precos-924734622.asp

sábado, 25 de junho de 2011 23:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Paulo Araujo tem razão no início do comentário dele enviado sábado, 25/06/2011 às 23h06min00s BRT. O governo deve ter o controle dos assentamentos para evitar a possibilidade de contratos de gaveta.
Bem, eu já comentei a respeito da sua avaliação da política agrária brasileira diversas vezes aqui no seu blog. Penso que você está equivocado. Equívoco comum à maioria dos que analisam esse setor seja com interesses específicos seja desinteressadamente. Não sou economista, mas apresento a seguir pontos que a maioria não os considera pelo menos no conjunto. Como o texto fica um tanto longo vou apresentar em dois comentários os oitos itens que considerei relevantes para o entendimento da produção agrícola mundial.
1º Limites no crescimento da produção agrícola.
A produção agrícola mundial tem taxas pequenas e decrescentes de crescimento. Os ganhos de produtividade são também decrescentes embora haja muita pesquisa na produção de defensivos agrícolas e de adubação química associada com a tecnologia genética, pois o básico da produção agrícola, a terra, a água, o clima e os equipamentos já alcançaram o seu ápice há muito tempo. A manifestação dos atuais ganhos de produtividade se restringe praticamente a redução dos trabalhadores necessários para a produção. Há ainda áreas para serem aproveitadas, mas de baixa produtividade e representando um percentual bem pequeno em relação à área total explorada há mais tempo.
2º A decrescente participação do setor agrícola no PIB mundial.
Em decorrência do primeiro item, a participação do setor agropecuário é decrescente. No Brasil esse percentual se aproximará de 5% se, nos próximos vinte anos, o Brasil crescer a uma taxa média de 4,5% ao ano.
3º A necessidade de subsídios.
Para os pequenos produtores, só mediante subsídios essa atividade é atrativa. E o subsídio é possível pela pouca expressão econômica do setor.
4º A existência de perdas
As perdas na agricultura são elevadas. As perdas variam de 20 a 50%. Produtos como a banana, por exemplo, têm (ou tinham há uns vinte anos quando vi um estudo sobre isso) perdas em torno de 50%. E a banana é um produto de alto valor nutritivo. Também há uns vinte anos vi um estudo simulando em computador que mostrava que para a America Latina uma alimentação baseada em queijo e banana supria quase todos os nutrientes necessários ao ser humano e em custo reduzido. É claro que havia interesse também de exploração das boas e férteis terras da América Central para a exportação para os países mais ricos. Interesse tanto dos grandes exportadores como dos países importadores. Em relação às perdas é que talvez se possam dar os maiores ganhos de produtividade do setor. Para isso será necessário que os preços de alimentos sejam elevados o que ocorrerá somente se a oferta de alimentos for pequena ou se houver subsídios.
(Continua no próximo comentário)
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/06/2011

domingo, 26 de junho de 2011 16:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
(Continua)
A seguir os quatro itens restantes do que eu considerei como pontos importantes para um melhor entendimento da questão agrícola, principalmente no que diz respeito aos preços de alimentos.
5º A produção atual é suficiente para atender as necessidades de alimentação humana mundial.
Sem considerar as perdas a produção atual já é suficiente para alimentar a população mundial. Os problemas decorrem mais do processo injusto de distribuição capitalista e da compulsão alimentar que acomete boa parte da humanidade.
6º A tendência ao aumento da área das unidades fazendárias destinadas à produção agrícola.
Com o êxodo rural pelo melhor atrativo que representa os grandes aglomerados humanos, com a participação decrescente do setor no PIB em decorrência do aumento expressivo do setor de serviços e, ainda que um tanto menor, do setor industrial, as fazendas de produção agropecuária tendem a se tornar cada vez maiores. Somente uma produção em larga escala permite dar o retorno comparável com outras atividades. Assim, as pequenas propriedades só podem sobreviver se houver subsídios.
7º A necessidade de zoneamento agrícola
Como é de pouca participação no PIB, e se trata de produção fundamental para a sobrevivência humana, não podendo se sujeitar aos azares do mercado, a tendência é o setor agrícola ficar cada vez menos capitalista e cada vez mais regulado. Por isso o subsídio, por isso os estoques reguladores e daí também o zoneamento agrícola já existente na Europa. Lá um produtor de maçã, ou o dono de vinhedo não pode ao seu bel prazer fazer outro uso da terra que ele ainda é proprietário, salvo alugar para a produção de vinho ou maçã.
É claro que há que se levar em conta também a questão do tamanho das propriedades rurais em países de dimensões continentais. No caso do Brasil talvez se tenha um modelo meio híbrido. De um lado os grandes proprietários desenvolvendo a sua atividade em produção de modo capitalista e do outro os pequenos proprietários exercendo sua atividade quase como funcionários públicos.
8º A submissão do preço dos produtos agrícolas à taxa de juros.
Por muito tempo eu torci para que a produção de álcool combustível pudesse alavancar os preços dos produtos agrícolas. Tinha observado na década de 70, a Europa descarregar o estoque regulador de açúcar de beterraba toda vez que o preço do açúcar subia. Imaginava que com a produção do álcool, a produção do açúcar brasileiro pudesse ser liberada desse jugo europeu. Analisando os preços das commodities na década de 90 e na primeira década do século XX, pude constatar que o preço das commodities agrícolas é meramente decorrente da taxa de juros (prime rate) estabelecida pelo Banco Central americano (FED).
Desconhecer os pontos apresentados e falar que o Brasil estar contribuindo para a inflação mundial na época do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é fazer propaganda contra o congresso.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/06/2011

domingo, 26 de junho de 2011 17:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Agora, Gaziano eleito, a FAO implementará "Fome Zero", em todos os idiomas.Dos famélicos. Sugerir aos americanos, que "bombardeiem" seus desafetos com "corn flakes",as "vítimas",agradecerão... Igualmente a imensa comunidade dos plantadores de milho que já não sabem o que fazer com seus astronômicos estoques.
Terras a estrangeiros? Sem problema.Com a grilagem institucionalizada , até na Barra da Tijuca, no Rio,não há o que temer.Barra do Garça,por exemplo,já deve estar no terceiro andar."Carlos Medeiros",um onipresente personagem em todas as escrituras de latifúndio nacional,detém a bagatela de 12 milhões de hectáres;Cecílio Rego Almeida,falecido empreiteiro ,outros 7 milhões. E, aí, alguém da platéia se candidata?

domingo, 26 de junho de 2011 19:12:00 BRT  
Blogger Sharp Random disse...

Encadear o tema da compra de terra por estrangeiros me motivou a entrar.

Abraço.

domingo, 26 de junho de 2011 20:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Boa tarde Alon,
Tudo o que foi dito acima e mais um detalhe: o "assentado" que vende seu lote, em seguida entra de novo na fila dos que esperam a distribuição de novos lotes, utilizando o nome da mulher, da irmã, da mãe, dos filhos, etc.
Enquanto não chega o novo lote, acampa nos mst's da vida, ganhando cesta-básica e bolsa-voto do governo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011 17:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
No item 4 do meu comentário enviado domingo, 26/06/2011 às 16h51min00s BRT, eu deixei uma observação sem a parte inicial e a conclusão. Faço a correção agora incluindo na frase as duas extremidades. Queria dizer então que ainda que o desenvolvimento do estudo sobre a composição alimentar da banana e do queijo ou a divulgação do estudo tivessem sido decorrentes de interesse também de exploração das boas e férteis terras da América Central para a exportação para os países mais ricos, não se tratava de estudo a ser desconsiderado pela relevância que esses dois produtos podem ter na mesa das camadas mais pobres na America Central.
Aproveito para lembrar alguns posts seus em que eu pude acompanhar a discussão desse tema do programa brasileiro de biocombustível e a questão do preço dos alimentos.
Primeiro menciono o post "Gato por lebre" de quarta-feira, 26/01/2011. Nele você refere-se a uma fragilidade da candidatura brasileira:
"representar o país que em plena inflação mundial de alimentos procura convencer o planeta da conveniência de produzir biocombustíveis".
Discordei de você não em relação a fragilidade da candidatura brasileira, mas da associação que você faz da inflação mundial de alimentos com a produção de biocombustíveis.
Menciono esse post também porque em comentário que eu enviei quarta-feira, 26/01/2011 às 13h28min00s BRST eu enumero uma série de posts em que há o debate sobre a sua crítica à defesa brasileira dos biocombustíveis. Pela pertinência reproduzo a lista a seguir:
1 - "Pobre Roraima. Pobre Brasil - ATUALIZADO" de 11/04/2008
2 - "Dá para criar gado no pré-sal?" de 21/04/2008.
3 - "Fome de comida e de argumentos" de 28/04/2008;
4 - "O mito das derrotas de Marina Silva. E a derrota de Marina Silva - ATUALIZADO" de 14/05/2008
5 - "O tantinho e o tantão" de 16/02/2009;
6 - "À espera de um carinho" de 12/10/2009
7 - "Getúlio vive" de 04/01/2010
8 - "A Alca cambial de Lula" de 09/04/2010
Em segundo lugar acrescento mais uma indicação de um post aqui no seu blog e um tanto mais antigo intitulado "Ética: sozinha ou acompanhada?" de quarta-feira, 21/08/2009. Trata-se de um bom post com vários comentários também de boa qualidade e de visões antagônicas.
E em terceira lugar indico um post recente em que você discorre sobre declaração de José Graziano a respeito da exploração das savanas da África. Trata-se do post "Na África pode" de quarta-feira, 01/06/2011.
Resta a indicação de um post com a evolução do preço do petróleo que guarda relação com o preço do álcool combustíveis e guarda relação com o preço das demais commodities. Para isso indico o post "Administração do varejo" de quinta-feira, 07/04/2011 onde, em comentário que enviei sexta-feira, 08/04/2011 às 00h36min00s BRT, faço indicação de site com a evolução do preço do petróleo. E por último faço referência à prime rate americana deixando indicado o endereço do site do Wall Street Journal onde a taxa pode ser vista desde 1947. O endereço é:
http://www.wsjprimerate.us/wall_street_journal_prime_rate_history.htm
A comparação dos preços das commodities com a prime rate deve levar em conta também a taxa de inflação. No meado da década de 70 a prime rate era elevada, mas era quase negativa quando se tomava como base a inflação americana.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/06/2011

segunda-feira, 27 de junho de 2011 19:17:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home